|
Diurese de imersão
Todos já ouviram alguma vez a velha piada:
"90% dos mergulhadores urinam na roupa de mergulho. Os outros 10%
mentem."
Aqueles que mergulham sabem que esta urgência
é fato. E normalmente acontece no início ou no meio do mergulho, fazendo com
que o apertado mergulhador esquente a roupa, uma desculpa muito comum e segundo
alguns prazerosa, ou passe uns bons minutos de fundo batendo as pernas curto.
Sei de muitos mergulhadores que demoram muito
tempo para aprender a lidar com isto. Porém, existe um risco relativamente
grande em uma sugestão que ouvi de mergulhadores formados há bastante tempo:
evitar beber água no barco antes de entrar na água.
A desidratação pode ser muito perigosa para
o mergulhador. Portanto, vale ressaltar que esta não é uma solução
aceitável para o mergulhador.
Vamos primeiramente entender o processo, incômodo
para uns e prazeroso para outros.
Nosso corpo possui uma bomba hidráulica, o
coração, que impulsiona o sangue para circular pelo corpo todo. Acontece que
esta bomba hidráulica encontra-se a meia altura do sistema circulatório. Isto
faz com que o coração tenha uma facilidade para bombear o sangue para
baixo, ajudado pela gravidade, e uma dificuldade para bombear o sangue
para cima. E todo o sangue que desce, tem que subir de
novo para fechar o ciclo. Por este motivo, possuímos dois "ajudantes"
para o bombeamento do sangue das pernas para cima: as panturrilhas, ou batatas
das pernas.
Quando caminhamos, a contração muscular das panturrilhas comprime o sangue para cima através de movimento dos músculos sobre os vasos sanguíneos.
Isto auxilia o fluxo sanguíneo de volta para cima, tirando um pouco da carga do
coração. É por este motivo que quando ficamos sentados por muito tempo (em
viagem de ônibus ou avião, por exemplo), temos uma tendência a inchar os pés
e as pernas, pois o volume do sangue nas partes baixas das pernas não está
mais sendo auxiliado na sua subida pelas panturrilhas, mas continua sendo puxado
para baixo pela gravidade da Terra.
O fato é que um pequeno volume de sangue
realmente fica para trás, volume este acumulado normalmente nas pernas e que
nosso sistema circulatório está adaptado à sua não utilização. Ao
mergulhar, o mergulhador deixa de trabalhar a musculatura numa posição
vertical e adota uma posição horizontal, com baixo arrasto hidrodinâmico.
Nesta posição, o sangue acumulado nas pernas não se encontra mais freado pela
gravidade, visto que agora a força predominante no corpo do mergulhador é a
pressão. Isto faz com que este volume de sangue que antes não participava
totalmente do volume total em circulação agora entra com tudo, uma vez que ele
não está mais preso e flui na horizontal ajudado pelas panturrilhas usadas em
movimento ritmado e constante.
Outro fator resultante da entrada do corpo na
água é a constrição dos vasos sanguíneos da pele, restringindo a circulação
para reduzir a perda de calor. Isto serve ainda para empurrar o sangue para o
centro do corpo. Seu corpo interpreta este aumento de sangue como uma sobrecarga
de volume, emitindo sinais aos rins para liberar mais urina, tentando corrigir o
problema. O resultado é aquela sensação tão familiar de urgência. A este
processo de compensação do volume participante da circulação chamamos de
diurese de imersão.
Isto explica porque, mesmo em águas quentes,
sentimos uma urgência em subir de novo a bordo
|