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O Oxigênio e o Mergulho
As possibilidades da exploração humana no cosmos são inúmeras e,
na Terra, já exploramos um grande número de sítios dentro de um
amplo espectro de variação de pressão. Esses locais variam desde o
cume do Everest com uma pressão barométrica de 0,31 atmosfera de
pressão absoluta (ATA) até as profundezas do oceano com várias
atmosferas de pressão. Já exploramos locais muito próximos do
vácuo a 100.000 metros de altitude, vestindo roupas com 4,3 lb/in²
de pressão absoluta (0,29 ATA). Em ambientes hiperbáricos, como nas
profundezas dos oceanos, já utilizamos veículos que mantêm uma
pressão ambiente de 1 ATA como meio de transporte ou mesmo nos
comprimimos por longos períodos de tempo para trabalho ou
exploração, como é o caso do mergulho de saturação. E sempre,
nessas explorações, devemos ventilar uma mistura gasosa compatível
com a nossa fisiologia. Nelas, a manutenção de uma pressão parcial
de oxigênio que não comprometa a vida, é fundamental.
Apesar da grande variabilidade de ecossistemas, evoluímos num
ambiente cuja pressão barométrica é em torno de uma atmosfera
absoluta de pressão. Estamos fisiologicamente adaptados para ventilar
uma mistura gasosa com 1 ATA de pressão, 21% de oxigênio e sua
respectiva densidade. Apresentamos uma fisiologia compatível com a
nossa evolução de milhares de anos, utilizando o oxigênio em
pressões parciais adequadas à vida, apesar de haver pequenas
variações.
CONSIDERAÇÕES GERAIS
O oxigênio é o componente crítico de todas as misturas
respiratórias. Ele faz parte da mistura mais comumente utilizada no
mergulho autônomo, o ar. O ar é constituído de 20,95% de oxigênio.
O ar comprimido tem de 19 a 22% de oxigênio.
A maioria dos seres humanos está fisiologicamente adaptada para
viver ao nível do mar, onde a pressão ambiente é de 1 atmosfera
absoluta e a pressão parcial de oxigênio é de aproximadamente 0,21
ATA. Na altitude há quem sobreviva a pressões com 0,1 ATA de
oxigênio no ar inspirado. Normalmente consideramos 0,16 ATA o mínimo
para sobreviver. No mergulho, o oxigênio deve estar presente numa
pressão parcial de 0,2 ATA para evitar hipóxia.
Em exposições prolongadas e acima de 0,5 ATA de pressão parcial
do oxigênio, há toxicidade pulmonar. Exposições curtas e acima de
1,6 ATA resultam em efeitos sobre o sistema nervoso central. Esses
riscos são aceitáveis em câmaras de recompressão ou para
tratamentos com oxigenioterapia hiperbárica, em que o oxigênio pode
ser usado intermitentemente, a pressões parciais acima de 2,8 ATA,
com fins terapêuticos. Uma pressão parcial de 0,5 ATA é aceita como
limite superior no qual o oxigênio pode ser respirado por longos
períodos de tempo. Durante mergulhos de saturação, a pressão
parcial do oxigênio não deve exceder esse limite, exceto em
operações especiais. Períodos curtos de exposição são permitidos
em pressões parciais levemente mais altas.
Um indivíduo normal de 70 kg, em repouso, necessita de 300 ml de
oxigênio por minuto para se manter vivo. Durante grandes esforços, a
necessidade pode chegar a 3 l/min. Em média, exercícios moderados
consomem 1 l/min de oxigênio.
O oxigênio é bastante solúvel tanto em água quanto em
lipídios. A solubilidade em lipídios é de 0,11, enquanto a do
nitrogênio é de 0,067; com uma taxa de solubilidade óleo-água de
5,0, enquanto a do nitrogênio é de 5,2. A potência narcótica
teórica relativa, fixando-se em 1 a do nitrogênio, é de 1,7 para o
oxigênio. Oxigênio e nitrogênio parecem comportar-se da mesma
maneira. Em excesso, o oxigênio contribui para a formação de bolhas
durante a descompressão. Suas propriedades térmicas são semelhantes
à do nitrogênio.
A vida é mantida às custas de processos biológicos e
bioquímicos que se realizam na intimidade da célula e o oxigênio é
necessário para manter a vida a cada instante. Na intimidade da
célula, existem estruturas chamadas organelas, especializadas em
determinados trabalhos necessários à vida da célula, para que ela
possa realizar sua função específica no corpo humano.
As funções celulares consomem energia e essa energia é fornecida
pela respiração celular, que ocorre numa organela chamada
mitocôndria. O oxigênio transportado pelo sangue acaba se difundindo
e chega até ela. Na respiração celular, o que ocorre, em última
análise, é a fosforilação oxidativa. Nesse processo, o oxigênio
é utilizado para formar compostos de fosfato altamente energéticos.
Nas mitocôndrias, proteínas, carboidratos e lipídeos, eles são
utilizados em ciclos bioquímicos que liberam elétrons e geram gás
carbônico e água a partir de compostos intermediários. O átomo de
oxigênio, para ser utilizado, deve ser separado da molécula de
oxigênio. Para quebrar a molécula de oxigênio é necessário que um
elétron seja fisgado. Esses elétrons viajam por cadeias químicas
transportadoras de elétrons chamadas de sistema citocromo. No ciclo
bioquímico, se transforma adenosina difosfato (ADP) em adenosina
trifosfato (ATP). Para tal, é utilizado um fosfato inorgânico e
oxigênio no processo, que é a fosforilação oxidativa. Então,
resumidamente, o oxigênio, ao ser utilizado, gerando gás carbônico
e água, produz um composto de alta energia, que é a adenosina
trifosfato (ATP). O ATP posteriormente será utilizado como fonte de
energia para qualquer trabalho bioquímico realizado pela célula,
pois novamente a sua transformação em ADP libera uma quantidade
significativa de energia.
Esse processo acaba formando uma substância intermediária chamada
ânion superóxido. Os ânions superóxidos são altamente reativos e
têm capacidade de cindir outras moléculas à medida que entram em
contato. Normalmente as mitocôndrias têm esses ânions sob controle.
Se algum sai para o citoplasma celular, há uma quantidade de
reações químicas protetoras que podem ser ativadas para
absorvê-los e prevenir algum dano celular.
Vivendo num ambiente com 1 atmosfera de pressão, ventilando nossos
pulmões com ar com 21% de oxigênio, ou seja, ventilando com 0,21 ATA
de pressão parcial de oxigênio, nosso organismo funciona muito bem.
A exposição a níveis elevados de oxigênio produz quantidades
excessivas de radicais livres. Apesar de os mecanismos exatos não
serem bem conhecidos, intermediários de radicais livres, incluindo
ânions superóxidos, peróxido de hidrogênio, hidroperóxido e
radicais hidroxílicos são potencialmente tóxicos para todas as
membranas celulares, enzimas, ácidos nucléicos e outros
constituintes celulares. Portanto, essa exposição pode interferir
com uma variedade de reações bioquímicas que podem ter como
consequência a toxicidade pelo oxigênio.
