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Segurança no Mergulho Livre em
Apnéia
O mergulho livre em apnéia é
uma atividade que apresenta um grande e crescente número de praticantes e se
relaciona não somente ao mergulho profissional e ao desportivo, mas também
às atividades de turismo. Apesar de o número de praticantes ser maior que o
do mergulho autônomo amador, o seu aprendizado pouco é procurado formalmente.
O ensino também é pouco ofertado.
Ao observar o elenco de
disciplinas oferecidas por uma escola de mergulho, notamos pouca ênfase no
ensino específico do mergulho livre em apnéia. Alguma coisa é ensinada
durante os cursos de mergulho autônomo, principalmente como uma introdução
para o uso dos equipamentos básicos. Além disso, geralmente o instrutor
avalia as habilidades aquáticas do candidato a mergulhador autônomo através
da análise da prática do mergulho livre na piscina. No entanto, praticamente
nada é ensinado em termos de medidas de segurança no mergulho livre em
apnéia.
Sabemos que há uma cultura de
se comprar o equipamento básico e sair praticando, o que acaba desestimulando
investimentos tanto no ensino, quanto no aprendizado. Isso não é visto
comumente no mergulho autônomo. A falta de um aprendizado oficialmente
reconhecido, somada ao fato de a certificação não ser exigida tanto por
parte das operadoras de turismo, como das de mergulho, tem exposto um número
significativo de praticantes aos seus riscos. Com o aumento do número de
praticantes e a constatação de óbitos relacionados à atividade, surgiu o
interesse em se estudarem as causas dos acidentes e em se adotarem medidas
preventivas com o objetivo de aumentar a segurança do mergulho livre em
apnéia.
Não existem estimativas
relacionadas ao número total de praticantes do mergulho livre em apnéia.
Sabemos que houve uma mudança importante do perfil do tipo de mergulhador
após a primeira metade do século passado. Antes, o mergulho em apnéia era
praticado preponderantemente por profissionais. São exemplos os mergulhadores
coletadores de esponja na Grécia, os de conchas no Japão e na Coréia e os de
pérolas no arquipélago Tuamoto. Atualmente, a produção em escala industrial
de equipamentos de mergulho, como nadadeiras, respiradores e máscaras, tornou
popular essa atividade.
Refletindo sobre nossas
histórias pessoais relacionadas ao aprendizado do mergulho, constataremos que,
na maioria dos casos, começamos a mergulhar através do mergulho livre em
apnéia. Além disso, durante o mergulho autônomo, não abandonamos a
experiência do mergulho livre. Ele é o auxílio disponível em situações de
emergência do mergulho autônomo. O conhecimento e a técnica do nado em
mergulho livre facilitam o acesso aos locais de mergulho e muitas vezes o
retorno desses, ou seja, o adequado aprendizado do mergulho livre facilita não
só a prática, mas também a segurança do mergulho autônomo.
Atualmente existe um número bem
maior de pessoas praticando o mergulho livre em apnéia. Podemos identificar,
pelo menos, três grupos de praticantes, além dos mergulhadores profissionais
citados anteriormente.
Um grupo, longe de dúvidas, com
maior número de praticantes, é o representado pelos turistas que praticam o snorkelling
recreacional. Hoje é grande a oferta de destinos turísticos para se praticar
o mergulho livre como forma de interação com a natureza. Ele é o instrumento
para se observar a flora e fauna subaquática. Num país com uma extensa costa
marítima e grande quantidade de rios, não é de se surpreender que o maior
grupo de mergulhadores livres em apnéia é o de turistas com pouca ou nenhuma
experiência em mergulho.
Um segundo grupo, aparentemente
grande, é o de caçadores submarinos. O Brasil é um país de tradição na
caça submarina. Muitos mergulhadores autônomos tiveram na caça o início da
atividade subaquática.
O terceiro grupo é aquele
representado pelos mergulhadores praticantes de várias modalidades esportivas
de apnéia, um grupo representado por atletas de elite que buscam ultrapassar
marcas anteriores numa prática desportiva mais ousada, sendo considerado, de
certa forma, esporte radical.
Num extremo, temos um grande
grupo de praticantes desinformados sobre os riscos da atividade e alheios às
normas de segurança, no outro, um pequeno grupo, seleto, de profundos
conhecedores da atividade, treinados, que respeitam normas de segurança e que
têm associações profissionais específicas com o objetivo de promover a
segurança do esporte.
