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Saber renunciar
Dizer não, quando não se está confortável em um mergulho, é uma
das qualidades mais importantes em um mergulhador.
Junho de 1992: um barco de mergulho se aproxima da Gruta
Azul em Arraial do
Cabo. A bordo, um grupo de mergulhadores mineiros se prepara para
visitar esse famoso ponto de mergulho. Mas essa idéia é logo deixada
de lado pois, as condições de mar no local não são favoráveis.
Mesmo assim dois dos mergulhadores decidem mergulhar. Nada no mundo
poderia ter preparado os membros deste grupo (os que ficaram na
superfície) para as cenas horrendas que logo iriam presenciar.
Uma semana antes, eu começara a minha travessia "Arraial do
Cabo - Cabo Frio", após um dia de mergulhos e treinamentos. Eu
tinha dezenove anos e estava terminando meu curso de instrutor. Essa
travessia era comum na época. O Costa Azul Iate Clube, em Cabo
Frio, era nossa base de operações e íamos regularmente a
Arraial do Cabo. Dependendo das condições de mar, a viagem durava de
uma a uma hora e meia. Durante esse tempo, os equipamentos iam sendo
montados e esperávamos ansiosos pelo momento de cair nas águas
claras de Arraial.
Ao deixarmos para trás a Ponta Leste e apontarmos nossa proa para
Cabo Frio, eu já estava com o barco preparado para a viagem de
retorno e aproveitei para curtir o visual. Ao longe, vi um barco de
mergulho que se aproximava. Quando ele passou ao nosso bordo, pude
distinguir "X" - meu primeiro instrutor de mergulho - de
pé, junto à cabine. Ao me ver, ele abriu um largo sorriso e acenou.
Eu acenei de volta e fiquei a observar ambos (ele e o barco) sumirem
no horizonte. Aquela foi a última vez que vi "X" vivo.
Completamente apaixonado por mergulho. Essa era a definição de
"X". Sempre a frente de seu tempo, ele realizava viagens de
mergulho a lugares que até então nunca havíamos ouvido falar. Ele
abdicava, por exemplo, a possibilidade de ter um carro melhor para ter
um equipamento de mergulho de ponta e poder viajar. Em Belo Horizonte
e outras cidades, ele era respeitado e amado por todos. Seu bom humor
e companheirismo eram marcantes.
O Dia Fatídico
Uma semana depois, lá estava "X" com seu grupo de
mergulho. Eram pessoas com boa experiência na atividade e já haviam
mergulhado em várias partes do Brasil e do mundo.
Ao se aproximarem da Gruta Azul, um banho de água fria: a
visibilidade da água não estava lá grandes coisas e o mar batia
muito, desanimando a maioria dos presentes no local a aventurar-se
debaixo d'água...
"X" também não queria mergulhar mas pressionado por
outro mergulhador ("Y"), decidiu descer para explorar a
Gruta Azul.
A partir do momento em que nossos amigos iniciaram o mergulho, tudo
é suposição. Mas a história termina de forma triste e terrível.
Após longa espera, os corpos dos dois mergulhadores apareceram
boiando na superfície. "X" estava totalmente desequipado de
seu equipamento SCUBA, quase sem roupa. Se não fosse pelas tiras da
faca, ele estaria só de sunga."Y", também sem o SCUBA foi
encontrado em piores condições: sua roupa de mergulho estava aos
frangalhos e diversos cortes em seu corpo levam a crer que ele usou a
faca para tentar se livrar da roupa.
Mais que um amigo, eu e diversos mergulhadores perdemos nesse dia
nosso guru.
Explicações
Algum tempo após o acidente, dois experientes mergulhadores
entraram dentro da Gruta para tentar elucidar o mistério.
Dentro, acharam todo o equipamento que os dois mergulhadores
descartaram: computadores, coletes, cilindros e os dois cintos de
lastro. Todos estavam em más condições (tive a oportunidade de ver
o cilindro Gênesis de "X" bastante arranhado). O que chamou
atenção foi o fato dos cintos de lastro estarem fechados. Por que
dois mergulhadores lutando pela vida tirariam e depois fechariam os
cintos antes de largá-los no fundo ?
Isso levantou a hipótese mais aceita da causa do acidente: os
mergulhadores perderam os cintos de lastro e ficaram positivos demais
dentro da caverna.