As defesas antioxidantes ficam a cargo das enzimas peróxido
dismutase e catalase e do sistema glutatião. Se a pressão de
oxigênio respirada aumenta acima de 0,21 ATA, os mecanismos de
proteção esgotam e as reações químicas são afetadas, ocorrendo a
toxicidade pelo oxigênio. Existe uma classe de substâncias exógenas
com atividade antioxidante, que são as vitaminas C e E, o beta
caroteno e o etanol.
TOXICIDADE PELO OXIGÊNIO
Toxicidade por oxigênio no mergulho ocorre quando altas pressões
parciais são usadas no gás inspirado. Altas pressões parciais
ocorrem, quando há concentração aumentada na mistura gasosa
escolhida ou quando se aumenta a pressão ambiente. Misturas gasosas
com altas concentrações de oxigênio são usadas no mergulho para
reduzir as obrigações de descompressão ou para prolongar o tempo de
fundo. O desenvolvimento da toxicidade depende da pressão parcial, da
duração da exposição e da susceptibilidade individual.
A toxicidade por oxigênio pode ser observada no mergulho durante o
uso de equipamentos de respiração autônoma de circuito fechado ou
semifechado, no mergulho técnico com equipamento de respiração
autônomo de sistema aberto dependendo da mistura escolhida no
planejamento do mergulho e no mergulho de saturação. Ou seja, em
qualquer tipo de mergulho em que se utiliza alta pressão parcial de
oxigênio, a toxicidade é possível. Comumente é observada, quando
se usa o oxigênio para diminuir o tempo de descompressão.
Toxicidade no Sistema Nervoso Central
Um grande espectro de sinais e sintomas é descrito em relação à
toxicidade pelo oxigênio. O achado clínico mais importante e
dramático é a convulsão. No entanto, há uma série de outras
manifestações descritas, únicas na forma de apresentação ou em
associação, como náusea, vômito espasmódico, vertigem, palidez
facial, sudorese, palpitações, bradicardia, falta de ar, limitação
de campo visual, vertigem, contração labial, dilatação de pupilas,
contração das mãos ou em qualquer outro local, soluços, fome por
ar, diminuição de sensibilidade de dedos, ofuscamento, sensações
de colapso iminente ou apreensão, incoordenação, distúrbios de
sentidos especiais, predominância inspiratória, espasmos
diafragmáticos, disforia, amnésia retrógrada, ilusões,
alucinações, confusão mental e síncope.
Como evento final das manifestações da toxicidade no sistema
nervoso central, temos a convulsão. Porém, outros sinais podem
ocorrer como decorrência de ação do oxigênio sobre o sistema
nervoso autonômico e cardio-respiratório, como a bradicardia, a
hiperventilação e as alterações de reflexos neurológicos
cardio-respiratórios. Neurônios do complexo solitário do sistema
nervoso central são altamente sensíveis a altas pressões de
oxigênio.
As variações individuais de suscetibilidade às convulsões pelo
oxigênio tornam difícil dizer quem é vulnerável e quando elas
ocorrerão. As convulsões episódicas que ocorrem em decorrência
somente da exposição aguda pelo oxigênio, não parecem ser
perigosas. A toxicidade do sistema nervoso central pelo oxigênio é
rapidamente revertida, quando a pressão parcial do oxigênio
inspirado é reduzida. No entanto, se a exposição não for
interrompida e se tornar contínua, poderá haver dano neurológico
permanente, paralisia e mesmo morte. Sequela da intoxicação no
sistema nervoso central pelo oxigênio não tem sido descrita.
Existem vários fatores que aumentam a toxicidade ao oxigênio,
entre eles o exercício, a própria imersão em água e a resposta ao
estresse de qualquer origem. A febre também é um fator de risco para
desencadear as manifestações da intoxicação, assim como doenças,
como é o caso da anemia decorrente de esferocitose congênita e
deficiência de vitamina E. É importante mencionar os hormônios como
fatores de risco. Entre eles, os de relevância para o mergulho são a
insulina e o hormônio da tireóide, a tiroxina, por poderem estar
sendo usados por mergulhadores. Drogas como anfetaminas,
acetazolamida, aspirina, atropina e dissulfiram, entre outras, também
são importantes fatores para aumentar a toxicidade pelo oxigênio.
Em relação à fisiopatologia das convulsões, não podemos deixar
de colocar que uma das alterações demonstráveis em relação às
alterações enzimáticas induzidas por exposição hiperóxica é a
redução do débito de ácido gama aminobutírico (GABA) nas células
do sistema nervoso central. Essa substância é conhecida como um
inibidor da transmissão nervosa nas sinapses das células nervosas do
sistema nervoso central. A sua diminuição de concentração nos
locais em que normalmente se encontra, parece facilitar a ocorrência
de convulsões, pois deixa de haver a inibição nas sinapses
nervosas, permitindo o disparo descontrolado de nervos excitatórios.
Ou seja, com a exposição hiperóxica, deixa de haver ação
inibitória do GABA no sistema nervoso central e convulsões podem
ocorrer. Esse mecanismo pode estar envolvido na fisiopatologia da
narcose, como veremos mais adiante.
Toxicidade no Sistema Nervoso Central no Mergulho
A toxicidade neurológica central pelo oxigênio é o fator
limitante no uso de equipamentos de circuito fechado no mergulho
militar de combate. No mergulho, um fator relacionado à ocorrência
de casos fatais de convulsão é o uso acidental de misturas ricas em
oxigênio.
Os fatores que diminuem a sensibilidade do sistema nervoso central
ao oxigênio, de relevância no mergulho são: exercício intenso;
imersão em água mais que em câmara; hipotermia e aumento da
concentração de gás carbônico no sangue por qualquer causa. Além
disso, taxa metabólica aumentada, hipoventilação e acidose
respiratória são fatores de risco à toxicidade e normalmente são
observadas no curso de infecções, principalmente as respiratórias,
e em doenças hormonais metabólicas.
Retenção moderada de gás carbônico ocorre durante a
diminuição proposital da ventilação para economizar a mistura
gasosa e diminui o limiar da toxicidade do oxigênio. Nessa
situação, o que ocorre é uma vasodilatação cerebral provocada
pelo gás carbônico que aumenta a pressão tecidual de oxigênio.
Esse aumento do fluxo intracerebral provocado pelo gás carbônico é
posterior à vasoconstrição inicialmente provocada pelo oxigênio.
Isso acaba aumentando a liberação de oxigênio no tecido neural,
facilitando a sua intoxicação.
Mergulhadores que respiram oxigênio em pressões parciais
aumentadas e trabalhadores em ambientes hiperbáricos são orientados
a evitarem exposição, enquanto febris, enquanto usam medicações
que aumentam a concentração tecidual de gás carbônico (por
exemplo, opióides e inibidores da anídrase carbônica, usados no
tratamento do glaucoma, aspirina, corticosteróides,
simpatomiméticos), e, também, a não se exporem a luzes
fluorescentes.