O fato de o mergulho livre em
apnéia ser mais acessível, envolvendo menos investimento em equipamentos, e
de ser menos complexo não quer dizer que não tenha riscos de acidentes.
Apesar de ter mais praticantes do que o mergulho autônomo, há menos
certificados de mergulhadores livres. Poucos frequentam cursos de mergulho
livre, havendo uma tendência ao aprendizado por experiência prática. No
entanto, se, novamente, rememorarmos a forma do nosso próprio aprendizado
sobre o mergulho autônomo, concluiremos que a maior parte do conteúdo
ensinado não diz respeito ao que fazer, mas justamente ao que não fazer. Num
curso de certificação de mergulho, aprendemos muito mais regras e atitudes de
segurança com o objetivo de evitar problemas. Certamente os cursos de mergulho
livre deveriam ser divulgados também pelas possibilidades de o mergulhador ser
educado para mergulhar em segurança.
A segurança em mergulho deve
ser mais divulgada, cumprindo o objetivo básico da certificação. Não se
trata de natação equipada. Mergulhando, acrescentamos todo o risco
relacionado à submersão em apnéia forçada e ao barotrauma.
DADOS DISPONÍVEIS SOBRE OS
ACIDENTES RELACIONADOS AO MERGULHO LIVRE EM APNÉIA
Não se tem conhecimento de
dados objetivos e confiáveis que reflitam a realidade dos óbitos relacionados
ao mergulho livre em apnéia no Brasil. Existem fundamentalmente as
experiências norte-americana e australiana divulgadas na literatura médica,
muitas vezes, de difícil acesso. Mesmo assim, os dados disponíveis devem ser
analisados com ressalvas. Em primeiro lugar, há uma tendência a não
registrar os acidentes relacionados ao mergulho e considerá-los, na maioria
dos casos, como simples afogamentos. Isso, no Brasil, também é válido em
relação ao mergulho autônomo, onde também praticamente não há
informação disponível. No entanto, mesmo naqueles países que têm a cultura
de ter uma casuística bem documentada, há uma preocupação maior de
registrar os casos de óbitos relacionados ao mergulho autônomo e não ao
livre. Isso provavelmente ocorre por envolverem doenças incomuns, como, por
exemplo, a doença descompressiva, e por despertarem maior interesse na mídia
do que aqueles relacionados ao mergulho livre. Isso acaba por diminuir o
número de acidentes registrados.
O Dive Alert Network
registrou 92 casos de óbito no mergulho livre em apnéia entre 1997 e 2002. Em
1999, houve o menor registro, de apenas 8 casos, enquanto, em 1998, houve o
maior, de 22 casos. Já Edmond e Walker na Austrália têm registrado 60 casos
de óbito em 10 anos, de 1987 até 1996. Esses mesmos autores também têm
disponível uma outra série de 1972 até 1987, onde já foram registrados 90
casos,o que é útil para a análise histórica das mudanças do perfil das
populações e das causas de morte relacionadas aos acidentes. Parece haver um
consenso entre os pesquisadores que estabeleceram esses registros, de que os
dados são incompletos e subestimam o problema.
A experiência australiana, na
forma em que é relatada, é a mais interessante por apresentar detalhes
importantes sobre esses acidentes. O que os torna muito representativos, é que
a maior parte de vítimas são turistas, especificamente no caso deles, são
turistas estrangeiros que estão visitando a Grande Barreira de Corais.
As três maiores causas de morte
relacionadas ao mergulho livre em apnéia são o afogamento, os eventos
cardíacos e a hipóxia. A maioria daqueles que se afogaram, era inexperiente,
com pouco condicionamento físico e que geralmente estava sem nadadeiras para
auxiliar na propulsão.
As mortes decorrentes de causas
cardíacas envolveram mais homens de meia idade e estavam relacionadas a
fatores aquáticos desencadeantes de disfunção cardíaca. De modo semelhante
ao afogamento, nas mortes decorrentes de problemas cardíacos, o mau
funcionamento do coração surgiu de fatores como o estresse decorrente da
inexperiência em lidar com certas situações dentro da água, o despreparo
físico, a pouca capacidade natatória e também o fato de não estar usando
nadadeiras.
Em relação àqueles que
morreram por hipóxia, podemos observar que os óbitos ocorreram justamente num
grupo mais jovem de mergulhadores, bem preparados fisicamente, muito
experientes, bem equipados, sendo a maioria constituída de caçadores
submarinos. Em relação ao último grupo, deve ser registrado que a hipóxia
foi relacionada à prática de hiperventilação e geralmente ocorreu durante a
subida.