Devido ao aumento de pressão e força da água, os cintos
realmente podem ter escorregado pelas pernas dos atônitos
mergulhadores. Dentro da Gruta, com flutuabilidade positiva, eles
iniciaram a desequipagem para tentar uma fuga desesperada. Durante
esse processo, ambos os mergulhadores sofreram traumatismo craniano ao
baterem com suas cabeças contra as paredes da apertada Gruta Azul.
Lições tiradas da tragédia
Boa parte da comunidade do mergulho acredita que analisar o
acidente de outros mergulhadores é muito válido para prevenir
acontecimentos desagradáveis no futuro. Alguns, tratam a matéria de
forma sarcástica, criticando os envolvidos. Essa atitude demonstra um
total despreparo e deve ser desencorajada.
No mergulho técnico é bastante disseminado que, quando não
estamos bem, não devemos mergulhar. Os motivos para esse sentimento
podem ser muitos e variados: stress, depressão, preocupação, briga
com familiares, etc.
Não só antes, mas também durante o mergulho, existe uma regra
entre os "techdivers": Qualquer mergulhador pode, a qualquer
momento, por qualquer motivo, cancelar o mergulho. Esse procedimento
possui um sinal manual próprio e é popularmente denominado
"chamar" o mergulho.
Assim que esse sinal é utilizado, todos os membros da equipe devem
abortar o mergulho e perguntas sobre o porque desta atitude só serão
feitas na superfície.
Dizer não pode ter salvo a vida de muitos mergulhadores, enquanto
não dizer pode ter sido a causa de vários acidentes.
Essa preciosa "ferramenta" precisa ser melhor disseminada
em toda a comunidade do mergulho. Seja entre recreativos ou técnicos.
Mergulhar é se divertir e não vale a pena cair na água se o
objetivo principal da atividade não for atingido.
No caso relatado acima, existe um outro erro muito comum: mergulhar
além de seu treinamento. Tanto "X" quanto "Y"
não possuíam treinamento para mergulhar em ambientes com teto.
Existem diversos níveis e tipos de mergulho e essa variedade
agrada a Gregos e Troianos.
Para o sucesso e maior aproveitamento destes "degraus",
é preciso ter em mente que além de um treinamento adequado, outros
aspectos devem ser levados em conta:
Equipamentos: não importa se você é um mergulhador
recreativo ou técnico. O equipamento que você irá usar precisa
estar em boas condições e antes de iniciar o mergulho deve ser feita
uma checagem "dos pés à cabeça" para confirmar que nada
está faltando .Lembre-se que alguns acessórios são importantes em
um determinado mergulho e em outros não. Evite carregar equipamentos
que você não irá utilizar. Quando não estiver mergulhando,
aproveite para dar uma manutenção adequada e deixar todo o
equipamento "operacional" para a próxima viagem.
Planejamento: atualmente contamos com ferramentas muito
importantes. Uma delas são as misturas EAN. Ao programar um mergulho,
procure usar a mistura mais adequada. Isso pode ser feito por todos os
níveis de mergulhadores que possuam a certificação NITROX. Devemos
considerar também que a troca de informações com outros
mergulhadores podem produzir um maior aproveitamento (listas de
discussão na internet são uma boa fonte de dados). Antes de entrar
no barco, tenha em mãos o maior número possível de informações
sobre a área que você está visitando. Faça um intercâmbio entre
os seus companheiros de mergulho e decida a melhor maneira de
mergulhar em determinado ponto. Tenha redundância nesse assunto. Leve
dados de outros lugares interessantes pois,se algo acontecer e seus
objetivos primários não puderem ser atingidos, você terá outras
opções à sua disposição
Atitude positiva: mais uma vez, o mergulho é um momento de
diversão para você. Não leve para o barco ou caverna, disputas de
egos e pequenas rixas. Ser um bom mergulhador é também ser um bom
companheiro de mergulho fora ou dentro dágua. Seja cordial e
prestativo quando requisitado.
Experiência: nada substitui a prática. Sempre que possível,
mergulhe e use todos os seus conhecimentos. Varie os pontos e
objetivos do mergulho: faça saídas de praia, noturnos, profundos,
use as variáveis do NITROX, experimente novos equipamentos,
configurações e técnicas. Mantenha a mente aberta.
Extraído da Revista
Deco Stop - Edição nº 3
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