Estudos da Real Marinha Britânica durante a Segunda Grande Guerra
evidenciaram haver um grande espectro de variação de tolerância ao
oxigênio entre indivíduos e num mesmo indivíduo de um momento para
outro. Idade, peso, preparo físico e fumo não foram evidenciados
como fatores de risco para a toxicidade. Além disso, não se
evidenciou qualquer padrão de surgimento dos sintomas da toxicidade.
Ficou claro nos estudos da Marinha Britânica que o exercício era
um fator de risco e que estava associado a um aumento da pressão
parcial de CO2. Os sintomas ocorrem mais precocemente dentro da água
em comparação com a mesma pressão parcial alcançada numa câmara
hiperbárica. Portanto, é uma consequência direta dos efeitos da
imersão em água.
No mergulho, podem ocorrer convulsões embaixo da água. Elas
carregam consigo o risco de afogamento, a menos que o mergulhador
esteja utilizando uma máscara que envolva toda a face ou um capacete
de mergulho. Poderão ser evitadas, se o mergulhador mergulhar dentro
dos limites de pressão parcial e tempo de exposição permitidos. A National
Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA) libera como valor
máximo a pressão parcial máxima de oxigênio 1,6 ATA. A American
Nitrox Divers Inc. (ANDI) recomenda que mergulhadores não devem
exceder 1,45 ATA em mergulhos que exijam bastante esforço físico. Na
Suíça, é determinado por lei o máximo de exposição de 1,4 ATA. A
Marinha Norte-Americana limita em 1,3 ATA a pressão parcial de
exposição de oxigênio. O DAN expressou opinião através do Dr.
Richard Vann, sendo que, tanto para ar como para misturas enriquecidas
com oxigênio, não se deve ultrapassar o limite de exposição de 1,2
ATA. Esta é uma posição conservadora que permite uma margem de
segurança para excursões não planejadas a profundidades relativas a
pressões parciais de oxigênio de até 1,4 ATA.
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Incidência de Sintomas Relacionada à Toxicidade
por
Oxigênio no Mergulho |
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Sinais e Sintomas |
% Mergulhadores
em repouso
(n=388) |
% Mergulhadores
em trabalho
(n=120) |
|
Convulsões |
9,2 |
6,8 |
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Tremor de lábios |
60,6 |
50,0 |
|
Vertigem |
8,8 |
20,8 |
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Náusea |
8,3 |
17,5 |
|
Distúrbios respiratórios |
3,8 |
5,0 |
|
Tremores de outras partes que não os lábios |
3,2 |
1,7 |
|
Sensação de anormalidade
(confusão, sonolência) |
3,2 |
- |
|
Distúrbios visuais |
1,0 |
- |
|
Alucinações acústicas |
0,6 |
- |
|
Parestesias |
0,4 |
- |
Fonte: Lowry, C.. Oxygen Toxicity. In: Edmonds, C., Lowry, C.,
Pennefather, J., Walker, R. Diving and Subaquatic Medicine, 4th
Edition, London, Arnold, 2002; 17:214.
Respirando com altas pressões parciais de oxigênio, a pressão
parcial de gás carbônico tecidual pode aumentar, seguindo a
diminuição da capacidade de carreamento de gás carbônico pela
hemoglobina venosa, que está diminuída, pois a hemoglobina venosa
está totalmente saturada de oxigênio. Isso leva ao aumento tecidual
e venoso de gás carbônico. No mergulho, uma maior retenção de gás
carbônico, leva à potencialização da toxicidade no sistema nervoso
central pelo oxigênio.
Vários fatores levam a níveis maiores de gás carbônico na
corrente sanguínea do mergulhador. O aumento da densidade da mistura
gasosa parece ser um deles. Ele leva a uma maior resistência ao fluxo
de ar, diminuindo a troca de gás carbônico alveolar. Isso faz com
que aumente a pressão parcial desse gás no sangue. Altos níveis de
gás carbônico aumentam o fluxo sanguíneo cerebral, resultando em
maior dose de oxigênio. Exercício é outro fator que pode levar à
retenção de gás carbônico, além, é claro, da diminuição
voluntária do ritmo ventilatório.
As pesquisas originais dos limites de toxicidade sobre o sistema
nervoso central inicialmente envolveram o uso de equipamentos de
respiração autônomo de sistema fechado, os rebreathers, que
funcionavam com oxigênio a 100%. A seguir, foram utilizadas misturas
hiperóxicas e, interessantemente, o que se pôde observar nessa
situação, foi que sintomas de toxicidade sobre o sistema nervoso
central ocorreram em pressões parciais menores que as observadas
durante o uso do oxigênio puro. Misturas hiperóxicas também
aumentavam os níveis de CO2 arterial quando comparadas ao uso de ar
à mesma profundidade. Essas observações foram determinantes na
limitação pela Marinha Norte- Americana de 1,3 ATA de pressão
parcial de oxigênio para misturas de nitrogênio enriquecidas com
oxigênio.
Equipamentos de Respiração Autônoma de Circuito Fechado ou
Semifechado e Toxicidade por Oxigênio
Durante o uso de rebreathers, o risco de toxicidade pelo
oxigênio é considerável. Nos equipamentos de circuito semifechado,
essa possibilidade ocorre quando o mergulhador realiza um esforço
excessivo. Nesse sistema, utilizando mistura gasosa pré-estabelecida
com oxigênio numa concentração acima do normal, realizando o
mergulhador muito esforço, a entrada de oxigênio é alta e é
possível se exceder a profundidade máxima sem haver um alarme de
oxigênio alto. Quando o mergulhador descansa ou ventila o sistema, o
nível de oxigênio aumenta rapidamente. Nesse momento, o mergulhador
fica exposto a uma alta pressão parcial de oxigênio e pode
apresentar toxicidade.
Nos equipamentos de circuito fechado, o mergulhador pode variar a
pressão parcial de oxigênio durante o mergulho. Havendo a escolha de
uso de oxigênio a 100% pelo mergulhador para descompressão, o risco
de toxicidade no sistema nervoso central será real, se ele não
conseguir manter a profundidade adequada.
Toxicidade Geral
O oxigênio, embora essencial à vida humana e imprescindível à
sobrevivência de células aeróbicas, deve ser considerado um tóxico
celular universal. Todos os organismos e tecidos são suscetíveis à
lesão decorrente da produção de radicais livres.
A toxicidade descrita que ocorre sobre o corpo humano quando há
exposição a pressões parciais elevadas de oxigênio próximas de 24
horas, é a chamada toxicidade pulmonar ou de todo o corpo. Portanto,
é essa toxicidade decorrente de períodos maiores de exposição ao
oxigênio a pressões parciais e/ou totais elevadas. O tipo de
toxicidade é observado, quando se respiram pressões parciais de
oxigênio acima de 0,5 ATA. Essa possibilidade de risco pode ocorrer
no mergulho de saturação realizado por longos períodos.