A análise da hiperventilação
merece destaque especial, pois ela é completamente evitável. Edmond e Walker
registram, na sua análise, que é muito difícil responsabilizar, nesses
casos, o mau uso de equipamento ou condições ambientais perigosas. Eles
destacam que esses mergulhadores comumente hiperventilam para aumentar o tempo
de apnéia.
A hiperventilação produz
diminuição dos níveis de gás carbônico no sangue sem aumento
correspondente da capacidade de transportar oxigênio. De forma resumida e
muito simplificada, podemos dizer que o restabelecimento da ventilação
decorre do aumento da concentração de gás carbônico no sangue. Como esse,
no início do mergulho, está muito mais baixo por causa da hiperventilação,
mais tempo levará para que o estímulo ventilatório ocorra, havendo maior
possibilidade de ocorrer uma hipoxemia pelo consumo de oxigênio.
Os mergulhadores que
hiperventilam, têm mais possibilidades de apresentar hipoxemia sem qualquer
alarme. Ela piora com a diminuição da profundidade durante a emersão, ou
seja, a re-expansão dos gases nos pulmões dos mergulhadores durante a subida
reduz a pressão parcial de oxigênio na luz do alvéolo pulmonar, produzindo
uma inversão do fluxo do oxigênio. O oxigênio acaba voltando da circulação
para a luz do alvéolo pulmonar, diminuindo a sua concentração no sangue e
aumentando a possibilidade de perda de consciência por hipóxia.
A análise comparativa entre os
dados australianos de 1982 a 1987 com os de 1988 até 1996, apesar de
diferentes em relação à forma de registro, gerou algumas evidências.
Podemos observar que, em relação ao primeiro estudo, a média de idade das
vítimas aumentou de 30 para 45 anos, a proporção das vítimas do sexo
feminino aumentou de 2% para 25%, os óbitos entre caçadores diminuiu de 73%
para 25 % e a maioria das vítimas eram turistas cujos grupos foram organizados
por operadores de turismo. Apesar disso, a análise geral revela que os dados
das mortes por hipóxia decorrentes de hiperventilação causando afogamento
pouco mudaram (de 18 para 20%). As mortes de causa cardíaca aumentaram de 3
para 30%.
Para concluir, podemos dizer que
o maior grupo de acidentes fatais é o de turistas que tem no seu perfil a
inexperiência, o despreparo físico e uma série de doenças
cardiocirculatórias capazes de potencializar esses acidentes. Esse grupo
também tem menos familiaridade com o ambiente marinho e com os equipamentos de
mergulho. O grupo de acidentes que ocorrem com mergulhadores mais jovens, é
constituído preponderantemente de caçadores e apneístas competitivos que,
apesar de terem melhor preparo físico e não apresentarem doenças, morrem por
hipóxia após hiperventilação que ocorre, geralmente, na subida.
FATORES AMBIENTAIS RELACIONADOS
AOS ACIDENTES NO MERGULHO LIVRE EM APNÉIA
Além do afogamento, dos eventos
cardíacos e da hipóxia, pode haver fatores ambientais envolvidos com os
acidentes fatais do mergulho livre em apnéia. Eles são as correntezas, os
obstáculos à natação resultantes das mudanças do relevo submarino, como
pedras e bancadas de corais e as próprias embarcações. Os acidentes, nesses
casos, decorrem de lesões por traumatismos. Duas causas ambientais que merecem
destaque, são o aprisionamento em tocas e cavernas e o emaranhamento em redes
de pesca. Cabe salientar que hoje as linhas de redes de pesca estão cada vez
mais resistentes, necessitando de materiais de corte mais eficientes, como
tesouras em vez de facas. Além disso, é grande o número de facas utilizadas
para o mergulho que não tem fio de corte.
No grupo de fatores ambientais
podemos incluir aqueles casos fatais que decorrem de infecções,
envenenamentos e traumas produzidos por animais marinhos.
PROBLEMAS RELACIONADOS COM O
EQUIPAMENTO
Com referência a equipamentos,
os problemas maiores são o enredamento, os problemas de uso da máscara e do
tubo de ventilação (snorkel).
