|
Mergulho e os riscos de Barotrauma Pulmonar
Considerações sobre Importantes Fatores de Risco
como o Pneumatórax Espontâneo e a Asma
O mergulho autônomo é uma
atividade de lazer que apresenta risco potencial para a ocorrência de várias
formas de doenças agudas. Riscos potenciais incluem trauma, hipotermia,
toxicidade por gases, falta de ar por mau funcionamento de equipamentos ou
planejamento de mergulho inadequado.
Habitualmente no mergulho
autônomo podemos observar uma grande preocupação com a prevenção e o
tratamento da doença descompressiva. No entanto, ela não lidera a lista de
causas de acidentes fatais. Esta é liderada pelo afogamento, que é
considerado a causa mais comum de morte entre mergulhadores, seguida pela
embolia arterial por gás. Entretanto, há quem questione que afogamento seja
a primeira causa de morte no mergulho, pois patologistas inexperientes em
medicina do mergulho frequentemente classificam qualquer evento fatal que
ocorra na água como afogamento. Imagina-se que o barotrauma pulmonar seguido
de embolia gasosa arterial seja a mais frequente causa de morte no mergulho
autônomo.
A lesão pulmonar e suas
complicações devido ao barotrauma são um quadro potencialmente letal e pode
se relacionar à prática inadequada do mergulho autônomo e a fatores de
risco bem determinados. A embolia arterial por gás é uma complicação mais
comum do barotrauma pulmonar, que é responsável por 30% das fatalidades no
mergulho. O conhecimento da fisiopatologia do barotrauma pulmonar, as suas
manifestações, as condições associadas, bem como as complicações, são
importantes para um diagnóstico precoce e a rápida instituição do
tratamento. O seu melhor conhecimento poderá fornecer as bases educacionais
para os programas de ensino no mergulho e instituição de treinamentos
específicos para que se possa evitá-lo.
UM POUCO DE HISTÓRIA
Na década de 30 do século
passado, foi relatado um número de mortes durante programa de treinamento de
evasão de submarinos. A análise dos casos revelou embolia arterial por ar
decorrente de barotrauma pulmonar como causa dos óbitos. Os casos foram
relatados separadamente da bem conhecida doença descompressiva.
Foi observado que tais
acidentes ocorreram em submarinistas com ou sem história de doença pulmonar.
O estudo de necropsia revelou que, em alguns casos, havia obstrução de um
único segmento da árvore brônquica causando aprisionamento de ar e dano a
montante em até mesmo um único segmento pulmonar. A consequência prática
resultante dessa observação inicial foi a proibição de treinamento para a
formação de submarinistas e mergulhadores a qualquer um com história de
doença pulmonar que pudesse provocar obstrução de vias aéreas, incluindo
asma.
Com a expansão da atividade de
mergulho na década de 50, criando-se comunidades de mergulhadores
recreativos, foram relaxados os critérios médicos rigorosamente restritivos
aplicados ao mergulho militar ou comercial. Normas proibitivas à prática do
mergulho autônomo que incluem alguns fatores de risco ao barotrauma, somente
mais recentemente começaram a vigorar em alguns países.
Análises atualizadas de grupos
de mergulhadores autônomos recreativos constataram que entre 6 e 8%
apresentavam asma ou história passada de asma. Observou-se que muitos
mergulhadores asmáticos têm mergulhado bem e sem lesões ou fatalidades.
Além disso, alguns workshops, tratando especificamente do tema, revelaram que
muitos asmáticos estavam mergulhando com segurança e concluíram que uma
história de via aérea reativa não deveria ser um risco para a ocorrência
de barotrauma. Entretanto, um fato era unânime: risco existia quando
asmáticos em franca atividade da doença mergulhavam.
O tempo passou e um conjunto de
observações clínicas, capazes de interferir na opinião médica, passaram a
se acumular em relação à questão do mergulho e doenças pulmonares,
principalmente em relação à asma como causa de barotrauma pulmonar. Apesar
de já se ter um conjunto de achados clínicos, os protocolos existentes não
são definitivos e muita variabilidade de opiniões ainda existe.
ALGUNS DADOS EPIDEMIOLÓGICOS
Os dados históricos revelam
que a embolia gasosa arterial é responsável por aproximadamente 10% de todos
os casos de doença descompressiva. Ela passou dos 18% observados na década
de 1980 para os 7 a 8% observados no final da década de 1990. A análise dos
dados do Divers
Alert Network (DAN) referentes aos acidentes de mergulho revela que em
2002 a embolia gasosa arterial teve sua incidência diminuída em relação a
2001, passando de 7 a 8% para 6,6% dos casos relatados de doença
descompressiva. Provavelmente essa queda de percentual esteja relacionada ao
ensino do mergulho com treinamento específico para subidas de emergência e
à identificação de fatores de risco.
ENTENDENDO O BAROTRAUMA PULMONAR
Barotrauma é a consequência
da compressão ou expansão, durante a descida ou subida respectivamente, de
cavidades do nosso corpo que contêm ar. Estruturas de risco são ouvidos,
seios da face, pulmões, intestinos. A pele e os olhos também estão sujeitos
a barotrauma através da coleção de ar que pode ficar na interface entre ela
e a roupa ou máscara de mergulho. O barotrauma pulmonar é um problema que
geralmente ocorre no final do mergulho, no período de subida.
Os gases usados para a
ventilação pulmonar durante o mergulho estão pressurizados nas vias aéreas
na pressão ambiente. Gradiente de pressão significativo entre a fonte de
gás e a árvore respiratória capaz de produzir dano não é gerado, pois, à
medida que o mergulhador desce, a cada movimento ventilatório, há uma
equalização. Se o mergulhador respira e ventila normalmente, o volume de
gás que está aumentando, não provoca qualquer sobre-expansão da estrutura
pulmonar. Cada movimento inspiratório promoverá uma equalização de
pressão entre o ambiente e o espaço de conteúdo aéreo pulmonar, ou seja,
normalmente as pressões intrapulmonares e ambientais se equilibram pela
inspiração e expiração frequente.
No entanto, podem ocorrer
situações em que essa equalização não ocorre. Estando o pulmão repleto
de gás sob pressão, uma ascensão rápida pode fazer com que a pressão
intrapulmonar aumente a níveis capazes de produzir dano pulmonar.
Sobrepressão de 95 a 110 cm de água ou 70 a 80 mm de mercúrio já pode
provocar dano aos pulmões.
O barotrauma pulmonar da subida
é o mais frequente dos barotraumas pulmonares e pode ter consequências
desastrosas. O mergulhador, usando qualquer mistura gasosa compatível com a
respiração durante a ventilação na profundidade, enche seus pulmões com
volumes similares àqueles da superfície. Numa manobra sem lesão, durante a
subida, o volume de gás expande e o mergulhador deve exalar, permitindo que o
ar escape. Se alguma coisa impede o fluxo de saída da mistura gasosa, todo o
pulmão ou um segmento dele pode romper. Isso pode ocorrer, se o mergulhador
adota uma ventilação irregular, dando grandes respiradas intermitentes, ou
segura o ar enquanto se desloca à superfície. As situações mais comuns em
que esse tipo de barotrauma ocorre, são quando o suprimento da mistura gasosa
utilizada para a ventilação termina enquanto o mergulhador está no fundo ou
quando há perda de controle de flutuação em que há uma subida
descontrolada à superfície.
O maior risco de ocorrência de
um barotrauma pulmonar é perto da superfície. Isso é fácil de entender,
pois é aí que ocorrem as maiores variações de volume, ou seja, a taxa de
expansão do volume da mistura gasosa é maior com a diminuição da pressão
ambiente.
Um aumento de pressão
intrapulmonar de 80 mm de mercúrio força ar nos capilares pulmonares.
Considerando que 1 pé de água salgada (30,48 cm) é o equivalente a 23 mm de
mercúrio de pressão, a subida sem exalar de menos de 4 pés de água salgada
(1,22 m) com os pulmões cheios de ar pressurizado pode produzir dano pulmonar
e embolia gasosa arterial. Uma ascensão de 100 (30,4m) para 96 pés (29,2 m)
produz menos expansão de volume da mistura gasosa dentro do pulmão do que de
4 pés para a superfície. As maiores taxas de mudanças de volume de uma
mistura gasosa ocorrem mais perto da superfície, o que impõe mais perigo.
