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Diabete e Mergulho (Continuação)
Hiperglicemia e o Mergulho
A hiperglicemia representa uma complicação aguda que pode acabar
noutra que é a cetoacidose diabética . A cetoacidose, por sua vez,
pode afetar gravemente o desempenho embaixo da água.
Há algumas descrições de casos de mergulhadores que não tinham um
diagnóstico preestabelecido de diabete e que, a partir de um
determinado momento durante um de seus mergulhos, passaram a apresentar
falta de ar acompanhada de hiperventilação com excesso de consumo de
ar, confusão mental e comportamento atípico, que, em alguns casos,
evoluíram ao pânico. Avaliações posteriores revelaram que esses
mergulhadores tinham apresentado uma síndrome diabética associada a um
estado de cetoacidose.
Manifestações de quase pânico ou episódio de ansiedade aguda em
mergulhadores experientes que nunca apresentaram esses sintomas, indicam
a necessidade de excluir a possibilidade diagnóstica de diabete melito.
Isso foi visto, antes de um diagnóstico definitivo, naqueles
mergulhadores que apresentavam um equilíbrio metabólico limítrofe,
que não sabiam ser diabéticos, bem como naqueles que não tinham um
distúrbio psicológico prévio do pânico.
A hiperglicemia é mais provável ocorrer nos diabéticos que
apresentam um controle inadequado da doença e naqueles que evitam
episódios hipoglicêmicos. Alguns mergulhadores diabéticos optam por
iniciar o mergulho em hiperglicemia intensa, acreditando que assim
estarão protegidos da hipoglicemia durante o mergulho. Glicemias
maiores que 240 mg/dl antes do mergulho são potencialmente perigosas.
Hiperglicemia significativa e uma cetose moderada no início do
mergulho, associada ao exercício vigoroso subsequente, leva a um risco
aumentado de desenvolver uma cetoacidose. Após o início do exercício,
há um estímulo à produção de glicose pelo fígado desencadeada pela
ação do glucagon. Essa produção não é inibida e ácidos graxos
são disponibilizados para suprir a demanda aumentada de energia. Isso
resulta em hiperglicemia, cetose e acidose.
Existem algumas outras condições associadas ao mergulho que
potencializam e complicam a hiperglicemia e a cetose. No mergulho,
hiperglicemias em níveis não cetóticos podem acarretar um aumento da
diurese em função da perda de glicose pela urina, que, por sua vez,
leva a um aumento da diurese com perda de água e sais. Não está bem
definido se glicose plasmática elevada aumentando a diurese de modo
significativo, provocando desidratação pode aumentar a
susceptibilidade à ocorrência de doença descompressiva. Parece que
hiperglicemia piora o prognóstico em caso de doença descompressiva
neurológica.
Além disso, as náuseas e os vômitos que podem acompanhar o quadro
de hiperglicemia em nível não cetótico, por sua vez, podem levar à
desidratação e a uma piora da depleção de volume previamente
estabelecida. A acidose lática que se acresce à acidose metabólica,
causa prejuízo às atividades que requerem atenção e clareza de
pensamento. A acidose metabólica e a lática, associada à depleção
de volume, levam a um comprometimento do débito cardíaco, podendo até
mesmo provocar insuficiência circulatória. A estratégia de elevar os
níveis de glicemia antes do mergulho para evitar a hipoglicemia não
parece ser boa.
No mergulho, a cetoacidose pode desencadear ansiedade, falta de ar e
mesmo evoluir ao afogamento. Além disso, as alterações provocadas
pela cetoacidose no sistema nervoso central podem provocar confusão
mental, que, por sua vez, induz a erros de julgamento e interferência
negativa em processos de decisão. A própria hiperglicemia pode levar a
um prejuízo no funcionamento cerebral.
No diabético tipo 1, exercício intenso, pouca alimentação e pouca
administração de insulina podem acarretar um estado de cetose e
acidose capazes de interferir na dinâmica ventilatória do mergulho. O
aumento da resistência ventilatória nessa situação pode provocar
falta de ar e desencadear um estado de pânico.
Devem também ser considerados alguns fatores relacionados à
hiperglicemia e à possibilidade de ocorrer cetoacidose em mergulhos
realizados em locais distantes e com limitadas condições de suporte ao
mergulhador. Dificuldades de dispor de locais com refrigeração
adequada para guardar a insulina podem acarretar dificuldades na sua
preservação. Insulina que é guardada inadequadamente, acaba se
degradando. O diabético mergulhador acaba usando uma medicação
inativa com menos ou nenhum efeito terapêutico.
O mergulhador diabético pode evitar essa situação, realizando a
automedida da glicemia antes e depois do mergulho e também o teste de
cetona no sangue e urina. A partir dessas medidas, poderá decidir se
realizará ou não o mergulho.
Estado Hiperosmolar Não Cetótico e o Mergulho
Esta situação é mais comum no mergulhador de meia idade ou idoso
portador de um diabete melito tipo 2. O estado hiperosmolar não
cetótico ocorre quando há ainda alguma atividade insulínica.
A ocorrência de um estado hiperosmolar não cetótico num
mergulhador com co-morbidades está associada a um pior prognóstico. A
exposição a esse risco pode ser evitada, se o mergulhador realiza uma
avaliação clínica minuciosa que exclua doença cardiovascular e
renal. Como veremos, nenhum protocolo aceita mergulhadores diabéticos
com complicações crônico-degenerativas. Além do risco de apresentar
complicações crônicas que provocam disfunções orgânicas e afetam o
desempenho embaixo da água, o próprio uso de medicações para o
tratamento dessas doenças pode ser incompatível com o mergulho.
Relação entre o Metabolismo e a Ventilação
Alterações metabólicas relacionadas ao metabolismo da insulina
acarretam outras alterações capazes de desencadear mudanças no
padrão ventilatório pela estreita ligação que há entre a produção
de energia e a utilização do oxigênio da mistura gasosa que
ventilamos.
Aqueles com capacidade secretora de insulina gravemente comprometida
ou mesmo ausente apresentam uma mobilização de grandes quantidades de
corpos cetônicos para o fígado. O metabolismo do fígado, nessa
situação, poderá resultar numa grande geração de corpos cetônicos.
