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Mergulho e Extremos de Idade
A questão dos limites de
idade para a prática do mergulho autônomo recreacional sempre foi uma
preocupação para candidatos a mergulhadores, instrutores, médicos, pais e
mergulhadores que chegam à chamada "Melhor Idade".
Muitos pais questionam quando
seus filhos podem iniciar a mergulhar. Atualmente muitos esportes e atividades
de lazer estão mais acessíveis que tempos atrás, sendo iniciados mais
precocemente. Isso faz parte de uma cultura de investimento em saúde em que o
importante é a aquisição de hábitos saudáveis. Muitos pais têm a
percepção disso e tentam promover e estimular o acesso às mais variadas
atividades.
Dentre elas está o mergulho
livre em apnéia e o autônomo. Percebemos que existem famílias que são
ligadas entre si através de atividades de lazer. Existem pais que já
praticam o mergulho autônomo recreativo e gostariam que seus filhos também
fossem educados para mergulhar. O mergulho facilita a interação, dentro da
família, entre pais e filhos principalmente na adolescência, inclusive
facilitando o convívio em tempos de férias.
Noutro extremo estão aqueles
que envelhecem e se interessam por atividades esportivas e de lazer. O
envelhecimento é um fato da vida e envelhecer com saúde, um objetivo. Há os
que querem mergulhar como se o acesso ao mergulho fosse parte do projeto de
vida num todo, do seu investimento na manutenção de uma vida saudável na
melhor idade. O indivíduo escolhe esse momento para mergulhar, pois é nesse
momento que ele pode. Com o amadurecimento, a pessoa coloca o mergulho no seu
projeto de vida. Então a questão é: até que idade se pode iniciar a
mergulhar? Para também responder a essa pergunta com justiça, devemos
considerar que o mergulho pode ser uma contribuição importante para a
qualidade de vida dessa pessoa.
Por outro lado, há também os
mergulhadores que envelheceram. Eles questionam em que idade devem parar.
Sabemos que nosso corpo sofre mudanças que afetam a nossa capacidade de
mergulhar em segurança. Com a idade aumentam os problemas de saúde e o uso
de medicações. Existem limitações que, muitas vezes, não devem ser
confundidas com limites.
Hoje, com a prática da
medicina baseada em evidências, existem algumas maneiras de abordar o
assunto. Uma é analisando as mudanças referentes ao nosso corpo no processo
inexorável do envelhecimento e sua relação com a prática do mergulho
autônomo recreacional. Outra é a análise dos relatórios das fatalidades no
mergulho.
No processo para chegar à
"Melhor Idade", à medida que envelhecemos, obtemos sabedoria. A
sabedoria permite que usemos experiências anteriores na solução de
problemas e isso parece importante na prática do mergulho recreacional. Se,
por um lado, na fase final do desenvolvimento humano, sobra sabedoria e,
muitas vezes, falta saúde, nas fases iniciais, ocorre o inverso. Nesse
momento, percebemos que para pais, instrutores e médicos a solução do
problema será uma questão de posicionamento a partir de alguma reflexão.
O consenso é que o mergulho
recreacional não apresenta restrições formais de idade. Limitações em
relação à idade podem ocorrer para os muito jovens ou muito idosos. Idade
mais avançada e juventude não são contra-indicações absolutas à prática
do mergulho autônomo recreacional. No entanto, médicos e instrutores de
mergulho devem seguir alguns princípios éticos. Conhecemos o respeito pela
autonomia das pessoas de decidirem livremente os seus destinos. Também
sabemos dos princípios da beneficência, não-maleficência e justiça em
relação a decisões bioéticas. Podemos usar as mais diversas explicações
e razões éticas para justificar a prática de uma atividade humana. No
entanto, não podemos esquecer que estamos trabalhando com saúde e queremos
garantir a integridade física dos praticantes de uma atividade de lazer, que
é o mergulho. Hoje a melhor reflexão da moral nos indica um caminho ético
da ética de proteção, que tem como objetivo proteger o ser humano em sua
integridade global, física e psicológica, de paradigmas
comerciais,empresariais e técnico-científicos. Essa ética é a que devemos
ter em mente quando avaliamos os extremos de idade e a prática do mergulho
autônomo recreativo. Por isso, apesar de atualmente haver muitos programas
envolvendo tanto mergulhadores muito jovens quanto de idade avançada, a
avaliação individualizada é a base da decisão.
A seguir, apresentaremos
informações úteis para auxiliar no processo decisório daquele que quer
iniciar a mergulhar ou decidir quando deve parar. Também procuraremos dar um
panorama da atividade do mergulho e suas propostas atuais em relação aos
extremos de idade.
MERGULHO AUTÔNOMO RECREACIONAL
E A MELHOR IDADE
TRANSFORMAÇÕES RELACIONADAS
À IDADE QUE AFETAM A CAPACIDADE DE MERGULHAR EM SEGURANÇA
Nosso corpo sofre mudanças que
afetam a capacidade de mergulhar em segurança. Com o envelhecimento, ocorrem
alterações da função e da capacidade de algumas estruturas como o sistema
cardiovascular, o músculo esquelético, os pulmões, o sistema glandular e o
metabolismo.
No mergulhador que envelhece,
devemos considerar que ele naturalmente tem um condicionamento físico
diminuído, geralmente apresenta doenças crônicas degenerativas e tem uma
diminuição da mobilidade músculo esquelética.
DESEMPENHO CARDÍACO
Com o envelhecimento, ocorre
uma redução da performance contráctil do miocárdio. O relaxamento da
musculatura ventricular está comprometido pelo enrijecimento do músculo
cardíaco. A consequência prática é que as altas frequências cardíacas
que ocorrem com o exercício físico, não são bem toleradas. Essa
incapacidade de manter o débito cardíaco com o aumento da frequência
cardíaca pode produzir uma insuficiência cardíaca, que, por sua vez, pode
levar a um aumento da pressão venosa pulmonar. O aumento da pressão venosa
pulmonar poderá acarretar congestão pulmonar passiva de modo que o idoso
poderá sentir falta de ar durante o esforço físico. Essas constatações
podem não ser feitas somente durante o exercício.
A própria imersão em água,
pelos efeitos que ela acarreta através da vasoconstrição periférica e do
consequente deslocamento do volume sanguíneo circulante para a circulação
central, pode levar à insuficiência cardíaca no mergulhador idoso. No
mergulho, o idoso iniciará a resposta à demanda de exercício já com um
certo grau de congestão circulatória e sobrecarga cardíaca.
Outros fatores relacionados à
redução do desempenho cardíaco são: declínio da frequência cardíaca
máxima alcançável, diminuição da resposta às catecolaminas e ao
estímulo do sistema nervoso autonômico, bem como diminuição da
incorporação máxima de oxigênio pelo músculo cardíaco e menor limiar
anaeróbico observado no idoso.
Podemos constatar que o
exercício físico no idoso vai acarretar a necessidade de grandes quantidades
de catecolaminas para ter uma resposta cardíaca adequada. Além disso, a
produção de lactato pode estar bastante aumentada em decorrência de um
menor limiar anaeróbico que o idoso apresenta. Essas alterações poderão
predispor a maior ocorrência de arritmias cardíacas quando o miocárdio for
exigido. Arritmias podem produzir baixo débito cardíaco e uma situação de
intolerância ao exercício pode se transformar num quadro grave de
insuficiência cardíaca com repercussões hemodinâmicas.
Outra consequência prática,
além da incapacidade de responder à demanda do exercício exigida durante o
mergulho, é que a sensação de falta de ar, que pode ocorrer durante o
exercício, pode desencadear uma reação de pânico nos mergulhadores
inexperientes.
SISTEMA CIRCULATÓRIO
Com o avançar da idade, há um
aumento da resistência vascular periférica. Isso decorre da redução da
massa muscular. A diminuição da massa muscular acarreta uma diminuição da
área total da circulação por perda dos canais microvasculares da
circulação terminal. Esse aumento da resistência vascular periférica é
maior em indivíduos hipertensos.
As doenças dos vasos
sanguíneos aumentam com a idade. O leito vascular do idoso pode estar
comprometido por doença arteriosclerótica. Cabe salientar que a
arteriosclerose tem como fatores de risco a pressão alta, o fumo, a
obesidade, o colesterol alto e o diabete mélito. À doença cardiovascular
isquêmica acrescenta-se como fator de risco a utilização de uma dieta com
conteúdo alto de colesterol e gordura saturada, estilo de vida sedentário e
história familiar de doença cardiovascular. Na mulher em pós-menopausa, o
risco de arteriosclerose está aumentado e consequentemente há um risco
aumentado de doença cardiovascular após os 60 anos. Para os homens esse
risco inicia mais cedo. O homem apresenta maior risco de arteriosclerose após
os 50 anos de idade.