As alterações estruturais que
ocorrem no pulmão, são variadas e, dependendo do local onde ocorrem, podem
provocar várias consequências. O ar, incapaz de sair através das vias
aéreas e mantendo a pressão original que completou a capacidade pulmonar
total, acaba rompendo estruturas. Inicialmente ele provoca um enfisema na
intimidade da estrutura pulmonar, ou seja, o ar disseca o interstício do
tecido de sustentação do pulmão.
Ele pode seguir lesando a
estrutura do alvéolo, rompendo por contiguidade os capilares pulmonares,
permitindo a entrada de ar na circulação, provocando embolia arterial
gasosa. Algumas vezes, o ar, oriundo da ruptura alveolar, acaba dissecando a
bainha de tecido de sustentação ao redor dos vasos sanguíneos e, seguindo
pelo seu trajeto, provocando enfisema mediastinal. O mediastino é o espaço
do meio do tórax, que contém todas as vísceras torácicas, exceto os
pulmões.
Os pulmões estão dentro da
membrana pleural no interior da cavidade torácica. A pleura acaba sendo a
membrana serosa que recobre o pulmão e o interior da cavidade torácica. Um
espaço potencial se cria entre as duas lâminas de pleura: a que recobre o
pulmão (visceral) e a que recobre a cavidade torácica (parietal). Entrando
ar nesse espaço, esse local, que era virtual, torna-se real. É o
pneumatórax. Caso um alvéolo se rompa num barotrauma pulmonar e uma
solução de continuidade se forme para dentro do espaço pleural, ocorre o
pneumatórax. Se o espaço se amplia, a expansão pulmonar fica reduzida e a
ventilação comprometida.
O pneumatórax do barotrauma
pulmonar é um pneumatórax fechado, pois o ar que vai ao espaço pleural, é
originário de uma lesão interna. É o contrário do pneumatórax aberto
decorrente de uma lesão externa, como, por exemplo, uma lesão perfurante
imposta externamente ao tórax que trespasse a parede torácica e penetre até
a cavidade torácica.
Quanto maior a abertura interna
no pneumatórax fechado mais rápida é a progressão do pneumatórax. Se a
lesão é pequena, ela pode se fechar e não aumentar o volume de ar no
espaço pleural. Pneumatóraxes pequenos são reabsorvidos gradativamente.
Não havendo fechamento da lesão inicial, o ar vai continuar entrando no
espaço pleural e um pneumatórax hipertensivo ocorrerá.
Cabe salientar que um pequeno pneumatórax
durante a subida pode ter complicações graves. A pior delas é
a expansão do ar preso no espaço pleural que ocorre à medida que o
mergulhador sobe. Além disso, esse ar aprisionado no espaço pleural pode ter
a sua pressão aumentada a cada movimento ventilatório, como no caso do pneumatórax
fechado complicado por um pneumatórax hipertensivo.
O pneumatórax hipertensivo
decorre da passagem de ar do pulmão para o espaço pleural através de um
sistema valvulado de entrada de ar para esse espaço. A cada movimento
inspiratório, mais ar entra no espaço pleural sem a possibilidade de sair, a
menos que seja drenado cirurgicamente. O ar no espaço pleural se expande
durante a subida, comprimindo o pulmão, coração e grandes vasos. Isso acaba
deslocando estruturas vasculares. Essas estruturas deformam-se, dobrando-se,
passando a não permitir o retorno de sangue necessário ao enchimento do
coração. A compressão dos vasos produz obstrução ao fluxo sanguíneo e o
coração acaba por não receber sangue e pára.
O desfecho de um pneumatórax hipertensivo é mais rápido do que o de um
pneumatórax fechado não
complicado. Enquanto no primeiro, a cada movimento ventilatório, o quadro
piora, no segundo somente se observa piora quando o mergulhador sobe para
emergir. No pneumatórax hipertensivo o quadro clínico é dramático antes do
fim do mergulho. A ocorrência de qualquer tipo de pneumatórax em locais de
mergulho, que habitualmente são áreas remotas, é um grande problema
principalmente em relação às condições e possibilidades de tratamento.
O ar vindo da ruptura dos
capilares pulmonares e que penetra na circulação é levado ao coração
esquerdo, onde, por flutuação, naquele mergulhador que está subindo com a
cabeça para cima, vai direto para as artérias carótidas. Estando nesses
vasos, o conteúdo gasoso se junta, formando bolhas, que, por sua vez, vão
até o leito capilar terminal e acabam obstruindo o fluxo sanguíneo,
deixando uma região do cérebro sem nutrição. É a embolia traumática por
gás utilizado durante o mergulho.
As complicações por êmbolos
arteriais por gás no cérebro podem ser fatais. O barotrauma pulmonar produz
uma grande variedade de embolizações eêmbolos para o coração, músculos
esqueléticos e o cérebro, que já foi descrito. A embolia arterial gasosa
tem sido descrita durante o uso de equipamento de respiração autônomo para
o mergulho em piscinas.
O gás acumulado no mediastino
pode dissecar estruturas e provocar enfisema subcutâneo ou mesmo
pneumopericárdio. O último é a coleção gasosa que fica no espaço
pericárdio, que é o espaço entre o coração e a membrana serosa que o
reveste. Em casos graves de intensa sobrepressão pode haver distensão do
diafragma e passagem de ar para a cavidade abdominal.
Devemos colocar também que a
descida rápida durante o mergulho livre em apnéia ou o mergulho autônomo
pode levar ao raro barotrauma pulmonar da descida. A rápida compressão do ar
com diminuição de volume e geração de diferença de pressão dentro do
alvéolo pulmonar leva à exsudação, ou seja, à passagem e ao depósito de
líquido para a sua luz. Dependendo da intensidade, pode haver ruptura da
parede alveolar, levando ao sangramento, à tosse e à falta de ar.
MANIFESTAÇÕES
As manifestações do
barotrauma pulmonar são variadas. Elas podem ser decorrentes diretamente da
própria desestruturação do órgão intratorácico ou das consequências
dessas lesões. Manifestações provenientes dessas lesões podem ser a
eliminação pela boca de sangue de origem pulmonar (hemoptise), falta de ar,
desconforto respiratório e dor torácica.
Quando ar faz êmbolos no leito
vascular cerebral, uma grande e variada possibilidade de manifestações
neurológicas é possível. Elas são as mais comuns manifestações dos
barotraumas pulmonares. As alterações neurológicas ocorrem em minutos após
a subida à superfície e variam de pequenas alterações no comportamento a
convulsões e perda de consciência. Os achados descritos são a perda de
força ou paralisia de um lado do corpo, alterações da sensibilidade em
extremidades, mudanças visuais, vertigem, cefaléia, desorientação,
diminuição da pressão arterial, náusea, tontura, vários níveis de
alteração da consciência, que variam de confusão mental, coma, a parada
respiratória.
A experiência australiana
documentada a partir de relatos de casos e de registros imediatos de 74
acidentes de mergulho revelou que, na maioria dos casos, as manifestações
iniciais de embolia gasosa arterial foram decorrentes de dano grave no sistema
nervosos central. Elas foram o estupor ou coma com ou sem convulsão seguidos
de alterações motoras e de sensibilidade de extremidades.
Recompressão imediata pode
salvar a vida do mergulhador. Entretanto, a dificuldade de reconhecer uma
embolia gasosa arterial relacionada a um barotrauma pulmonar ou o seu
diagnóstico ser postergado pelo fato de o mergulhador apenas apresentar
sintomas sutis da sua ocorrência podem resultar em dano neurológico
permanente. Entre 7 e 14% das vítimas de embolia gasosa arterial não
sobrevivem.
DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL
Habitualmente o diagnóstico do
barotrauma torácico e da embolia arterial gasosa secundária não é um
problema porque eles fazem parte de um continuus iniciado pelo
barotrauma pulmonar. O diagnóstico diferencial mais relevante é entre ele e
a doença descompressiva.
Em relação à situação de
mergulho associada ao barotrauma torácico e embolia arterial por gás,
devemos saber se houve pânico ou manobras que levaram o mergulhador a segurar
o ar na subida em qualquer profundidade. Havendo dano no sistema nervoso
central, ele é preferentemente cerebral e com as manifestações pertinentes
a essa localização. As principais são as citadas anteriormente. Além das
manifestações neurológicas, há aquelas próprias do comprometimento
pulmonar também já mencionadas.
Já na doença descompressiva,
realizando-se um levantamento do que ocorreu durante o mergulho, geralmente é
constatado que o mergulhador excedeu o tempo de fundo máximo permitido para
determinada profundidade de acordo com o indicado nas tabelas de mergulho. Em
relação às manifestações neurológicas, no caso da doença
descompressiva, elas são geralmente decorrentes do comprometimento do sistema
nervoso central na medula e se evidencia perda total ou parcial de
sensibilidade ou motricidade das extremidades. Em 50% dos casos, as
manifestações ocorrem na primeira hora após o mergulho e, em 90%, nas
primeiras 6 horas.