Há uma grande produção de cetoácidos como o beta hidroxibutirato. A
produção de cetoácidos leva a uma acidose metabólica, que, por sua
vez, acarreta hiperventilação. No mergulho, a necessidade de uma
hiperventilação pode aumentar o esforço ventilatório, podendo levar
à fadiga e à retenção de gás carbônico.
Comprometimento Multissistêmico e Mergulho
O comprometimento neurológico periférico da doença pode acarretar
uma série de sintomas que podem ser confundidos com doença
descompressiva. Alterações da sensibilidade nas extremidades são
frequentemente confundidas com doença descompressiva.
Neuropatia diabética com comprometimento autonômico também pode
afetar a baro-regulação do sistema circulatório durante a imersão
com efeitos cardiovasculares imprevisíveis. Neuropatia autonômica pode
resultar em disfunção da bexiga com retenção urinária e mesmo
alteração da regulação da temperatura corporal. Hipoglicemia
assintomática, arritmias cardíacas e hipotensão postural decorrente
de comprometimento do sistema nervoso autônomo são fontes potenciais
de problemas para o diabético e para o seu dupla, podendo ser motivo de
resgate na água.
Doença cardiovascular pode limitar o desempenho físico do
mergulhador diabético embaixo da água, reduzindo a tolerância ao
exercício. Infarto agudo ocorre mais precocemente em diabéticos e pode
ser mais severo, acompanhado de arritmias ou de choque cardiogênico. A
neuropatia pode prejudicar a percepção da doença cardíaca
isquêmica. Falta de ar pode ser o único sinal de uma angina enquanto o
mergulhador diabético está mergulhando. Os infartos agudos do
miocárdio tendem a ser assintomáticos principalmente quando a vítima
está submersa, pois isso elimina a hipotensão postural associada à
falência cardíaca. A hipotensão ortostática pioraria a isquemia,
gerando mais dor, fazendo com que se perceba o problema.
De acordo com os dados estatísticos relacionados à mortalidade no
mergulho, parece que os problemas maiores que os mergulhadores
diabéticos tipo 2 enfrentam, são o fato de eles apresentarem doença
coronariana concomitante. Entretanto, cabe salientar que o mergulho não
aumenta o risco de o mergulhador apresentar complicações crônicas do
diabete. A severidade das alterações também parece não aumentar em
decorrência do mergulho.
O QUE SABEMOS SOBRE DIABETE E MERGULHO OU COMO OS MERGULHADORES
DIABÉTICOS MERGULHAM
Até a metade da década de 70, o comitê médico do Sub Acqua
Club Britânico proibia a prática do mergulho autônomo recreativo
para diabéticos tipo 1. No entanto, no início da década de 90, no
Reino Unido, houve uma maior liberalidade a partir da constatação de
que muitos diabéticos estavam mergulhando sem maiores problemas. Desde
1991, no Reino Unido, diabéticos têm mergulhado sob a supervisão do British
Sub-Aqua Club, da Sub-Aqua Association e do Scottish Sub-Aqua
Club.
Por outro lado, as orientações atuais do Recreational Scuba
Training Council (RSTC, revisão 7/90), na sessão dos protocolos de
exame médico, são contra-indicar a prática do mergulho autônomo
recreativo aos diabéticos em tratamento com insulina ou
hipoglicemiantes orais. Cabe salientar que o RSTC é parâmetro usado
pela maioria das entidades certificadoras da prática do mergulho
autônomo recreativo. Entretanto, há outras entidades que treinam
mergulhadores diabéticos que apresentam certos pré-requisitos
seletivos para serem incluídos em seus programas.
Um Fato Histórico Peculiar
Em 1975, um mergulhador diabético mergulhou, a 28 metros de
profundidade, num naufrágio acontecido em águas frias do sudoeste da
Inglaterra. O mergulho foi realizado, sem dificuldades, dentro de um
plano de mergulho recreativo, portanto sem a necessidade de parada
descompressiva. Já tendo voltado à superfície, nadando de volta à
embarcação, começou a apresentar alguma dificuldade. Foi resgatado e,
após ter sido levado ao barco, perdeu a consciência.
Inicialmente o caso foi interpretado como sendo decorrente de uma
hipoglicemia relacionada ao diabete e não decorrente de doença
descompressiva. Muitas horas após, os sintomas acabaram sendo
reconhecidos como relacionados à doença descompressiva e acabou
recebendo tratamento específico. No entanto, mesmo sendo reconhecida a
doença e recebendo o tratamento, ele acabou ficando com uma paraplegia
permanente. Mais tarde, esse mergulhador acabou cometendo suicídio. Por
muito tempo, esse caso foi exemplo para justificar a proibição da
prática do mergulho autônomo recreativo para o diabético ou para
qualquer mergulhador que passasse a se apresentar com a doença.
Algum tempo depois, em 1987, o Dr. Claire Eno, médico mergulhador e
também diabético, realizou um levantamento dos dados médicos
disponíveis relacionados à população de mergulhadores no Reino
Unido. Nesse levantamento, ele pôde constatar que muitos mergulhadores
diabéticos estavam mergulhando independentemente da proibição médica
e que não apresentavam uma incidência aumentada de doença
descompressiva, nem sofriam hipoglicemias importantes durante o
mergulho. O levantamento inicial apresentava uma série de vícios de
origem, mas, mesmo assim, havia um conjunto de evidências de que o
problema deveria ser reavaliado. Na prática, muitos mergulhadores
diabéticos estavam mergulhando sem assistência.
Em 1989, começaram a ser publicados os primeiros casos relacionando
o diagnóstico de forâmen oval patente em mergulhadores com a
ocorrência de doença descompressiva. Essa evidência acabou se
consolidando e, em 1992, o caso do mergulhador diabético que tinha
apresentado doença descompressiva, foi reexaminado. O fato de os
sintomas de doença descompressiva terem surgido imediatamente após o
final do mergulho fortemente sugeria a possibilidade de um forâmen oval
patente estar relacionado com o caso. Por sorte ainda havia material
para ser reexaminado de maneira que se acabou constatando um grande
forâmen oval no coração daquele mergulhador.
