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Segurança no Mergulho Livre em Apnéia

O mergulho livre em apnéia é uma atividade que apresenta um grande e crescente número de praticantes e se relaciona não somente ao mergulho profissional e ao desportivo, mas também às atividades de turismo. Apesar de o número de praticantes ser maior que o do mergulho autônomo amador, o seu aprendizado pouco é procurado formalmente. O ensino também é pouco ofertado.

Ao observar o elenco de disciplinas oferecidas por uma escola de mergulho, notamos pouca ênfase no ensino específico do mergulho livre em apnéia. Alguma coisa é ensinada durante os cursos de mergulho autônomo, principalmente como uma introdução para o uso dos equipamentos básicos. Além disso, geralmente o instrutor avalia as habilidades aquáticas do candidato a mergulhador autônomo através da análise da prática do mergulho livre na piscina. No entanto, praticamente nada é ensinado em termos de medidas de segurança no mergulho livre em apnéia.

Sabemos que há uma cultura de se comprar o equipamento básico e sair praticando, o que acaba desestimulando investimentos tanto no ensino, quanto no aprendizado. Isso não é visto comumente no mergulho autônomo. A falta de um aprendizado oficialmente reconhecido, somada ao fato de a certificação não ser exigida tanto por parte das operadoras de turismo, como das de mergulho, tem exposto um número significativo de praticantes aos seus riscos. Com o aumento do número de praticantes e a constatação de óbitos relacionados à atividade, surgiu o interesse em se estudarem as causas dos acidentes e em se adotarem medidas preventivas com o objetivo de aumentar a segurança do mergulho livre em apnéia.

Não existem estimativas relacionadas ao número total de praticantes do mergulho livre em apnéia. Sabemos que houve uma mudança importante do perfil do tipo de mergulhador após a primeira metade do século passado. Antes, o mergulho em apnéia era praticado preponderantemente por profissionais. São exemplos os mergulhadores coletadores de esponja na Grécia, os de conchas no Japão e na Coréia e os de pérolas no arquipélago Tuamoto. Atualmente, a produção em escala industrial de equipamentos de mergulho, como nadadeiras, respiradores e máscaras, tornou popular essa atividade.

Refletindo sobre nossas histórias pessoais relacionadas ao aprendizado do mergulho, constataremos que, na maioria dos casos, começamos a mergulhar através do mergulho livre em apnéia. Além disso, durante o mergulho autônomo, não abandonamos a experiência do mergulho livre. Ele é o auxílio disponível em situações de emergência do mergulho autônomo. O conhecimento e a técnica do nado em mergulho livre facilitam o acesso aos locais de mergulho e muitas vezes o retorno desses, ou seja, o adequado aprendizado do mergulho livre facilita não só a prática, mas também a segurança do mergulho autônomo.

Atualmente existe um número bem maior de pessoas praticando o mergulho livre em apnéia. Podemos identificar, pelo menos, três grupos de praticantes, além dos mergulhadores profissionais citados anteriormente.

Um grupo, longe de dúvidas, com maior número de praticantes, é o representado pelos turistas que praticam o snorkelling recreacional. Hoje é grande a oferta de destinos turísticos para se praticar o mergulho livre como forma de interação com a natureza. Ele é o instrumento para se observar a flora e fauna subaquática. Num país com uma extensa costa marítima e grande quantidade de rios, não é de se surpreender que o maior grupo de mergulhadores livres em apnéia é o de turistas com pouca ou nenhuma experiência em mergulho.

Um segundo grupo, aparentemente grande, é o de caçadores submarinos. O Brasil é um país de tradição na caça submarina. Muitos mergulhadores autônomos tiveram na caça o início da atividade subaquática.

O terceiro grupo é aquele representado pelos mergulhadores praticantes de várias modalidades esportivas de apnéia, um grupo representado por atletas de elite que buscam ultrapassar marcas anteriores numa prática desportiva mais ousada, sendo considerado, de certa forma, esporte radical.

Num extremo, temos um grande grupo de praticantes desinformados sobre os riscos da atividade e alheios às normas de segurança, no outro, um pequeno grupo, seleto, de profundos conhecedores da atividade, treinados, que respeitam normas de segurança e que têm associações profissionais específicas com o objetivo de promover a segurança do esporte.