Na prática, a esclerose dos
vasos pode afetar o fluxo sanguíneo para órgãos vitais como o cérebro,
coração e a musculatura. Quando ataca o cérebro, aumenta o risco de
acidente vascular cerebral, no coração, o infarto agudo de miocárdio e nos
rins, a insuficiência renal crônica. Acometendo os vasos dos membros
inferiores, provoca claudicação e limita a capacidade de caminhar e realizar
exercícios.
Os idosos, quando expostos ao
esforço da natação e do mergulho, podem apresentar sintomas decorrentes da
má perfusão sanguínea de determinados órgãos. O aumento da demanda de
fluxo sanguíneo ao miocárdio durante o mergulho pode provocar, em idosos
que mergulham doentes, infarto agudo do miocárdio, arritmias graves e mesmo
morte súbita.
PRESSÃO ARTERIAL
Como vimos anteriormente, há
um enrijecimento arterial com o avançar da idade, que pode provocar um
aumento da pressão arterial sistêmica. Além disso, o aumento da pressão
arterial acarreta um aumento da pós-carga cardíaca, que, por sua vez,
provoca uma hipertrofia ventricular cardíaca. Assim, resulta que, no idoso, a
pressão arterial sistêmica tem uma tendência de aumentar aguda e
intensamente em resposta ao exercício. Isso é particularmente observado nos
que já são hipertensos.
Essa resposta pode ser alterada
com programas de treinamento. Os que já se tratam com medicações
anti-hipertensivas, devem ser avaliados individualmente e testados quanto à
resposta da pressão arterial em relação ao exercício. Cabe salientar que
programas de capacitação para melhorar a tolerância ao exercício melhoram
o controle da pressão e diminuem a necessidade de medicamentos
anti-hipertensivos.
DESEMPENHO PULMONAR
Podemos observar que, com a
idade, existe uma maior dificuldade para ventilar. Isso decorre do aumento do
esforço ventilatório por alterações obstrutivas das vias aéreas, do
aumento dos compartimentos pulmonares e da menor sensibilidade ao estímulo
ventilatório do dióxido de carbono. O pulmão do idoso parece ser mais
rígido. Há uma diminuição da elasticidade pulmonar e aumento do tecido
fibroso de sustentação e da resistência do fluxo aéreo. Isso determina
que, no idoso com mais de 70 anos, há uma redução da capacidade vital
pulmonar entre 30 e 50% e um aumento do volume residual em torno de 40 a 50%.
Essas alterações acarretam uma diminuição da oferta de oxigênio para o
consumo. Disso resulta mais estresse físico para realizar esforço em baixo
da água.
Essas alterações produzem
falta de ar com menores cargas de exercício. Os idosos têm maior sensação
de falta de ar e maior suscetibilidade à retenção de gás carbônico. A
capacidade de transporte alveolar de oxigênio está diminuída com a idade.
Essas alterações contribuem para as limitações da capacidade de praticar
exercícios mais intensos.
No idoso podemos observar uma
diminuição do consumo de oxigênio. O consumo máximo de oxigênio diminui
1% por ano de vida. Isso é consequência de uma menor capacidade de
transporte de oxigênio no pulmão associada a uma menor capacidade de
incorporação celular de oxigênio. Além disso, há diminuição do consumo
pela própria diminuição da massa muscular observada no idoso. O resultado
final será que níveis moderados de exercício físico acarretarão mais
estresse cardiovascular e sensação subjetiva de falta de ar. O declínio do
consumo máximo de oxigênio tende a ser maior no idoso sedentário e com o
exercício ele pode ser modificado.
DESEMPENHO DO MÚSCULO ESQUELÉTICO
Influência da idade sobre as
articulações e músculos tem efeito direto na capacidade de realizar
exercícios físicos e na flexibilidade do corpo. A força muscular máxima é
alcançada na terceira década de vida e se mantém até a sexta. Após os 60
anos, há uma diminuição da força muscular de 10 a 15% por década. No
entanto, essa diminuição tem variações individuais de modo que a
performance após uma determinada idade deve ser avaliada individualmente para
cada caso.
No idoso observamos uma
redução da massa muscular. Essa redução decorre não somente da falta de
uma cultura de manutenção de exercícios físicos comumente observada em
nossa sociedade, que tem as mais variadas justificativas, mas também do
aumento da frequência de doenças crônico-degenerativas e alterações do
metabolismo energético observado em quem envelhece.
Além da redução da massa
muscular, observamos a osteoporose. Indivíduos com pobre condicionamento
físico têm mais risco de apresentarem lesões em ossos, tendões e
músculos, quando expostos a esforços físicos ou lesões traumáticas.
Ao contrário do jovem, o idoso
apresenta uma polimerização do colágeno diferente, produzindo um colágeno
mais rígido. O colágeno é a substância que preenche a malha de
sustentação dos vários tecidos e sua polimerização é importante na
mobilidade articular. O colágeno polimerizado do idoso, ao contrário do não
polimerizado do jovem, acarreta maior enrijecimento de ligamentos, tendões e
articulação, produzindo menor mobilidade articular. Essa redução da
mobilidade articular diminui a capacidade do idoso de tolerar a demanda
relacionada ao mergulho. Não havendo comprometimento físico ou neurológico,
com treino e adaptações o idoso pode iniciar ou continuar mergulhando.
No mergulho constantemente
temos de carregar peso, nos deslocar em superfícies irregulares e locais
escorregadios, subir e descer pisos de alturas diferentes. A flexibilidade
reduzida que ocorre com o avançar da idade, limita certos movimentos e põe
em risco a saúde do mergulhador idoso. Lesões articulares, fraturas e mesmo
danos neurológicos podem ocorrer. Isso deve ser particularmente valorizado na
mulher mergulhadora em pós-menopausa. Ela, que apresenta uma tendência
natural a uma progressiva redução da capacidade de sustentação óssea,
está mais exposta a apresentar fraturas no contexto que observamos numa
operação de mergulho. Isso também ocorre no homem, só que numa idade mais
avançada.
ALTERAÇÕES NEUROLÓGICAS
Com a idade, ocorre uma
diminuição dos reflexos e da coordenação fina. No mergulho recreacional
que se pratica habitualmente, isso pode não ter importância, no entanto, em
situações de algum estresse físico, isso se pode tornar relevante.
O mergulhador da "Melhor
Idade" deve realizar uma avaliação neurológica inicial quando vai
começar a mergulhar ou rotineira quando já mergulha, principalmente se
realiza mergulhos além dos nove metros de profundidade. Isso é preconizado,
pois no idoso podemos observar uma lentificação de certas funções
neurológicas como a diminuição do tempo de ações reflexas e uma menor
precisão do controle motor. Essas alterações podem simular achados de
doença descompressiva. Por isso é importante para aqueles que mergulham
além dos nove metros de profundidade e que têm maior probabilidade de
apresentar doença descompressiva, ou seja, no exame físico durante uma
avaliação em que se suspeita de doença descompressiva, podem ser achados
sinais que podem confundir o examinador e induzir a um diagnóstico
equivocado.
ALTERAÇÕES VISUAIS
Com o envelhecimento, ocorre a
presbiopia, que é a vista cansada, ou seja, a deficiência da visão
resultante da diminuição do cristalino pela perda de sua elasticidade, o que
impede de ver com nitidez aquilo que está perto. A presbiopia acarreta
dificuldades na leitura de instrumentos e na obtenção do foco na
realização de fotografias. A presbiopia no mergulho pode ser corrigida
através de lentes na máscara.
ALTERAÇÕES METABÓLICAS
Com o envelhecimento, podemos
observar a intolerância a carboidratos. Metade daqueles acima dos 65 anos de
idade apresenta intolerância à glicose por deficiência de insulina
decorrente de disfunção pancreática resultante do envelhecimento. Além
disso, podemos observar que o idoso tem uma tendência a apresentar episódios
de quedas da glicemia de forma assintomática.
No idoso ocorre também
diminuição da função da tireóide. Isso produz uma diminuição do
metabolismo e resulta em menor tolerância a alterações da temperatura
ambiente. Ele também tem uma diminuição da secreção de corticosteróides
em resposta a um estresse físico.
Essas mudanças metabólicas
têm como consequência uma menor tolerância a variações de temperatura
tanto para o frio como para o calor. De prático, em relação ao mergulho,
podemos observar uma incapacidade de tolerar exercícios intensos e apresentar
mais hipotermia.