A análise final do caso constatou que o mergulhador na realidade
apresentara um quadro de doença descompressiva provavelmente
relacionada ao forâmen oval patente, não havendo qualquer evidência
de que a condição de ser diabético poderia ter causado aquele quadro.
Apesar de ainda ser somente um caso, devemos salientar que ele
desencadeou uma reflexão profunda sobre posições médicas rígidas.
Três pesquisadores do Diving Diseases Research Centre (DDRC)
do Reino Unido, Edge, Lindsay e Wilmshurst, acabaram concluindo que,
numa prática de medicina baseada em evidência, ainda não havia um
conhecimento médico definitivo para sustentar a proibição irrestrita
do mergulho para diabéticos. Essa conclusão gerou um posicionamento
que mudou a abordagem do assunto e gerou uma nova linha de pesquisas.
A Busca de Evidências
Dessa forma, a partir de então, a Sub-Aqua Association (SAA)
e o British Sub Acqua Club (BS-AC), seguindo certos critérios
médicos restritivos, começaram a liberar o mergulho recreativo
para alguns mergulhadores diabéticos. Aqueles diabéticos que não
apresentavam complicações secundárias à doença, como, por exemplo,
a doença cardiovascular aterosclerótica e que fizessem adequado
controle da doença, poderiam mergulhar. Essa posição acabou
lançando, na comunidade médica relacionada com o mergulho recreativo,
a necessidade de reavaliar o problema de maneira mais objetiva,
criando-se procedimentos de mergulho para serem seguidos nessa
condição.
Em 1993, o Divers Alert Network (DAN) fez um levantamento de
todos os seus membros para identificar o tamanho do problema. Essa
pesquisa, através de um questionário dirigido, identificou 164 membros
diabéticos, sendo que 129 eram diabéticos tipo 1, que estavam
mergulhando ativamente e sem maiores complicações. Além disso, a
análise dos registros de acidentes de mergulho de 1989 a 1994
evidenciou que, das 550 fatalidades, sete ocorreram em mergulhadores que
eram diabéticos e, dos mais de 2.400 episódios de doença
descompressiva, somente oito ocorreram em diabéticos. Esses números
não apresentaram diferenças estatísticas significativas em relação
ao esperado para a população de mergulhadores em geral.
Em 1994, a Undersea and Hyperbaric Medical Society (UHMS) e a American
Diabetes Association (ADA) se reuniram e revisaram a questão. Foi
instituído um comitê de diabete e mergulho para revisar e propor um
protocolo que permitisse definir quem poderia mergulhar e para que
também definisse uma rotina a ser seguida durante o mergulho.
As conclusões e recomendações do comitê foram:
1. Um número significativo de diabéticos tratados com insulina ou
hipoglicemiantes orais está mergulhando.
2. Os dados até agora registrados não justificam a proscrição do
mergulho recreativo para todos os diabéticos. Pesquisas adicionais
devem ser realizadas para esclarecer todos os aspectos relacionados que
se fizerem necessários.
3. Pessoas tratadas com insulina ou hipoglicemiantes orais apresentam
maior risco no mergulho, principalmente os decorrentes de hipoglicemia.
Os riscos incluem perda súbita de consciência embaixo da água e,
consequentemente, de afogamento.
4. Diabéticos tratados com insulina que optam por mergulhar, devem
considerar que outras pessoas também estão envolvidas com os seus
riscos durante uma operação convencional de mergulho.
5. Um mergulhador, sendo diabético, não pode ser considerado apto a
mergulhar a menos que se coloquem critérios restritivos de seleção.
Até que novos dados estejam disponíveis, é prudente excluir aqueles
(1) que tiveram, nos últimos 12 meses, hipoglicemia com perda de
consciência, convulsões ou que necessitaram do auxílio de outros para
tratá-la; (2) com complicações secundárias à doença em órgãos
alvo como retinopatia, neuropatia, doença vascular principalmente
coronariana; (3) que apresentam hipoglicemia sem sinais premonitórios;
(4) com diabete mal controlado determinado pelo seu médico e finalmente
(5) que não têm um bom entendimento da doença principalmente na
relação do controle metabólico com o exercício.
6. O restante dos diabéticos, ou seja, que têm controle adequado da
doença, que são tratados com insulina ou hipoglicemiante oral, que
têm um adequado entendimento da doença, podem ser considerados para a
prática do mergulho autônomo, desde que tenham um treinamento adequado
e sigam um protocolo de manejo adequadamente delineado.
7. Mergulhadores diabéticos selecionados para mergulhar devem ser
avaliados periodicamente. Nessa ocasião, deve ser procuradas
complicações de sua doença que sejam capazes de desqualificá-los por
produzirem riscos adicionais.
O comitê orientou que as propostas de protocolos deveriam incluir um
plano geral de cuidados ao diabético, um protocolo geral de segurança
durante o mergulho, medidas para evitar e para tratar eventuais
episódios de hipoglicemia. Também foi registrado, nesse encontro, que
hipoglicemia em mergulhos profundos pode ser mal percebida num
mergulhador diabético por causa da narcose pelo nitrogênio.
O comitê reconheceu que faltavam dados consistentes sobre a questão
e que isso comprometeria uma posição definitiva. O maior risco
definido para o mergulho nessa condição seria o de o mergulhador
apresentar uma hipoglicemia. No entanto, os debatedores acreditavam que
diabéticos com bom condicionamento físico e com a doença bem
controlada poderiam mergulhar.
Dois anos após o comitê da UHMS/ADA, foi realizado um novo encontro
com a seguinte questão: "Alguns diabéticos apresentam condições
clínicas para mergulhar. Quem ?"
As conclusões resumidas do encontro são as seguintes:
- Mergulhadores diabéticos têm risco de perda da consciência
embaixo da água. Esses mergulhadores apresentam o risco adicional
de se afogarem e de imporem riscos adicionais aos seu duplas.
- Mergulhadores diabéticos, mesmo com sua doença bem controlada,
não podem ser considerados aptos a mergulhar sem restrições.
- Indivíduos com diabete que cumprem algumas exigências clínicas,
podem mergulhar de acordo com alguns procedimentos detalhados.