O fato de o mergulho livre em apnéia ser mais acessível, envolvendo menos investimento em equipamentos, e de ser menos complexo não quer dizer que não tenha riscos de acidentes. Apesar de ter mais praticantes do que o mergulho autônomo, há menos certificados de mergulhadores livres. Poucos frequentam cursos de mergulho livre, havendo uma tendência ao aprendizado por experiência prática. No entanto, se, novamente, rememorarmos a forma do nosso próprio aprendizado sobre o mergulho autônomo, concluiremos que a maior parte do conteúdo ensinado não diz respeito ao que fazer, mas justamente ao que não fazer. Num curso de certificação de mergulho, aprendemos muito mais regras e atitudes de segurança com o objetivo de evitar problemas. Certamente os cursos de mergulho livre deveriam ser divulgados também pelas possibilidades de o mergulhador ser educado para mergulhar em segurança.

A segurança em mergulho deve ser mais divulgada, cumprindo o objetivo básico da certificação. Não se trata de natação equipada. Mergulhando, acrescentamos todo o risco relacionado à submersão em apnéia forçada e ao barotrauma.

 

DADOS DISPONÍVEIS SOBRE OS ACIDENTES RELACIONADOS AO MERGULHO LIVRE EM APNÉIA

Não se tem conhecimento de dados objetivos e confiáveis que reflitam a realidade dos óbitos relacionados ao mergulho livre em apnéia no Brasil. Existem fundamentalmente as experiências norte-americana e australiana divulgadas na literatura médica, muitas vezes, de difícil acesso. Mesmo assim, os dados disponíveis devem ser analisados com ressalvas. Em primeiro lugar, há uma tendência a não registrar os acidentes relacionados ao mergulho e considerá-los, na maioria dos casos, como simples afogamentos. Isso, no Brasil, também é válido em relação ao mergulho autônomo, onde também praticamente não há informação disponível. No entanto, mesmo naqueles países que têm a cultura de ter uma casuística bem documentada, há uma preocupação maior de registrar os casos de óbitos relacionados ao mergulho autônomo e não ao livre. Isso provavelmente ocorre por envolverem doenças incomuns, como, por exemplo, a doença descompressiva, e por despertarem maior interesse na mídia do que aqueles relacionados ao mergulho livre. Isso acaba por diminuir o número de acidentes registrados.

O Dive Alert Network registrou 92 casos de óbito no mergulho livre em apnéia entre 1997 e 2002. Em 1999, houve o menor registro, de apenas 8 casos, enquanto, em 1998, houve o maior, de 22 casos. Já Edmond e Walker na Austrália têm registrado 60 casos de óbito em 10 anos, de 1987 até 1996. Esses mesmos autores também têm disponível uma outra série de 1972 até 1987, onde já foram registrados 90 casos,o que é útil para a análise histórica das mudanças do perfil das populações e das causas de morte relacionadas aos acidentes. Parece haver um consenso entre os pesquisadores que estabeleceram esses registros, de que os dados são incompletos e subestimam o problema.

A experiência australiana, na forma em que é relatada, é a mais interessante por apresentar detalhes importantes sobre esses acidentes. O que os torna muito representativos, é que a maior parte de vítimas são turistas, especificamente no caso deles, são turistas estrangeiros que estão visitando a Grande Barreira de Corais.

As três maiores causas de morte relacionadas ao mergulho livre em apnéia são o afogamento, os eventos cardíacos e a hipóxia. A maioria daqueles que se afogaram, era inexperiente, com pouco condicionamento físico e que geralmente estava sem nadadeiras para auxiliar na propulsão.

As mortes decorrentes de causas cardíacas envolveram mais homens de meia idade e estavam relacionadas a fatores aquáticos desencadeantes de disfunção cardíaca. De modo semelhante ao afogamento, nas mortes decorrentes de problemas cardíacos, o mau funcionamento do coração surgiu de fatores como o estresse decorrente da inexperiência em lidar com certas situações dentro da água, o despreparo físico, a pouca capacidade natatória e também o fato de não estar usando nadadeiras.

Em relação àqueles que morreram por hipóxia, podemos observar que os óbitos ocorreram justamente num grupo mais jovem de mergulhadores, bem preparados fisicamente, muito experientes, bem equipados, sendo a maioria constituída de caçadores submarinos. Em relação ao último grupo, deve ser registrado que a hipóxia foi relacionada à prática de hiperventilação e geralmente ocorreu durante a subida.

A análise da hiperventilação merece destaque especial, pois ela é completamente evitável. Edmond e Walker registram, na sua análise, que é muito difícil responsabilizar, nesses casos, o mau uso de equipamento ou condições ambientais perigosas. Eles destacam que esses mergulhadores comumente hiperventilam para aumentar o tempo de apnéia.