Atualmente, pelo aumento do número de praticantes do mergulho
técnico, também devemos preocupar-nos com a possibilidade de
ocorrência de toxicidade em todo o corpo pelo uso do oxigênio. O
conceito de tolerância à toxicidade de todo o corpo pelo oxigênio,
inicialmente, se relacionou ao mergulho de saturação e aos
tratamentos da oxigenioterapia hiperbárica. Como regra geral, se o
mergulhador permanece dentro dos limites preconizados de exposição
ao oxigênio para evitar a toxicidade do sistema nervoso central, não
excedendo 100% de dosagem permitida, a toxicidade corporal mantém-se
em limites seguros. Em programas de muitos dias de mergulho profundo,
a medida da tolerância ao oxigênio passa a ser um fator controlador
na utilização do oxigênio da mistura.
Efeitos sobre os Pulmões
A sintomatologia é insidiosa e progressiva. Basicamente as
manifestações são aperto e sensação de desconforto torácico
acompanhado de tosse, ventilação curta, superficial e dor.
Inicialmente há a queixa de dor leve atrás do esterno.
Observam-se sintomas semelhantes ao de uma tráqueo-bronquite, que
podem gerar algum atraso na busca de atendimento médico. Eles podem
progredir e se apresentar como tosse continuada e progressiva em
termos de intensidade e que pode ser dolorosa. Além da tosse, pode
ocorrer falta de ar e dor ou desconforto torácico ao final da
inspiração. A inspiração dolorosa inicial pode evoluir por toda a
ventilação. Na evolução, pode surgir expectoração
muco-sanguinolenta. A falta de ar (dispnéia) inicialmente é a de
pequenos esforços e pode progredir até dispnéia de repouso. Na
intoxicação grave, pode haver queixa de sensação constante de
queimação ao respirar. O quadro pode ser complicado por infecções
respiratórias em qualquer parte do aparelho respiratório.
A toxicidade pulmonar pelo oxigênio praticamente não existe no
mergulho não saturado. No entanto, cabe salientar que, havendo risco
de toxicidade no sistema nervoso central, também há no resto do
corpo. Risco de ocorrência de toxicidade há sempre que não forem
observados os limites de exposição, sendo muito importantes nos
longos períodos de mergulho saturado.
A toxicidade química direta sobre os tecidos pulmonares provoca
danos na árvore traqueobrônquica, no endotélio dos vasos capilares
pulmonares e no epitélio dos alvéolos. A progressão do dano
pulmonar acarreta áreas de retração com alteração da função
pulmonar, levando à hipoxemia, à acidose e até mesmo à morte.
Existe uma unidade teórica chamada DIPO, que quer dizer Dose de
Intoxicação Pulmonar pelo Oxigênio, que, pelo menos em tese, é
capaz de fornecer uma idéia quantitativa de exposição tóxica pelo
oxigênio. A DIPO é o produto de uma constante multiplicada pelo
tempo de exposição, expresso em minutos. A constante é um número
gerado, diferente para cada ATA de pressão parcial de oxigênio. Por
exemplo, uma pessoa que se expõe, por 300 minutos, a uma pressão
parcial de 2,8 ATA de oxigênio, tem uma DIPO de 1071. 1071 é o
produto da Kp para 2,8 ATA, que é 3,57, vezes 300 minutos. Uma DIPO
de 615 é considerada uma exposição leve, que pode acarretar uma
perda de 2% da capacidade vital pulmonar. Uma DIPO de 1425 está
relacionada a uma perda de 10% da capacidade vital pulmonar. Essa
unidade é muito utilizada na oxigenioterapia hiperbárica para se
definirem os limites da prescrição do tratamento.
Cabe salientar que, na perda da capacidade vital pulmonar, devem-se
considerar as lesões prévias decorrentes de doenças pulmonares
crônicas ou agudas anteriores. Para isso é bom, tanto para
oxigenioterapia hiperbárica como para mergulho saturado, conhecer a
capacidade pulmonar basal do mergulhador com uma medição de fluxo
ventilatório pulmonar (espirometria).
No mergulho saturado, a atitude básica no sentido de prevenir a
toxicidade pulmonar pelo oxigênio é a utilização de pressões
parciais abaixo de 0,5 ATA e definir a DIPO máxima para cada
mergulhador em função da medida da capacidade vital pulmonar. Além
disso, devem ser tratadas doenças associadas como infecções
respiratórias, desde sinusites até mesmo bronquites e
broncopneumonias.
Existe um conjunto de dados oriundos de estudos experimentais que
indicam a possibilidade de tolerância à toxicidade pulmonar. Expondo
um indivíduo a pressões parciais altas de oxigênio, previamente a
uma exposição de oxigênio a 100%, pode haver tolerância através
de uma adaptação gerada por indução enzimática. Exposições
intermitentes a pressões parciais menores possibilitam um maior tempo
de exposição e podem facilitar a recuperação da lesão prévia.
Por mecanismos desconhecidos, a exposição prévia à hipóxia pode
estender o período de exposição a altas pressões parciais de
oxigênio.
Efeitos Oculares
Alterações oculares do tipo miopia progressiva podem ocorrer em
terapia com oxigenioterapia hiperbárica e também foram observadas em
mergulhadores. Muitos pacientes que recebem oxigenioterapia
hiperbárica diária para o tratamento das mais variadas doenças
crônicas, desenvolvem algum grau de miopia. Esse achado é observado
após 2 a 4 semanas de tratamento. A incidência real ainda não foi
estabelecida. A miopia ocorre mais em idosos e diabéticos. Miopia já
foi descrita em mergulhadores que utilizavam, de forma intermitente,
equipamentos de circuito fechado, por longos períodos de mais de 45
horas, com altas pressões parciais de oxigênio de até 1,3 ATA.
Efeitos sobre as Orelhas
Em aviadores que respiram oxigênio, já foi descrita otite média
serosa decorrente da absorção de oxigênio pela orelha média.
Também foi observado, em mergulhadores da Marinha Norte-Americana
que utilizaram equipamentos de respiração autônoma de circuito
fechado com oxigênio a 100%, uma síndrome caracterizada por perda
leve de audição, sensação de orelha cheia, estalos e
crepitações. O exame revelou otite média serosa.
CONSIDERAÇÕES PRÁTICAS RELACIONADAS AO USO DO OXIGÊNIO EM
MISTURAS GASOSAS NO MERGULHO
Algumas considerações devem ser feitas em relação ao uso de
oxigênio em misturas gasosas no mergulho. Existe uma série de
conceitos que devem ser esclarecidos em relação à utilização do
oxigênio no mergulho.
Nome da mistura
Existem várias misturas de gases disponíveis para o mergulho e
todas, é claro, contêm oxigênio. Antes, porém, são importantes
algumas definições.