- Mergulhadores com diabete devem ser avaliados periodicamente para
a identificação de complicações da doença que possam
desqualificá-los pelo acréscimo de riscos.
- Hipoglicemia em grandes profundidades pode ser mal percebida pela
ocorrência simultânea de narcose.
- Muitas questões não estão respondidas e estudos adicionais
devem ser realizados.
Estudos Realizados a partir do Comitê da UHMS/ADA
Após 1994, uma série de pesquisadores criou vários protocolos de
acordo com os dados do comitê obtidos pela UHMS/ADA.
Episódios de hipoglicemia não foram evidenciados num estudo
controlado por pesquisadores alemães, na Nova Guiné, em 1996,
conduzido por um grupo relacionado com a International Association of
Handicapped Divers (IAHD). Eles monitorizaram 7 mergulhadores com
diabete melito tipo 1, com uma média de idade de 32 anos e com valores
de hemoglobinas glicosadas variando entre 5,5 e 9%. Usando uma série de
medidas de controle, eles concluíram que mergulhadores diabéticos que
apresentassem preparo físico adequado e seguissem um plano de cuidados
apropriado, poderiam mergulhar com segurança. Nenhum caso de
hipoglicemia foi relatado. No estudo, foi incluída uma medida noturna
tardia para acessar os efeitos da repleção das reservas musculares
sobre a glicemia, ou seja, a hipoglicemia tardia noturna.
Esse estudo também forneceu outros achados importantes. Um deles é
que a dose diária de insulina deve ser diminuída em função do alto
consumo energético e da necessidade de se manterem níveis mais
elevados de glicemia antes e depois do mergulho para se evitar uma
hipoglicemia durante ou após o exercício. Outro achado observado é
que há um aumento diário da necessidade de ingestão de carboidratos
durante a temporada de mergulho relacionado com o aumento de exercícios
realizados.
Outro estudo foi divulgado em 1997, conduzido em câmara
hiperbárica, realizando um mergulho simulado de 23 minutos a 4
atmosferas absolutas de pressão (ATA). O estudo simulava as condições
prévias de nutrição e o exercício intenso num mergulho convencional.
As observações se estenderam por 5 horas após o início do mergulho e
não foi registrado nenhum episódio de hipoglicemia, apesar do
exercício e do jejum após o mergulho. Alguns autores concluíram que o
maior valor do estudo foi revelar que nenhuma diferença estatística
foi identificada nos controles em relação à medida dos níveis de
glicemia na pressão ambiente e a 4 ATA, ou seja, dentro dos limites de
pressão ambiente do mergulho recreativo, a pressão sobre o mergulhador
não altera o nível de glicose sanguínea.
A pesquisadora Donna Uguccioni, em 1997, iniciou pelo DAN um estudo
para avaliar as alterações sanguíneas dos níveis de glicose em
mergulhadores diabéticos tipo 1. Os resultados do estudo foram
divulgados no encontro anual da UHMS de 1998, relatando uma experiência
positiva, sem maiores complicações. O estudo tentava reproduzir as
condições em que os mergulhadores habitualmente mergulhavam, sendo que
eles mesmos controlavam a dieta, a dose de insulina e a atividade de
mergulho. Nele, 16 mergulhadores insulinodependentes com moderado
controle do diabete realizaram 131 mergulhos. Concluiu-se que os níveis
de glicose em diabéticos tipo 1 podiam ser manejados para evitar
hipoglicemia sob moderadas condições de mergulho. Além disso, se
evidenciou que as alterações na glicemia antes e depois do mergulho
são semelhantes, comparando-se mergulhos únicos e sucessivos.
No encontro anual da UHMS de 1998, também foi relatada a
experiência de mergulhos realizados por mergulhadores diabéticos do
Reino Unido. Foram analisados os questionários da base de dados
iniciada em 1991, que continha informações gerais sobre a atividade de
mergulho e que incluía as avaliações de saúde geral e os dados
específicos sobre mergulhadores diabéticos. A análise de mais de
2.400 mergulhos realizados por mergulhadores diabéticos com boas
condições físicas não evidenciou qualquer complicação. Um dado
importante do relato é que anualmente a população de mergulhadores
diabéticos crescia em 38%.
No final de 2004, o grupo do DAN acabou publicando um artigo com uma
série significativa de 555 mergulhos realizados por 40 mergulhadores
diabéticos tipo 1. Os mergulhadores selecionados para o estudo estavam
mergulhando já fazia quase uma década e o tempo médio de doença era
de 15 anos. A condição básica pré-mergulho era de apresentar uma
glicemia maior do que 80 mg/dl. Nos mergulhos realizados, não ocorreu
nenhum sintoma ou complicação relacionados à hipoglicemia. Em 7% dos
casos, a glicemia observada após o mergulho foi menor que 70 mg/dl,
enquanto 1% dos mergulhadores controles apresentou níveis semelhantes.
Outros eventos hipoglicêmicos aconteceram durante o período do estudo
e não foram relacionados com o mergulho. Houve o registro de sintomas
de hipoglicemia em períodos noturnos. Níveis moderados de
hiperglicemia foram observados em 23 mergulhadores em 84 eventos. Foi
observada, também, uma grande variabilidade de níveis de glicose pré
e pós-mergulho entre esses mergulhadores. As conclusões dos
pesquisadores do DAN foram que os níveis de glicemia, através de
cuidados especiais, poderiam ser manejados no sentido de se evitar
hipoglicemia, durante mergulhos conduzidos, dentro dos limites de
segurança do recreativo, por mergulhadores diabéticos tipo 1 com
controle moderado da doença.
No início de 2005, foram publicados os resultados definitivos da
observação de 11 anos de mergulhos realizados por mergulhadores com
diabete no Reino Unido. Os resultados das observações da amostra de
8.760 mergulhos realizados por 323 mergulhadores diabéticos oriundas do
Centro de Pesquisa de Doenças do Mergulho do Reino Unido evidenciaram
que mergulhadores diabéticos bem controlados, quando mergulhavam, não
apresentaram maiores problemas relacionados à hipoglicemia, apesar de
eles ocorrerem inclusive embaixo da água. Apesar de tudo, não houve
evidências de que esses mergulhadores apresentassem mais acidentes de
mergulho que os não diabéticos. Nesse período, houve duas
fatalidades, sendo que elas ocorreram em mergulhadores diabéticos tipo
2. Um dos eventos foi relacionado a um infarto agudo do miocárdio
embaixo da água, enquanto o outro não teve a causa identificada.