A hiperventilação produz diminuição dos níveis de gás carbônico no sangue sem aumento correspondente da capacidade de transportar oxigênio. De forma resumida e muito simplificada, podemos dizer que o restabelecimento da ventilação decorre do aumento da concentração de gás carbônico no sangue. Como esse, no início do mergulho, está muito mais baixo por causa da hiperventilação, mais tempo levará para que o estímulo ventilatório ocorra, havendo maior possibilidade de ocorrer uma hipoxemia pelo consumo de oxigênio.

Os mergulhadores que hiperventilam, têm mais possibilidades de apresentar hipoxemia sem qualquer alarme. Ela piora com a diminuição da profundidade durante a emersão, ou seja, a re-expansão dos gases nos pulmões dos mergulhadores durante a subida reduz a pressão parcial de oxigênio na luz do alvéolo pulmonar, produzindo uma inversão do fluxo do oxigênio. O oxigênio acaba voltando da circulação para a luz do alvéolo pulmonar, diminuindo a sua concentração no sangue e aumentando a possibilidade de perda de consciência por hipóxia.

A análise comparativa entre os dados australianos de 1982 a 1987 com os de 1988 até 1996, apesar de diferentes em relação à forma de registro, gerou algumas evidências. Podemos observar que, em relação ao primeiro estudo, a média de idade das vítimas aumentou de 30 para 45 anos, a proporção das vítimas do sexo feminino aumentou de 2% para 25%, os óbitos entre caçadores diminuiu de 73% para 25 % e a maioria das vítimas eram turistas cujos grupos foram organizados por operadores de turismo. Apesar disso, a análise geral revela que os dados das mortes por hipóxia decorrentes de hiperventilação causando afogamento pouco mudaram (de 18 para 20%). As mortes de causa cardíaca aumentaram de 3 para 30%.

Para concluir, podemos dizer que o maior grupo de acidentes fatais é o de turistas que tem no seu perfil a inexperiência, o despreparo físico e uma série de doenças cardiocirculatórias capazes de potencializar esses acidentes. Esse grupo também tem menos familiaridade com o ambiente marinho e com os equipamentos de mergulho. O grupo de acidentes que ocorrem com mergulhadores mais jovens, é constituído preponderantemente de caçadores e apneístas competitivos que, apesar de terem melhor preparo físico e não apresentarem doenças, morrem por hipóxia após hiperventilação que ocorre, geralmente, na subida.

 

FATORES AMBIENTAIS RELACIONADOS AOS ACIDENTES NO MERGULHO LIVRE EM APNÉIA

Além do afogamento, dos eventos cardíacos e da hipóxia, pode haver fatores ambientais envolvidos com os acidentes fatais do mergulho livre em apnéia. Eles são as correntezas, os obstáculos à natação resultantes das mudanças do relevo submarino, como pedras e bancadas de corais e as próprias embarcações. Os acidentes, nesses casos, decorrem de lesões por traumatismos. Duas causas ambientais que merecem destaque, são o aprisionamento em tocas e cavernas e o emaranhamento em redes de pesca. Cabe salientar que hoje as linhas de redes de pesca estão cada vez mais resistentes, necessitando de materiais de corte mais eficientes, como tesouras em vez de facas. Além disso, é grande o número de facas utilizadas para o mergulho que não tem fio de corte.

No grupo de fatores ambientais podemos incluir aqueles casos fatais que decorrem de infecções, envenenamentos e traumas produzidos por animais marinhos.

 

PROBLEMAS RELACIONADOS COM O EQUIPAMENTO

Com referência a equipamentos, os problemas maiores são o enredamento, os problemas de uso da máscara e do tubo de ventilação (snorkel).

As armas de caça submarina e os flutuadores apresentam cabos que podem emaranhar-se no mergulhador, produzindo imobilização ou mesmo um emaranhamento incompleto, que pode desencadear pânico com possibilidade de afogamento. Muitos cabos atualmente sequer podem ser cortados por facas, como foi referido anteriormente no caso das redes. As sacolas e fieiras para peixes podem atrair predadores, possibilitando acidentes resultantes de agressões provocadas por esses animais.

Em relação ao uso de equipamentos de mergulho, salientamos o alagamento da máscara como causa de acidente. No alagamento da máscara, com a entrada de água pelo nariz com irritação da via aérea, pode haver restrição à ventilação e até pânico com afogamento secundário.

