|
Doença Descompressiva: Informações
úteis para uma melhor atitude ao mergulhar
Muito frequentemente podemos
observar acaloradas discussões relacionadas à escolha e ao uso das tabelas de
mergulho entre mergulhadores recreacionais. Geralmente podemos constatar que
todos aqueles que discutem, estão bem informados, no entanto avaliam seu uso
com diferentes pontos de vista.
O objetivo, em última análise,
do uso da tabela descompressiva é a prevenção da doença descompressiva.
Acabamos usando um modelo matemático para tentar evitar um fenômeno
biológico. À medida que o modelo matemático é usado e os dados observados
confirmam a eficiência desse modelo, ele se consagra. No entanto, o sucesso do
uso em situações de limite pode acarretar uma valorização mitológica da
tabela. Surge o mito de que algoritmos de descompressão em tabelas ou
computadores possam ser perfeitos e evitar a doença descompressiva.
Uma das áreas em que podemos
observar que muitos mergulhadores carecem de conhecimento mais aprofundado, é
a teoria da descompressão. Muitos mergulhadores acreditam que tabelas de
descompressão e computadores se baseiam em dados oriundos de pesquisas bem
fundamentadas. A maioria dos mergulhadores acredita que, seguindo as
orientações relacionadas à profundidade e ao tempo de mergulho contidas nas
tabelas de descompressão, não apresentará doença descompressiva.
Segundo dados norte-americanos,
sabe-se que o risco de doença descompressiva, em relação ao mergulho
recreacional, é pequeno e está em torno de um ou dois casos por 10.000
mergulhos. Além disso, hoje está bem documentado que mais da metade daqueles
que apresentaram doença descompressiva, realizou mergulhos não conflitantes
com tabelas ou computadores de mergulho. Um certo número de ocorrência de
doença descompressiva parece inevitável, mesmo utilizando tabelas com tempos
de fundo curtos que não requeiram paradas descompressivas. Comparativamente à
antiga, porém consagrada, tabela da Marinha Norte-Americana, algumas tabelas
utilizadas por muitas certificadoras são bastante conservadoras. Isso tudo
torna a ocorrência de doença descompressiva mais uma questão de oportunidade
do que de ciência.
O PERFIL DO MERGULHO RECREACIONAL E PROBLEMAS
ATUAIS RELACIONADOS À INCIDÊNCIA DA DOENÇA DESCOMPRESSIVA
Todos nós sabemos que a parte
menos estimulante nos estudos necessários para a formação de mergulhadores
é relativa ao aprendizado do uso de tabelas de mergulho. Tanto mais difícil
é tentar entender os princípios subjacentes de cada tabela. Muitos
mergulhadores acabam optando por comprar um computador de mergulho, ler
rapidamente as instruções de uso, sair mergulhando e segui-las cegamente.
Certamente essa atitude não diminui a incidência de doença descompressiva.
De outro modo, alguns acabam estudando um pouco as tabelas e adquirem um
conhecimento parcial.
O mergulho recreacional, na
maioria das vezes, caracteriza-se por ser um mergulho curto, profundo, sendo
que a maior parte do tempo de fundo ocorre nas profundidades sub-máximas. É o
chamado mergulho de perfil quadrado. Esse perfil decorre das características
do tipo de operação que é praticado no mergulho autônomo recreacional.
Nesse tipo de mergulho, a característica mais importante é a limitação do
volume de ar capaz de ser utilizado. Portanto, a princípio, mergulhando com um
único cilindro de mergulho com volume interno entre 10 e 12 litros, não
esperaríamos entrar em tabela descompressiva, se realizássemos um único
mergulho no dia.
Nos primórdios do ensino do
mergulho autônomo recreacional, utilizavam-se na íntegra consagradas tabelas
de mergulho com suas orientações relacionadas às paradas descompressivas. O
modelo mais utilizado era a tabela da Marinha Norte-Americana. No entanto,
revendo a história, pelo tipo de mergulho praticado e pelo nível de
experiência dos praticantes, ele foi reavaliado e passou-se a usar tabelas que
informassem, de maneira clara, os limites de tempo de fundo que não
requeressem paradas descompressivas. Parece lógico, pois essa prática prevê,
numa situação de emergência, a possibilidade da subida direta à superfície
sem acrescentar os riscos de uma doença descompressiva.
À medida que o mergulho se foi
popularizando, que os equipamentos se foram tornando mais seguros e que a
operação de mergulho foi ficando mais rápida, começou-se a realizar
múltiplos mergulhos num mesmo dia. O perfil do mergulho passou a se alterar e
começamos a observar mergulhos sucessivos. Com isso, começou-se a utilizar
novas tabelas com grupos de mergulho repetitivos que levam em consideração o
volume de nitrogênio residual nos vários tecidos do nosso organismo que
sobrou do mergulho anterior. Ao desafio da criação dessas tabelas
adicionaram-se as exigências das anteriores.
As exigências de mergulhos sem
paradas descompressivas e a necessidade de se considerar, entre um mergulho e
outro, o volume de nitrogênio residual possibilitaram a geração de novos
estudos e uma variedade de algoritmos matemáticos. Parece que aí os problemas
se multiplicaram. Soma-se a isso o desejo de cada entidade envolvida na
segurança ou mesmo na formação de mergulhadores autônomos de vencer o
desafio de investir na criação da sua própria tabela.
Com o passar do tempo, pôde-se
observar que, apesar da variedade de procedimentos de descompressão envolvendo
tabelas e computadores de mergulho, muitos dos quais com tempos de fundos
menores que os da tabela da Marinha Norte-Americana, portanto mais
conservadores, a incidência da doença descompressiva se mantinha a mesma.