Entretanto, a taxa de mortalidade do grupo observado não foi maior que
a da população de mergulhadores não diabéticos.
Os estudos atuais sob condições controladas e mesmo em ambientes
normais de mergulho apresentaram evidências de que diabéticos bem
instruídos, sem contra-indicações por complicações, com controle
adequado da doença e que seguem protocolos, podem mergulhar com um
baixo risco. Além disso, concluiu-se que não há como proibir todos os
diabéticos de realizarem mergulho recreativo.
Críticas aos Estudos
Existem algumas críticas aos estudos realizados. Uma delas é que o
número de mergulhadores em que as observações foram realizadas, foi
insuficiente para estabelecer uma conclusão firme de que pode se
mergulhar com segurança nessa condição.
Podemos também dizer que alguns estudos não foram meramente de
observação. Eles foram controlados, com os mergulhadores apresentando
glicemias estáveis ou em elevação e nenhum respondeu à questão de
como se mergulha em condições habituais longe de um controle médico.
Seria necessária a realização de estudos com medidas da glicose e de
outros hormônios em condições típicas de comportamento dos
mergulhadores nos seus períodos de mergulho.
As situações reais de mergulho incluem locais distantes de recursos
para realizar tratamentos especializados, regiões que podem apresentar
extremos de temperatura ambiental que vai do calor ao frio extremo, o
efeito do mareio, condições limitadas de alimentação, higiene e
armazenamento adequado, locais de mergulho com condições de mar muitas
vezes imprevisíveis com demandas variáveis de esforço físico.
Mesmo assim, em estudos controlados, alguns participantes
apresentaram hipoglicemias após o mergulho e ao longo do dia. Alguns
níveis de hipoglicemia foram baixos, porém sem sintomas. Entretanto,
essas quedas poderiam ter manifestações, se exercícios mais intensos
fossem realizados. Não podemos esquecer que hipoglicemia no último ano
pode ser uma causa de exclusão de participação da atividade.
Outras análises revelaram que, nos estudos controlados, a
população de mergulhadores diabéticos que participaram, era
constituída de indivíduos amadurecidos, bem motivados, com seu
diabete, pelo menos, moderadamente controlado e com boa experiência
tanto em relação ao mergulho quanto ao controle do diabete, ou seja,
os grupos que participaram dos estudos, eram grupos selecionados, não
havendo dados sobre as características gerais dos diabéticos que
mergulham. Dessa maneira, os achados não poderiam ser estendidos a
mergulhadores mais jovens, distraídos e com menos experiência em
controlar suas glicemias.
Cabe também registrar que o próprio estudo influenciou o nível
individual de controle das glicemias. Uma grande variabilidade da
glicemia pôde ser observada pelos participantes do estudo. Sabe-se que
controle intenso e diabete menos estável estão associados a mais
eventos hipoglicêmicos em populações gerais de diabéticos. Por outro
lado, esse fato poderia ser usado como argumento de que o estudo teria
influenciado resultados no sentido de uma maior frequência de
hipoglicemias do que a esperada para diabéticos mais estáveis.
É relevante o fato de que valores muito baixos de glicemia foram
registrados em mergulhadores que não se queixaram de hipoglicemia. No
entanto, para os mesmos valores de glicemia noutro momento do dia houve
a percepção dos sintomas. Isso sugere que, muitas vezes, pode ocorrer
falha em reconhecer sintomas imediatamente antes, durante e após o
mergulho. Parece que distrações em relação ao mergulho interferem na
sensibilidade de reconhecer os sintomas de hipoglicemia.
Já em relação aos estudos não controlados, pôde-se evidenciar
uma frequência bem menor de hipoglicemias que a observada na
população de diabéticos com características semelhantes. A partir
disso, conclui-se que, ou os mergulhadores diabéticos desses estudos
representam uma subpopulação muito bem controlada, ou a coleta de
dados foi inadequada.
Deve também ser considerada a possibilidade de um problema de
metodologia relacionado ao fato de serem retrospectivos e de que foram
utilizados questionários por telefone ou carta. As dificuldades dos
estudos de campo retrospectivos realizados por questionários incluem a
possibilidade de falha em registros, falta de confiança nas respostas,
persistência na aplicação dos questionários e desistências por
motivos sociais variados. Nesses casos, há a possibilidade de
sub-registros da série coletada. Por fim, cabe ressaltar que um estudo
retrospectivo de sobreviventes que continuam a mergulhar, representa a
melhor população para demonstrar resultados favoráveis.
Protocolos de Manejo para o Mergulhador Diabético
O objetivo de qualquer protocolo de mergulho para diabéticos é, em
última análise, a prevenção da hipo e hiperglicemia embaixo da
água. Até o momento, não há evidência que defina qual é o nível
de glicose ideal antes do mergulho. O que se sabe, é que é difícil
estabelecer esse nível ideal, pois cada mergulhador diabético
apresenta o seu próprio metabolismo, preparo físico e esquema de
tratamento. Os tipos de tratamentos podem ser individualizados e variar,
podendo incluir desde a utilização de bombas de infusão até mesmo
doses fracionadas de insulina subcutânea.
As estratégias para evitar hipoglicemias no mergulho incluem a
automedida da glicemia pré e pós-mergulho, diminuição ou adequação
da dose de insulina, aumento da ingestão de calorias e a rigorosa
programação das refeições.
O risco de hipoglicemia diminui, se o mergulhador é capaz de medir a
glicemia antes e depois do mergulho com glicosímetro portátil. O risco
de perda de consciência embaixo da água pode ser diminuído, se o
mergulhador é capaz de perceber a hipoglicemia e tratá-la, utilizando
uma pasta de glicose ou mesmo interrompendo o mergulho, buscando
auxílio na superfície.