Nitrox se refere a qualquer mistura gasosa de oxigênio e
nitrogênio diferente do ar. Quando a Marinha Norte-Americana começou
a utilizar misturas com oxigênio e nitrogênio, elas foram chamadas
simplesmente de misturas nitrogênio-oxigênio, ou nitrox.
Habitualmente, fora do mergulho, nitrox geralmente é usado para se
referir a misturas gasosas de oxigênio e nitrogênio com pressões
parciais de oxigênio abaixo do padrão.
Há quem ache que é mais clara a utilização da expressão
"Ar Enriquecido com Oxigênio" ou "Ar Enriquecido
Nitrox" seguida da percentagem de oxigênio da mistura.
Acredita-se que a última expressão parece ser mais prática em
termos de definir a fonte da mistura gasosa básica e que é menos
capaz de causar confusão sem comprometer a precisão da quantidade de
oxigênio da mistura. Isso gerou as abreviaturas derivadas da língua
inglesa: oxygen-enriched air (OEA) e enriched air nitrox (EAN).
A última, por sua vez, gerou as abreviaturas EAN e EANx, sendo que
originalmente o "x" era o x da palavra nitrox. Com o uso,
passou a ser um subscrito que definiria a quantidade de oxigênio da
mistura, como EAN32 ou EAN36. Safe Air é um termo usado pela American
Nitrox Divers Inc. (ANDI), que se refere a qualquer mistura de ar
enriquecida de oxigênio cuja pressão parcial de oxigênio da mistura
a 1 ATA esteja entre 0,22 e 0,5 ATA. Historicamente, a NOAA tem-se
referido às misturas com 32 e 36% de oxigênio como NOAA Nitrox I e
NOAA Nitrox II respectivamente. Para mais claramente identificar o
conteúdo de oxigênio nessas duas misturas, a NOAA redefiniu-as como
NN32 e NN36.
Outros nomes que são utilizados para definir misturas gasosas
respiráveis, a determinada pressão ambiente, que contêm oxigênio,
são os seguintes:
1. Trimix. Refere-se a qualquer mistura respirável de oxigênio,
nitrogênio e hélio nas mais variadas concentrações. O trimix é
usado para mergulhos profundos, já que, reduzindo-se as pressões de
nitrogênio e oxigênio, pode-se evitar a narcose por nitrogênio e a
toxicidade por oxigênio.
2. Heliar. Refere-se a qualquer mistura de ar e hélio. É um trimix
obtido de maneira simplificada, acrescentando-se hélio ao ar. Tem
como vantagem o fato de ser feita de modo mais simples, sem ter de
manipular o oxigênio separadamente. A desvantagem é que não
contempla todos os planejamentos de mergulho, pois nem sempre se
obtém a mistura desejada para um dado mergulho. Esta mistura é
utilizada nas mesmas aplicações do trimix.
3. Heliox. Refere-se a qualquer mistura de apenas oxigênio e
hélio. Raramente é usada no mergulho técnico, sendo utilizada no
mergulho comercial e militar.
Profundidade Equivalente de Ar
A expressão habitualmente é utilizada em mergulhos com EAN e
serve para considerar a quantidade de nitrogênio absorvido.
Profundidade equivalente de ar é a profundidade de um mergulho
hipotético de ar que deve ter a mesma pressão parcial de nitrogênio
que um mergulho real com ar enriquecido com oxigênio para fins de
cálculo de descompressão. Essa expressão é definida a partir do
ponto de vista da profilaxia da doença descompressiva. É uma
definição de conceito em relação à necessidade de estabelecer a
profundidade relativa à quantidade de gases absorvidos para se
definir o uso de tabelas equivalentes com a finalidade de se evitar a
doença descompressiva.
EAN é mais seguro que o Ar ?
A NOAA alerta sobre alguns conceitos equivocados a respeito do EAN.
Um deles é o de algumas pessoas acreditarem que EAN é mais seguro
que o ar. Segurança torna-se um assunto muito relativo, quando
lidamos com atividades de risco como é o caso do mergulho autônomo.
Comumente, no imaginário coletivo, o conceito de segurança se refere
à ausência de risco. Não é o caso do mergulho.
Quando utilizamos misturas enriquecidas com oxigênio, há
propósitos bem definidos e o que importa é a relação risco
benefício ou o grau de vantagem em relação às suas desvantagens.
As vantagens do uso dessas misturas são menos descompressão e a
possibilidade de ampliação de tempo de fundo à mesma profundidade.
São desvantagens a toxicidade pelo oxigênio, a necessidade de
utilizar equipamento especial, os riscos inerentes ao trabalho de
realizar uma mistura gasosa e a garantia do conteúdo da mesma em
relação ao percentual de cada componente. Havendo respeito aos
critérios de segurança em relação a esses vários itens,
acreditamos que os riscos são pequenos e semelhantes ao mergulho com
ar comprimido.
Questão da Profundidade
A NOAA também salienta a possibilidade da existência de uma
idéia equivocada na comunidade de mergulhadores de que o EAN é usado
preferentemente para mergulhos profundos. Ao contrário do mito,
existem limites bem definidos de profundidade e tempo de exposição
para cada mistura em função da toxicidade pelo oxigênio. A maior
vantagem para mergulhos não descompressivos é na faixa dos 15 aos 34
metros de água salgada, dependendo da mistura. As misturas padrão de
32 ou 36% têm, respectivamente, a profundidade máxima operacional
limitada aos 40 e 34 metros de água salgada. Ou seja, a profundidade
máxima permitida fica em 1,6 ATA de pressão parcial de oxigênio
relativa ao tipo de mistura, conforme os critérios da NOAA, ou outra,
mais baixa, conforme o limite de segurança escolhido pelo mergulhador
ou certificadora que o treinou.
Questão da Doença Descompressiva
Em relação à doença descompressiva, sabemos que qualquer
mergulho envolve descompressão. Não há mistura gasosa ou algoritmo
que garanta a não ocorrência de doença descompressiva. Usando EAN,
há vantagens em termos de descompressão, mas não há como
definitivamente eliminá-lo. Como historicamente essa mistura gasosa
é comumente usada para maximizar o tempo de mergulho, os
procedimentos de segurança devem ser seguidos incondicionalmente,
inclusive as tabelas de mergulho.
Existe também, no imaginário, o credo de que EAN torna
impossível o tratamento da doença descompressiva. Provavelmente ele
se originou da idéia equivocada de que exposição extraordinária ao
oxigênio comprometeria o resultado do tratamento hiperbárico. Com
isso, foi estendido o conceito de que o mergulhador não poderia ser
tratado. Um mergulhador com doença descompressiva durante o uso de
EAN é tratado da mesma maneira que um acidentado com ar.
Efeitos Narcóticos do Oxigênio
Na concepção inicial do uso de EAN, pareceu lógico que,
reduzindo o nitrogênio da mistura respiratória, deveria haver uma
diminuição da narcose na profundidade. Na verdade, esse é um tema
que envolve certa polêmica. Revisando o assunto, podemos observar que
não há uma posição clara e definitiva.