Edema pulmonar associado à imersão
Existe uma situação que
envolve a presença de sintomas pulmonares que não decorre do barotrauma nem
da doença descompressiva. O edema pulmonar associado à imersão é uma
condição clínica que pode ocorrer e provocar alguma confusão em relação
ao diagnóstico diferencial do barotrauma torácico. Há muitos relatos da
ocorrência, em nadadores ou mergulhadores, de edema agudo de pulmão, isto
é, passagem de líquidos para o interior da luz do alvéolo pulmonar
decorrente de congestão circulatória central ou insuficiência cardíaca. O
mergulhador desenvolve um quadro de tosse e falta de ar enquanto está dentro
da água. O mergulhador experimenta piora desse quadro durante o período de
subida do mergulho. Essa piora pode ser decorrente da diminuição da tensão
de oxigênio que ocorre à medida que diminui a pressão ambiente e acarreta
diminuição da pressão parcial de oxigênio arterial. Essas manifestações
tendem a piorar após a emersão e hemoptise pode persistir muitas horas após
o mergulho.
As causas desse quadro não
são bem claras. Esses eventos podem decorrer de alterações hemodinâmicas
relacionadas à imersão. Fatores precipitantes podem ser a imersão em água
fria, presença recente ou concomitante de infecção de vias aéreas e
aspiração de água. Alguns indivíduos apresentam uma susceptibilidade maior
e, muitas vezes, não apresentam causas aparentes. Acredita-se que seja mais
comum em mergulhadores mais velhos e existe uma associação com hipertensão
arterial sistêmica. Pelos riscos de insuficiência ventilatória aguda,
aqueles que apresentam história de falta de ar ou tosse com secreção
sanguinolenta enquanto mergulham ou nadam, devem ser orientados a não
praticar o mergulho autônomo.
CONDIÇÕES CLÍNICAS DE RISCO PARA O BAROTRAUMA PULMONAR
Fatores de risco para a
ocorrência de barotrauma pulmonar são as anormalidades pulmonares
morfológicas ou funcionais. Doenças pulmonares que causam um aumento do
risco de se desenvolver um barotrauma, incluem qualquer uma que é capaz de
produzir uma obstrução ao fluxo do ar ou mistura gasosa durante a
ventilação pulmonar. Dentre elas, estão as que produzem cicatrizes
pulmonares como o pneumatórax espontâneo, o pneumatórax traumático; as que
são capazes de colecionar um grande volume de ar como as bolhas ou cistos
pulmonares e, finalmente, as que produzem inflamação como a asma, a
sarcoidose, a doença intersticial e o granuloma eosinofílico.
Pneumatórax Espontâneo
Algumas pessoas podem
apresentar pneumatórax enquanto realizam atividades do dia-a-dia. Por isso é
chamado de pneumatórax espontâneo. A maioria tem alguma alteração
estrutural pulmonar para predispô-la a esse tipo de problema. Muitas vezes
decorre de defeitos congênitos.
Pneumatórax espontâneo ocorre
em jovens com boa saúde sem qualquer aviso e está associado a um grande
risco de recorrência. Recorrências em grandes intervalos de tempo têm sido
descritas. Em alguns casos excepcionais, pode surgir tardiamente na vida
adulta.
Pacientes com história de pneumatórax
espontâneo têm risco de colapso pulmonar e desenvolvimento do
grave pneumatórax hipertensivo durante o mergulho, como foi colocado
anteriormente. Mergulhadores que já apresentaram pneumatórax espontâneo,
têm grande risco de ter pneumatórax ou embolia gasosa arterial.
Pneumatórax espontâneo
prévio é uma contra-indicação ao mergulho autônomo a menos que seja
tratado com cirurgia. Toracotomia aberta com abrasão pleural ou pleurectomia
produzem os menores índices de recorrência (menos que 0,5%). Tratamento do pneumatórax
espontâneo por vídeo-toracoscopia cirúrgica tem sido associado
à taxa de recorrência de 5 a 10%. Ela tem sido considerada uma modalidade de
tratamento inapropriada para quem quer continuar mergulhando após um pneumatórax
espontâneo. Após a pleurectomia cirúrgica, aqueles que tiveram
um pneumatórax espontâneo, devem apresentar teste de função pulmonar e
tomografia computadorizada torácica normal para poderem retornar ao mergulho.
Pleurectomia oferece proteção contra o risco de pneumatórax, entretanto
não há qualquer dado sobre risco continuado de pneumomediastino ou embolia
gasosa arterial. Portanto, o portador desse tipo de lesão deve saber que o
risco de barotrauma pulmonar no mergulho associado a outros tipos de
complicação é muito grande, apesar da avaliação médica rigorosa.
O desenvolvimento de um pneumatórax
espontâneo na profundidade é muito grave já que, durante a
subida, o volume do gás numa cavidade fechada vai se expandir, criando
tensão e deslocando estruturas. A evolução é igual à de um barotrauma
complicado por pneumatórax em pulmão previamente hígido, como foi descrito
anteriormente.
A título de exemplificação,
cabe colocar que pessoas com certas doenças como enfisema pulmonar, fibrose
cística e as raras, Síndrome de Ehler-Danlos e Histiocitose X, têm risco
aumentado de ter pneumatórax espontâneo.
Devemos também registrar que
há uma posição fortemente prevalente de alguns médicos de que pessoas com
história de pneumatórax espontâneo não devem mergulhar sob qualquer
circunstância, mesmo tendo exames de imagem e função pulmonar normais.
Pneumatórax Traumático
Uma lesão torácica pode ser
resultado de uma cirurgia do tórax ou até mesmo do abdômen, de uma
penetração por um instrumento perfurante como uma faca ou tiro e mesmo por
uma fratura de costela num traumatismo torácico fechado. Nessas situações
pode ocorrer um pneumatórax traumático. Se o tecido pulmonar subjacente e
mesmo a pleura que recobre, apresentem uma cicatriz, há um risco aumentado de
barotrauma pulmonar durante o mergulho. Esse tipo de lesão requer uma
rigorosa avaliação antes do mergulho.
Pneumatórax traumático
prévio pode não ser uma contra-indicação ao mergulho, se cicatrizado e
associado a provas de função pulmonar normal, incluindo medida do fluxo
expiratório em 25% da capacidade pulmonar total (Fluxo Expiratório Final
75%) e tomografia computadorizada torácica normal. O portador desse tipo de
lesão deve saber que o risco de barotrauma no mergulho é muito grande,
apesar da avaliação.
Bolhas ou Cistos Pulmonares
Bolhas pulmonares podem
predispor o desenvolvimento de pneumatórax ou desenvolver tensão durante a
subida. Há, na literatura médica, vários relatos de casos de mergulhadores
e turistas que praticaram um mergulho casual, que apresentaram pneumatórax ou
embolia gasosa arterial secundária com a presença de bolhas nos pulmões.
Bolhas pulmonares e cistos
aumentam o risco de barotrauma e são uma contra-indicação ao mergulho. Eles
são as alterações da estrutura do pulmão mais comumente capazes de
predispor ao barotrauma pulmonar. Parece que decorrem da degeneração de
fibras elásticas do pulmão resultantes de inflamações prévias. Eles são
encontrados mais frequentemente em fumantes.
Bolhas pré-existentes foram
encontradas nos pulmões de muitos acidentados. Elas foram observadas em
trabalhadores de túneis com ambientes pressurizados ou em submarinistas que
apresentaram barotrauma pulmonar em treinamentos de evasão de submarinos.
Pessoas com pneumatórax espontâneo geralmente têm defeitos na superfície pleural. Podem ser
pequenas irregularidades na superfície dos pulmões ou bolhas de diversos
tamanhos que estão prontas para se romperem nas condições de alteração de
mudança de pressão como as encontradas durante o mergulho.
Sarcoidose
A sarcoidose é uma doença
pulmonar inflamatória de adultos jovens e supõe-se que ela também seja
encontrada na população de mergulhadores. Já foi descrito um caso de
barotrauma pulmonar em portador de sarcoidose durante tratamento em câmara
hiperbárica. Além disso, a sarcoidose pode acometer o coração, predispondo
a arritmias que podem ser contra-indicação ao mergulho autônomo.