Observações relacionadas ao manejo do diabete e exercício intenso
no mergulho indicam que há uma diminuição da necessidade insulínica
ao longo do dia enquanto se está mergulhando. Estudos sugerem que há
uma grande variação na dose de insulina, necessitando de uma redução
que pode variar de 30 a 70% da dose de insulina de ação rápida e de
até 50% da de ação longa. A redução será maior, se o mergulhador
realizar mais mergulhos ao longo do dia. Além disso, a necessidade
calórica pode aumentar em até 200%.
O mergulhador deve manter uma atenção plena para a percepção de
episódios de hipoglicemia. Ele também deve desenvolver uma estratégia
de tratamento de urgência da hipoglicemia. Por questões de segurança,
o seu dupla deve estar treinado para atender a um evento hipoglicêmico.
Ele também não pode ser diabético. Ele deve ser educado sobre o
diabete e entender a doença tanto quanto um diabético.
O controle do diabete também pode ser realizado através da medida
do nível de hemoglobina glicosilada no sangue. A hemoglobina
glicosilada correlaciona-se com o controle glicêmico dos últimos 2 a 3
meses. Ela é um teste com uma sensibilidade e especificidade de
aproximadamente 85% e pode ser utilizada no controle metabólico
daqueles mergulhadores com diabete. O objetivo do tratamento é
mantê-la entre 6,5 e 7,5%.
Protocolo de Burghen e o Campo DAVI
Em 1992, antes mesmo de o comitê da UHMS ter-se reunido em 1994,
Burghen e Winsett já possuíam uma proposta de protocolo para
mergulhadores diabéticos que havia sido apresentada num encontro
internacional da National Association of Underwater Instructors
(NAUI). Em 1996, a experiência acumulada do uso desse protocolo foi
divulgada.
George Burghen, da Universidade do Tennessee, liderou o
desenvolvimento de um protocolo para uso por diabéticos no chamado Camp
DAVI. DAVI é a abreviatura de Diabetic Association of the Virgin
Islands. O campo é um local dedicado à inclusão de diabéticos em
atividades esportivas, que, por sua vez, está associado à Universidade
das ilhas Virgens. No campo, são recebidos diabéticos que já
mergulham ou que querem desenvolver esse tipo de atividade. Nele,
diabéticos realizam treinamentos específicos para o exercício,
incluindo atividade de mergulho, considerada uma atividade com grande
carga de esforço físico.
As atividades foram supervisionadas por Steve Prostermann,
pesquisador de campo pela Universidade das Ilhas Virgens e também
mergulhador diabético que aplica o protocolo nesse campo há vários
anos consecutivos. Os participantes do campo de treinamento são
treinados para manejar sua doença antes, durante e depois do mergulho.
A experiência no campo DAVI é positiva e Steve Prostermann é o maior
estimulador desse tipo de atividade. O protocolo de Burghen foi
utilizado em alguns estudos sobre mergulho e diabete. Os níveis
aceitáveis antes do mergulho são empíricos, porém são baseados em
níveis estabelecidos para outras atividades esportivas de intenso
esforço físico.
Nesse protocolo, Burghen recomenda uma dieta balanceada 1 a 2 horas
antes do mergulho e são realizadas 4 medidas de glicemia. A primeira
medida de glicemia é realizada uma hora antes e deve estar entre 80 e
250 mg/dl. A segunda é realizada 30 minutos antes e deve estar entre
120 e 250 mg/dl e a terceira, imediatamente antes do mergulho, deve
estar entre 150 e 250 mg/dl. A quarta é realizada após o mergulho.
O mergulho será cancelado, se a glicemia estiver acima de 250 mg/dl
ou houver a presença de cetonas no sangue. Entre cada teste sucessivo,
as medidas devem estar aumentando ou, pelo menos, não devem estar
diminuindo.
Se a glicemia diminui em 20 mg/dl na hora que antecede o mergulho, é
recomendado que se faça um lanche e se realize uma nova série de
testes até a glicose se estabilizar e elevar-se para níveis
aceitáveis.
Após as experiências iniciais, o DAN passou a observar as
atividades do campo. A experiência no campo DAVI ajudou a delinear o
projeto de pesquisa dessa instituição sobre diabete e mergulho.
Protocolo de Duke Scott e a YMCA SCUBA
Outro pesquisador, o Dr. Duke Scott, pela Young Men’s Christian
Association (YMCA), também propôs um protocolo de treinamento
específico para este grupo de mergulhadores. Ele propôs protocolos
diferentes para mergulho em piscina e no mar em águas abertas. O
propósito é simular os mergulhos planejados para serem realizados no
mar em atividades iniciais de piscina na tentativa de gerar um ambiente
controlado. Na simulação, é realizada a automedida da glicemia, o
controle dietético pré e pós- mergulho, ajustes de dosagens de
insulina, treinamento de duplas, identificação e tratamento de
hipoglicemias. Durante seis anos de trabalhos e treinamentos, nenhum
episódio hipoglicêmico durante o mergulho foi observado. A
experiência gerou o protocolo definitivo para mergulhadores diabéticos
da YMCA SCUBA, amplamente divulgado.
O protocolo inclui somente mergulhadores diabéticos com bom
controle, fisicamente bem preparados e que realizam exercícios
regularmente. O mergulhador deve saber como ajustar a glicemia antes do
exercício e do mergulho. O protocolo geral diferencia mergulhadores com
diabete leve daqueles com alterações frequentes da glicemia.
No protocolo, é realizada uma abordagem antes da primeira refeição
do dia. Se a glicemia de jejum antes da refeição estiver entre 80 e
240 mg/dl, o mergulhador somente deverá realizar novas medidas antes do
mergulho. Se a glicemia de jejum estiver abaixo de 80 ou acima de 240
mg/dl e se o teste para cetonas for positivo, o mergulho será suspenso
e atendimento médico especializado deverá ser procurado.
A seguir, o Dr. Duke Scott recomenda três medidas da glicemia e de
cetonas: uma hora, 30 minutos e imediatamente antes do mergulho. Se o
teste de cetona for negativo uma hora antes, os outros dois testes de
cetona poderão ser suspensos, a menos que uma hiperglicemia extrema
seja identificada (maior que 240 mg/dl). Os valores das glicemias devem
estar estáveis ou aumentando em cada teste sucessivo. Os valores
recomendados de glicemia são de 80 a 240 mg/dl uma hora antes do
mergulho e maior ou igual ao valor prévio medido e entre 120 e 240
mg/dl nos 30 minutos que antecedem e imediatamente antes do mergulho.