Adicionaram-se, então, aos menores tempos de fundo paradas de 3 a 5 minutos
entre 4, 5 e 6 metros e mais recentemente passou-se a especular a hipótese de
que as subidas tenham sido feitas muito rapidamente. Emersões rápidas levam
à geração de bolhas, que, por sua vez, levam à doença descompressiva.
PROBLEMAS RELACIONADOS À ATUAL PRÁTICA DO
MERGULHO RECREACIONAL
As tabelas e os computadores de
descompressão utilizam algoritmos, que são modelos matemáticos cuja
hipótese operacional se baseia em vários exponenciais de absorção ou
eliminação de gases respirados sob pressão enquanto se mergulha. Esses
modelos acabam criando "tecidos matemáticos" que se saturam da
mistura gasosa nas condições de profundidade e tempo de fundo que ocorrem no
mergulho. A verdade é que ainda não temos o conhecimento completo de como o
corpo humano absorve e elimina nitrogênio.
Na prática, observamos, no
mundo todo, que, nos cursos de formação de um mergulhador autônomo amador,
é ensinado o uso de tabelas sem paradas descompressivas. É uma medida de
segurança baseada no bom senso comum à prática do mergulho autônomo
recreacional. Além disso, repetimos, é orientado se realizar uma parada de
segurança entre 4, 5 e 6 metros de 3 a 5 minutos. Na prática, muitos
mergulhadores, depois de formados, acabam subindo a velocidades maiores do que
9 metros por minuto e realizando paradas de, no mínimo, 3 minutos para então
emergir. Essa atitude é adotada, pois o mergulhador acaba confiando num plano
de mergulho que não requer parada descompressiva. Para uma desaturação essa
prática parece envolver um espaço de tempo muito curto em relação ao tempo
total do mergulho, favorecendo a ocorrência de doença descompressiva.
Os problemas dos algoritmos de
computadores ou tabelas decorrem do simples uso de um modelo matemático.
Nenhum modelo computacional para o mergulho autônomo considera variações
relacionadas com a idade, o sexo, a capacidade física do mergulhador, as
variáveis de esforço físico durante o mergulho, temperatura da água ou
variações de altitude. Por exemplo, o Dr. Edmonds preconiza que para cada
década de vida a partir dos trinta anos se devam diminuir 10 % do tempo de
fundo. Qual tabela inclui essa orientação ? Apesar de os computadores
considerarem, em seus algoritmos, variáveis numéricas decorrentes da grande
variabilidade de práticas de mergulho como mergulhos únicos ou múltiplos,
acumulativos ao longo de dias, eles não são completos.
Isso tudo fica mais preocupante,
pois o mergulho como atualmente é divulgado parece uma atividade isenta de
riscos. Hoje em dia, são muitos os destinos em que se pode mergulhar e o
mergulho está cada vez mais associado ao turismo. Geralmente os destinos de
mergulho são locais com mais de dois dígitos de visibilidade, o que, por si
só, é um convite ao mergulho profundo. É comum ouvirmos de amigos o relato
de que foram para tal local e fizeram um batismo de mergulho em que chegaram
tranquilamente a vinte ou trinta metros de profundidade. Além disso, existem
muitos paraísos para o mergulho onde são ofertados mergulhos ilimitados a
partir da praia. Tudo isso se soma no sentido de aumentar a possibilidade de se
vir a ter uma doença descompressiva.
O QUE É DOENÇA DESCOMPRESSIVA ?
A doença descompressiva é uma
síndrome clínica cujo conjunto de sinais e sintomas são consequência
direta dos efeitos da presença de bolhas de gás nos tecidos e na circulação
sanguínea. Ela é uma doença disbárica causada pela liberação de bolhas
de gás dissolvidas nos tecidos ou no sangue. Bolhas podem formar-se no corpo
do mergulhador, do aviador e dos trabalhadores em ambientes pressurizados. Elas
ocorrem quando o indivíduo é exposto a uma redução na pressão ambiente, a
chamada descompressão, causando os sinais e sintomas da doença
descompressiva. As sequelas desta entidade clínica variam desde morte, dano
neurológico permanente até mesmo completa recuperação.
As manifestações da doença
descompressiva resultam da presença de bolhas formadas nos tecidos ou na
circulação sanguínea como resultado de variações na pressão ambiente.
Essas bolhas podem acarretar sintomas decorrentes de lesões diretas numa
determinada estrutura afetada, produzidas mecanicamente sobre os tecidos.
Lesões indiretas decorrentes do bloqueio da circulação dos vasos
sanguíneos também podem ocorrer. Embolia arterial gasosa pode ocorrer quando
gás entra na circulação. Usualmente isso ocorre quando há dano
descompressivo nos pulmões ou embolia pulmonar. Êmbolos podem chegar até o
cérebro e produzir sintomatologia específica.
Mais recentemente o Divers
Alert Network tem usado um sistema de definição de doença descompressiva
por sintomas. Casos considerados leves ("dor somente") apresentam
sintomas do tipo fadiga, coceira, rash cutâneo, inflamação local, dor
muscular ou articular. Os casos graves ("sérios") se caracterizam
por manifestações neurológicas como dor de cabeça, fraqueza muscular,
alterações visuais, auditivas, de sensibilidade e motricidade, da memória,
da personalidade, disfunção intestinal e da bexiga e queixas cardiopulmonares
que podem evoluir à insuficiência respiratória, ao choque e até mesmo à
morte. A embolia arterial gasosa acarreta rápido início de sintomas cerebrais
geralmente seguidos de alterações da consciência. Usualmente os sintomas da
embolia arterial gasosa estão associados a subidas rápidas e se manifestam
tão logo ocorra a emersão. No mergulho recreacional, a maior parte dos
sintomas é neurológica.