No que diz respeito ao snorkel, salientamos os problemas de fadiga ventilatória produzida pela ventilação através do uso de um tubo. Na ventilação com tubo na superfície com a face voltada para baixo, há uma redução da ventilação voluntária máxima. Em caso de necessidade de ventilar mais intensamente pelo aumento da demanda decorrente de um maior esforço físico, há um acréscimo ao trabalho ventilatório com possibilidade de produzir fadiga física, falta de ar e, depois, uma intensa insuficiência ventilatória.

Outro problema decorrente do uso do snorkel é que, de acordo com a posição da cabeça do mergulhador, pode haver aspiração de água. Salientamos que a aspiração de água salgada geralmente produz uma sintomatologia específica. Ela provoca fadiga, tosse, falta de ar e ocasionalmente vômito. A consequência direta disso é uma insuficiência ventilatória. Muitas vezes, apenas a dificuldade de lidar com esses sintomas pode provocar uma reação de pânico que pode desencadear um afogamento.

 

INVENTÁRIO DAS CONDIÇÕES DE SAÚDE DO CANDIDATO AO MERGULHO LIVRE EM APNÉIA NO TURISMO

No relato de Edmonds e Walker sobre as mortes no mergulho livre em apnéia na Austrália, eles observaram que, entre as vítimas de afogamento do grupo de turistas, havia portadores de várias doenças como epilepsia, asma, cardiopatias e até aqueles considerados inaptos por mau preparo físico. Em relação aos últimos, as evidências do despreparo físico estavam relacionadas à observação, no exame físico, de sinais de cirurgias maiores ou de outras doenças prévias limitantes. A respeito dos portadores de doenças cardíacas vale a pena salientar o grande número de situações de risco como miocardiopatias (doenças próprias do músculo cardíaco), doenças valvulares, infartos prévios, revascularização miocárdica e tratamento medicamentoso para arritmias cardíacas e hipertensão.

No que diz respeito aos mergulhadores que morreram de hipóxia, esses autores salientam que também havia relato de apresentarem outras doenças prévias como a epilepsia, a asma, o uso de drogas ilícitas e a hipertensão arterial sistêmica. Disso tudo concluímos que há uma desproporção entre a motivação para o mergulho e as condições de saúde do mergulhador, acarretando uma situação de risco intenso. Em relação à asma há dúvidas de sua contribuição direta para o afogamento. Está bem claro que ela pode ser desencadeada por aspiração de água e que pode dificultar as manobras de ressuscitação cardiopulmonar.

Durante o mergulho livre em apnéia, o mergulhador está exposto a uma sobrecarga do sistema cardiovascular desencadeada pela apnéia e a submersão na água em que é submetido a uma pressão ambiental maior e uma temperatura mais baixa. Por isso é importante realizar uma avaliação clínica que identifique aqueles portadores de doenças para não expô-los aos riscos da atividade, inclusive ao risco de vida. É importante descartar a presença de doenças cardíacas pelo risco de desencadear insuficiência cardíaca secundária; de doenças pulmonares e de ouvidos pela possibilidade de ocorrência de barotrauma; de epilepsia e do uso de drogas pelo risco de perda de consciência com afogamento, não esquecendo que a hiperventilação pode desencadear crises epilépticas; de diabete mélito pelo risco de desenvolver hipoglicemia e perda de consciência secundária; de cirurgias recentes pelos problemas cardíacos e pulmonares que podem estar relacionados a elas e, finalmente, de doenças psiquiátricas pelos riscos ao mergulhador e aos outros que essas doenças podem provocar como decorrência da incapacidade de avaliação objetiva da realidade.

 

MEDIDAS DE SEGURANÇA RECOMENDADAS

Medidas de segurança são indicadas e resultam da análise dos dados epidemiológicos revelados pelas séries citadas. As orientações gerais incluem: antes das operações de turismo para mergulho livre, responder a um questionário que indique o nível de experiência, a capacidade física, incluindo a natação equipada e as condições médicas em relação às doenças que apresentam; obrigatoriedade do uso de nadadeiras; em caso de uso de cintos de lastro, esses devem ser de desengate rápido; mergulho não simultâneo obrigatório no sistema de duplas de mergulhadores e desencorajar a prática da hiperventilação no mergulho livre em apnéia.