TERMORREGULAÇÃO
A capacidade de adaptação à
perda e à produção de calor está afetada, de maneira significativa, no
idoso. A diminuição da capacidade termorreguladora com a idade é uma
alteração que se instala gradualmente. A partir dos 40 anos, ela se torna
bem perceptível.
A exposição a temperaturas
subtérmicas com risco de hipotermia é reconhecidamente um problema do
mergulhador idoso. No idoso ela é potencializada não somente pelas
alterações metabólicas, mas também pelo fato de ele apresentar, em geral,
uma diminuição da gordura subcutânea, usar medicações que afetam a
regulação térmica, apresentando alterações circulatórias e uma
diminuição da sensação térmica de frio. A redução da tolerância
térmica resulta numa menor tolerância ao exercício e aumenta o risco
cardiovascular de insuficiência cardíaca. Em função disso tudo, o
mergulhador idoso deve ter cuidados especiais em relação à proteção
térmica, principalmente em relação às extremidades, usando roupas e
equipamento adequados. Além disso, a sugestão é que o mergulho seja
praticado em águas tépidas.
AVALIANDO O IDOSO QUE VAI
INICIAR O MERGULHO AUTÔNOMO RECREACIONAL OU QUER CONTINUAR MERGULHANDO
Na avaliação do mergulhador
idoso ou do candidato a mergulhador, a idade fisiológica é mais importante
que a cronológica. Embora isso seja um fato, é preconizado que para
mergulhadores acima dos 40 anos de idade seja realizada uma avaliação
clínica completa regular com o objetivo de identificar anormalidades médicas
que podem interferir na segurança do mergulho. Tudo aquilo que é tratado
precocemente, apresenta um melhor prognóstico final em termos de evolução
da doença e uma melhor condição de reabilitação.
Aptidão física é muito
importante para a prática do mergulho autônomo e o mergulhador deve ter
capacidade de nadar na superfície e de entrar e sair de uma embarcação para
mergulhar. O idoso que quer mergulhar ou já mergulha, deve avaliar a sua
capacidade física e tolerância ao exercício. Durante a avaliação médica,
se busca identificar alterações crônico-degenerativas que possam interferir
na prática segura do mergulho. Cabe salientar que muitas doenças
cardiovasculares não têm sido um privilégio do idoso e têm sido observadas
em pessoas jovens, o que reforça a idéia de que a idade não é um
limitante, mas sim as condições físicas de quem quer mergulhar. O mesmo
pode ser aplicado à falta de treino e de tolerância ao exercício.
Ele deve ser avaliado em
relação à presença de cardiopatia isquêmica, doenças vasculares
arterioscleróticas, hipertensão arterial sistêmica, doença bronco-pulmonar
obstrutiva crônica (enfisema e bronquite crônica), intolerância a
carboidratos e diabete mélito, bem como insuficiência renal secundária a
esclerose renal. Em relação à hipertensão, o mais importante é
inventariar se há disfunção cardíaca, principalmente a disfunção
diastólica. O mergulho deve ser desaconselhado àqueles que apresentam
incapacidade de tolerar o exercício ou de treinar por ter qualquer uma das
alterações crônicas citadas.
A avaliação física é sempre
indicada para os homens acima dos 50 anos e para as mulheres acima dos 60
anos. Ela também estará sempre indicada quando se evidenciam sinais e
sintomas de condição física ruim ou se constata um ou mais fatores de risco
de arteriosclerose. Se quiser mergulhar, o candidato, além da avaliação
médica, deverá realizar um teste de esforço.
Testes habitualmente indicados
na avaliação dessas pessoas são os ergométricos, de monitorização
eletrocardiográfica e de monitorização da pressão arterial ambulatorial.
Esses testes, além de diagnosticar doença coronariana, como é o caso do
teste de esforço, servem para documentar a capacidade física e tolerância
ao exercício do indivíduo nesse momento. Numa reavaliação também se podem
evidenciar os progressos em termos de resultados de programas de capacitação
física. O eletrocardiograma durante o exercício máximo está indicado, a
cada 5 anos, após os 40 anos de idade, especialmente se fatores de risco
estão presentes.
A princípio, não há limite
superior de idade para se mergulhar. Isso é particularmente válido para os
mergulhadores experientes que têm um entendimento maduro da atividade de
lazer que praticam. Mergulhadores conscientes têm condições de se adaptarem
às limitações impostas pelo envelhecimento.
CAPACITAÇÃO PARA TOLERÂNCIA
AO EXERCÍCIO COM TREINAMENTO
Embora a capacidade física
diminua com a idade, ainda não está claro o quanto dessa diminuição
decorre do aumento da idade ou da inatividade comum em indivíduos mais
velhos. Observamos, com o envelhecimento, uma diminuição da reserva
fisiológica em relação à tolerância ao exercício. Essa diminuição, em
parte, se deve a fatores genéticos que determinam a forma de envelhecimento
do ser humano e ao desuso. No idoso há um efeito de perda do condicionamento
físico relacionado à redução da atividade física.
Atitudes relacionadas a
preconceitos sobre a realização de determinadas atividades podem provocar
uma redução da expectativa de desempenho em relação a uma atividade
específica e desmotivar a sua realização. Isso, em geral, é estendido a
várias propostas de atividades físicas para o idoso e acaba acarretando a
prática de nenhuma delas. Isso tudo leva a mais desuso do sistema músculo
esquelético.
Atualmente há uma tendência
cultural a aumentar a atividade física de quem envelhece. No entanto, a
maioria não consegue se adaptar às exigências do exercício proposto e logo
se desencoraja a mantê-lo. Por outro lado, alguns não têm vontade de
iniciar exercícios por se acharem com falta de condições clínicas para
tal. Isso tudo, na verdade, decorre de uma lenta e gradual redução da
atividade ao longo da vida. Nesse momento, lamenta-se a falta do hábito
saudável de se exercitar desde a infância.
Podemos observar no idoso um
ciclo vicioso no sentido de piorar a tolerância ao exercício. Associa-se ao
declínio do rendimento cardiovascular uma diminuição da força e da
resistência, além da diminuição do tempo do início da contratura
muscular. Soma-se a isso uma diminuição do reflexo neurológico e
diminuição da estabilidade das articulações para manter a sustentação do
trabalho muscular. São alterações que provocam limitações que acarretam
diminuição da atividade e exercícios físicos. Essa diminuição acaba
acarretando mais diminuição do preparo físico capaz de gerar alguma
reabilitação. Esse ciclo vicioso, por fim, acarreta diminuição da massa
muscular e mais despreparo físico.
Muitas dessas condições
impostas pela idade poderão ser melhoradas através de programas específicos
de treinamento que produzam aumento da resistência física ao exercício. Num
programa de reabilitação do idoso, devemos considerar a diminuição da
capacidade física, o aumento da suscetibilidade a fraturas e uma maior
frequência de alterações vasculares e metabólicas. O treinamento pode
minimizar o declínio da capacidade física da idade. Um programa de
condicionamento físico do idoso é fundamental para o mergulho seguro.
Os exercícios físicos
regulares programados e controlados na "Melhor Idade" promovem
reabilitação. Os exercícios de resistência do idoso levam a uma melhoria
do metabolismo energético do músculo e também reduzem a severidade da
osteoporose. Estudos com atletas mais velhos sugerem que o declínio da
capacidade física decorrente do envelhecimento pode ser diminuído com
treinamento condicionante.
A prática de exercícios
físicos promove a redução do aumento da resistência vascular periférica
observada no idoso. Provavelmente isso ocorre por aumento da massa muscular.
Também ocorrem, com o exercício, alterações do tônus vascular de grandes
artérias que acabam diminuindo a resistência vascular periférica.
Cabe salientar que, num
programa de reabilitação cardiovascular, outras atitudes devem ser adotadas.
Se não podemos modificar fatores de risco como a idade, o gênero e a
história familiar, por outro lado podemos fazer cessar os fatores de risco
modificáveis como o tabagismo, a dieta, o nível sérico de colesterol, a
pressão arterial e o nível de atividade. Se o mergulhador da "Melhor
Idade" é capaz de alcançar uma condição física compatível com a
segurança do mergulho que ele se propõe realizar, então os possíveis
decréscimos da capacidade física de tolerância ao exercício não devem ser
usados contra ele.
DOENÇA DESCOMPRESSIVA E
MERGULHADOR IDOSO
Ocorre mais doença
descompressiva em mergulhadores com mais idade? Parece importante definir se o
mergulho precisa ser mais conservador para evitar doença descompressiva.