As armas de caça submarina e os
flutuadores apresentam cabos que podem emaranhar-se no mergulhador, produzindo
imobilização ou mesmo um emaranhamento incompleto, que pode desencadear
pânico com possibilidade de afogamento. Muitos cabos atualmente sequer podem
ser cortados por facas, como foi referido anteriormente no caso das redes. As
sacolas e fieiras para peixes podem atrair predadores, possibilitando acidentes
resultantes de agressões provocadas por esses animais.
Em relação ao uso de
equipamentos de mergulho, salientamos o alagamento da máscara como causa de
acidente. No alagamento da máscara, com a entrada de água pelo nariz com
irritação da via aérea, pode haver restrição à ventilação e até
pânico com afogamento secundário.
No que diz respeito ao snorkel,
salientamos os problemas de fadiga ventilatória produzida pela ventilação
através do uso de um tubo. Na ventilação com tubo na superfície com a face
voltada para baixo, há uma redução da ventilação voluntária máxima. Em
caso de necessidade de ventilar mais intensamente pelo aumento da demanda
decorrente de um maior esforço físico, há um acréscimo ao trabalho
ventilatório com possibilidade de produzir fadiga física, falta de ar e,
depois, uma intensa insuficiência ventilatória.
Outro problema decorrente do uso
do snorkel é que, de acordo com a posição da cabeça do mergulhador,
pode haver aspiração de água. Salientamos que a aspiração de água salgada
geralmente produz uma sintomatologia específica. Ela provoca fadiga, tosse,
falta de ar e ocasionalmente vômito. A consequência direta disso é uma
insuficiência ventilatória. Muitas vezes, apenas a dificuldade de lidar com
esses sintomas pode provocar uma reação de pânico que pode desencadear um
afogamento.
INVENTÁRIO DAS CONDIÇÕES DE
SAÚDE DO CANDIDATO AO MERGULHO LIVRE EM APNÉIA NO TURISMO
No relato de Edmonds e Walker
sobre as mortes no mergulho livre em apnéia na Austrália, eles observaram
que, entre as vítimas de afogamento do grupo de turistas, havia portadores de
várias doenças como epilepsia, asma, cardiopatias e até aqueles considerados
inaptos por mau preparo físico. Em relação aos últimos, as evidências do
despreparo físico estavam relacionadas à observação, no exame físico, de
sinais de cirurgias maiores ou de outras doenças prévias limitantes. A
respeito dos portadores de doenças cardíacas vale a pena salientar o grande
número de situações de risco como miocardiopatias (doenças próprias do
músculo cardíaco), doenças valvulares, infartos prévios, revascularização
miocárdica e tratamento medicamentoso para arritmias cardíacas e
hipertensão.
No que diz respeito aos
mergulhadores que morreram de hipóxia, esses autores salientam que também
havia relato de apresentarem outras doenças prévias como a epilepsia, a asma,
o uso de drogas ilícitas e a hipertensão arterial sistêmica. Disso tudo
concluímos que há uma desproporção entre a motivação para o mergulho e as
condições de saúde do mergulhador, acarretando uma situação de risco
intenso. Em relação à asma há dúvidas de sua contribuição direta para o
afogamento. Está bem claro que ela pode ser desencadeada por aspiração de
água e que pode dificultar as manobras de ressuscitação cardiopulmonar.
Durante o mergulho livre em
apnéia, o mergulhador está exposto a uma sobrecarga do sistema cardiovascular
desencadeada pela apnéia e a submersão na água em que é submetido a uma
pressão ambiental maior e uma temperatura mais baixa. Por isso é importante
realizar uma avaliação clínica que identifique aqueles portadores de
doenças para não expô-los aos riscos da atividade, inclusive ao risco de
vida. É importante descartar a presença de doenças cardíacas pelo risco de
desencadear insuficiência cardíaca secundária; de doenças pulmonares e de
ouvidos pela possibilidade de ocorrência de barotrauma; de epilepsia e do uso
de drogas pelo risco de perda de consciência com afogamento, não esquecendo
que a hiperventilação pode desencadear crises epilépticas; de diabete
mélito pelo risco de desenvolver hipoglicemia e perda de consciência
secundária; de cirurgias recentes pelos problemas cardíacos e pulmonares que
podem estar relacionados a elas e, finalmente, de doenças psiquiátricas pelos
riscos ao mergulhador e aos outros que essas doenças podem provocar como
decorrência da incapacidade de avaliação objetiva da realidade.