O mergulhador deve evitar a hiperventilação sem, no entanto, ficar mal ventilado, isto é, não realizar mais do que três a quatro ventiladas lentas e profundas antes de segurar o ar e mergulhar. É muito importante descansar e fazer um intervalo de, pelo menos, três minutos entre um mergulho e outro. É preconizado o treinamento em condições controladas antes de se aventurar em realizar mergulhos em águas abertas.

Quanto ao uso de cinto de lastro, em termos de flutuabilidade, além de ter sistema de desengate rápido, recomenda-se que o mergulhador esteja usando quantidade de peso que ainda o mantenha positivo nos 10 metros. Na maioria dos acidentes fatais, foi observado que o mergulhador não libera o cinto de lastro.

Outras medidas de segurança são muito semelhantes às do mergulho autônomo. Deve-se mergulhar em duplas de modo não simultâneo, sendo que um mergulhador deve ficar na superfície pronto para dar assistência, se houver problemas enquanto o outro mergulhador está no fundo. Após definição do local de mergulho, os mergulhadores devem tomar conhecimento das condições ambientais. Sempre se deve utilizar instrumento de apoio como bóias com flutuabilidade suficiente para manter um mergulhador sem lastro na superfície. Finalmente, após planejar o mergulho e estabelecer as medidas de segurança, é preciso seguir o planejado (planeje seu mergulho, mergulhe seu plano).

Talvez para aqueles que querem praticar um mergulho seguro, as medidas mais apropriadas sejam o adequado ensino do mergulho livre em apnéia e uma avaliação médica especializada. Devemos proporcionar a formação de uma cultura relacionada à segurança do mergulho e encarar esse tipo de mergulho como uma atividade que requer treinamento e uma capacidade física mínima. O entendimento da fisiologia do mergulho livre proporcionou o conhecimento das possibilidades de acidentes que somente foram confirmados pela análise dos acidentes fatais. Comprar um conjunto de equipamentos não habilita ninguém a realizar uma apnéia e se expor a um aumento da pressão ambiente.

O propósito das viagens de turismo e observação do ecossistema submarino é ser uma atividade de lazer que, além de dar prazer aos praticantes, deve ser realizada com segurança, sendo que a possibilidade de acidentes não deve ser minimizada. Os operadores de turismo e mesmo os apneístas esportivos envolvidos com o esporte devem ter conhecimento dos riscos da atividade.

Aqueles que pretendem praticar o mergulho livre esportivamente, devem pensar numa certificação e realizar o treinamento apropriado. Devem aprender não somente a fisiologia do mergulho livre, mas também as normas de segurança na água e as técnicas de identificação do apagamento e de resgate, bem como reanimação cardiopulmonar, primeiros socorros e utilização de oxigênio terapêutico.

 

DIAGNOSTICANDO O APAGAMENTO

Todo mergulhador deve ser treinado para identificar situações anormais de risco e saber intervir. No caso do mergulho livre, a dupla deve saber identificar o apagamento a partir da superfície e resgatar um acidentado. Ainda, é claro, aquele que vai resgatar, deve estar bem ventilado e pronto para uma entrada rápida até o ponto onde se encontra o acidentado. Esse é o verdadeiro sentido de se mergulhar em duplas e não simultaneamente com o companheiro de mergulho livre.

O mergulhador, antes de aspirar água e se afogar, apresenta reflexos protetores que melhoram a resposta ao salvamento. Havendo atendimento imediato, ele poderá recobrar a consciência na superfície. Enquanto que inconsciente e no fundo, o mergulhador acidentado certamente se afogará.

Suspeita-se de apagamento quando o mergulhador pára de nadar. Simplesmente pára, sem uma razão aparente, os movimentos de pernas que vinha fazendo. O olhar pode ficar fixo ou mesmo haver o fechamento ocular. Muitas vezes, pode apresentar o rolar dos olhos para trás ou um olhar patético. Além disso, a cabeça pode rolar para frente ou para trás, dependendo da posição do nado. Podem-se observar abalos, contrações musculares e até convulsões. Finalmente, o mergulhador se deslocará de modo completamente imóvel para o fundo, se estiver lastreado negativamente, ou poderá subir lentamente, se estiver com flutuação positiva.

 

MANEJO DO APAGAMENTO

Para melhorar o prognóstico do atendimento oferecido, a rapidez do resgate do mergulhador submerso é muito importante. A prioridade é levar o acidentado à superfície para que ele possa receber o tratamento adequado. Para isso, aquele que está realizando o resgate, deve manter o contato visual com a vítima. O mergulhador de resgate pode levar o acidentado à superfície, pegando-o, por trás, com uma ou com as duas mãos, por baixo dos braços, na região das axilas.