Asma
A asma é a doença pulmonar
mais comum em candidatos jovens que desejam iniciar o mergulho autônomo
recreacional ou mesmo o mergulho comercial. A informação disponível
relativa à questão da asma e a prática de mergulho autônomo não é
conclusiva. A relação da asma com o mergulho é um assunto controverso na
comunidade de mergulhadores. Entretanto, algumas entidades médicas envolvidas
com a necessidade de responder a essa importante e frequente questão
clínica já se posicionaram.
O mergulho é uma atividade
esportiva eletiva e, existindo tantos riscos potenciais para asmáticos
praticarem mergulho autônomo, não parece prudente, numa rápida e
superficial avaliação, liberá-los para essa atividade, apesar da
motivação que eles têm, para mergulhar.
As recomendações mais
conservadoras indicam que qualquer pessoa que apresenta asma e tem
exacerbações frequentes, não deve mergulhar. Além disso, é indicado que
aqueles com história de asma ou sintomas de asma nos últimos 5 anos não
devem mergulhar.
Essas contra-indicações são
baseadas em argumentos relacionadas ao conhecimento da fisiopatologia da asma
e às possibilidades de complicações. Acredita-se, pelo menos em tese, que o
ambiente do mergulho pode provocar bronco-espasmo e a asma pode aumentar o
risco de barotrauma pulmonar. Além disso, a asma reduziria a capacidade para
o exercício que, muitas vezes, é importante quando se nada contra fortes
correntezas ou se está tentando se manter na superfície para evitar um
afogamento.
A posição atual geral é que
a ênfase em relação à avaliação dos asmáticos que mergulham ou querem
mergulhar, seja dada no sentido de avaliar quantitativamente a função
pulmonar, deixando de ter uma posição a princípio excludente.
Alguns
dados epidemiológicos sobre asma, mergulho e acidentes
A asma ocorre em 4 a 5% da
população em geral não havendo consenso em relação a população de
mergulhadores. Na verdade, não dá para ter uma definição da prevalência,
pois há dificuldades de obter a informação. Os dados coletados
habitualmente não diferem história passada de asma de asma atual. No
entanto, se acredita que o grupo de mergulhadores portadores de asma esteja
mergulhando com segurança. Deve-se acreditar que eles sejam mergulhadores que
praticam o mergulho contrariamente ao aconselhamento médico e que devam ter
asma leve.
O Divers Alert Network (DAN)
registrou que muitos mergulhadores com asma morreram. A análise dos casos
fatais não permite afirmar de maneira inequívoca que os mergulhadores com
asma morreram por causa da asma ou se esta foi um fator não relacionado. A
entidade procurou avaliar se há maior possibilidade de embolia gasosa
arterial ou doença descompressiva grave em mergulhadores asmáticos. Em
relação à doença descompressiva, concluiu que pode haver um leve risco
aumentado de vir a desenvolvê-la. No entanto, ainda há números
insuficientes de amostra para se ter uma conclusão definitiva. Foi observado
um aumento de risco de embolia gasosa arterial em asmáticos. Entretanto, esse
achado não apresentou significação estatística para se tornar uma
evidência.
O DAN coloca que o risco
verdadeiro para complicações graves dos asmáticos que mergulham, deve ser
bem maior do que as estatísticas têm evidenciado. Os registros de acidentes
de mergulho não fornecem os dados necessários para uma correta conclusão e
estudos prospectivos apresentam dificuldades metodológicas. No relatório de
2004 sobre os acidentes de 2002, o DAN evidenciou que, em relação a
condições médicas antes do mergulho dos mergulhadores acidentados, a asma
teve uma frequência de 6,4%. Em relação à sua participação de acidentes
fatais, há o relato de que não mudou em termos percentuais.
Em 1991, o Dr. Edmonds relatou
que em 100 mortes de mergulhadores analisadas na Austrália e Nova Zelândia,
9 ocorreram em asmáticos. Cabe salientar que em 51 dos 100 casos não se
conhecia qualquer informação sobre asma. Isso faz com que, nessa população
estudada, no mínimo, 9% tinham asma como fator contribuinte. Ele coloca sua
observação pessoal de que, em relação à asma e o mergulho, os dados
disponíveis até o momento não fornecem qualquer conclusão sobre fatores
contribuintes de acidentes relacionados à asma.
O relato da análise dos dados
referentes à casuística de acidentes de mergulho do British Sub Acqua
Club, a maior organização britânica de mergulho, revelou que poucos
mergulhadores com asma morreram e que poucos acidentes fatais foram resultado
da asma.
Trabalhos prospectivos sobre o
risco de ser portador de asma e apresentar complicações no mergulho
autônomo estão sendo encaminhados há, pelo menos, 10 anos. Apesar de serem
séries relacionadas à sobrevida, os resultados serão importantes, pois
fornecerão informação necessária para se ter um posicionamento bem
consolidado. Para isso é importante que os mergulhadores, sempre que
solicitados, forneçam informação confiável e que os pesquisadores sejam
imparciais e usem tratamentos estatísticos convencionais.
Considerações sobre a asma
A asma é uma doença
caracterizada por episódios recorrentes de obstrução das vias aéreas que
se podem resolver espontaneamente ou como resultado de tratamento. Basicamente
ocorre um estreitamento dos brônquios, uma constricção, em resposta a
vários estímulos como, por exemplo, ar frio, irritantes que se encontram no
ar respirado, infecções respiratórias, exercício, pólen, poeira
domiciliar e outros alérgenos. A causa dessa reatividade das vias aéreas
permanece não esclarecida.
A bronco-constrição não é
um achado constante, e o portador de asma pode apresentar uma piora súbita
com intensificação de seus sintomas. A asma também se caracteriza por
episódios de exacerbação dos sintomas com posterior recuperação funcional
arrastada. Não é incomum asmáticos passarem muito tempo sem crises e,
quando passam a apresentar uma nova, ficam sibilando por várias semanas. Isso
é comum após uma infecção de vias aéreas ou na primavera, quando aumenta
a quantidade de pólen no ar. Algumas crises desencadeadas por infecções de
vias aéreas superiores podem persistir por 4 a 6 semanas após o processo
infeccioso ser resolvido. Portanto, a asma é uma doença episódica com
desencadeantes e isso deve ser considerado no mergulho autônomo recreacional.
Os fatores que desencadeiam
crise e que estão presentes na situação de mergulho, são o esforço
físico; a aspiração de água salgada; a respiração de uma mistura gasosa
seca e fria; o esforço ventilatório aumentado em função da resistência
provocada pelo regulador de mergulho, que piora à medida que diminui a
mistura gasosa do cilindro e aumenta a densidade na profundidade; a
hiperventilação ou aumento da necessidade de respirar mais e, finalmente, o
próprio estresse envolvido no mergulho.
Por exemplo, durante o
mergulho, por dificuldades de manter o bucal do regulador na boca ou mesmo
pela ocorrência de vazamento no segundo estágio, pode haver aspiração de
água. Há também a possibilidade de os mergulhadores iniciantes apresentarem
um nível de ansiedade significativo, decorrente da própria experiência de
quem inicia na atividade de mergulho, que pode desencadear uma crise de asma.
Para o mergulho é interessante
saber que o estreitamento brônquico diminui o volume de ar que pode ser
deslocado pela via aérea e produz aprisionamento de ar no pulmão. A
diminuição do volume de ar deslocado produz uma redução da capacidade
ventilatória e consequentemente da capacidade de exercício. No mergulho
isso tudo é piorado, pois o mergulhador já apresenta uma diminuição da
capacidade ventilatória.
Para entender bem o problema de
mergulhar com asma, antes, porém, devemos saber por que o mergulho impõe uma
redução da capacidade ventilatória. A capacidade ventilatória no mergulho
está diminuída em função da redistribuição do volume de sangue
circulante para dentro da cavidade torácica, do aumento da densidade do ar
que ocorre na profundidade e da resistência externa produzida pelo
equipamento de mergulho. A dez metros de profundidade de água salgada a
capacidade ventilatória do mergulhador é 70% da capacidade registrada na
superfície e a 30 metros está reduzida a 50%. Se adicionarmos a necessidade
ventilatória provocada pela asma, provavelmente o mergulhador não terá
reserva ventilatória suficiente para uma nova demanda provocada por
exercício.
Em relação ao aprisionamento
de ar, podemos colocar que ele pode piorar na emersão. Numa via aérea de
reduzido calibre, o ar aprisionado no pulmão vai expandir-se durante a subida
numa taxa maior que a capacidade do mergulhador de exalá-lo. O ar que não
pode ser exalado e que está aumentado de volume durante a subida, pode
provocar um barotrauma pulmonar.