Segundo dados relatados pelo
DAN, mais da metade dos mergulhadores que são vítimas de doença
descompressiva, apresenta sintomas em até uma hora após o mergulho, 30 por
cento apresentam sintomas logo após emergir, 10 por cento apresentam sintomas
antes do último mergulho e menos de 10 por cento apresentam sintomas 48 após
o último mergulho.
Muitas vezes sinais sutis são
difíceis de valorizar, pois não diferem muito de sintomas comuns que todos
apresentam habitualmente na vida normal. Não é incomum observar mergulhadores
com sintomas leves que continuam mergulhando até surgirem sintomas mais bem
definidos e se configurarem situações dramáticas.
Existe a doença descompressiva
esperada, que inclui os casos em que há, pelo menos, a violação de uma regra
do mergulho, e a inesperada, em que o mergulhador faz tudo certo e mesmo assim
apresenta a doença. Mais de 50 por cento dos casos são inesperados e não se
identifica qualquer violação de regras do mergulho. Como a desordem não é
tão frequente, é comum que muitos não a reconheçam. Os casos de doença
esperada são fáceis de reconhecer, pois aquele que desenvolve a doença, sabe
que mergulhou fora dos limites não-descompressivos ou subiu muito rapidamente.
A maior consequência
relacionada à demora do reconhecimento da doença é um pior resultado da
recompressão. A recompressão precoce está associada a melhores resultados em
termos de recuperação de funções e cessação dos sintomas. Cabe salientar
que a análise dos relatos das várias séries de casos revela que a demora em
relatar e tratar novos casos se mantém a mesma, apesar dos esforços de se
divulgar informação para o tratamento precoce dessa patologia.
FATORES PREDISPONENTES
Alguns fatores fisiológicos e
ambientais predispõem a ocorrência ou potencializam a gravidade da doença
descompressiva. Eles incluem exercício, preparo físico, temperatura ambiental
(água fria, banho quente), idade, obesidade, desidratação, ingestão de
álcool, episódio descompressivo prévio, dano tecidual prévio e retenção
de gás carbônico. Foi observado que as mulheres, quando expostas à altitude,
apresentam uma frequência quatro vezes maior de doença descompressiva que os
homens. Cabe salientar que isso não pode ser generalizado para o mergulho ao
nível do mar.
Existem também fatores
predisponentes relacionados ao mergulho propriamente dito como o perfil do
mergulho, subidas rápidas, múltiplas subidas, mergulhos sucessivos, vários
dias de mergulho e exposição à altitude.
Têm sido propostos muitos
outros fatores agravantes. Muitos deles se relacionam a alterações
bioquímicas sanguíneas como alterações dos lipídios (dislipidemias) e o
complemento sérico, bem como fatores de ativação do músculo liso. Outros
são exógenos como o fumo e a enxaqueca. Todos eles requerem mais
investigação antes de serem confirmados.
TABELAS DE MERGULHO
Todo mergulho com ar requer
descompressão. Nos últimos 20 anos, podemos observar uma grande variedade de
algoritmos computacionais de programas de descompressão. Inicialmente eles se
baseavam no modelo de descompressão proposto por Haldane. Pesquisas
inicialmente realizadas na Universidade do Havaí, que incluem outras
variáveis relacionadas à interação dos gases com o corpo humano,
disponibilizaram novos algoritmos. Em resumo, os cálculos realizados propunham
mergulhos com primeiras paradas mais profundas, mas com duração não muito
diferente das tabelas convencionais para o mergulho profundo.
Outras mudanças ocorreram desde
os experimentos iniciais de Haldane, principalmente relacionadas à velocidade
de subida. Haldane usou uma taxa de subida de 9 metros por minuto, que era
lenta o suficiente para evitar a formação de bolhas e compatível com o tipo
de equipamento usado, que eram os escafandros. Como o mergulho autônomo
permite uma liberdade de subida maior, as taxas de velocidade de subida
aumentaram. Após um período de tempo considerável durante o qual se
preconizava a velocidade de subida de 18 metros/minuto (Marinha
Norte-Americana, 1956), ela acabou diminuindo para 12 metros/minuto (Hills,
1966-76), depois indo para 10 metros/minuto (Buhlmann, 1975), finalmente até
os 9 metros/minuto, preconizados pela maioria das entidades relacionadas à
prática do mergulho recreacional seguro.
As vantagens de diminuir a
velocidade de subida vão além da simples oportunidade de eliminação do gás
acumulado durante o mergulho. Elas incluem a diminuição da produção de
êmbolos gasosos venosos, menos obstrução do filtro pulmonar e menos chance
de barotrauma pulmonar.
São muitos os problemas
existentes no desenvolvimento de um modelo matemático ideal para prevenir a
doença descompressiva. As dificuldades não recaem somente sobre a escolha de
beneficiar os tecidos lentos ou rápidos e a sua correlação com mergulhos
profundos e rápidos ou demorados. As dificuldades se concentram no fato de
não existir um conhecimento claro que defina a escolha a ser seguida, ou seja,
por se seguirem argumentos ainda não bem esclarecidos relacionados à difusão
ou à perfusão de gás nos vários tecidos. Em geral, o que podemos observar
é que as tabelas atuais são mais efetivas em reduzir a doença descompressiva
em tecidos de meios-tempos mais lentos do que nos rápidos como o sistema
nervoso central.