Atualmente os dados disponíveis não possibilitam a formulação de uma
resposta adequada a essa questão. Os dados disponíveis não são oriundos de
trabalhos específicos para tratar do tema. Eles decorrem principalmente da
análise de registros de acidentes que são somente relatórios. Estudos
específicos com delineamentos de pesquisa adequados deverão fornecer, no
futuro, resposta à questão.
Como a resposta ainda não
existe, a prudência indica que, com o aumento da idade, devemos ser mais
conservadores, sendo mais restritivos em relação à profundidade e tempos de
fundo indicados nas tabelas de mergulho. O Dr. Edmunds e colaboradores
arbitrariamente recomendam a diminuição do tempo de fundo permitido em 10%
para cada década de vida após os 30 anos.
ANÁLISE DAS FATALIDADES NO
MERGULHO RECREACIONAL E SUA RELAÇÃO COM O ENVELHECIMENTO
Há uma correlação entre
acidentes de mergulho do idoso e exercício intenso. Sem especificar a faixa
etária, foi constatado, na edição de 2004 do Registro de Acidentes de
Mergulho do Divers Alert
Network (DAN) referentes ao ano de 2002, que em torno
de 16% das fatalidades tiveram a doença cardiovascular como causa de morte.
Problemas cardiovasculares continuam sendo a condição clínica mais
comumente associada às fatalidades do mergulho. Sabemos que, apesar de haver
cada vez mais relatos da sua ocorrência abaixo dos 40 anos de idade, elas
têm uma tendência a serem mais frequentes em idades mais avançadas. Uma
parcela dessas fatalidades decorreu de infarto agudo do miocárdio durante o
mergulho. No relato referente aos casos ocorridos em 2002, podemos observar
que, em relação a todos os acidentes de mergulho, eles ocorreram 4 vezes
mais antes dos 50 anos. A maioria dos mergulhadores estava na faixa entre 30 e
59 anos de idade com pico de frequência entre 30 e 39 anos. Logo, outros
fatores estão envolvidos na gênese de acidentes bem mais que as doenças
pré-existentes.
A análise dos relatos de
fatalidades no mergulho recreacional e doença descompressiva não demonstra
que a idade do mergulhador é um fator determinante do aumento da
susceptibilidade à doença descompressiva. O relatório de fatalidades no
mergulho recreacional e incidência de doença descompressiva de 2001
evidenciou que o percentual de acidentes na faixa dos 30 aos 49 anos foi mais
que quatro vezes o percentual de acidentes na faixa etária dos 50 aos 69 anos
de idade. Nos registros referentes aos casos de 2002, dos que apresentaram
doença descompressiva, podemos constatar que 7,2% tinham alguma forma de
doença cardiovascular.
O Divers Alert Network
(DAN) tem em andamento vários estudos relacionados à ocorrência da doença
descompressiva e à sua fisiopatologia. Resultados preliminares de um deles,
utilizando Doppler para detectar êmbolos gasosos venosos no coração de
mergulhadores, evidenciaram que ocorrem 30% mais êmbolos gasosos nos
mergulhadores com 57 anos do que nos com 30 anos de idade. Foi observado
também, como era de se esperar, que havia 20% mais bolhas nos mergulhos aos
37,5 metros quando comparados com os mergulhos aos 16,5 metros. Esse achado é
conflitante com os dados observados no registro de fatalidades de mergulho e
ocorrência de doença descompressiva clinicamente detectável. Talvez a
diferença esteja na atitude dos mergulhadores com mais idade, que
provavelmente mergulham mais conservadoramente e de acordo com suas
condições físicas.
ASPECTOS POSITIVOS DO
ENVELHECIMENTO NA ATITUDE DO MERGULHADOR
Vários são os aspectos
positivos em relação ao envelhecimento e à atividade de mergulho autônomo.
A maior riqueza esperada do mergulhador da "Melhor Idade" é a
capacidade de julgamento mais madura. Ela faz com que o mergulhador tenha mais
prudência e cuidado na escolha dos locais de mergulho e na realização do
plano de mergulho. Com o tempo, aquele que envelhece mergulhando, acumula um
importante conhecimento da prática segura do mergulho, o que acarreta menor
exposição aos riscos da atividade. Além disso, ele também acumula
conhecimento em outras áreas que são indiretamente úteis às compensações
necessárias às limitações físicas que se impõem à pratica do mergulho
seguro à medida que a idade avança. O mergulhador da "Boa Idade"
que mantém sua saúde mental, acaba tendo mais capacidade de improviso na
solução de problemas. Cabe salientar que ele é menos susceptível, no
processo decisório relacionado às atitudes do mergulho, a pressões
relacionadas a fatores sociais, econômicos, de rivalidade, de moda e de ego.
Na Austrália, existe a Sub
Aquatic Geriatric Association (SAGA). Nas culturas, como a australiana,
que têm mergulhadores com os seus 80 anos de idade, o valor social do
mergulho não deve ser subestimado.
CONCLUSÕES SOBRE O MERGULHO NA
"MELHOR IDADE"
É dito que o envelhecimento é
simplesmente um estado de espírito. Mais idade é um fato inevitável e
irreversível. O mergulho é uma atividade de lazer prazerosa e segura à
medida que reconhecemos nossas limitações.
Podemos observar, com a idade,
uma redução na prática de exercícios. Atividade física diminuída
juntamente com a redução da força muscular que é observada no idoso, podem
interferir no mergulho seguro.
Algumas vezes, no mergulho, há
a necessidade de manter de forma continuada uma determinada resposta a uma
demanda de esforço físico. Outras vezes há a necessidade de ter uma força
muscular maior para manter uma carga de exercício. Além disso, é
necessário um sistema ósteo-articular que sustente o trabalho muscular. O
idoso deve escolher um tipo de mergulho compatível com suas condições
físicas.
O idoso que quer mergulhar,
deve ser submetido a uma cuidadosa avaliação clínica baseada na revisão de
sistemas orgânicos, nos antecedentes mórbidos pregressos e no exame físico.
Alguns exames podem ser indicados de acordo com a avaliação clínica. Sempre
é indicado o teste de esforço controlado e com monitorização
eletrocardiográfica. A pressão arterial deve ser medida e controlada
sistematicamente.
Os idosos não devem ser
considerados tão aptos quanto os jovens. O mergulho é possível desde que
doenças agudas ou crônicas não excluam a atividade física. Se o candidato
apresenta boa forma cardiovascular, pratica exercícios físicos regularmente,
não está acima de 20% do seu peso ideal e não apresenta doença
incapacitante, ele não deve parar de mergulhar.
Idoso que apresenta saúde e
está moderadamente condicionado às demandas que exercícios físicos
requerem para a prática segura do mergulho autônomo, pode ser liberado para
o mergulho recreacional.
O idoso que mergulha, deve,
então, ser considerado na sua totalidade. Não podemos somente considerar
isoladamente o desempenho e a eficiência de um órgão ou sistema. Devemos
considerar esse mergulhador como quem envelheceu e tem suas limitações.
Essas devem deixar de ser restrições e ser incluídas na proposta de uma
atividade de lazer que deve dar prazer ao praticante, tornando o mergulho
adaptado. Nunca podemos nos esquecer de que a sabedoria aumenta com a idade e
é fundamentalmente necessária à prática do mergulho seguro. Além dos 60
anos, deve ser limitado o mergulho a profundidades menores, reduzido o tempo
total de fundo e o número total de mergulhos num dia, escolhido quando
mergulhar e com quem mergulhar, evitando grandes nados na superfície ou o
mergulho contra a correnteza.
MERGULHO AUTÔNOMO RECREACIONAL
E "A MENOR IDADE"
Em países em que há uma maior
população de mergulhadores e uma cultura de mergulho bem desenvolvida, os
questionamentos relacionados aos limites inferiores de idade para poder
iniciar a mergulhar e ter uma certificação são mais frequentes. Nos locais
onde o mergulho é muito praticado, tanto pais querem que seus filhos possam
mergulhar quanto crianças querem saber se podem iniciar a mergulhar. No
Brasil, esses questionamentos também ocorrem, mas numa frequência bem
menor. Provavelmente isso esteja relacionado com o fato de termos uma
população menor de mergulhadores, que, por sua vez, é proporcional às
condições do mergulho. A prática do mergulho está relacionada com as
condições ambientais, o acesso aos locais de mergulho, a qualidade do local
de mergulho e a infra-estrutura das operadoras e hotéis que se apresentam ao
mergulhador. Esses fatores dependem das condições econômicas e culturais
que temos no Brasil.