MEDIDAS DE SEGURANÇA
RECOMENDADAS
Medidas de segurança são
indicadas e resultam da análise dos dados epidemiológicos revelados pelas
séries citadas. As orientações gerais incluem: antes das operações de
turismo para mergulho livre, responder a um questionário que indique o nível
de experiência, a capacidade física, incluindo a natação equipada e as
condições médicas em relação às doenças que apresentam; obrigatoriedade
do uso de nadadeiras; em caso de uso de cintos de lastro, esses devem ser de
desengate rápido; mergulho não simultâneo obrigatório no sistema de duplas
de mergulhadores e desencorajar a prática da hiperventilação no mergulho
livre em apnéia.
O mergulhador deve evitar a
hiperventilação sem, no entanto, ficar mal ventilado, isto é, não realizar
mais do que três a quatro ventiladas lentas e profundas antes de segurar o ar
e mergulhar. É muito importante descansar e fazer um intervalo de, pelo menos,
três minutos entre um mergulho e outro. É preconizado o treinamento em
condições controladas antes de se aventurar em realizar mergulhos em águas
abertas.
Quanto ao uso de cinto de
lastro, em termos de flutuabilidade, além de ter sistema de desengate rápido,
recomenda-se que o mergulhador esteja usando quantidade de peso que ainda o
mantenha positivo nos 10 metros. Na maioria dos acidentes fatais, foi observado
que o mergulhador não libera o cinto de lastro.
Outras medidas de segurança
são muito semelhantes às do mergulho autônomo. Deve-se mergulhar em duplas
de modo não simultâneo, sendo que um mergulhador deve ficar na superfície
pronto para dar assistência, se houver problemas enquanto o outro mergulhador
está no fundo. Após definição do local de mergulho, os mergulhadores devem
tomar conhecimento das condições ambientais. Sempre se deve utilizar
instrumento de apoio como bóias com flutuabilidade suficiente para manter um
mergulhador sem lastro na superfície. Finalmente, após planejar o mergulho e
estabelecer as medidas de segurança, é preciso seguir o planejado (planeje
seu mergulho, mergulhe seu plano).
Talvez para aqueles que querem
praticar um mergulho seguro, as medidas mais apropriadas sejam o adequado
ensino do mergulho livre em apnéia e uma avaliação médica especializada.
Devemos proporcionar a formação de uma cultura relacionada à segurança do
mergulho e encarar esse tipo de mergulho como uma atividade que requer
treinamento e uma capacidade física mínima. O entendimento da fisiologia do
mergulho livre proporcionou o conhecimento das possibilidades de acidentes que
somente foram confirmados pela análise dos acidentes fatais. Comprar um
conjunto de equipamentos não habilita ninguém a realizar uma apnéia e se
expor a um aumento da pressão ambiente.
O propósito das viagens de
turismo e observação do ecossistema submarino é ser uma atividade de lazer
que, além de dar prazer aos praticantes, deve ser realizada com segurança,
sendo que a possibilidade de acidentes não deve ser minimizada. Os operadores
de turismo e mesmo os apneístas esportivos envolvidos com o esporte devem ter
conhecimento dos riscos da atividade.
Aqueles que pretendem praticar o
mergulho livre esportivamente, devem pensar numa certificação e realizar o
treinamento apropriado. Devem aprender não somente a fisiologia do mergulho
livre, mas também as normas de segurança na água e as técnicas de
identificação do apagamento e de resgate, bem como reanimação
cardiopulmonar, primeiros socorros e utilização de oxigênio terapêutico.
DIAGNOSTICANDO O APAGAMENTO
Todo mergulhador deve ser
treinado para identificar situações anormais de risco e saber intervir. No
caso do mergulho livre, a dupla deve saber identificar o apagamento a partir da
superfície e resgatar um acidentado. Ainda, é claro, aquele que vai resgatar,
deve estar bem ventilado e pronto para uma entrada rápida até o ponto onde se
encontra o acidentado. Esse é o verdadeiro sentido de se mergulhar em duplas e
não simultaneamente com o companheiro de mergulho livre.
O mergulhador, antes de aspirar
água e se afogar, apresenta reflexos protetores que melhoram a resposta ao
salvamento. Havendo atendimento imediato, ele poderá recobrar a consciência
na superfície. Enquanto que inconsciente e no fundo, o mergulhador acidentado
certamente se afogará.