TABELA DESCOMPRESSIVA DO ROYAL NAVAL PHYSIOLOGICAL LABORATORY / BRITISH SUB-ACQUA
CLUB
Inicialmente esta tabela
utilizava o modelo de descompressão de um único tecido. Usava conceitos
diametralmente opostos ao de Haldane, que são os seguintes: somente um tecido
estaria envolvido na gênese da doença descompressiva tipo I; a taxa de
absorção de gás é limitada pela perfusão; a taxa de absorção é maior do
que a de eliminação, pois bolas silenciosas se formam no tecido e interferem
com a eliminação máxima do gás em qualquer mergulho; um volume crítico de
gás pode ser tolerado sem sintomas e a difusão de gás é análoga à
situação do tecido afetado adjacente ao fluxo arterial.
Ela acabava resultando em
descompressões longas e primeiras paradas profundas. Era comparável à tabela
da Marinha Norte-Americana em termos de segurança, pelo menos no que se refere
às profundidades de limite do mergulho recreacional. Como existem vários
mecanismos envolvidos nos vários tipos de doença descompressiva, a exclusão
de um tecido lento não garante proteção para outros, como é o caso das
manifestações neurológicas da doença. Isso era mais provável de ocorrer,
se estas tabelas fossem utilizadas a grandes profundidades.
A tabela básica sofreu várias
modificações (1968 e 1972), ora ficando muito conservadora, ora muito
liberal. Em 1988, ela foi novamente modificada para calcular mergulhos
repetitivos e o conceito de "linha limitante" foi abandonado.
Portanto, ela acabou apresentando-se mais conservadora em termos de limites sem
paradas descompressivas, limitando a 6 metros a profundidade segura sem
descompressão (comparada com os 9 anteriores). Atualmente ela presume que a
taxa de eliminação de gás seja menor em termos de mergulho repetitivo, sendo
que cada mergulho repetitivo requer uma descompressão mais conservadora que a
anterior.
Ela se apresenta como um
conjunto de 7 tabelas. A primeira é usada no primeiro mergulho e as outras
são determinadas em função do nitrogênio presumidamente acumulado durante
esse mergulho e que vai ser levado durante o intervalo de superfície ao
próximo mergulho. Elas são comparáveis à atual tabela Buhlmann e do Defence
and Civil Institute Of Environmental Medicine (DCIEM) do Canadá para
mergulho não-descompressivo. Para mergulhos que requerem paradas
descompressivas, elas são geralmente, mas nem sempre, mais conservadoras que a
da Marinha Norte-Americana, porém geralmente menos conservadoras que a
Buhlmann ou DCIEM.
TABELAS DCIEM
As tabelas do Defence and
Civil Institute of Environmental Medicine (DCIEM) usam um modelo diferente
baseado na idéia de compartimentos organizados em série e não em paralelo
como o da Marinha Norte-Americana. Os tempos de mergulho não-descompressivos e
a maioria dos mergulhos repetitivos são mais conservadores do que os da tabela
da Marinha Norte-Americana. É uma tabela baseada num modelo teórico que foi
modificado após muitos estudos experimentais humanos monitorados por Doppler.
Esses testes foram realizados em condições adversas como em água fria e com
esforço intenso.
Cabe salientar que o DCIEM é um
dos maiores estabelecimentos de pesquisa do Canadá cujo propósito é garantir
a segurança no mergulho. Para tanto a pesquisa relacionada à confecção das
tabelas DCIEM envolveu desde a revisão de todo o conhecimento adquirido dos
efeitos da pressão sobre a fisiologia humana até a construção de
laboratórios próprios para validar hipóteses operacionais. O trabalho do
DCIEM culminou com o reconhecimento internacional da qualidade das suas
pesquisas nas áreas aeroespacial e do mergulho. Atualmente estas tabelas são
utilizadas no ensino do mergulho recreacional pela Professional Diving
Instructors Corporation (PDIC), National
Association of Scuba Diving Schools (NASDS),
National Association of Underwater Instructors (NAUI)
e United States Underwater Federation (UFSF, equivalente à CBPDS).
TABELAS BUHLMANN
A tabela idealizada pelo
cientista Buhlmann utiliza um modelo com compartimentos de 16 tecidos com
meios-tempos que variam de 4 a 635 minutos. Ela reduz a taxa de subida para 10
metros por minuto e a duração das paradas profundas permitidas excede a
encontrada na tabela da Marinha Norte-Americana. Todo mergulho
não-descompressivo requer uma parada de 1 minuto aos três metros. Nela
também é considerado que os mergulhos iniciais curtos minimizam a formação
de bolhas no primeiro mergulho e que melhora a eliminação de gás na subida,
o que permite maiores tempos para os mergulhos sucessivos. Foi a tabela mais
cuidadosamente testada em altitude.
TABELAS PADI
O "Planejador de Mergulho
Recreacional PADI" inclui um sistema repetitivo baseado em meios-tempos de
compartimentos teciduais de 40 e 60 minutos em vez de 120 da tabela da Marinha
Norte-Americana. O resultado final é que essa definição operacional permite
mergulhos repetitivos mais longos após intervalos de superfície mais curtos.
Na literatura é comentado que uma quantidade pequena de testes, que foram
seletivos e que, em termos de delineamento de pesquisa, foram considerados
restritos, com Doppler foi realizada para validá-la.
TABELAS BASSET
Com o propósito de planejar
vôos após o mergulho, o Dr. Bruce Basset foi contratado pela Força Aérea
Norte-Americana. Com a informação de que, quando usada no limite, a tabela da
Marinha Norte-Americana tinha uma incidência de 6% de doença descompressiva
e bolhas eram detectadas em 30% dos mergulhos observados, ele reduziu os
limites não-descompressivos dessa mesma tabela. Ele reduziu a supersaturação
permitida em vários meios-tempos teciduais. Este pesquisador recomendou para
mergulhos curtos não-descompressivos uma velocidade de subida de 10 metros por
minuto, com uma parada de segurança de 3 a 5 minutos entre 3 e 5 metros, para
todos mergulhos mais profundos do que 9 metros. Além disso, ele preconizou a
utilização do tempo total submerso, mais do que o tempo na profundidade
máxima, para calcular o grupo repetitivo após o mergulho.