Cada vez mais, temos lido, nas
revistas de mergulho, várias matérias sobre cursos ou programas de
aprendizado de mergulho para crianças oferecidos pelas certificadoras de
mergulho, novos produtos de turismo subaquático envolvendo famílias com
programações de mergulho para crianças em hotéis e ações de
preservação da natureza realizadas por organizações ecológicas envolvendo
mergulho e preservação ambiental. As crianças, em certos países,
tornaram-se um novo mercado para a indústria do mergulho, que envolve desde a
fabricação de equipamentos, certificação, turismo subaquático até a
venda de seguros de vida e tratamento de acidentes de mergulho.
ASPECTOS GERAIS
Médicos e instrutores devem
ter um conhecimento bem claro da natureza da atividade e de seus riscos à
integridade física e psicológica quando liberam uma criança para mergulhar.
A criança geralmente encara a atividade de maneira lúdica, como se fosse
mais uma atividade prazerosa. Também é importante ter claro que é usado um
equipamento e que tanto seu mau uso como seu mau funcionamento podem provocar
acidentes. Além disso, é necessário compreender a natureza do ambiente
subaquático, que é um ambiente hiperbárico. Viver temporariamente num
ambiente hiperbárico tem suas implicações na saúde do ser humano.
Mergulhar não é brincar num parque de diversões e, mesmo num parque de
diversões, são inúmeras as possibilidades de haver acidente.
Os pais devem ter um
entendimento da natureza da atividade. Para eles devem ser informados todos os
riscos. Deve ficar claro para o avaliador que o desejo da criança de realizar
o aprendizado não é somente o desejo dos pais.
CRIANÇAS E ATIVIDADES
ESPORTIVAS
Quando queremos escolher uma
atividade esportiva ou de lazer para as crianças, devemos entender o conjunto
da atividade, nossos objetivos, os objetivos da atividade e seus riscos. A
participação de esportes organizados oferece não somente oportunidade para
aumentar a atividade física, mas também a oportunidade de desenvolver
conhecimentos do corpo e o funcionamento social. Identificamos negação dos
aspectos positivos da participação de determinados esportes, quando suas
demandas excedem a maturidade e a presteza de realizar a atividade proposta.
Além disso, há a preocupação com a questão da real natureza do
envolvimento dos pais na prática da atividade. A natureza do envolvimento dos
pais influencia o quanto a participação de determinado esporte será uma
experiência positiva para a criança que irá praticá-lo.
Pediatras, psicólogos e
educadores ainda não chegaram a um consenso para determinar o momento ideal
para crianças iniciarem a participação de muitas atividades. Ainda não se
identificaram estratégias seguras e efetivas para o crescimento e
desenvolvimento de atletas nem para a formulação de programas específicos
para instrutores de crianças. E, finalmente, não se tem claro o
desenvolvimento efetivo de estratégias de prevenção de danos em
determinadas atividades. Dessa maneira, podemos concluir que, se em termos
educacionais gerais não há consenso para questões importantes sobre
atividades esportivas e crianças, tanto mais não existe para o caso de o
mergulho autônomo recreacional ser praticado por crianças. Atualmente não
há posição clara para todos os questionamentos possíveis.
Mergulhadores jovens devem ter
condições de aprendizado para um claro entendimento da fisiologia do
mergulho, do conhecimento de física aplicado ao mergulho e do ambiente
subaquático. Esse aprendizado é fundamental para realizar um mergulho
seguro. Além disso, eles têm de ter maturidade emocional e força física
para utilizar o equipamento de mergulho.
É muito provável que algumas
pessoas com menos de 16 anos de idade não apresentem maturidade suficiente
para aprender a mergulhar e a opinião de um médico experiente através de
uma avaliação criteriosa pode postergar a certificação até o
amadurecimento ou a maioridade. Por outro lado, sabemos que existem crianças
menores de 16 anos que apresentam condições de realizar um curso de mergulho
bem estruturado e individualizado numa piscina, praticando mergulho em águas
abertas acompanhadas individualmente de um instrutor dedicado a esse tipo de
mergulho. No entanto, sabemos que usar equipamento de mergulho em piscina tem
a sua morbidade. A criança mais nova a morrer mergulhando com equipamento de
mergulho de respiração autônoma tinha 7 anos de idade. Também cabe
salientar que existem muitos acidentes de mergulho com mortes documentadas
cujas vítimas tinham entre 10 e 15 anos.
Para candidatos a mergulhadores
muito jovens talvez o mais prudente seja investir no ensino de conhecimentos
básicos de mergulho livre e snorkeling, bem como de ecologia. Essa
atitude serviria para criar habilidades básicas necessárias para a posterior
certificação no mergulho autônomo recreacional.
NORMATIZAÇÃO VIGENTE
As agências de instrutores,
certificadoras do mergulho autônomo recreacional estão com uma série de
programas relacionados com o ensino de mergulho voltada para a população
muito jovem que vai desde o mergulho livre em apnéia até o autônomo. Muitos
programas de mergulho livre envolvem crianças de até mesmo 8 anos de idade.
O quanto essas crianças podem realizar no mergulho autônomo recreacional é
assunto polêmico e discutiremos a seguir.
No Brasil, somente existe
normatização em relação ao mergulho profissional, não há exigências
formais legais em relação a operadoras de turismo subaquático ou
certificadoras de mergulho autônomo recreacional. As diretorias de
representantes brasileiras geralmente adotam posições de acordo com as de
certificadoras internacionais originais. Há um verdadeiro vazio legal no
Brasil e uma prática ética ainda não amadurecida. Nesse contexto é fácil,
por desconhecimento, a sujeição ao paradigma comercial e empresarial. Num
mundo onde tudo é fácil e moderno, há uma facilidade em banalizar os riscos
de várias atividades esportivas e de lazer.
Exemplo de pressão por
paradigma comercial e empresarial é o que ocorre na Austrália. O comitê de
padronização médica para o mergulho autônomo recreacional da South
Pacific Underwater Medicine Society (SPUMS) determinou a idade mínima de
16 anos para treinamento nessa atividade, enquanto a Australian Standards
editou a norma AS 4005-1 de 1992, que vige até hoje, determinando a idade
mínima de 14 anos. Na verdade, a norma é mais permissiva, colocando que o
candidato deve ter, pelo menos, 14 anos de idade, mas pessoas mais jovens, em
alguns casos, poderiam ser escolhidas a treinar para uma certificação
condicional. A certificação condicional permite que a pessoa mais jovem
mergulhe com um mergulhador certificado desde que tenha o consentimento dos
pais ou responsável legal.
A Australian Standards
é baseada na decisão de um grupo multiprofissional com representação
minoritária da sociedade médica em relação aos representantes da
indústria e de organizações de certificadoras de mergulho recreacional. É
bem evidente que esse grupo heterogêneo de representantes tem motivações
diferentes. Além disso, neste assunto específico deveria ser ouvida a
opinião de pediatras e psicólogos infantis.
Tanto as motivações são
diferentes que a própria sociedade australiana lida com um problema
semelhante de duas maneiras distintas. É o caso da Associação Australiana
de Salva-Vidas, que não permite que pessoas assumam a responsabilidade de
salva-vidas antes de 16 anos. Caso assumam antes dos 18 anos, devem fazê-lo
sob a responsabilidade de um líder patrulha com 18 anos ou mais. A Sociedade
Médica Australiana envolvida em assuntos do mergulho autônomo, que está
mais interessada nas questões de segurança, orienta que a idade mínima é
16 anos e deve haver o registro na forma de consentimento informado dos pais
para aqueles com idade entre 16 e 18 anos.
A utilização de um
consentimento informado é temerária, pois todos sabemos que uma criança
não é madura o suficiente para realizar o consentimento informado. Nem é
claro se ele terá um sentido legal para proteger médicos e instrutores. Essa
preocupação vem da identificação do fato de que a motivação é tão
grande para realizar o aprendizado ou utilizar o equipamento que a criança ou
seus pais darão um jeito de obter o mergulho. Sendo assim, que uma criança
tenha, pelo menos, uma formação adequada com instrutores preparados e
qualificados.