Existem propriedades químicas e físicas do oxigênio que
fortemente sugerem esse efeito. No entanto, tratando-se de fenômenos
biológicos, nem sempre uma premissa logicamente aceitável em termos
de fisiopatologia corresponde a uma manifestação clínica. O
assunto, além de curioso, suscita reflexões.
No mergulho, quando falamos em narcose, geralmente nos referimos à
narcose por gás inerte. Efeitos narcóticos são observados em gases
metabolicamente inativos como os gases raros, hidrogênio e gases
voláteis anestésicos. Esses efeitos são observados em diferentes
pressões parciais do gás na mistura. A narcose por gases inertes é
o melhor exemplo dos efeitos narcóticos de qualquer gás ou droga.
Ela se refere a um conjunto de sinais e sintomas que se caracteriza
pelo prejuízo da performance intelectual, de realização de tarefas
motoras, de alterações do humor e do comportamento.
Efeitos Narcóticos do Oxigênio Relacionados à Toxicidade
Como vimos, a toxicidade do oxigênio pode levar à alteração da
consciência através da convulsão. Além disso, se o oxigênio
produz vertigem; limitação de campo visual; sensações de colapso
iminente ou apreensão; incoordenação; distúrbios de sentidos
especiais; disforia; amnésia retrógrada; ilusões; alucinações e
confusão mental, então resta saber se podemos afirmar que esses são
sintomas que sugerem efeitos narcóticos do oxigênio. Isso não
parece estar muito claro; é comumente considerado efeito tóxico do
oxigênio. Da confusão mental à convulsão e posterior sonolência
pós-convulsiva pode ser muito rápido.
Há um estudo experimental com modelo animal que evidencia que, em
altas pressões parciais, a convulsão pelo oxigênio é muito breve e
seguida por um estado que lembra a anestesia. Se o animal é tratado
previamente por uma droga anticonvulsivante numa dose insuficiente de
produzir alterações comportamentais e exposto a altas pressões de
oxigênio, a convulsão é abolida e o animal passa diretamente para
um estado de anestesia. Esses pesquisadores consideraram que o que foi
observado representaria uma ação anestésica verdadeira do
oxigênio, comparável com a de gases inertes. A observação seria
substanciada pelo fato de a solubilidade do oxigênio em lipídeos ser
aproximadamente o dobro da do nitrogênio.
Gases como o oxigênio e o gás carbônico têm outros efeitos
sobre os neurônios, pois reagem bioquimicamente no espaço
extracelular, a membrana e o espaço intracelular para formar
substâncias quimicamente reativas. O efeito excitatório da
exposição aguda à hiperoxia pode ser consequência do aumento da
produção de substâncias reativas ao oxigênio. A forma de
apresentação da toxicidade do oxigênio, com manifestações de
ação sobre o sistema nervoso central, fortemente sugerem um efeito
narcótico. No entanto, essas manifestações tendem a ser menores e
são suplantadas pelo pior problema da toxicidade do oxigênio, que é
o surgimento de contrações musculares e a convulsão. Isso torna, na
toxicidade geral do oxigênio, a questão dos seus efeitos narcóticos
secundária, tendo provavelmente correlação com os efeitos
excitatórios do oxigênio sobre o sistema nervoso central num
primeiro momento por serem maiores que os efeitos depressores.
Mecanismos de Narcose pelo Oxigênio
As propriedades químicas do oxigênio sugerem que ele tem um
efeito narcótico quando sob pressão. O oxigênio e nitrogênio
moleculares apresentam efeitos narcóticos sobre o sistema nervoso
central como é pré-determinado pela sua lipossolubilidade.
Uma das alterações demonstráveis em relação às alterações
enzimáticas induzidas por exposição hiperóxica é a redução do
débito de ácido gama aminobutírico (GABA) nas células do sistema
nervoso central. Essa substância é conhecida como um inibidor da
transmissão nervosa. A sua diminuição de concentração nos locais
em que normalmente se encontra, parece facilitar a ocorrência de
convulsões, pois deixa de haver a inibição nas sinapses nervosas,
permitindo o disparo descontrolado de nervos excitatórios. Esse
mecanismo pode estar envolvido na fisiopatologia da narcose.
Uma linha de pesquisa que estuda as perturbações biofísicas que
ocorrem na narcose por gases inertes sobre a transmissão nervosa,
avalia as alterações no nível das sinapses nervosas. Vários
estudos têm investigado receptores e neurotransmissores tanto
excitatórios como inibitórios no sistema nervoso central.
Acredita-se que a potencialização de uma via inibitória em
receptores sinápticos seria a alteração mais importante na narcose
por gases inertes. Os gases inertes potencializariam os receptores
inibitórios do ácido gama butírico (GABA), que é o
neurotransmissor inibitório mais importante no cérebro. Ações
inibitórias diminuiriam a quantidade e fluxo da transmissão nervosa
no sistema nervoso central.
Por que é importante saber que o oxigênio produz narcose no
mergulho?
Por que devemos preocupar-nos com o efeito narcótico do oxigênio,
se suas manifestações têm uma frequência muito menor e
rapidamente é suplantada pela questão da convulsão?
Na verdade, nos preocupamos com as potências narcóticas e o papel
do oxigênio na potencialização da narcose por gases inertes. A
questão é: Em misturas gasosas utilizadas no mergulho com oxigênio
e nitrogênio, sendo a pressão parcial do oxigênio da mistura maior
que 0,20 ATA, ela será mais ou menos narcótica que o ar na mesma
profundidade?
A resposta torna-se muito necessária, quando se utilizam misturas
em profundidades limites. A situação é mais crítica, quando se
utilizam misturas com mais teor de oxigênio, principalmente nas não
habituais. Como o mergulho com nitrox é limitado pela profundidade e
esse é um fator muito importante na narcose por gases inertes,
então, comumente, não apresentamos preocupação com isso, nem
buscamos o relato dessa experiência com mergulhadores recreacionais.
O mergulho com nitrox acaba sendo realizado em profundidades menores
do que as que habitualmente provocam narcose no mergulho com ar.
Os mergulhadores técnicos geralmente financiam seus próprios
mergulhos e conhecem o custo do hélio para a mistura de fundo. No
mergulho além dos 40 metros requerendo tempos de fundo mais longos,
é necessário empregar gases mais leves, mais fracamente reativos e
menos narcóticos que o nitrogênio e todos misturados para reduzir
pressão parcial de oxigênio.