Além dessas alterações
locais, a asma provoca uma distribuição heterogênea da mistura gasosa
utilizada na ventilação nas várias partes do pulmão, decorrente da
diferença do grau de bronco-espasmo dos vários segmentos da árvore
brônquica. Na asma em atividade também ocorre o aprisionamento de ar em
vários e diferentes segmentos do pulmão não somente por bronco-espasmo, mas
também devido a rolhas de muco que obstruem a via aérea.
Para concluir, a excessiva
produção de muco e o estreitamento da via aérea dificultam a saída de ar
dos pulmões, isto é, o fluxo expiratório, aprisionando ar dentro do pulmão
e gerando gradiente de pressão, principalmente, na subida a partir de
profundidades maiores. A geração de gradiente de pressão predispõe o
mergulhador ao barotrauma pulmonar, que, por sua vez, pode levar ao pneumatórax, ao pneumo-mediastino e à embolia gasosa arterial.
Classificações da asma
A classificação do National
Asthma Education Program do National Institute of Health nos
Estados Unidos inclui quatro categorias de asma, que são:
1. Asma Intermitente Leve:
O quadro clínico ocorre menos
que uma vez por semana e está associado a uma diminuição de menos de 20% no
pico do fluxo expiratório, ou seja, uma diminuição menor que 20% da taxa
máxima de fluxo de ar durante a expiração. Este tipo de asma apresenta
pequenos aumentos da intensidade dos sintomas, que são as chamados
exarcebações, que duram de poucas horas a poucos dias. Sintomas noturnos
ocorrem menos que duas vezes por mês e, entre os ataques, o asmático fica
assintomático, com função pulmonar normal. O tratamento é o uso de
bronco-dilatadores de ação curta de forma intermitente, quando necessário.
2. Asma Persistente Leve:
Sintomas ocorrem mais do que
uma vez por semana e o fluxo do pico expiratório deve estar perto do normal
com uma variação de menos de 20. As exacerbações também aparecem durante
o sono, ocorrendo aproximadamente, pelo menos, duas vezes ao mês. Ela é
tratada com corticosteróide inalatório e bronco-dilatadores de ação curta
conforme demanda.
3. Asma Persistente Moderada:
Os sintomas, inclusive a tosse,
ocorrem diariamente e geralmente interferem nas atividades de sono. Portadores
deste tipo de asma podem requerer uso continuado de bronco-dilatadores de
ação curta de forma intermitente. O fluxo no pico expiratório geralmente
está entre 60 e 80%. Tosse com exercício ou à noite é um importante
sintoma e um indicador deste tipo de asma. É tratada com uso diário da
medicação, usualmente corticosteróides inalatórios, e bronco-dilatadores
para episódios de agudização.
4. Asma Persistente Grave:
Portadores deste tipo de asma
têm sintomas de forma continuada e fluxos de pico expiratório de 60% do
normal ou menos. Um aumento da severidade dos sintomas ocorre frequentemente,
limitando a atividade física. Frequentemente ocorrem sintomas noturnos. No
tratamento são utilizados bronco-dilatadores de longa duração de ação.
Tanto corticosteróides como bronco dilatadores são utilizados em episódios
agudos.
Como veremos a seguir, essa
classificação é importante, pois algumas entidades médicas a utilizam para
melhor classificar aqueles que podem ou não mergulhar.
Por que
se preocupar tanto ?
Ou melhor, qual a base
fisiopatológica do dano pulmonar relacionado à asma e seus fatores de risco
?
Em primeiro lugar, pela falta
de um conjunto consistente de informação que sustente uma prática baseada
em evidência, o que se tem é o entendimento claro dos riscos teóricos.
Basear uma decisão em riscos teóricos também é frágil à medida que há
quem afirme que muitos asmáticos estão mergulhando bem. Portanto, vamos às
bases para o entendimento do risco, já que o risco real no mergulho ainda
não foi medido através de delineamentos de pesquisa não criticáveis.
Um mergulhador deve estar em
condições de realizar exercício de forma rápida, continuada e intensa.
Para isso deve ter uma condição ventilatória adequada. Além disso, o
mergulhador deve ter capacidade pulmonar para tolerar rápidas alterações de
volume e pressão da mistura gasosa que está no seu interior. Essas
alterações serão tanto mais intensas quanto mais próximo ele estiver da
superfície. Qualquer restrição ao fluxo de ar gera gradiente de pressão e
a possibilidade de dano pulmonar. A asma provoca alterações inflamatórias
diretamente na via aérea de forma intrínseca. Cabe salientar que também
podem ocorrer alterações do fluxo pulmonar provocadas indiretamente, como as
decorrentes dos cistos e da fibrose pulmonar.
Na asma os riscos são
agravados por vários motivos. Um deles é o grande volume de reserva pulmonar
inspiratório que o asmático tem e é usado para manter as vias aéreas
abertas. Além disso, a asma interfere, de modo negativo, nas propriedades
elásticas do pulmão. E, para finalizar, há uma associação de asma com o
surgimento de alterações císticas pulmonares.
Outro ponto a considerar é a
possibilidade de hiperventilação realizada na profundidade. A
hiperventilação faz com que o mergulhador consuma o suprimento de ar mais
rapidamente. Ventilação rápida e superficial aumenta a relação do espaço
morto pulmonar com o espaço ventilatório, diminuindo a ventilação no
alvéolo e aumentando a resistência e o trabalho ventilatório. Em relação
ao trabalho ventilatório, devemos colocar que ele já está aumentado em
função do acréscimo da densidade do ar respirado na profundidade. Falta de
ar e capacidade ventilatória reduzida podem levar à subida rápida, que
poderá ser de forma não controlada. Outras consequências são o pânico, o
cansaço e o afogamento, que esse conjunto de incapacidades pode gerar.
Algumas
posições em relação a orientações liberando asmáticos para o mergulho
Atualmente parece um consenso
que asmáticos com francos sinais de atividade da doença, que tenham a asma
sintomática, apresentem uma contra-indicação absoluta ao mergulho
autônomo. O asmático sintomático apresenta uma limitada capacidade para o
exercício. O comportamento frente a uma situação de crise de asma na
superfície é bem diferente da embaixo da água e na superfície do mar.
Ainda mais quando é adicionado o esforço para nadar, carregando equipamento.
Não há unanimidade em
relação à asma que tem um caráter intermitente em relação às suas
manifestações de atividade ou que, durante sua exacerbação, seja
controlada por medicação. São casos de longas ausências de sintomas
intercaladas com períodos de atividade. A reatividade da via aérea nesses
casos é muito variável, assim como é muito heterogêneo o conjunto de
fatores causais e desencadeantes. Essa forma de apresentação torna difícil
uma decisão: se há ou não uma doença significativa capaz de colocar em
risco o asmático durante o mergulho.
Também há outro detalhe
interessante que devemos considerar. É de se destacar que há uma grande
variabilidade entre asmáticos em perceber os sintomas. Foram realizados
alguns estudos em que se evidenciou obstrução de vias aéreas e os pacientes
não apresentavam sintomas. É difícil identificar esse grupo como de risco.
Como exemplo de diversidade de
opiniões, citamos a de Strauss, que, numa extensiva revisão até o ano de
1979 publicada no American Review of Respiratory Disease, sugere que as
contra-indicações ao mergulho autônomo são as seguintes: doença pulmonar
obstrutiva significante com valores mínimos nos testes espirométricos de
volume expiratório forçado no primeiro segundo; capacidade vital forçada e
ventilação voluntária máxima (VVM) menor que 75% do esperado; qualquer
ataque de asma ocorrendo nos dois anos precedentes ou qualquer episódio de
bronco-espasmo associado ao exercício ou ar frio. Essas orientações são
consideradas muito restritivas e o assunto foi abordado de outra forma por
outros autores com pontos de vista diferentes.
O assunto mergulho e asma
também foi discutido em 1995 num simpósio da Undersea and Hyperbaric
Medical Society (UHMS) com o título: "Are Asmathics Fit to Dive
?". De acordo com a UHMS, é fundamental classificar o candidato num
dos quatro tipos de asma citados anteriormente. Portadores de um dos três
primeiros tipos de asma, ou seja, leve, intermitente e leve a moderada
persistente, se bem controlada, quando cuidadosamente selecionados, podem
mergulhar ou continuar mergulhando. Asma persistente grave seria a
contra-indicação absoluta.