O Dr. Carl Edmonds coloca que
é inadequado aceitar um jovem condicionalmente qualificado mergulhar com
outro mergulhador que pode ser igualmente inexperiente. Por analogia, ele
questiona se pessoas de 12 a 14 anos de idade teriam condições de pilotar um
avião ? Dirigir um carro ? Tomar decisões financeiras ? Serem legalmente
responsáveis por decisões tomadas ? Realizar julgamentos médicos
relacionados a problemas de saúde? Assumir decisões que envolvam risco de
vida para elas ou outros? Ele coloca que, se é aceito que nesses casos haja
restrição, então seria interessante comparar as funções em relação às
respostas das questões anteriores com a de uma pessoa da mesma idade ser
certificada ou liberada para mergulhar.
Nos Estados Unidos, o Recreacional
Scuba Training Council determinou a idade mínima de 15 anos para
certificação de treinamento em mergulho autônomo recreacional.
AS NOVAS PROPOSTAS
Nos dois últimos anos, temos
observado, no material de divulgação e nos relatos de quem participou do Diving
Equipament and Marketing Association (DEMA), uma grande quantidade de
programas e equipamentos destinados às crianças. Parece claro que o mergulho
deixou de ser uma atividade restrita ao mundo masculino e passou a ser uma
atividade familiar. Não podemos negar que uma abordagem do mergulho orientado
para a família garante melhor crescimento e saúde para o mergulho autônomo
recreacional.
A indústria do mergulho está
tomando uma atitude que logo mais forçará uma redefinição das normas
atuais vigentes em certos países. Atualmente algumas agências têm
certificado mergulhadores juniores com idades abaixo dos 12 anos, mais
especificamente aqueles que alcançam 10 anos de idade.
Na literatura médica,
observamos opiniões variadas. É mais fácil limitar uma atividade do que se
envolver num processo educacional sujeito à reavaliação e correção de
rumos. Vários especialistas de medicina do mergulho, de respeitabilidade
internacional, apresentam uma posição firme de limitar definitivamente,
estipulando um limite de idade. São profissionais com consagrada experiência
no tratamento de acidentes de mergulho. No entanto, atualmente temos observado
uma nova posição tomada por entidades de grande respeitabilidade na medicina
do mergulho, como é o caso da Divers Alert Network (DAN).
A DAN, revendo conceitos, que
é sua característica peculiar, tem a posição de que o único dado
incontestável da pesquisa médica para estabelecer uma idade mínima para o
mergulho é o relativo à maturidade pulmonar. Existe a probabilidade de uma
maior possibilidade de barotrauma em crianças pré-puberais, especialmente
abaixo dos 10 anos de idade. Além disso, coloca que não há informação
suficiente para realizar qualquer julgamento médico contra crianças se
envolverem em mergulho a partir de dados provenientes da medicina baseada em
evidências simplesmente por não existir experiência documentada. A
posição atual da entidade é que qualquer recomendação estará baseada em
considerações teóricas levando em conta o que se sabe atualmente sobre o
crescimento e desenvolvimento normal e na evidência empírica que existe
sobre crianças menores de 12 anos que mergulharam.
A organização também coloca
que, à medida que mais crianças com menos de 12 anos se envolverem com
mergulho, mais dados se acumularão para que se defina uma posição mais bem
fundamentada. No entanto, esses dados prospectivos, para terem valor
científico, deverão ser coletados através de protocolos experimentais com
delineamentos de pesquisa bem elaborados. Atualmente eles não existem.
Mesmo assim, na literatura
médica, podemos encontrar relatada a experiência bem sucedida de um programa
de treinamento para mergulho autônomo recreacional, na década de 80, para
crianças entre 4 e 12 anos de idade. Nesse relato há o registro de terem
sido realizados, sem problemas, por crianças mais de 7000 mergulhos
supervisionados.
EQUIPAMENTO ESPECÍFICO
Para que seja ensinado snorkeling
e mergulho é necessário equipamento adequado para o mergulho seguro.
Equipamentos que vestem mal, não são somente desconfortáveis, mas também
incapazes de promover a segurança do mergulho. Roupas largas que vestem mal,
não têm função e permitem que a criança logo fique hipotérmica. A
hipotermia afetará sua capacidade de julgamento e atrapalhará seu desempenho
motor. O mesmo ocorre com máscaras, tubo respirador, coletes equilibradores,
reguladores e cilindros de mergulho, que acabarão funcionando mal. O
equipamento deve ser especificamente desenhado para o desempenho da natação
equipada da criança. Crianças não são adultos pequenos.
ASPECTOS PSICÓGICOS
Muitos profissionais da área
médica colocam que as crianças, em geral, não têm maturidade emocional e
segurança para manejar situações de emergência. Durante o mergulho, uma
criança pode ficar sem ar, separar-se da sua dupla de mergulho, prender-se em
redes, enroscar-se com linhas, mesmo ser arrastada por forte correnteza ou o
seu equipamento pode apresentar uma falha de funcionamento. Essas situações,
que elas poderão ter de enfrentar, podem provocar pânico. Mergulhadores em
pânico geralmente realizam subidas de emergência. Das subidas de emergência
podem surgir situações de risco de vida como o barotraumas, embolia
traumática pelo ar e mesmo a doença descompressiva, dependendo do perfil do
mergulho.
Mergulhar não é uma atividade
baseada somente na capacidade física nem na inteligência. O mergulhador deve
ser autoconfiante, conhecedor das suas limitações, manter uma coerência
entre o que pensa e faz e ter um grande senso de responsabilidade, pois é
responsável pela segurança e salvamento de outros mergulhadores. Fazer um
plano de mergulho, saber usar um equipamento e diagnosticar sua falha durante
um mergulho, mergulhar em determinada condição ambiental são processos
decisórios que requerem amadurecimento. Somente a inteligência não fornece
as condições de decidir no mergulho. Nele os processos decisórios dependem
mais de experiência. A capacidade de julgamento vem com a idade. As
crianças, durante os cursos de mergulho, têm dificuldades de aprender o
conteúdo teórico e mais ainda de aplicá-lo. A falta de maturidade
psicológica é o que torna uma criança uma criança e pode ser a razão
principal de não receber uma certificação de mergulhador autônomo em
águas abertas.
Quando falamos em crianças
mergulhando, dirigimos mais a atenção aos adolescentes e pré-adolescentes,
que estão num período difícil de amadurecimento. Em detrimento da
maturidade psicológica, eles apresentam um vigor e resistência física
considerável. No entanto, a perseverança é uma característica que se
desenvolve com a idade. Além disso, provavelmente, poucos apresentaram
experiências relacionadas às doenças e ao adoecer, o que reforça o
sentimento infantil de que nada poderá lhes acontecer. Crianças não têm um
sentimento claro e bem definido sobre doenças, acidentes e a própria morte,
como os adultos. As crianças estão mais preocupadas com gratificações
imediatas e não são boas planejadoras do futuro. Abortar um mergulho é uma
tarefa difícil para uma pessoa imatura, principalmente havendo, por trás do
planejamento de mergulho, todo um envolvimento prévio que consumiu tempo e
criou expectativas. Além disso, elas são mais apegadas aos comprometimentos
financeiros envolvidos na elaboração do planejamento do mergulho sem pensar
previamente nos riscos da não ocorrência do planejado.
As crianças amadurecem
lentamente até chegarem à independência psicológica e passarem a reagir
com responsabilidade e maturidade. Frente a um problema, a primeira
manifestação é largar tudo e exteriorizar as mais variadas reações para
receber assistência de um adulto. Elas apresentam uma propensão a reações
de ansiedade aguda com descontrole emocional, que, apesar de rápidas, nem
sempre são adequadas. Pela inexperiência, apresentam um imaginário rico,
que as torna muito susceptíveis ao medo e horror.
Por não apresentarem um
amadurecimento em relação ao convívio humano, as crianças são facilmente
sugestionáveis e ficam impressionadas facilmente. Isso as torna mais
influenciáveis aos preconceitos dos outros e a receber decisões prontas.
Elas têm muita dificuldade de definir o que são capazes de realizar por si
próprias. Aqui cabe um questionamento: Até que ponto a motivação para
mergulhar é um sentimento genuíno da própria criança? As crianças podem
ser diretamente encorajadas, motivadas e até mesmo intimidadas pelos seus
pais ou qualquer outra figura importante em termos de formação de
identidade, que vêem o mergulho como uma paixão. Elas podem acabar querendo
mergulhar para satisfazer o desejo dos pais, para impressioná-los ou mesmo
para ganhar atenção, motivos que não são consistentes para poder
mergulhar.
ASPECTOS FISIOLÓGICOS
Alguns aspectos da estrutura
orgânica da criança devem ser considerados no mergulho. Além de destacar a
necessidade de força física para utilizar o equipamento de mergulho, outras
considerações devem ser feitas. Em geral, as crianças apresentam uma massa
corporal e uma área de superfície corporal total menores que os adultos.