Nas três medidas, são permitidas variações de glicemia entre 120
e 240 mg/dl, dependendo do grau do exercício planejado e da
experiência prévia do mergulhador. Se os valores das medidas de
glicemia forem acima de 240 mg/dl e/ou o teste para cetonas for
positivo, o mergulho será suspenso e atendimento médico especializado
deverá ser procurado posteriormente. Se os valores estiverem diminuindo
durante as medidas sucessivas da glicemia, deverão ser feitos lanches
adequados e realizadas as medidas continuadas até se estabilizarem em
níveis aceitáveis. Havendo dúvidas, a atividade deverá ser suspensa
e o plano de manejo deverá ser reajustado.
O tempo de mergulho não deve ultrapassar 30 minutos e a profundidade
máxima é de 100 pés. Uma nova medida imediatamente após o primeiro
mergulho deve ser feita no caso de se realizarem mergulhos sucessivos.
Deve sempre ser realizada simulação do mergulho em piscina sob
condições controladas.
Acredita-se que a maioria dos mergulhadores diabéticos mergulha com
segurança quando apresenta glicemias entre 120 e 180 mg/dl. Um dos
objetivos do protocolo é evitar a hiperglicemia através do controle
metabólico prévio adequado.
Em mergulhos sob condições adversas como forte correnteza, água
fria e sobrecarga de trabalho físico, o tempo de fundo é reduzido para
20 minutos. Se essas condições são percebidas antes de o mergulho
iniciar, então se devem apresentar níveis de glicemia pré-mergulho
entre 150 e 200 mg/dl.
Em termos de treinamento, deve ser simulado o esforço e o tempo de
fundo, os quais devem ser iguais aos do mergulho proposto. Nesses
mergulhos sucessivos simulados, durante o intervalo de superfície é
preconizado o controle adequado do diabete a partir das medidas de
glicemia e de cetona no sangue. Cabe acrescentar que novas medidas são
imprescindíveis imediatamente após o primeiro mergulho. O protocolo
recomenda, no máximo, dois mergulhos ao dia.
Sempre que houver mudança no tratamento, o mergulhador deverá
simular novamente o mergulho na piscina. Os mergulhos em piscina devem
ser delineados de modo a simular, ao máximo, o próprio mergulho e os
intervalos de superfície. Mergulhador diabético e seu dupla devem
treinar sistematicamente em piscina o tratamento de hipoglicemia.
Se no treinamento ou no mergulho em águas abertas o mergulhador
apresentar sintomas de hipoglicemia, o mergulho será interrompido
imediatamente e iniciada manobra de subida de segurança à superfície.
Na superfície, será estabelecida flutuabilidade positiva e o
procedimento de saída da água. Fora da água, o dupla deverá medir a
glicemia do mergulhador diabético.
Sendo constatada hipoglicemia, essa deverá ser corrigida. A
necessidade do uso de glicose durante o mergulho configura uma
situação de emergência e uma indicação de que o mergulho deve ser
interrompido imediatamente. A partir daí, a glicemia deve ser
reavaliada, controlada e exercício excessivo ou desnecessário deve ser
evitado.
Estando o nível de glicemia normal, deve-se considerar a
possibilidade de outras alterações como barotraumas, doença
descompressiva ou outras lesões relacionadas com o mergulho.
Na íntegra, o protocolo apresenta toda uma rotina geral de
planejamento que começa na noite que antecede o dia do mergulho e segue
até após o mergulho propriamente. Ele inclui as medidas da glicemia e
seu tratamento, os cuidados com o primeiro mergulho do dia, o intervalo
de superfície, o segundo mergulho do dia, o diagnóstico e manejo da
glicemia, bem como a produção de um kit de assistência ao
mergulhador diabético.
Críticas aos Protocolos já Consagrados
As maiores críticas aos protocolos são a incapacidade de inseri-los
numa operação habitual de mergulho. Alguns autores consideram
impraticável a condição de que um mergulhador diabético consiga ter
um dupla que aceite mergulhar com ele com um consentimento informado
formalizado. Mesmo o mergulhador diabético conseguindo um dupla, os
efeitos práticos seriam questionáveis, pois se acredita que poucos
mergulhadores sabem algo sobre o diabete melito, medidas de teste de
glicose, diagnósticos diferenciais ou tratamentos básicos de problemas
relacionados com a doença e o mergulho. O seguimento de um protocolo
acaba exigindo um profissional da saúde ou instrutor de mergulho, ambos
bem treinados e especializados no assunto.
Nos relatos da experiência desses grupos, pode-se constatar que os
mergulhadores foram submetidos a um mínimo de exercício, a condição
de mar era de águas calmas e mornas, não houve variações de maré ou
de correnteza e os mergulhos não apresentavam perfil descompressivo.
Outro ponto a considerar seria como tornar práticas as limitações
de tempo de fundo e mergulhos sucessivos num dia de mergulho juntamente
com outros mergulhadores. Numa operação com um grupo de mergulho, isso
pode ser também impraticável, principalmente quando se realizam
mergulhos em correnteza (drift dive). Além disso, a frequência
de dois mergulhos acaba sendo impraticável.
O mergulho autônomo é diferente de outros esportes, pois o esforço
físico realizado é maior e os riscos são maiores. A situação de
estar mergulhando, muitas vezes, não permite que se pare e se espere um
pouco, permitindo um tempo para uma recuperação ou melhora de algum
estado.
Os protocolos de mergulho parecem ser adequados nas condições de
mergulho em que foram validados. Nessas condições, eles somente
diminuem os riscos e não os eliminam. Não está definido um nível
ótimo de glicemia pré-mergulho. Procedimentos definitivos pelos quais
mergulhadores com diabete podem mergulhar com segurança, ainda não
foram claramente definidos.