O Britsh Thoracic Society
Guidelines on Respiratory Aspects of Fitness for Diving de 2003 recomenda
que asmáticos deverão ser aconselhados a não mergulhar, se tiverem
bronco-espamo precipitado por exercício, frio ou emoção. Essa mesma
sociedade orienta que asmáticos poderão mergulhar, se, com ou sem o uso de
agentes anti-inflamatórios, estiverem livres de sintomas, tiverem um estudo
funcional realizado com espirometria normal e tiverem um teste de
bronco-provocação ao exercício negativo.
Nesses protocolos, asmáticos
que alcançam os critérios para o mergulho, devem ser aconselhados para ter
mais atenção na sua asma por ocasião do mergulho. Além de monitorar seus
sintomas, devem medir o pico de fluxo expiratório duas vezes ao dia. Eles
não deverão mergulhar, se tiverem asma ativa, isto é, sintomas que requerem
o uso de medicação nas 48 horas precedentes ao mergulho; redução em mais
de 10% do pico de fluxo expiratório em relação a valores basais ou aumento
da variabilidade do pico de fluxo expiratório maior que 20% na variação
diurna. Indivíduos em que a alergia é o fator precipitante, poderão
mergulhar, se não estiverem sibilando e apresentarem teste de função
pulmonar normal.
O DAN coloca a necessidade, ao
se avaliar um mergulhador com asma, de esclarecer duas questões: A asma em
questão é de natureza leve ? O tratamento está funcionando
suficientemente bem para prevenir um ataque agudo enquanto está mergulhando
ou na superfície?
Se, com o tratamento, os testes
de função pulmonar ficam normais, especialmente após o exercício, o
avaliado pode mergulhar de maneira segura e é capaz de realizar o exercício
necessário que a atividade requer. Mergulhadores portadores de asma devem
realizar uma avaliação da função pulmonar e um teste de exercício para
identificar o grau de severidade da doença para definir se estão mergulhando
com o menor risco e em segurança.
Acreditamos que, numa
necessidade de posicionamento, o médico avaliador individualize a sua
decisão baseada não somente nas orientações gerais, fruto do consenso de
algumas entidades médicas pelas quais ele deverá optar, ou seja, ele deve,
na sua avaliação, incluir informação relacionada às habilidades do
candidato de lidar com situações de emergência, comportamento na água e
durante a realização de exercícios, tolerância ao frio, perfil psíquico e
experiência prévia em relação a crises de asma passadas. O que se sabe com
segurança é que há uma falta de informação consistente sobre asma e
mergulho para fornecer o nível de evidência necessário à adequada decisão
médica. O mergulhador deve, por sua vez, saber o que ele espera em relação
ao mergulho e os riscos que pode correr.
No encontro de 1995, a UHMS
concluiu que a eficácia da avaliação médica objetivando a definição da
aptidão clínica do candidato a mergulhador aumentará, se o médico
examinador tiver experiência ou um conhecimento relevante do mergulho e das
demandas impostas pelo meio aquático, bem como dos perigos associados.
A Austrália é o país mais
conservador em relação à questão da asma e mergulho. Nela são praticadas
as orientações emitidas pela South Pacific Underwater Medical Society
(SPUMS), que coloca a necessidade obrigatória para todos mergulhadores de
realizarem um teste de função pulmonar para excluir asma antes da
certificação. A entidade coloca que o mergulho pode precipitar um ataque de
asma e que asmáticos apresentam risco de insuficiência ventilatória,
pânico e afogamento. Nesse protocolo poderemos observar que o nível de
segurança é lançado para um patamar mais alto.
A
posição restritiva australiana
A posição australiana
conservadora e, portanto, restritiva é fortemente influenciada pela
experiência clínica de mergulhadores asmáticos que apresentaram acidentes
fatais e daqueles que tiveram de parar de mergulhar por mostrarem problemas
relacionados à sua asma enquanto mergulhavam. A disfunção respiratória
provocada pela asma seria incompatível com a sabida, porém imprevisível,
demanda ambiental relacionada à função pulmonar durante o mergulho.
As características da asma,
por ser uma doença episódica, e a existência de fatores provocadores de
crises que estão presentes no mergulho autônomo, seriam uma combinação
potencialmente ruim. Além disso, os tratamentos aerosóis disponíveis não
seriam compatíveis com o mergulho.
O protocolo australiano
A base do protocolo australiano
é, havendo história passada de asma, mas não existindo evidência clínica
e laboratorial da doença em atividade, liberar o candidato como apto à
prática do mergulho autônomo recreacional.
A história de doença pulmonar
é complementada pelo exame físico e testes de função respiratória
simples. Avaliando um candidato ao mergulho com história passada de asma, de
sibilância ou chiado e apresentando um radiograma de tórax negativo, para
que ele seja considerado apto à prática do mergulho autônomo recreacional,
ele não pode ter as seguintes condições:
1. História de asma nos
últimos 5 anos;
2. Necessidade de
bronco-dilatadores nos últimos 5 anos;
3. Sibilo ventilatório ou
outra alteração na ausculta pulmonar;
4. Sibilo expiratório de
alta frequência durante a hiperventilação;
5. Sibilo expiratório de
alta frequência de 5 a 10 minutos após exercício vigoroso;
6.Capacidade vital menor que
75% da esperada e volume expiratório forçado no primeiro segundo menor que
80%;
7.Relação volume
expiratório forçado no primeiro / Capacidade vital menor que 85% do
esperado;
8.Taxas de fluxo expiratório
menor que 65% do valor esperado para fluxo médio expiratório máximo da
espirometria básica e fluxo máximo expiratório a 75, 50 e 25% da
capacidade vital;
9.Teste de provocação de
asma produzindo redução maior que 10% das taxas de fluxo expiratório
após estímulo com histamina, salina hipertônica, exercício, hipercapnia
com ou sem ventilação fria desumidificada;
Não apresentando qualquer das
condições acima listadas e tendo um radiograma de tórax normal, o candidato
pode mergulhar até uma profundidade máxima de 18 metros sem prática de
subida livre.
Sobre o
uso de bronco-dilatadores inalatórios antes do mergulho
Como foi visto anteriormente,
resistência da via aérea no momento do mergulho não é aceitável para
mergulhar. E, se usar droga adrenérgica, isto é, bronco-dilatadores, então
poderá mergulhar ?
O puff preventivo parece ser
condenável por vários motivos. Parece que os fatores indutores de asma do
mergulho competem, de forma efetiva, com a medicação contra a asma. Outro
ponto a considerar é que bronco-dilatadores em aerosol somente alcançam as
vias aéreas mais próximas, aliviando a resistência mais proximal em
detrimento de porções mais distais do pulmão. Sabemos que o maior problema
são as vias aéreas distais.
Um fato a considerar é que o
aerosol pode dar um alívio no início do mergulho, permitindo à pessoa
descer enquanto respira bem. Entretanto, com o passar do tempo, ele vai
perdendo o efeito, tornando-se menos efetivo. Cabe salientar que é no final
do mergulho que muitos dos estressores desencadeantes de asma estão ativos.
Outra consideração é que a
maioria das drogas bronco-dilatadoras, de ação estimulante adrenérgica, tem
efeito sobre o coração. O mais importante são os efeitos arritmogênicos.
Eles são importantes para considerar no mergulho pelo elevado risco a
arritmias inerentes à atividade de mergulho.
Em relação à doença
descompressiva, podemos colocar que essas drogas são vasodilatadoras, o que
produz uma redução do efeito de filtro pulmonar, ou seja, a vasodilatação
provocada por essas drogas na circulação terminal pulmonar, que
habitualmente é uma barreira à passagem de bolhas para a circulação
arterial da grande circulação, pode permitir a passagem de êmbolos venosos,
aumentando o risco de bolhas arteriais e, por conseguinte, da própria doença
descompressiva.
Perspectivas
A princípio, uma possibilidade
de solução do problema como sendo de consenso seria a descoberta e posterior
avaliação do uso de drogas seguras que possam ser utilizadas para tratar a
asma enquanto se mergulha.
Tem sido depositada muita
esperança no surgimento de drogas que bloqueiem totalmente o efeito
bronco-constritor e reativo identificado na fisiopatologia da asma. Com isso,
os efeitos de risco associados à asma em relação ao mergulho estariam
inibidos. Num segundo momento, seria necessária a validação do uso dessas
drogas através da comprovação de que dano pulmonar não passaria a ocorrer
mais. Dessa forma, o mergulho seguro poderia ser realizado para a
tranquilidade de todos.
Outras
doenças
Qualquer doença pulmonar que
comprometa testes de função pulmonar ou o estado de saúde em geral, pode
contra-indicar o mergulho. As doenças pulmonares infecciosas ativas devem
contra-indicar o mergulho até serem resolvidas.