MERGULHO MULTINÍVEL
O mergulho multinível tem sua
justificativa lógica baseada no fato de saber que a maioria dos mergulhadores
não passa todo o tempo à profundidade máxima. O mergulho multinível
considera as diferenças nos vários seguimentos do mergulho, calculando um
perfil revisado da quantidade teórica de nitrogênio absorvida a cada
profundidade. Para se realizar um mergulho em níveis diferentes de
profundidade de forma segura é necessário que a parte mais profunda do
mergulho seja realizada em primeiro lugar. Atualmente a análise dos dados
estatísticos permite concluir que o perfil de mergulho quadrado possibilita
uma ocorrência maior de doença descompressiva quando comparado ao mergulho
multinível, desde que iniciado na parte mais funda, seguindo para o raso. Essa
conclusão talvez tenha sido tirada da constatação de que, na prática, no
mergulho multinível realizam-se mergulhos, com menor tempo no fundo, na
profundidade máxima e de que se adiciona uma velocidade de subida mais lenta.
O mergulho multi-nível levado
no sentido contrário é mais perigoso, pois qualquer bolha formada irá
expandir-se mais rapidamente quando o mergulhador retornar à superfície como
resultado de um maior gradiente de pressão entre os tecidos e as bolhas. Cabe
salientar que mergulhos sucessivos combinados com mergulho multinível são
muito complicados no ponto de vista matemático.
Os computadores de mergulho
tornaram possível o mergulho multinível, pois apresentam capacidade de
calcular os meios-tempos relacionados à absorção e liberação do
nitrogênio baseados na profundidade e tempo em cada segmento do mergulho.
Segundo o instrutor Maurício Henriques, os computadores acabam tornando-se
tabelas dinâmicas.
COMPUTADORES PARA DESCOMPRESSÃO
Os computadores de mergulho são
instrumentos que estão sendo amplamente utilizados desde a década de sessenta
do século passado. Nenhum deles foi aprovado por organizações oficiais
representativas dos países que apresentam legislação relacionada à prática
segura do mergulho autônomo recreacional.
Os computadores de mergulho são
dispositivos eletrônicos que utilizam teorias de descompressão nas quais as
diferentes tabelas são originariamente baseadas e as integram com a teoria do
mergulho multinível. Geralmente usam a tabela da Marinha Norte-Americana ou
a Buhlmann. Os modelos computacionais na forma em que foram idealizados acabam
permitindo muito mais exposição sob a água com menos descompressão.
Tentando reduzir o inevitável perigo de doença descompressiva, muitos modelos
incluíram limites não-descompressivos menores, assim como menores taxas de
velocidade de subida. Todavia os mergulhos permitidos por eles foram avaliados
como perigosos, tendo sido corroborados por observações clínicas. Em 1994,
Acott relatou, no South Pacific Underwater Medicine Society
Journal, uma
taxa maior de doença descompressiva em usuários de computador quando
comparados com mergulhadores que usaram tabelas, principalmente em mergulhos de
30 metros ou mais.
Os computadores comunicam aos
mergulhadores o tempo de mergulho e o tempo que falta para chegar ao final do
limite não-descompressivo. Eles também registram, de maneira acurada, a
profundidade e a duração total do mergulho. Além disso, eles têm monitores
de velocidade de subida e um alarme auditivo dispara quando essa taxa excede o
limite. Alguns também mostram, através da pressão de ar do cilindro de
mergulho, a quantidade de ar disponível para o mergulho e também o tempo
remanescente de mergulho baseado no consumo prévio e profundidade de então.
Apesar de todos esses
dispositivos, eles não são à prova de falha. O mergulhador deve ter a
consciência de que está sendo assistido pelo computador e de que quem governa
o mergulho, é ele próprio e não é proibido o uso redundante das tabelas de
mergulho. Estas, na minha opinião, devem estar sempre no bolso do colete
equilibrador. É difícil conceder plena confiança a um equipamento que
utiliza um modelo matemático, enquanto a doença descompressiva é um
fenômeno biológico, mesmo sabendo que é uma excelente tabela dinâmica de
mergulho, com capacidade de manter o mergulhador constantemente informado sobre
parâmetros diretos e indiretos relacionados à absorção do nitrogênio e que
tem capacidade de informar a necessidade de paradas descompressivas à medida
que o mergulho acontece. Não devemos esquecer também que uma parada
obrigatória para descompressão tira a possibilidade de emersão direta em
caso de emergência.
NOVAS PROPOSTAS
Recentemente, especulações
relacionadas à necessidade de se reformularem conceitos referentes à
velocidade de subida no final do mergulho têm reanimando e aquecido
discussões antigas sobre não só a própria velocidade de subida considerada
adequada, mas também sobre o uso das tabelas de mergulho para descompressão.
Novas propostas acabam materializando-se no horizonte para prevenir a doença
descompressiva.
O Dr. Peter B. Bennett está
convencido de que muitos episódios de doença descompressiva observados nos
acidentes de mergulho recreacional não decorrem de algoritmos utilizados para
calcular o tempo de fundo, mas sim de uma taxa de subida muito rápida.
Acreditando nisso, estimulou pesquisas nesta área através do Divers Alert
Network (DAN).
Essas hipóteses são fruto da
observação de que existe um pequeno, porém bem definido número de casos de
manifestações neurológicas da doença descompressiva relacionadas a subidas
rápidas. A análise superficial dos argumentos relacionados à necessidade da
diminuição da velocidade de subida também gera alguma confusão em relação
aos critérios matemáticos utilizados nas tabelas de mergulho. A taxa de
subida de 18 metros por minuto é o resultado de uma decisão arbitrária da
Marinha Norte-Americana e não tem qualquer fundamento baseado na cinética dos
gases.