Chegando à superfície, se a vítima não recobrar a consciência e restabelecer a ventilação espontaneamente, será necessário continuar mantendo contato visual e remover a máscara. Nesse momento, é importante determinar se a via aérea está aberta e se há ventilação espontânea. Também se deve cuidar para que não entre água pelo nariz e boca. Aquele que está realizando o resgate, deve também retirar sua máscara para que, havendo necessidade, possa oferecer ventilação forçada àquele que parou de ventilar.

Na superfície, a cabeça do mergulhador deve ser apoiada numa bóia que deverá servir de berço para a mesma. Falar com o mergulhador, enquanto se mantém a via aérea desobstruída, é uma boa conduta, já que o estímulo para a audição pode fazer com que o mergulhador acidentado recobre a consciência. Recuperando a consciência, o mergulhador deve ser mantido em observação pela possibilidade de aspiração.

Apesar de as manobras de reanimação cardíaca não serem eficientes na superfície do mar, deve ser mantida a ventilação e verificado o pulso de tempo em tempo. Isso é mantido até colocar o acidentado numa superfície firme para que se possa realizar a massagem cardíaca externa. A seguir, deve-se aguardar a chegada de uma equipe de cuidados avançados de suporte à vida.

 

Conclusões

Muito pode ser feito para se evitarem acidentes fatais no mergulho livre em apnéia. Com referência ao grupo de turistas subaquáticos, é importante realizar uma rápida checagem das suas condições de saúde. Ele constitui um grupo heterogêneo de pessoas em termos de condições de saúde, que pode apresentar uma série de problemas relacionados a doenças, com maiores possibilidades de apresentar despreparo físico para atividades que requerem esforço e de não estar familiarizado com atividades aquáticas e equipamentos de mergulho. Aqueles com doenças e que têm riscos, não devem praticar o mergulho livre em apnéia. É importante que, nessas atividades, aqueles que forem autorizados a realizar o mergulho, usem nadadeiras e estejam sob constante observação de monitores capazes de oferecer pronto atendimento em situações de emergência. Além disso, essas pessoas não devem ser expostas a condições ambientais de risco como correntezas, água fria e pouca visibilidade.

No que diz respeito ao grupo de mergulhadores desportivos, deve-se considerar a necessidade de certificação para a prática do esporte com treinamento adequado por meio de programa que inclua o conhecimento da fisiologia do mergulho livre em apnéia, da fisiopatologia básica do afogamento, a identificação do apagamento, as manobras de resgate e a reanimação cardiopulmonar. Além disso, ele deve ser praticado por duplas, com dispositivo flutuante de apoio, com flutuação positiva até dez metros de profundidade, mesmo quando lastreados, utilizando cintos de lastro de desengate rápido. A hiperventilação como técnica de mergulho deve ser desestimulada e esclarecida como sendo uma prática perigosa.

 

Fontes bibliográficas

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Renúncia

Nenhuma representação neste texto é feita no sentido de oferecer um diagnóstico, tratamento ou cura para qualquer condição ou doença relatada. O caráter do texto é somente informativo e deve ser usado em conjunto com o aconselhamento específico do médico de medicina do mergulho. O autor não é responsável por qualquer consequência concebível relacionada à leitura deste texto.

Este artigo, é uma colaboração do autor e da escola de mergulho Immersio, localizada em Porto Alegre-RS.


 

Augusto Marques Ramos é formado pela UFRGS, Mestre em Medicina pela mesma Universidade e Preceptor do Programa de Residência Médica do Hospital Nossa Senhora da Conceição, atuando também como médico nefrologista do Instituto da Criança com Diabetes. Mergulhador desde 1984 e membro associado do Dive Alert Network (DAN) desde 1997. Ele também é instrutor de mergulho pela Association of Diving School, International (ADS, International). Realiza avaliação médica para a prática do mergulho autônomo amador em várias escolas de mergulho desde 1987.

É médico hiperbarista formado pela UFSP e pelo Centro de Instrução e Adestratamento Almirante Átilla Monteiro Aché (CIAMA). Também é membro da Sociedade Gaúcha de Nefrologia, das Sociedades Brasileiras de Nefrologia e de Medicina Hiperbárica, da South Pacific Underwater Medicine Society (SPUMS) e da European Dialysis and Transplant Association (EDTA).

Endereço eletrônico para correspondência: augustomar@cpovo.net















 
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