AS ORIENTAÇÕES DO Britsh Sub Acqua Club (BSAC) e do Diving
Diseases Research Centre (DDRC)
Mergulhadores com diabete que desejam mergulhar ou aprender mergulho
com o Britsh Sub Acqua Club (BSAC), Sub Acqua Association
(SAA) ou Scottish Sub Acqua Club (SSAC), devem realizar uma
avaliação médica e completar um questionário anual para serem
considerados aptos clinicamente para poderem mergulhar. Os pesquisadores
ingleses do Diving Diseases Research Centre (DDRC) acabaram
elaborando um conjunto de orientações para mergulhadores com diabete,
que são seguidas pelos clubes e associações do Reino Unido.
Na avaliação médica inicial, o diabético deve apresentar os
seguintes critérios para ser considerado apto:
- Não pode ter apresentado no último ano qualquer evento
hipoglicêmico requerendo internação hospitalar, tratamento com
glucagon ou ajuda de outra pessoa.
- O regime de medicação do mergulhador diabético não deve ter
sido alterado muito durante o último ano.
- Não pode ter sido hospitalizado, no último ano, por qualquer
razão decorrente do diabete.
- Deve apresentar, no último ano, um controle adequado da doença
com níveis de hemoglobina glicosilada (HbA1c) ou frutosamina
satisfatórios. Níveis de HbA1c menores do que 9% são considerados
adequados.
- O avaliador deve considerar o candidato física e mentalmente
capaz de realizar a atividade de mergulho.
- Não pode apresentar microalbumina ou mesmo proteinúria na urina.
- Não pode apresentar sinais de retinopatia diabética além da de
base.
- Não pode apresentar evidência de neuropatia sensitiva, motora ou
autonômica.
- Não pode apresentar evidências de doença vascular ou
microvascular além da retinopatia diabética de base.
Em termos práticos, o mergulhador responde a um questionário,
enquanto o médico que faz o controle da sua doença, preenche outro. Se
o mergulhador apresentar qualquer uma das condições acima, ele não
poderá mergulhar ou se formar por aquelas instituições.
A avaliação final é realizada por médico referenciado por uma das
três agências do Reino Unido, que apresenta especial interesse na
medicina subaquática. Sendo o candidato considerado apto a mergulhar, o
médico especializado da instituição finaliza um registro chamado UK
Sport Diver Medical Form. Sendo considerado apto para o mergulho,
o candidato deve realizar um exame clínico anual descartando novamente
as condições anteriormente colocadas. As instituições se preocupam
com a manutenção do processo educacional desses mergulhadores após a
certificação inicial, desenvolvendo e fornecendo material e
treinamento específico.
Antes de mergulhar, o candidato é preparado física e
psicologicamente. O mergulhador deve estar hidratado, já que isso pode
ser importante na prevenção da doença descompressiva.
O dupla não pode ser diabético e deve estar familiarizado com o
mergulhador diabético e com os problemas que ele possa apresentar. Esse
dupla deve ser um médico ou paramédico treinado e que esteja
familiarizado com os problemas do diabete.
O mergulhador diabético deve ter seu conjunto de material preparado
para essa atividade e que deve conter:
- Tabletes ou pasta com glicose para uso oral.
- Injeção intramuscular de glucagon.
- Glicosímetro com as instruções necessárias para o seu uso que
estejam expressas de forma clara para uso.
- Equipamento normal de segurança no mergulho que inclui bóia de
marcação de superfície, bandeira e sinalizadores.
Na operação de mergulho, o mergulhador e seu dupla são devidamente
identificados. O plano de mergulho é checado pelo responsável pela
operação de mergulho. Deve haver uma proposta de plano de mergulho com
condutas pré e pós-mergulho para se minimizarem os riscos. Deve haver
alguém na operação de mergulho capaz de dar a glicose oral e realizar
injeção intramuscular de glucagon.
Antes do mergulho, deve ser medida a glicemia, que deve estar maior
que o normal. O mergulhador não deve ultrapassar os 30 metros de
profundidade e deve mergulhar dentro dos limites indicados pelas
tabelas. Além disso, deve terminar o mergulho, pelo menos, 2 minutos
antes do limite sem paradas. O mergulhador diabético pode realizar
somente dois mergulhos por dia e não pode mergulhar mais do que três
dias consecutivos.
Havendo qualquer incidente, o mergulhador deverá ser primeiro
embarcado, se estiver na água, e, assim que possível, deverá ser
levado para terra. A glicemia deve ser medida, utilizando-se para isso o
material do kit de emergência do mergulhador. Glicose oral deverá ser
administrada ao mergulhador, se ele estiver consciente. Em caso de perda
de consciência, deverá ser realizada uma injeção intramuscular de
glucagon. Atendimento médico e serviço de terapia recompressiva
deverão ser procurados o mais rápido possível.
Após o mergulho, chegando à embarcação, deverá checar a glicemia
e, se for necessário, deverá corrigi-la da maneira mais adequada.
Qualquer sinal ou sintoma deverá ser relatado prontamente para o seu
dupla ou o responsável pela operação de mergulho. O mergulhador e a
equipe deverão saber da possibilidade de haver problemas não somente
relacionados com o diabete, mas também com mal descompressivo. A
abordagem inicial será corrigir o problema relacionado com a glicemia
através do uso de glicose ou injeção de glucagon e também usar
oxigênio como primeira conduta frente à possibilidade de doença
descompressiva. Chegando a terra, o mergulhador que tiver tido algum
problema, deverá ser avaliado por médico especializado.
AS ORIENTAÇÕES DO The Diabetes and Diving Committee of the
Council on Exercise of the American Diabetes Association (DDC-CEADA)
Esta instituição aceita que atualmente existe um número
substancial de diabéticos nos Estados Unidos que mergulham e seus
critérios para aceitar diabéticos em atividades de mergulho autônomo
incluem:
- Bom controle da glicemia.
- Não apresentar complicações secundárias graves da doença
(olhos, rins, vasos sanguíneos).
- Entendimento adequado da relação entre a doença e o exercício
físico.
Os diabéticos que não podem mergulhar são aqueles que:
- Tiveram um episódio prévio de hipoglicemia grave nos últimos 12
meses.
- Apresentam complicações avançadas da doença.
- Têm difícil controle da glicemia.
- Não apresentam sinais indicativos de hipoglicemia.
Não apresentam entendimento entre o controle da doença e o
exercício.
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