Algumas vezes, mergulhadores técnicos optam por diluir a mistura
com nitrogênio. Normalmente geram misturas que contêm a quantidade
de hélio necessária somente para aliviar a narcose. Nesse ponto é
importante saber sobre o efeito narcótico do oxigênio para definir a
profundidade máxima alcançável. Nesses casos, não somente a
pressão parcial do nitrogênio da mistura deve ser considerada no
planejamento do nível esperado de narcose, mas também a do oxigênio
em termos de potencial narcótico. Uma forma mais conservadora de
predizer o nível de narcose de uma mistura é comparando as pressões
parciais do nitrogênio combinado com o oxigênio da mistura com o
equivalente de profundidade ou de pressão parcial de mergulho
utilizando ar porque, apesar de o potencial narcótico do oxigênio
ser maior, uma quantidade importante dele é metabolizada. A pressão
parcial intracelular do oxigênio acaba não aumentando tanto quanto a
de outros gases e anestésicos. Isso é importante no mergulho
técnico com trimix, pois, nesse tipo de mergulho, utilizam-se
misturas com proporções fixas da fração de cada gás
pré-preparadas, cujo potencial narcótico pode aumentar com a
elevação da profundidade pela exposição a maiores pressões
parciais desses gases.
O oxigênio é potencialmente mais narcótico que o nitrogênio e
isso é importante em termos de segurança do mergulho. Em termos de
ensino, isso é relevante pela necessidade de se instruir como se
calcula o potencial narcótico de uma mistura gasosa e poder definir
os limites de uso. No entanto, não parece claro o que acontece quando
oxigênio e nitrogênio são utilizados juntos em misturas gasosas
para a ventilação em pressões parciais suficientemente altas
capazes de promover narcose. As possibilidades teóricas são haver
potencialização do efeito narcótico do gás inerte ou manter o
mesmo efeito narcótico. Para inferir um hipotético, mas provável,
efeito narcótico, devemos considerar o mesmo valor relativo à soma
total das pressões parciais dos dois gases à mesma profundidade de
mergulho com ar, já que as propriedades narcóticas do oxigênio
apóiam essa conclusão.
Narcose pelo oxigênio no mergulho, utilizando-se misturas gasosas
com maiores quantidades de oxigênio
A narcose pelo oxigênio não está relacionada exclusivamente aos
efeitos tóxicos do oxigênio no sistema nervoso central. Portanto, o
oxigênio pode ser considerado um narcótico a partir de qual pressão
parcial ?
Foi observado que, durante o uso de mistura gasosa com conteúdo
variável de oxigênio, reduzindo-se a pressão parcial de oxigênio,
estando a pressão parcial de nitrogênio constante, há diminuição
da narcose. Alguns estudos experimentais teriam demonstrado que
pressões elevadas de oxigênio podem produzir anestesia e efeitos
narcóticos. É importante considerar que os efeitos excitatórios
sobre o sistema nervoso central suplantam os efeitos narcóticos
decorrentes da ação depressora do oxigênio, tornando as
manifestações menos exuberantes. Oxigênio poderia produzir
alterações por si só e, principalmente, quando está em misturas
com outros gases narcóticos, potencializando-os.
Um estudo do Karolinska Institutet, em Estocolmo, coloca que
oxigênio em altas pressões parciais tem um efeito potencializador
sobre a ação narcótica do nitrogênio também em altas pressões. O
oxigênio atuaria indiretamente através da interferência sobre a
eliminação do gás carbônico dos tecidos. O aumento da
concentração tecidual de CO2 é que potencializaria a narcose do
nitrogênio.
De maneira indireta, evidenciou-se o efeito narcótico em
observações em humanos. Tudo leva a crer que não é somente um
risco teórico relacionado às características físico-químicas do
oxigênio e que, na verdade, já haveria um conjunto de evidências
clínicas nesse sentido.
Os Drs. R. W. Hamilton e Peter B Benett relatam esses dados em
livros-textos consagrados e respeitados internacionalmente. Esses
autores colocam que a narcose pelo oxigênio é um fato.
O Divers Alert Network tenta emitir opinião em artigo
assinado por Cathie Cush, em 1996, no Alert Diver. Nele ela fala da
narcose sobre oxigênio. Apesar de colocar que as pesquisas não
sustentavam firmemente o conceito, ela acaba referindo-se novamente à
posição do Dr. Hamilton, que, por sua vez, é literalmente a
seguinte: "Nós temos um pequeno dilema: não existem muitos
dados, mas os poucos dados que existem, falam que diferença de
performance não pôde ser detectada quando eles trocaram uma mistura
com alta para baixa concentração de oxigênio. Isso sugere que,
assim como as propriedades dos gases, o oxigênio é tão narcótico
quanto o nitrogênio".
Contudo, devemos registrar que o Dr. Fowler juntamente com os Drs
Ackles e Porlier, do DCIEM, publicaram, em 1985, uma revisão crítica
no Undersea Biomedical Research, avaliando as pesquisas conduzidas
sobre os efeitos da narcose por gás inerte sobre o comportamento, e
concluíram que as evidências até aquele momento relativas aos
efeitos de oxigênio hiperbárico na performance e sua relação com a
narcose não são definitivas para chegarmos a alguma conclusão
consistente e podermos afirmar categoricamente sobre seu efeito
narcótico na prática.
Esses autores colocam que os achados atuais sobre narcose por gases
são coerentes com a chamada hipótese unitária, que prediz existir
um mecanismo único de narcose para todos os gases e que esse
mecanismo é em nível psicobioquímico. Entretanto, ainda não há
clareza sobre a organização psiconeurológica das manifestações da
narcose para se definir um modelo adequado capaz de possibilitar a
medição das alterações para posterior comparação e validação.
Também colocam que não parece claro haver adaptação à narcose e,
ocorrendo, se ela se deve a um aprendizado sobre o estado de narcose e
posterior adaptação ou tolerância fisiológica. Parece também não
haver conclusões sobre evidencias a respeito de algum fator que
potencialize a narcose, além de etanol. Ainda não está definido se
gás carbônico e ansiedade são capazes de potencializar narcose.
Eles têm a opinião de que os autores anteriores se referem a
trabalhos de pesquisa com evidências experimentais criticáveis e,
portanto, questionáveis. Atualmente existem outras informações
sobre os mecanismos fisiopatológicos da narcose que não estavam
disponíveis no passado, quando foram realizados aqueles experimentos.
Muitas pesquisas com novas hipóteses operacionais e outros
delineamentos científicos seriam necessárias para esclarecer o
assunto de maneira definitiva.
O Dr. David Sawastsky, num artigo intitulado "Oxygen
Narcosis: Fact or Fiction?", disponibilizado na WEB, não
encontrado no Medline, inicia, afirmando que, no mergulho
recreacional, se o oxigênio tem qualquer efeito narcótico, ele é
menor que o do nitrogênio. Esse autor defende essa opinião e cita a
revisão dos pesquisadores do DCIEM. Ele corrobora a idéia de que as
evidências sobre os efeitos do oxigênio hiperbárico sobre a
performance e sua relação com a narcose são muito contraditórias
para se chegar a qualquer conclusão. Interessantemente ele coloca
que, na prática, misturas com maior teor de oxigênio que o ar são
utilizadas há muito tempo e surpreendentemente, mesmo sendo usadas em
profundidades limites para intoxicação por oxigênio, não é
relatado maior efeito narcótico pelos mergulhadores que as usam.