No Brasil, é particularmente
importante a questão da tuberculose pela sua representativa prevalência na
população em geral. Na tuberculose, o mergulho deve ser postergado até que
o tratamento seja completado, o portador esteja assintomático e não
infectante. Em relação a possibilidade de infectar, muito provavelmente isso
deixe de ocorrer 15 dias após o tratamento ter iniciado. Posteriormente ao
tratamento, deve ser realizada uma avaliação pulmonar rigorosa em que sejam
inclusos testes funcionais e de imagem para excluir qualquer sequela da
função ou da estrutura pulmonar.
E
aqueles que tiveram um barotrauma prévio sem fator de risco identificado ?
É o caso daquele mergulhador
que teve um barotrauma pulmonar durante um mergulho sem um fator de risco
identificado, mas com uma causa bem estabelecida como, por exemplo, a
realização de uma subida rápida acidental. Esse mergulhador deve realizar
uma avaliação clínica rigorosa. Essa avaliação deve incluir tomografia
computadorizada de pulmão e espirometria detalhada em várias porções do
fluxo expiratório para descartar qualquer doença pulmonar subjacente.
Conclusão
sobre os fatores de risco
Para obter respostas
conclusivas sobre o risco de ter uma doença em particular e a capacidade de
provocar um barotrauma pulmonar ainda se faz necessário o desenvolvimento de
estudos experimentais com delineamentos de pesquisa apropriadamente
elaborados.
Não há estudo clínico
controlado disponível para permitir conclusões definitivas sobre o risco do
mergulho autônomo em portadores de doença pulmonar, particularmente em
asmáticos. As recomendações atuais são baseadas no bom senso e em
inferências de mecanismos fisiopatológicos na gênese do barotrauma e sem
informação clínica definitiva.
PREVENÇÃO
Como foi dito, as primeiras
observações de barotrauma pulmonar da subida foram realizadas em manobras de
evasão de submarinos. Muitas foram fatais e suscitou-se um melhor
entendimento da sua fisiopatologia.
A maior parte desse tipo de
barotrauma decorre da atitude do mergulhador ou submarinista de segurar a
respiração quando há a situação de subir rápida e descontroladamente.
Portanto, deve-se instruir que, em manobras de subida do fundo, não se prenda
o ar. O mesmo é válido para os mergulhadores em caso de subida rápida
decorrente de falha de equipamento. Além disso, particularmente, no mergulho
multinível devem ser orientados a respirar constante e pausadamente sem
enchimento pulmonar da mistura gasosa até a capacidade pulmonar total. No
caso dos submarinistas, eles devem ser instruídos a subir exalando o ar numa
taxa adequada o suficiente para que não haja sobrepressão nos pulmões nem
perda de flutuabilidade. Portanto, o treinamento é importante instrumento
para evitar o barotrauma pulmonar e suas complicações.
Toda pessoa com história
sugestiva de asma ou bronquite crônica que mergulha ou quer mergulhar, deve
realizar testes funcionais pulmonares e exame por imagem. Candidatos a
mergulhador autônomo com história passada de traumatismo torácico,
episódios prévios de pneumatórax, cirurgia torácica e infecção
intratorácica importante devem realizar exame de imagem para saber se estão
aptos. Indivíduos que se sabe serem portadores de bolhas, cistos ou outras
anormalidades estruturais pulmonares, não devem ser estimulados à prática
do mergulho autônomo.
Na prevenção do barotrauma no
mergulho, vale a máxima comumente usada por divemasters e instrutores
de mergulho: "Relaxe e respire normalmente na subida." E, de
preferência, com o colete equilibrador desinflado. Assim sendo, também
diriam: "Colete equilibrador não é colete salva-vidas."
MÉTODOS DIAGNÓSTICOS E SEU VALOR PREDITIVO
Muitas anormalidades
morfológicas pulmonares não aparecem em radiogramas simples de tórax e
podem ser detectadas em tomografias computadorizadas de tórax. A tomografia
computadorizada de tórax tem uma grande sensibilidade e valor preditivo em
relação à detecção de anormalidades possíveis de causar barotrauma
pulmonar. Não há dados disponíveis para apoiar, de maneira irrestrita, a
utilização do radiograma de tórax no rastreamento da prevenção do
barotrauma pulmonar em mergulhadores autônomos.
Em relação aos testes
funcionais, podemos dizer que atualmente não há um consenso sobre o valor
preditivo de testes espirométricos funcionais simples. As recomendações do Britsh
Thoracic Society Guidelines on Respiratory Aspects of Fitness for Diving
consideram valores espirométricos normais para a prática do mergulho
autônomo uma capacidade vital forçada (CVF) e fluxo expiratório máximo
esperado dentro de valores normais para o biótipo, um volume expiratório
forçado no primeiro segundo (VEF1) maior que 80% do esperado e a relação
VEF1/Capacidade Vital (CV) maior que 70% da esperada. Não há dados
disponíveis para apoiar, de maneira irrestrita, a utilização de
espirometria no rastreamento da prevenção do barotrauma pulmonar em
mergulhadores.
Até 1995 a conclusão era que
uma função pulmonar com curvas da relação fluxo e volume demonstrando que
o fluxo médio expiratório dentro de 80% do esperado deveria autorizar o
mergulho autônomo com relativa segurança sem haver sobrepressão pulmonar e
barotrauma.
Com um melhor entendimento da
fisiopatologia do barotrauma pulmonar, começou-se a observar que o mais
importante seria a obstrução ao fluxo de ar que ocorre em volumes pulmonares
pequenos finais da expiração. Observou-se que uma redução importante do
fluxo médio expiratório em 25% da capacidade pulmonar (Fluxo Expiratório
Final 75%) ocorria em pacientes com barotrauma torácico. O fluxo expiratório
nas porções finais da curva de fluxo relacionada com o volume pulmonar
parece ser mais útil que o pico de fluxo expiratório ou fluxo a 75% da
capacidade pulmonar. Logo, a análise criteriosa da curva de fluxo relacionada
com volume: pico expiratório na porção média e expiratória final pode
identificar candidatos que devem estar em risco de apresentar barotrauma no
mergulho autônomo.
Para alguns essas novas
evidências produzem o questionamento sobre a validade das conclusões
anteriores à medida que os testes usados não tinham valor suficiente para
diagnosticar adequadamente as populações de risco. Portanto, outros
critérios restritivos baseados em outros exames, utilizando-se, de forma
diferente, a relação do fluxo com a capacidade pulmonar com um nível maior
de evidência, deveriam ser utilizados na avaliação de portadores de doença
pulmonar obstrutiva, ou seja, novos delineamentos de pesquisa deveriam ser
realizados para se observar a ocorrência de barotrauma com o uso de outro
tipo de exame não utilizado em estudos anteriormente para se ter uma nova
conclusão nessa população em relação ao mergulho.
Mais recentemente, Tetzlaff e
colegas fizeram um estudo através do qual concluíram que uma redução no
fluxo médio expiratório final a 25% da capacidade vital (Fluxo Expiratório
Final 75%) maior que 20% do esperado indicaria uma obstrução usualmente
irreversível de via aérea periférica compatível com doença de pequenas
vias. O fechamento das vias aéreas pequenas, em particular, é considerado
uma causa de aprisionamento de ar em regiões pulmonares mais distais da via
aérea que podem contribuir para o risco de barotrauma pulmonar. Esse índice
seria de grande valor para avaliar a capacitação física para o mergulho e
sua alteração poderia excluir com segurança o candidato a mergulhador.
Esses autores colocam que os valores da capacidade vital forçada (CVF), o
volume expiratório forçado no primeiro segundo (VEF1s) e a relação
VEF1s/Capacidade Vital (CV) não alcançaram valores preditivos altos em
estudos prévios.