Esses dois fatores acarretam um menor volume de distribuição e uma relação
de superfície e área com a massa corporal maior. Essas características
acarretam perigos aumentados, pelo menos teóricos, em relação a certas
possibilidades de ocorrências no mergulho do tipo intoxicação por gases,
maior carga tóxica de venenos de animais marinhos, barotraumas e hipotermia.
CONTROLE TÉRMICO
A hipotermia ocorre mais
frequentemente em crianças. Elas aparentemente parecem suportá-la mais.
Isso é evidente à medida que podemos observá-las com tremores e mesmo
cianose de extremidades decorrente da intensa vasoconstrição periférica
após muito tempo na água. Apesar desses sinais, geralmente, elas não sabem
a hora de sair da água.
Crianças podem apresentar
rápida perda de calor devido à maior área de superfície corpórea
relacionada com a taxa metabólica. Além disso, elas apresentam uma menor
sensibilidade para a percepção da redução da temperatura corporal. A soma
desses dois fatores as torna mais susceptíveis a apresentar hipotermia
durante o mergulho.
A proteção térmica é uma
necessidade importante para crianças que realizam atividades aquáticas. Se a
estatura é baixa, a superfície corporal é maior em relação ao volume.
Segundo o antropólogo Luca Cavalli-Sforza é uma questão matemática. Por
exemplo, em termos matemáticos, enquanto um cubo com 1 cm de comprimento tem
1 cm³ de volume, 1 cm² de área de superfície de uma face e uma área total
de superfície de 6 cm² com uma razão superfície/volume de 6:1, um cubo de
2 cm de comprimento tem 8 cm³ de volume, 4 cm² de área de superfície de
uma face e uma área total de superfície de 24 cm² com uma razão
superfície/volume de 3:1. Portanto, se um cubo tiver um centímetro de lado e
outro o dobro, a superfície do primeiro será um quarto da do segundo, mas
seu volume será oito vezes menor. O calor é produzido no interior do corpo e
dispersa-se pela superfície. Se o corpo for menor, a superfície será
relativamente maior e o calor irá dissipar-se mais facilmente, causando um
resfriamento mais eficiente.
ASPECTOS CARDIOLÓGICOS
Algumas crianças apresentam
arritmias durante o mergulho, principalmente no mergulho em águas frias.
Foram observadas em crianças tanto arritmias de alta como de baixa
frequência, quando imersas em água. Exposição a águas muito frias podem
induzir a intensas bradicardias, que podem provocar perda de consciência.
Crianças com história de síncope e palpitações, bem como com história
familiar de morte súbita, devem ser avaliadas do ponto de vista cardiológico
antes de realizar qualquer atividade esportiva extenuante. Ninguém está
autorizado a iniciar treinamento em mergulho autônomo antes de esclarecer o
problema.
ASPECTOS RELACIONADOS AO PREPARO E AO ESFORÇO FÍSICO
As crianças apresentam muita
disposição e uma capacidade física de resposta a demandas de maneira
súbita e rápida, como as que se configuram em situações de urgência. No
entanto, muitas vezes, lhes falta força pela sua pequena compleição física
e podem passar a apresentar dificuldades de auxiliar um mergulhador que é sua
dupla. Além disso, as crianças, como foi falado anteriormente, não têm
condições de manter um esforço prolongado. Porém, apesar de elas
apresentarem menos força e resistência do que os adultos, não há nenhum
estudo comprovando que elas são incapazes de lidar com emergências, nadar
contra correntes, embarcar e desembarcar em situações com condições de
água difíceis.
INTOXICAÇÃO POR OXIGÊNIO
A experiência clínica da
oxigenioterapia hiperbárica não demonstra diferenças relacionadas à
toxicidade pulmonar e do sistema nervoso central para crianças com menos de8
anos de idade em relação à exposição ao oxigênio em altas pressões
parciais. Dados experimentais com modelos animais relatam que a toxicidade
pulmonar é diferente entre espécies e que, dependendo das circunstâncias, a
imaturidade, em algumas situações, pode ser protetora e, em outras, não.
BAROUTRAUMAS
Em relação aos barotraumas,
podemos colocar que, pelo menos teoricamente, as crianças, por apresentarem
vias aéreas, trompas de Eustáquio e óstios dos seios das faces mais
estreitos, apresentam maior predisposição a barotraumas. É muito comum
observarmos crianças com dificuldades de compensar ou se queixarem de dor
quando sobem uma serra ou voam de avião. Até a idade de 8 anos, a trompa de
Eustáquio, que é responsável pela compensação de pressão no ouvido
médio, é mais tortuosa quando comparada com a de adultos. Isso, em parte,
explica por que infecções no ouvido médio são mais comuns em crianças do
que em adultos.
O mergulho deve ser
contra-indicado para aqueles que apresentam tubos de timpanostomia. Essa
proibição se deve ao maior risco de os portadores de tubos de timpanostomia
apresentarem otite média.
Crianças com 8 anos ou menos
têm um risco teórico aumentado de apresentarem barotrauma torácico. Até a
idade de 8 anos, os alvéolos pulmonares ainda estão se multiplicando, a
elasticidade pulmonar está diminuída e a complacência pulmonar está
aumentada. Esses são fatores que as fazem ter maior predisposição a
apresentar barotrauma. No entanto, não há nada publicado na literatura que
comprove isso. Apesar de não haver uma observação científica que reforce
essa possibilidade, as certificadoras que oferecem cursos para crianças,
deixaram o limite mínimo de idade para o mergulho mais perto do início da
puberdade. Pela variação de taxas de crescimento e de maturidade, acabaram
limitando a idade mínima em 10 anos.
Também devemos considerar que
um barotrauma pode ser um fator causal de doença descompressiva. Quando há
um processo de lesão que acarreta um barotrauma, o mergulhador pode querer
interromper o mergulho e realizar uma manobra de subida. Manobras de subida de
urgência podem acarretar doença descompressiva por aumento da velocidade de
subida ou omissão de paradas descompressivas. No caso das crianças é
difícil controlar situações como essa e, muitas vezes, isso pode fugir da
atenção do outro participante da dupla.
DOENÇA DESCOMPRESSIVA
Não há estudos que evidenciem
que há uma incidência maior de êmbolos gasosos venosos pós-mergulho em
crianças, quando comparadas com adultos. Também não há nenhum dado
publicado de que crianças são mais susceptíveis a doença descompressiva
que adultos. Apesar disso, as certificadoras que têm programas para
crianças, impõem limites com restrições de profundidade e tempo de fundo
para o mergulho realizado por elas.
Talvez uma consideração tão
importante quanto essa é a dimensão dos danos que uma embolia pode provocar
numa criança proporcionalmente ao que é capaz de provocar num adulto, caso
ela venha a ter uma doença descompressiva grave. Parece que as bolhas, para
um mesmo grau de formação, podem produzir mais danos nos órgãos-alvo de
crianças do que nos de adultos. No entanto, não há estudos que evidenciem
esse tipo de observação.
DOENÇA ÓSSEAD E ALTERAÇÕES NO CRESCIMENTO
Até os 18 anos de idade, os
ossos longos crescem continuamente a partir das epífises. As epífises são
estruturas de crescimento, constituídas quase que somente de cartilagem, que
têm grande metabolismo celular, que não têm suprimento sanguíneo, que se
nutrem por difusão de substâncias a partir de estruturas adjacentes e que
estão localizadas nas extremidades dos ossos longos. Se essas estruturas
forem lesadas, haverá crescimento ósseo anormal.
Por muito tempo, era
contra-indicado o mergulho para crianças ou limitado a 9 metros, pois se
acreditava que doença descompressiva ou osteonecrose disbárica poderiam
influenciar o seu crescimento ósseo. Provavelmente essa hipótese tenha se
originado numa época em que se realizavam estudos experimentais de doença
descompressiva e osteonecrose disbárica em animais jovens. Esses estudos não
evidenciaram influência sobre o crescimento ósseo em animais jovens. No
entanto, parece que a simples possibilidade de ocorrência e o conhecimento
limitado em termos de provas em contrário em seres humanos tenham gerado a
limitação de profundidade.