A tudo isso é acrescido o fato
de se observar que, apesar de se preconizar uma grande variedade de
procedimentos derivados de algoritmos de tabelas e de computadores, que até
mesmo encurtam os tempos de fundo indicados pela tabela da Marinha
Norte-Americana, a incidência de doença descompressiva e a ocorrência das
formas mais graves, ou seja, do tipo II ou neurológica, continuam as mesmas.
Hoje podemos observar um volume
de pesquisas nesta área bem menor que o de 20 anos atrás. Há a sensação de
que, desde que a Marinha
Norte-Americana (US Navy) e a National Oceanic and Atmospheric
Administration (NOAA) deixaram
de investir em pesquisa nesta área e ao mesmo tempo em que a prática do
mergulho autônomo recreacional aumentou seu volume com a respectiva elevação
da casuística de acidentes de mergulho, muitas dúvidas novas surgiram com
referência aos fatores predisponentes relacionados com o mergulho propriamente
dito que ficaram sem respostas. Parece que as dúvidas relacionadas à doença
descompressiva e os algoritmos utilizados em tabelas ou computadores de
mergulho encabeçam a lista. Acrescenta-se a isso o fato de que a concepção e
validação de novas tabelas requerem tempo e volumosos investimentos.
VARIABILIDADE TECIDUAL RELACIONADA AO METABOLISMO DO NITROGÊNIO
A maior incidência da doença
descompressiva relatada é do tipo II, com manifestações decorrentes de dano
da medula chegando a 65% dos casos relatados. A medula é considerada um
compartimento tecidual rápido em termos de absorção de nitrogênio com
meio-tempo de saturação de 12,5 minutos. Isso significa dizer que ela estará
totalmente saturada de gás em somente trinta minutos. Nos algoritmos dos
modelos atuais de computador, foi arbitrado que os tecidos críticos para
mergulhos curtos e profundos são aqueles chamados de rápidos em termos de
absorção de gás, ou seja, aqueles que têm meios-tempos de 5, 10 e 20
minutos em detrimento dos considerados lentos, com meios-tempos de 40, 80 e 120
minutos. Cabe salientar que no passado os chamados tecidos lentos eram os
considerados críticos em termos de descompressão segura. Hoje, cada vez mais
dados apontam para os chamados tecidos rápidos e não os lentos como os
tecidos críticos para o desenvolvimento da doença descompressiva no mergulho
recreacional multinível sucessivo.
Por exemplo, num mergulho de 30
metros de profundidade por 25 minutos, a medula estará praticamente toda
saturada e requererá um tempo significativo para eliminar o excesso de gás.
Neste tipo sem parada descompressiva nos 6 metros, o mergulhador, subindo a 18
metros por minuto, poderá emergir em 1,6 minuto. Isso é muito pouco tempo
para eliminação de gás. Se acrescentarmos uma parada de 5 minutos aos seis
metros, ainda será pouco o tempo de eliminação. Subindo a 9 metros por
minuto, parando por 5 minutos aos 6 metros para realizar descompressão, o
tempo de eliminação de gás será maior, passando para 8,3 minutos. Isso
demonstra que paradas têm mais valor para eliminar o gás acumulado do que
simplesmente a diminuição da velocidade de subida. As paradas ajudam a
eliminar a quantidade total de gás acumulado de maneira bem eficiente. Isso é
uma abordagem típica como a proposta por Haldane. No entanto, algo mais deve
ser lembrado. Veremos a seguir.
RELEMBRANDO UM POUCO DE HISTÓRIA PARA AQUECER A DISCUSSÃO
Anteriormente foi citado John
Scott Haldane como o pai das tabelas de descompressão. Em 1904, esse
fisiologista, contratado pela Marinha Britânica, formulou e comprovou
experimentalmente a hipótese de que os mergulhadores poderiam subir
rapidamente a uma profundidade cuja pressão ambiente equivalesse à metade da
pressão absoluta do seu maior mergulho sem apresentar doença descompressiva.
Essa taxa de descompressão de 2:1 poderia ser novamente aplicada após um
período de eliminação do gás dissolvido. Esses ciclos repetir-se-iam até
chegar à superfície.
Na mesma época, Leonard Hill,
contratado pela companhia de mergulho Siebe Gorman, defendia a idéia de que a
doença descompressiva poderia ser evitada, se, no procedimento de emersão, o
mergulhador realizasse uma subida linear num sino de mergulho. Hill tentou
comprovar sua tese num experimento, utilizando cabras. Após a perda de vários
animais, ficou demonstrado que sua hipótese não funcionava. As Marinhas
Britânica e Norte-Americana acabaram usando a teoria de Haldane por mais de 50
anos para formular suas tabelas.
Revisando a história, poderemos
encontrar alguns paralelos em relação ao que fazemos atualmente. Haldane era
um fisiologista britânico contratado pela Real Marinha Britânica e pai das
tabelas das Marinhas Britânica e Norte-Americana. No entanto, a Marinha
Norte-Americana percebeu que taxas maiores, tanto quanto 4:1, eram possíveis
nos tecidos rápidos de 5 e 10 minutos em vez dos tradicionais 2:1. Hoje isso
parece menos real para o atual tipo de mergulho recreacional, que é curto,
profundo, do tipo "quadrado" e sucessivo, que se pratica. O nome de Haldane ficou
historicamente vinculado à tabela norte-americana, todavia ela sofreu
modificações a partir de dados observados, passando a não seguir à risca os
preceitos postulados pelo fisiologista. Haldane sabia que um mergulhador tinha
tempo suficiente para eliminar algum excesso de gás após o mergulho. No
entanto, ele acreditava que a maneira mais eficiente de eliminar o gás
absorvido durante o mergulho era realizando paradas descompressivas. Hoje os
experimentos com medidas através do uso do Doppler evidenciam que a maior taxa
de formação de bolhas ocorre numa taxa de subida de 3 metros por minuto sem
paradas, confirmando, com outro modelo experimental, que a hipótese de Hill
não é válida.