Outro ponto de vista a
considerar é do comitê médico de mergulho do Reino Unido. Como a asma
induzida por exercício pode ocorrer durante o mergulho, a recomendação é
que os candidatos a mergulhadores façam curvas de fluxo pulmonar antes e
depois do exercício. Esse comitê sugere o uso de um teste de esforço em que
a pessoa faz um exercício como, por exemplo, subir um degrau de
aproximadamente 40 cm por três minutos ou realiza uma corrida livre para
elevar a frequência cardíaca até 80% do máximo esperado seguida de uma
série de medidas de fluxo de pico expiratório. Uma queda de mais de 15% do
pico de fluxo em relação ao valor de base nos três minutos após o
exercício é vista como um critério de exclusão. Cabe salientar que testes
de fluxo e volumes pulmonares em exercício devem ser realizados com
suspensão mínima de 24 horas dos bronco-dilatadores antes do teste. Como a
resposta do asmático depende das condições de ventilação, durante o teste
deve-se controlar a taxa ventilatória, a temperatura e a umidade do ar
inspirado. O ideal seria acrescentar uma medida do volume expiratório
forçado no primeiro segundo com 1, 3, 5, 10, 15, 20 e 30 minutos após o
exercício. Uma diminuição de 10% ou mais do volume expiratório forçado de
base no primeiro segundo é anormal e uma diminuição de mais de 15% é
considerada diagnóstico de bronco-constrição induzida por exercício.
Avaliando alguns mergulhadores
com história prévia de asma e com alterações significativas em seus exames
de medida de fluxos e volumes pulmonares, se pode observar que esses
mergulhadores mergulhavam regularmente e sem problemas. Observações como
essas estimulavam o questionamento sobre a utilidade de testes pulmonares e
chegam a autorizar alguns autores a afirmar que eles têm pouco valor
preditivo em relação à ocorrência de doenças relacionadas ao mergulho.
Com referência à capacidade
de os testes de provocação brônquica terem algum valor preditivo em
relação ao risco de asmáticos mergulharem, pode-se dizer que não há
nenhum teste prospectivo testando a hipótese de hiper-responsividade e risco
em mergulhadores. A evidência atual não corrobora o uso de testes de
provocação brônquica como capazes de definir condições físicas adequadas
para o mergulho.
Autores australianos, jogando o
nível de segurança para um patamar mais elevado, colocam que esses testes de
provocação brônquica são úteis em pacientes com história prévia de
asma, mas com teste espirométrico normal e sem sintomas de asma nos últimos
5 anos na avaliação da resposta brônquica. Eles são realizados para
demonstrar a possibilidade de o paciente, apesar de assintomático nesse
período, ter uma resposta latente de hipersensibilidade. Se o teste é
anormal, então, teoricamente, não deve mergulhar.
Para concluir, em geral,
acredita-se que a análise detalhada da relação do fluxo com o volume
expiratório pode dar informação importante para se acessar a doença
obstrutiva pulmonar. No Brasil, eventualmente a espirometria e os testes de
fluxo expiratório são utilizados na avaliação do candidato a mergulhador
recreacional com história de doença obstrutiva pulmonar. Desses testes o
mais importante é o que mede o fluxo expiratório médio a 25% da capacidade
pulmonar total (Fluxo Expiratório Final 75%). Parece que esse teste é o
único com valor preditivo significativo em relação à ocorrência de
barotrauma pulmonar.
CONCLUSÕES
Os barotraumas, em geral, são
alterações evitáveis e informar sobre seus fatores de risco é importante
para a conscientização da dimensão do problema e fundamental para formar
uma cultura de mergulho seguro.
A identificação dos fatores
de risco para a ocorrência de barotrauma pulmonar é feita pela história e
exame dos candidatos à prática do mergulho autônomo recreacional.
Infelizmente a avaliação médica por médico do mergulho não é uma
prática habitual, o que faz com que se perca uma oportunidade de realizar uma
boa medicina preventiva. Mesmo quando é realizada por médico treinado em
medicina do mergulho, o assunto é controverso e requer um posicionamento
crítico.
À medida que a prática atual
do mergulho no que diz respeito às condições de saúde do mergulhador é
baseada no consentimento informado e há uma certa liberalidade quanto a
critérios para a prática da atividade, os riscos aumentam.
Há também questões éticas
que devem ser consideradas principalmente em relação à pressão da
indústria do mergulho para ter um número cada vez maior de praticantes. O
médico que pratica uma ética de proteção em relação ao mergulhador, deve
ter uma posição isenta, sem se sentir pressionado por paradigmas comerciais
empresariais. O que se sabe, com toda a certeza, é que, em relação à asma
e o mergulho, neste momento não há uma certeza de nada. Deve-se ter muito
cuidado em relação à análise dos acidentes de mergulho e, conforme diz o
Dr. Edmonds, é necessário ignorar o adágio estatístico de que ausência de
evidência não é evidência de ausência de dano.
Exames laboratoriais de medida
de fluxo ventilatório expiratório relacionados com a medida da capacidade
pulmonar podem identificar indivíduos de alto risco de apresentar barotrauma
pulmonar. Esses exames tornaram-se importantes ferramentas de triagem e um
excelente investimento em termos de diagnóstico preventivo de complicações
maiores. Entretanto, cabe ressaltar que são testes cujos parâmetros ainda
não estão uniformizados e há muita discussão, em relação a sua
aplicabilidade, mesmo entre os especialistas da área. Isso quer dizer que,
mesmo consultando especialistas, pode haver diferenças de opinião e,
consequentemente, divergências em relação a liberação ao mergulho.
O mergulho recreativo praticado
dentro dos seus limites, com o uso dos equipamentos habituais, com treinamento
adequado e sendo excluídas alterações relacionadas à saúde do praticante
tem menor possibilidade de apresentar acidentes e complicações. Em termos de
prevenção de acidentes graves, devemos praticar e educar iniciantes na
atividade, investindo muito no treinamento para evitar o pânico e nas
atitudes preventivas relacionadas à pratica do mergulho para evitar o
barotrauma torácico. Muito cuidado deverá haver nas ocasiões de realizar
batismos de mergulho e mesmo nas experiências de mergulhar em piscinas,
principalmente em relação a turistas e crianças, pois são situações de
risco para exposição aos barotraumas. Esses acidentes são as causas que
lideram as estatísticas de acidentes fatais e, muitas vezes, não oferecem
sequer a possibilidade do tratamento adequado.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Bove, A.A.. Pulmonary
barotrauma in divers. Can prospective pulmonary function testing identify
those at risk? Chest, 1997; 112: 572-573.
Bove, A.A.. Medical
disorders related to diving. J Intensive Care Med, 2002;
17: 75-86.
British Thoracic Society
Fitness to Dive Group. British Thoracic
Society guidelines on respiratory aspects of fitness for diving. Thorax, 2003;
58: 3-13.
Divers Alert Network.
Report on Decompression Illness, Diving Fatalities and Dive Exploration: 2004
Edition. DAN’s annual Review of Recreational Scuba Diving Injuries and
Fatalities Based on 2002 Data. ISBN 0-9673066-5-5.
Dear, G. L..
Asthma & Diving. Alert Diver, 1997; January/February, 12-13.
Edmonds, C..
Asthma. In: Edmonds, C., Lowry, C., Pennefather, J., Walker, R. Diving and
Subaquatic Medicine, 4th Edition, London, Arnold, 2002; 55: 559-574.
Neuman, T.S..
Pulmonary barotrauma. In: Bove, A.A.. Bove and Davi’s Diving Medicine, 3rd
Edition, Philadelphia, 1997; 13:176-183.
Neuman, T.S..
Arterial gas embolism and pulmonary barotrauma. In: Brubakk, A.O. and Neuman,
T.S.. Bennett and Elliot’s Physiology and Medicine of Diving, 5th Edition,
London, Saunders, 2003; 10.5:557-77.
Russi, E.R..
Diving and the risk of barotraumas. Thorax, 1998; 53(suppl 2): s20-s24.
Slade, J.B. et al.
Pulmonary edema associated with scuba diving. Case reports and review. Chest,
2001; 120(5): 1686-94.
Thalmann, E.D..
Decompression Illness: What Is It and What Is The Treatment? Alert Diver,
2004; March/April, 46-53.
Tetzlaff, K. et al.
Risk factors for pulmonary barotraumas in divers. Chest, 1997; 112: 654-659.
Thorse, E.; Skogstad, M. and
Reed, J.W.. subacute effects of
inspiratory tresistive loading and head-out water immersion on pulmonary
function. Undersea & hyperbaric Medicine, 1999; 26(3): 137-141.
Walker, R.
Pulmonary barotrauma. In: Edmonds, C., Lowry, C., Pennefather, J., Walker, R.
Diving and Subaquatic Medicine, 4th Edition, London, Arnold, 2002; 6: 55- 71.
Renúncia
Nenhuma representação neste
texto é feita no sentido de oferecer um diagnóstico, tratamento ou cura para
qualquer condição ou doença relatada. O caráter do texto é somente
informativo e deve ser usado em conjunto com o aconselhamento específico do
médico de medicina do mergulho. O autor não é responsável por qualquer
consequência concebível relacionada à leitura deste texto.
|