As articulações podem ser
afetadas em doença descompressiva, bem como osteonecrose disbárica tem sido
descrita como consequência de mergulhos descompressivos limítrofes e de
mergulhos de saturação. O local específico do comprometimento articular e o
envolvimento ou não da epífise óssea ainda não estão bem claros até o
presente momento. Não há dados disponíveis para afirmar que as crianças
são mais suscetíveis ao comprometimento das epífises por doença
descompressiva, quando comparadas com adultos. Atualmente está descrito que
mergulhadores autônomos recreacionais podem ocasionalmente desenvolver
osteonecrose. Portanto, é prudente para crianças limitações de tempo e
profundidade. Mergulhos mais curtos e rasos afastam a possibilidade de dano
ósseo a longo prazo.
FORÂMEN OVAL PATENTE
Pessoas de menor idade podem
ainda apresentar forâmen oval patente. Em crianças e também em adultos, o
forâmen oval, uma comunicação entre cavidade atrial cardíaca direita e
esquerda, pode não estar fechado e fechar mais tardiamente. Bolhas gasosas
podem estar presentes no leito sanguíneo venoso após subida a partir de
profundidades tão baixas quanto 3 metros. Habitualmente os pulmões são
filtros competentes para essas bolhas e elas acabam não entrando na
circulação arterial. O forâmen oval patente torna-se uma via de
comunicação entre as duas circulações, possibilitando o acesso de bolhas
venosas à circulação arterial terminal no sistema nervoso central. Isso,
por si só, é um fator de risco a mais para doença descompressiva com
manifestações neurológicas graves. Um forâmen oval patente ou outra
comunicação direita-esquerda cardíaca como uma via de arterialização de
bolhas venosas está presente em 10 a 30% da população geral. Existe uma
sugestão de que há uma incidência aumentada de forâmen oval patente nas
pessoas com menos de 20 anos de idade. Mergulhadores com forâmen oval patente
têm maior risco de apresentar formas graves de doença descompressiva.
ASMA
Devemos salientar que a asma
ocorre mais em crianças e no final da adolescência. Fatores de risco que
podem provocar asma, como o frio e o exercício, estão presentes no mergulho.
A aspiração de água salgada é um fator de risco adicional específico na
situação de mergulho. A reação da criança a um ataque de asma em baixo da
água pode resultar em pânico e aumentar o risco de barotraumas ou outras
complicações.
AVALIANDO O MERGULHADOR JOVEM
A avaliação do candidato a
mergulhador que é jovem é semelhante à de todos o candidatos. O preparo
físico geralmente é menos considerado no jovem. No entanto, ele também deve
ser avaliado, pois é comum encontrarmos jovens obesos e sem preparo físico
na sociedade contemporânea. Jovens mergulhadores que apresentam pouco preparo
físico, têm um risco maior de acidentes de mergulho. Na avaliação do
potencial do mergulhador jovem, preconiza-se que ele apresente no mínimo 45
kg de peso e 150 cm de altura. Isso é requerido em função do esforço
físico necessário para se equipar, entrar, mergulhar e sair da água.
A maior consideração a ser
feita diz respeito à percepção do avaliador da capacidade do candidato a
mergulhador jovem de aprender e entender a necessária física e fisiologia do
mergulho. Além disso, deve ser evidenciada a maturidade suficiente para
mergulhar de maneira segura.
COMO MERGULHAR COM MENOS IDADE
Não há como impedir que se
mergulhe no Brasil com qualquer idade. Parece claro que, quando uma
certificadora emite um certificado, ela está assumindo alguma relação com
quem ela certificou, pelo menos, no campo ético e moral. No Brasil, não há
legislação em relação ao mergulho autônomo recreacional. Provavelmente
nas condições em que ele é praticado e pela baixa prevalência de acidentes
em relação às dimensões geográficas do Brasil, ainda não se tornou uma
preocupação em termos de saúde pública. Não temos estatísticas
específicas de acidentes de mergulho no Brasil. Em países com uma cultura
relacionada ao mergulho, as responsabilidades legais dos envolvidos numa
atividade com riscos de desenvolver doenças relacionadas com a sua prática
são estabelecidas no sentido de diferenciar incidentes de acidentes onde haja
violações que envolvam negligência, imperícia ou imprudência. É por isso
que muitos países têm normatizações específicas envolvendo o mergulho
amador. Mesmo nos países onde há uma grande experiência com o mergulho,
não são bem claros os limites de idade. Além disso, atualmente podemos
assistir a uma mudança de posições.
Por outro lado, todos sabemos
que na vida não há como se definirem limites cronológicos, o que vale é o
bom senso. E tanto na medicina como no mergulho, o bom senso sempre é
necessário. O bom senso frente a uma forte pressão por candidatos muito
jovens ao aprendizado do mergulho autônomo nos diz que podemos ser mais
permissivos nas seguintes condições: quando os candidatos apresentam
condições médicas para a prática; quando querem mergulhar de forma
autêntica, sem a pressão dos pais ou amigos; quando são treinados por
instrutor responsável e qualificado, com o qual mergulharão e este terá
controle total e pessoal, sendo sugerida uma linha de contato entre as duplas
para se evitarem subidas descontroladas; quando o mergulho é realizado em
local com condições ambientais adequadas e totalmente controlado; quando o
mergulho é limitado à profundidade menor do que 9 metros. Cabe destacar, em
relação ao último item, que, apesar de a limitação de 9 metros não
prevenir a ocorrência de embolia gasosa arterial ou qualquer outro tipo de
barotrauma, vai prevenir a ocorrência de doença descompressiva.
Parece ser uma
irresponsabilidade liberar crianças muito jovens para mergulhar. É difícil
impor limites de idade cronológica, pois seres humanos com comportamentos
infantis existem em todas as idades, bem como pessoas amadurecidas
precocemente por necessidades decorrentes de um contexto social. No entanto,
num país onde não há legislação específica, o fornecimento de um
certificado de mergulho para pessoas antes da maior idade para que possam
assumir suas responsabilidades civis é temerária. O médico e o instrutor
devem refletir muito sobre seu papel em relação à responsabilidade sobre os
candidatos a mergulhadores autônomos e sobre seu envolvimento numa atividade
de risco e ter consciência das pressões mercadológicas que envolvem a
indústria do mergulho recreacional. Além disso, devem ser consideradas as
condições de segurança do mergulho praticado em nosso país. Também deve
ser considerada a capacidade de tratamento das doenças relacionadas ao
mergulho e sua infra-estrutura, desde a capacitação de profissionais
conhecedores do assunto até os recursos materiais, desde a disponibilidade de
uma unidade hospitalar de referência até uma câmara hiperbárica para
realizar tratamento de doença descompressiva e embolia traumática pelo ar.
Somam-se a isso as limitações decorrentes da necessidade de tratamento
pediátrico específico.
CONCLUSÕES SOBRE O MERGULHO E
A "MENOR IDADE"
Questiona-se muito a segurança
de expor indivíduos com pouca idade, que não apresentam um amadurecimento
psicológico e orgânico, a riscos maiores de apresentarem doenças durante a
prática de uma atividade de lazer como barotraumas, embolia aérea por gás e
doença descompressiva. Em pessoas de pouca idade essas lesões podem ser
piores, pois pode haver mais danos por não terem completado seu crescimento
orgânico. Essa é a posição clássica da medicina do mergulho.
O mergulho nos últimos anos
deixou de ser uma atividade restritiva a homens e se tornou uma atividade de
lazer prazerosa que envolve toda a família. A indústria do mergulho tem
optado por uma abordadagem baseada na família mergulhadora, pois entende que
isso é mais saudável para o crescimento da atividade. Várias organizações
no mundo todo estão incorporando essa idéia e reavaliando critérios. Uma
idéia clara, bem definida, definitiva, fundamentada na medicina e baseada em
evidências científicas ainda não está disponível. Estudos prospectivos
são necessários.
Existe a posição de muitos
médicos consagrados e com grande experiência em mergulho e, até onde se
sabe, isenta. Muitos limitam a idade mínima em 16 anos para se praticar o
mergulho autônomo recreacional. Existem também as normatizações em muitos
países, que são fruto de consenso e devem ser seguidas. Existem também
interesses econômicos da indústria do mergulho no mercado que as crianças
constituem. E existe o bom senso.
Ainda assim parece claro que a
prática deverá seguir critérios rigorosos de avaliação individual dos
candidatos baseada numa ética de proteção que se oponha a paradigmas
comerciais e empresariais, visto que não se tem uma base científica
consolidada.
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Renúncia
Nenhuma representação neste
texto é feita no sentido de oferecer um diagnóstico, tratamento ou cura para
qualquer condição ou doença relatada. O caráter do texto é somente
informativo e deve ser usado em conjunto com o aconselhamento específico do
médico de medicina do mergulho. O autor não é responsável por qualquer
consequência concebível relacionada à leitura deste texto.
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