Suspeita-se de apagamento quando
o mergulhador pára de nadar. Simplesmente pára, sem uma razão aparente, os
movimentos de pernas que vinha fazendo. O olhar pode ficar fixo ou mesmo haver
o fechamento ocular. Muitas vezes, pode apresentar o rolar dos olhos para trás
ou um olhar patético. Além disso, a cabeça pode rolar para frente ou para
trás, dependendo da posição do nado. Podem-se observar abalos, contrações
musculares e até convulsões. Finalmente, o mergulhador se deslocará de modo
completamente imóvel para o fundo, se estiver lastreado negativamente, ou
poderá subir lentamente, se estiver com flutuação positiva.
MANEJO DO APAGAMENTO
Para melhorar o prognóstico do
atendimento oferecido, a rapidez do resgate do mergulhador submerso é muito
importante. A prioridade é levar o acidentado à superfície para que ele
possa receber o tratamento adequado. Para isso, aquele que está realizando o
resgate, deve manter o contato visual com a vítima. O mergulhador de resgate
pode levar o acidentado à superfície, pegando-o, por trás, com uma ou com as
duas mãos, por baixo dos braços, na região das axilas.
Chegando à superfície, se a
vítima não recobrar a consciência e restabelecer a ventilação
espontaneamente, será necessário continuar mantendo contato visual e remover
a máscara. Nesse momento, é importante determinar se a via aérea está
aberta e se há ventilação espontânea. Também se deve cuidar para que não
entre água pelo nariz e boca. Aquele que está realizando o resgate, deve
também retirar sua máscara para que, havendo necessidade, possa oferecer
ventilação forçada àquele que parou de ventilar.
Na superfície, a cabeça do
mergulhador deve ser apoiada numa bóia que deverá servir de berço para a
mesma. Falar com o mergulhador, enquanto se mantém a via aérea desobstruída,
é uma boa conduta, já que o estímulo para a audição pode fazer com que o
mergulhador acidentado recobre a consciência. Recuperando a consciência, o
mergulhador deve ser mantido em observação pela possibilidade de aspiração.
Apesar de as manobras de
reanimação cardíaca não serem eficientes na superfície do mar, deve ser
mantida a ventilação e verificado o pulso de tempo em tempo. Isso é mantido
até colocar o acidentado numa superfície firme para que se possa realizar a
massagem cardíaca externa. A seguir, deve-se aguardar a chegada de uma equipe
de cuidados avançados de suporte à vida.
CONCLUSÕES
Muito pode ser feito para se
evitarem acidentes fatais no mergulho livre em apnéia. Com referência ao
grupo de turistas subaquáticos, é importante realizar uma rápida checagem
das suas condições de saúde. Ele constitui um grupo heterogêneo de pessoas
em termos de condições de saúde, que pode apresentar uma série de problemas
relacionados a doenças, com maiores possibilidades de apresentar despreparo
físico para atividades que requerem esforço e de não estar familiarizado com
atividades aquáticas e equipamentos de mergulho. Aqueles com doenças e que
têm riscos, não devem praticar o mergulho livre em apnéia. É importante
que, nessas atividades, aqueles que forem autorizados a realizar o mergulho,
usem nadadeiras e estejam sob constante observação de monitores capazes de
oferecer pronto atendimento em situações de emergência. Além disso, essas
pessoas não devem ser expostas a condições ambientais de risco como
correntezas, água fria e pouca visibilidade.
No que diz respeito ao grupo de
mergulhadores desportivos, deve-se considerar a necessidade de certificação
para a prática do esporte com treinamento adequado por meio de programa que
inclua o conhecimento da fisiologia do mergulho livre em apnéia, da
fisiopatologia básica do afogamento, a identificação do apagamento, as
manobras de resgate e a reanimação cardiopulmonar. Além disso, ele deve ser
praticado por duplas, com dispositivo flutuante de apoio, com flutuação
positiva até dez metros de profundidade, mesmo quando lastreados, utilizando
cintos de lastro de desengate rápido. A hiperventilação como técnica de
mergulho deve ser desestimulada e esclarecida como sendo uma prática perigosa.
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Renúncia
Nenhuma representação neste texto é feita no sentido de oferecer um
diagnóstico, tratamento ou cura para qualquer condição ou doença relatada.
O caráter do texto é somente informativo e deve ser usado em conjunto com o
aconselhamento específico do médico de medicina do mergulho. O autor não é
responsável por qualquer consequência concebível relacionada à leitura
deste texto.
Este artigo, é uma colaboração do autor e da escola de mergulho Immersio, localizada em Porto Alegre-RS.
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