Salientamos que, em relação à performance e mergulho, há a
influência de muitos fatores, inclusive fatores subjetivos
relacionados ao desempenho mental que são afetados por adaptação e
treino. Além disso, frisamos que justamente quem utiliza misturas
diferentes do ar, são mergulhadores mais treinados e experientes, que
apresentam um grau diferente de motivação em relação aos riscos do
mergulho, o que torna a observação bastante subjetiva.
Devemos ressalvar que outras pesquisas na área de anestesiologia,
principalmente modelos animais, foram realizadas, gerando outro tipo
de evidência no assunto, parecendo não terem sido consideradas por
esses autores. O Dr. David J. Doolette, colaborador da IANTD, informa
que dados teóricos e evidências experimentais sugerem que o
oxigênio também é narcótico, produzindo déficits de performance
semelhantes aos de gases inertes. O oxigênio sozinho ou em mistura
com outros gases pode produzir alterações no sistema nervoso
central. O oxigênio seria 3 a 4 vezes mais narcótico que o
nitrogênio e seria prudente incluí-lo em qualquer cálculo de
profundidade equinarcótica em planejamentos de mergulhos com misturas
gasosas.
É bastante razoável a colocação encontrada na 4ª edição do NOAA
Diving Manual – Diving for Science and Technology em relação
ao uso de EAN, que diz: "O resultado é que não se pode esperar
uma alteração significativa em narcose, quando se mergulha com
nitrox em comparação com o ar". Em verdade, a questão não foi
definitiva e inequivocamente estudada e respondida.
Como calcular o efeito narcótico de misturas com oxigênio
diferentes que o ar ?
Se operarmos com o conceito de uma prática do mergulho baseada em
evidências, podemos dizer que ainda não sabemos como calculá-lo.
Parece, pelo que se sabe até o momento, que não é prudente seguir a
hipótese de equivalência de efeito narcótico. Essa hipótese prevê
que o efeito narcótico de uma mistura gasosa para o mergulho deve ser
baseado na pressão parcial do nitrogênio da mistura. Ou seja, ele
determina que a mistura gasosa terá os mesmos efeitos narcóticos do
mergulho com ar na profundidade relativa à mesma pressão parcial do
nitrogênio daquela mistura.
Não parece prudente considerar que uma mistura contendo oxigênio
e nitrogênio com mais oxigênio do que o ar tenha menos efeito
narcótico para a mesma pressão parcial de nitrogênio. Havendo
dúvidas, devemos considerar que, na melhor das hipóteses, no
mínimo, tem o mesmo efeito narcótico à profundidade equivalente à
soma da mesma pressão parcial dos dois gases. Na pior das hipóteses,
tem mais efeito narcótico.
Além disso, qualquer instrumento que seja criado para estimar um
efeito narcótico, decorrentes de mistura gasosa que contenha
oxigênio e nitrogênio, deverá levar em conta a necessidade de
incluir um fator de correção em função da profundidade. Por quê
isso se faz necessário? Isso se faz necessário pois à medida em que
a profundidade aumenta devemos considerar que existe retenção de
gás carbônico em função do aumento da densidade da mistura do gás
respirado, da resistência e do esforço ventilatório. Não podemos
esquecer que o gás carbônico tem efeito narcótico.
Tom Mount, Mark Owens e Don Towesend disponibilizaram, na Technical
Diver Encyclopedia da IANTD, um conjunto de 3 tabelas para
profundidades equivalentes de narcose para mergulhos com trimix. A
metodologia para a constituição desse instrumento não foi
disponibilizada. No entanto, a análise dessas tabelas de
profundidades equivalentes de narcose revela que elas tendem a
subestimar o efeito narcótico de uma determinada mistura de trimix em
relação à profundidade equivalente de um mergulho com ar.
Gostaríamos de ressaltar que não se deve lidar com o tema de uma
maneira estritamente matemática em relação ao cálculo da mistura
gasosa escolhida para o mergulho. Apesar de saber muito sobre as
características físico-químicas e usar a matemática para os
cálculos, não se deve esquecer que se trabalha com fenômenos
biológicos que, às vezes, são difíceis de medir em termos
absolutos. Muitas coisas que aparentemente têm uma lógica base
fisiopatológica quando são testadas em delineamentos cientificamente
corretos, não reproduzem confirmação da hipótese. Lembramos que
também se devem considerar e identificar os fatores de risco e a
predisposição individual à narcose.
CONCLUSÕES
São indiscutíveis os benefícios que se podem ter em escolher uma
mistura gasosa específica para cada plano de mergulho. No caso do uso
de EAN, a escolha adequada pode proporcionar a diminuição do risco
de doença descompressiva e/ou aumentar o tempo de fundo numa
determinada profundidade permitida. No caso de outras misturas com
outros gases, podem-se ter vantagens em termos de não apresentar
narcose.
Entretanto, respirar misturas com alto conteúdo de oxigênio pode
adicionar riscos que não são encontrados no mergulho com o ar. Um
deles é a possibilidade de convulsão, se a profundidade segura é
excedida. Outro é se ter no cilindro uma mistura diferente do que se
supõe ter.
Mesmo permanecendo dentro de limites preconizados, nada garante que
uma convulsão não ocorra em mergulhos que necessitam de planejamento
especial. Somente atenção ao planejamento do mergulho e dedicação
ao treinamento podem diminuir a possibilidade de afogamento por
convulsão.
O conhecimento da profundidade equivalente de narcose é importante
para o planejamento do mergulho com misturas gasosas diferentes do ar.
No entanto, não está claro o quanto o oxigênio é narcótico, bem
como a sua interação com outros gases. Nos planejamentos de
mergulho, primeiramente se limita a profundidade máxima em função
da pressão parcial do oxigênio em relação à profundidade proposta
do mergulho. A questão da narcose acaba ficando num segundo plano.
Na prática, fica para o mergulhador a responsabilidade de perceber
seu limite em relação à narcose da mistura. Em termos de
segurança, isso é muito perigoso, pois se transfere ao afetado pela
narcose a responsabilidade de definir uma mudança de planejamento
numa situação que potencialmente ele já não está mais em
condições de mudar. Por isso, são importantes o conhecimento e o
estabelecimento de profundidades equivalentes de narcose baseados em
dados bem estabelecidos com metodologia científica adequada. Ou seja,
o assunto deve ser esclarecido de maneira definitiva, ainda mais que
tem aumentado a população dos mergulhadores técnicos.
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Renúncia
Nenhuma representação neste texto é feita no sentido de oferecer
um diagnóstico, tratamento ou cura para qualquer condição ou
doença relatada. O caráter do texto é somente informativo e deve
ser usado em conjunto com o aconselhamento específico do médico de
medicina do mergulho. O autor não é responsável por qualquer
consequência concebível relacionada à leitura deste texto.
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