Se refletirmos sobre como é
praticado o mergulho recreacional atualmente, veremos que a tendência, na
maior parte de destinos de mergulho espalhados pelo mundo todo, é realizar
mergulhos de mais de 30 metros por, pelo menos, 20 minutos e depois subir a
nove metros por minuto, realizando uma parada de 3 minutos entre 3 e 6 metros.
Aí surge a questão: Por que, fazendo um mergulho semelhante ao proposto por
Hill, não sofremos doença descompressiva ? Como foi falado anteriormente, a
Marinha Norte-Americana percebeu que taxas tão grandes como 4:1 são
possíveis nos tecidos rápidos. Hoje sabemos que as paradas devem ser longas o
suficiente para permitir que a medula deixe de ficar saturada. Existe também a
idéia de que o meio-tempo de saturação completa da medula de 12,5 minutos
seja provavelmente em torno de 18 minutos.
O Dive Alert Network (DAN),
com o objetivo de tornar o mergulho mais seguro, está estudando várias taxas
de subida e a realização de mais paradas, incluindo uma parada aos 15 metros.
Vários delineamentos de pesquisa, incluindo estudos comparativos com
velocidades de subida tão lentas quanto um metro a cada três minutos e
várias modalidades de paradas de cinco minutos nos 14,5 e 5,5 metros, estão
sendo utilizados. Nos achados preliminares desses estudos, parece claro que,
independentemente da velocidade de subida, por mais lenta que ela seja, quando
uma parada profunda é introduzida por volta dos 15 metros, o escore de
identificação de bolhas por Doppler cai para valores muito baixos. Mais uma
vez parece que a abordagem proposta por Haldane parece mais favorável no
sentido da profilaxia da doença descompressiva.
CONSIDERAÇÕES RELACIONADAS A DIFERENTES TIPOS DE MERGULHO
Podemos observar que existe uma
idéia equivocada de que algoritmos de descompressão em tabelas ou
computadores de mergulho previnem, de maneira absoluta, a ocorrência de
doença descompressiva. Outro conceito errôneo é que, se doença
descompressiva ocorrer, o tratamento através da recompressão numa câmara
hiperbárica acarretará recuperação completa. O que há, é um sentimento
forte de que o mergulho sempre é seguro e de que a cura poderá ser completa.
Felizmente esse pensamento não é unânime e é com muito prazer que vemos
mergulhadores novos analisando as várias tabelas de mergulho e questionando o
seu uso. Quando falamos em uso, queremos referir-nos à escolha da
conveniência de acordo com o mergulho proposto em relação ao tempo de fundo,
à necessidade ou não de realizar paradas descompressivas, à realização de
paradas quando elas se fizerem necessárias e aos intervalos de superfície,
bem como ao perfil dos próximos mergulhos.
Por incrível que pareça,
quando passamos a falar em mergulho
técnico, a conversa é outra. O mergulho
técnico apresenta características completamente diferentes. Por ser uma
proposta diferente do recreacional básico, o uso das tabelas é feito de
maneira mais elaborada, pois se tenta diminuir, ao máximo, os riscos, além do
próprio risco do mergulho proposto, decorrentes de outros fatores que não a
doença descompressiva, o que acaba tornando-o mais seguro. É considerada uma
prática mais do que avançada de mergulho autônomo recreacional. Geralmente
são mergulhos longos, realizados em maiores profundidades, em variadas
altitudes em relação ao nível do mar, com utilização de um grande volume
das mais variadas misturas gasosas, que são escolhidas em função do objetivo
do mergulho.
O mergulho técnico é
completamente diferente do recreacional básico. Toda a discussão anterior se
refere ao mergulho recreacional na realidade em que ele é praticado nos dias
de hoje. Cabe salientar aqui que, na análise dos acidentes do mergulho,
podemos observar um grupo de acidentados que estavam realizando mergulhos com
característica do técnico, porém sem formação para tal. Já na análise da
frequência dos acidentes no mergulho do tipo técnico, podemos observar uma
diferença significativa em relação ao recreacional básico. Para menos.
São mergulhos meticulosamente
planejados e realizados, seguindo rigorosamente o planejado. Comumente não é
realizado mais do que um mergulho no dia. Neles são utilizados os mais
diversos equipamentos de segurança e é preconizada a sua redundância. Os
equipamentos apresentam alta performance, grande confiabilidade, são de
manutenção simplificada, cuja configuração é limpa, que oferece acesso
rápido, sem pontos de enrosco, oferecendo um mínimo de arrasto. Eles também
envolvem locais com as mais variadas condições ambientais. Portanto, no
sentido de evitar a doença descompressiva, são utilizadas, no planejamento do
mergulho, tabelas de mergulho específicas ao tipo de mergulho proposto. Mesmo
assim, cabe salientar que os riscos de desenvolver doença descompressiva
existem. A diferença é uma questão de atitude.
Pelas suas características de
tempo de fundo e profundidade máxima programada, este mergulho não permite
emersão sem parada descompressiva. As atitudes relacionadas à prevenção da
doença descompressiva são o seguimento de um plano de mergulho. Pelas grandes
diferenças deste tipo de mergulho, fica evidente que não podemos comparar as
preferências de um mergulhador técnico com as de um recreacional básico. O
mergulhador técnico, até por já ter sido um recreacional, adquiriu
confiança através do seu treinamento, apresenta um senso de responsabilidade
considerável, é perceptivo e possui uma motivação para transpor
obstáculos. Na sua formação, há uma conscientização de que, apesar de
mergulhar em dupla e poder contar com o colega, ele se comporta como um
mergulhador solo. A atitude e o investimento em treinamento e experiência no
mergulho técnico geram o diferencial necessário para deixá-lo com uma maior
possibilidade de haver menos acidentes.
Quando um mergulhador
recreacional, portanto não técnico, começa a se aventurar em discussões
relacionadas à escolha de tabelas conforme as conveniências dos mergulhos que
fará ao longo do dia, tentando aproveitar as melhores propostas, está na hora
de ele reconsiderar o seu jeito de mergulhar e investir numa formação
técnica, mudando a sua prática de mergulho e passando a investir na
formação de um mergulhador técnico. Esse comportamento é comumente
observado naqueles mergulhadores que passam a utilizar conjuntos de
armazenamento de ar maiores, geralmente dois cilindros, ou mesmo naqueles que
realizam múltiplos mergulhos sucessivos num mesmo dia. Enquanto, no mergulho
recreacional limitado pelo uso de um único cilindro como reservatório de ar
comprimido, existe um pouco de espaço para o inesperado, no técnico não. Por
isso é técnico.
CONCLUSÃO
Após o que foi exposto, podemos
concluir que, em primeiro lugar, não nos é permitido deixar de planejar um
mergulho e realizar o planejado sem consultar uma tabela de descompressão.
Além disso, também é fácil concluir que há a necessidade de conhecer a
tabela que utilizamos, seus princípios e suas limitações. O mesmo é válido
para os computadores de mergulho. E, para finalizar, queremos salientar as
palavras do Dr. Robyn Walker: "Qualquer tabela de descompressão ou
computador de mergulho que permitem menos tempo para descompressão, vão
causar uma maior necessidade de câmaras de recompressão". Em relação
aos mergulhos sucessivos combinados com o mergulho multinível, cabe concluir
que computadores de mergulho somente fornecem resposta para modelos
hipotéticos de compartimentos de tecidos e não para o mergulhador com sua
individualidade e respectiva biologia.
FONTES BIBLIOGRÁFICAS
Bennett P.B..
Outting On The Brakes. Extra Safety Stops and Slower Ascent Rates May Help
Reduce Decompression Injuries. Alert Diver. 2001; March: 1.
Bennett P.B..
Decompression Illness. Know Your Signs and Symptoms. Alert Diver. 2001;
November/December: 1, 7.
Bennett P.B..
What happened to Haldane? Here’s An Interesting Turnabout in the Application
of Ascent Research. Alert Diver. 2002; July: 1, 5.
Bennett P.B..
Haldane Revisited. Dr. Bennett Discusses Recent Research on the Hill/Haldane
Ascent Controversy. Alert Diver. 2002; August: 1, 5.
Dib, R..
Afinal, o que é o mergulho técnico. Decostop. 2004, fevereiro, março, abril:
I, 3: 15-17.
Hamilton, R.W. and Thalmann, E.
D.. Decompression Practice. In: Bennett
P.B., Elliot D.. The Physiology and Medicine of Diving, 5th Edition,
Philadelphia, WB Saunders Company ltd, 2003; 10.2:455-500.
Henriques, M..Tabelas
DCIEM e Mergulhos multinível. In: Henriques, M.. Curso de
Especialidade. Mergulhos Multi-nível e Computadores de Mergulho. 4ª Edição,
PDIC Brasil, 1995, 4:1-7.
Henriques, M..
Mergulhos multinível Assistidos por Computador. In: Henriques, M..
Curso de Especialidade. Mergulhos Multinível e Computadores de Mergulho. 4ª
Edição, PDIC Brasil, 1995, 5:1-2.
James, T., Francis, R. and
Mitchell, J. S.. Pathophysiology of Decompression Sickness.
In: Bennett P.B., Elliot D.. The Physiology and Medicine of Diving, 5th
Edition, Philadelphia, WB Saunders Company ltd, 2003; 10.4:530-556.
Tikuisis, P. and Gerth, W. A..
Decompression theory. In: Bennett P.B., Elliot D.. The Physiology and Medicine
of Diving, 5th Edition, Philadelphia, WB Saunders Company ltd, 2003;
10.1:419-454.
Walker, R.
Decompression Sickness: History and Physiology. In: Edmonds, C., Lowry, C.,
Pennefather, J., Walker, R. Diving and Subaquatic Medicine, 4th Edition,
London, Arnold, 2002; 10: 111-130.
Walker, R.
Decompression Sickness: Pathophysiology. In: Edmonds, C., Lowry, C.,
Pennefather, J., Walker, R. Diving and Subaquatic Medicine, 4th Edition,
London, Arnold, 2002; 11: 131-136.
Walker, R.
Decompression Sickness: Clinical. In: Edmonds, C., Lowry, C., Pennefather, J.,
Walker, R. Diving and Subaquatic Medicine, 4th Edition, London, Arnold, 2002;
12: 137-150.
Renúncia
Nenhuma representação neste texto é feita no sentido de oferecer um
diagnóstico, tratamento ou cura para qualquer condição ou doença relatada.
O caráter do texto é somente informativo e deve ser usado em conjunto com o
aconselhamento específico do médico de medicina do mergulho. O autor não é
responsável por qualquer consequência concebível relacionada à leitura
deste texto.
Este artigo, é uma colaboração
do autor e da escola de mergulho Reef
Dive, localizada em São Paulo-SP.
|
|