A Morte no Mergulho
Da pesca da lagosta ao mergulho técnico
Introdução
O senso comum é o conhecimento tido como popular, baseado em crenças.
É dele que comumente surgem expressões como "tinha que acontecer"
quando se está diante de uma doença, acidente ou morte.
Há sempre quem diga que "cada um tem sua hora" ou que "aquele
indivíduo estava no lugar errado na hora errada, que era seu destino"
quando ocorre um evento fatal.
Para o senso comum, o que tem que acontecer, simplesmente acontece e não há
como escapar do determinismo.
O objetivo deste artigo é focar crenças como essas na atividade do
mergulho, que mostram que, muitas vezes, o ser humano busca transferir a causa
do acontecimento indesejado, o motivo de sofrimento, a algo que está fora do
nosso controle e de preferência bem distante de nós.
Pensamos que os acidentes acontecem não por obra do acaso, por fatalidade,
mas por erros identificáveis e assim sendo, passíveis de prevenção.
A Morte: Um evento natural e trágico para todos os seres humanos
Segundo Cassirer, "o medo da morte, sem dúvida, é um dos instintos
humanos mais gerais e mais profundamente arraigados". Para este autor,
"em todas as épocas da história da humanidade o homem se viu compelido a
facear a experiência da morte".
Feifel considera que "o tema da morte constitui-se numa variável
relevante em psicologia", quando declara que "há um passo muito
necessário a avançar para que a Psicologia reconheça que o conceito de morte
representa um fato psicológico e social de importância substancial".
Eros e Tãnatos
Quando falamos de vida e da morte, tratamos aqui de dois instintos básicos -
Eros e Tãnatos. Eros relaciona-se a todas as forças que procuram prazer e que
melhoram as funções vitais do indivíduo. O Eros abraça todos os impulsos
sexuais e egoístas.
Libido é o nome de todas as energias que encontram-se à disposição de
Eros (Pulsão da Vida). Tãnatos por sua vez, consiste em desfazer conexões e
deste modo, destruir seres.
Deve-se supor que a meta final do instinto destrutivo é reduzir os seres
vivos para o estado inorgânico. Por isso também podemos denominá-lo de
instinto de morte (Pulsão da Morte).
Vida e morte estão inter-relacionadas, como demonstraram os chineses, a
milhares de anos atrás, com o TAO.
Para a cultura oriental, a vida e a morte estão atreladas ao princípio do
equilíbrio entre a energia negativa e positiva: o Ying e o Yang. O povo do
Oriente, em sua sabedoria milenar, difundiu o Ying e Yang como uma
representação da luta constante entre os opostos: espírito e a matéria,
homem e mulher, fogo e água, vida e morte. São, portanto, forças antagônicas
mas complementares. Antagônicas, mas equilibrantes.
Sua representação é uma forma circular e tem uma divisão curva perfeita, uma
de cor branca e a outra negra e cada uma delas tendo um ponto do outro.
O Ying é o princípio feminino, negativo, passivo e aquático, sombrio,
forças de contração, horizontal, pesada, tendência descendente, cor violeta.
Já o Yang é o masculino, positivo, ativo e ígneo. É luminoso e calorífero.
Tem forças típicas de expansão, sendo leve, pois as forças de expansão
também são de tendência ascendente.
Dizem os livros sagrados que o Caminho (Tao) do céu e da terra é o Ying e o
Yang.
Ying e o Yang são o "pivot" das transformações, a raiz das
diferenças. Não se pode negar a oposição repouso - ação. Não se pode
negar a oposição calor–frio. Mas há primeiro frio, depois calor; ou então,
primeiro calor, depois frio. É por isto que o pesado é à base do leve e o
repouso é o mestre do movimento.
Lei do equilíbrio
Nada é, pois, imutável. Há sempre movimentos cíclicos que se alternam;
nada é absolutamente Ying ou Yang, pois há sempre algo de Ying no Yang e
vice-versa. Para viver de acordo com as leis da natureza, harmonicamente
equilibrados, o povo oriental encara com seriedade a necessidade de conhecer a
essência Ying e Yang, aplicando tais conhecimentos na vida diária, desde a
maneira de dormir, comer, enfim, nos relacionamentos com os outros, consigo
mesmo, com o mundo.
Foram os chineses de antigamente, muito apaixonados pela observação e
classificação dos fenômenos da natureza, que arrumaram o mundo em ying e
yang, a quietude e o movimento, o sombrio e o luminoso, o vazio e o cheio, a
água e o fogo. Essa forma de pensar se torna simples e vigorosa quando
percebemos que ying e yang não são forças opostas e distintas, mas qualidades
inseparáveis de um mesmo processo.
Assim sendo, nenhum processo vital pode ser liberado do instinto de morte.
Na vida de um indivíduo, Eros e Tãnatos podem combinar seus recursos, mas
frequentemente eles lutam um contra o outro.
Devemos neste momento entender que os estudos sobre a morte, o morrer e as
diversas implicações do evento tanático, revelam-se diversificados, em
função dos objetivos a que cada estudo se propõe, bem como ainda em razão da
área a qual tal estudo se vincula.
Partiremos agora para compreensão de alguns aspectos :a ansiedade da morte,
o luto, o acidente, a fatalidade e a Síndrome de Ícaro.
A Ansiedade da Morte
A ansiedade de morte representa a resposta emocional que apresentamos em
relação às questões que envolvem a morte.
Pode revelar-se como medo de morrer ou através de reações negativas diante
da morte. Pode desencadear quadros depressivos. Pode também levar a formação
de inúmeros comportamentos defensivos para garantir uma suposta proteção da
ameaça da morte, geralmente envolvida numa atmosfera lúgubre e pessimista.
A ansiedade pode resultar de uma compreensão distorcida do fenômeno da
morte e da vida, já que a morte é geralmente algo sobre o qual evitamos
pensar, e quase sempre, percebida como tragédia que marca a ruptura definitiva
no ciclo da vida.
Neste sentido, Wittgenstein afirmava: "A morte não é um acontecimento
da vida: não se vive a morte".
Epicuro (341-260 a.C.), sabiamente dizia que "Quando nós estamos, a
morte não está; quando a morte está, nós não estamos".
Nosso problema é que existe uma certa tendência a viver não só a
angústia do que virá depois, mas também, e principalmente, a dificuldade em
nos desvencilharmos daquilo que temos e dos que amamos.
Luto
Todos nós sabemos que ao nascermos já estamos sujeitos a uma mesma certeza:
a morte.
Apesar de nos ser familiar, o tema da morte (e do luto) é um dos mais
difíceis de abordar, porque causa sofrimento.
Classicamente podemos dizer que o termo luto refere-se à perda real do
objeto – de uma pessoa (ente querido, familiar, amigo...).
Embora o luto possa ser acompanhado da depressão e ambos apresentarem
semelhanças, faz – se importante limitar estas duas situações. Em primeiro
lugar porque embora não haja luto sem depressão, o inverso não é
necessariamente verdadeiro, ou seja, pode haver depressão sem luto.
Enquanto na depressão o sujeito não sabe muito bem o que perdeu (perdeu o
amor do objeto), no luto o indivíduo sabe muito bem que perdeu o objeto.
Para despegar do objeto perdido é necessária uma certa carga de
agressividade que nem todos os indivíduos conseguem dirigir ao objeto perdido
ficando antes num registro de idealização e relembrando geralmente apenas os
melhores momentos.
De acordo com os autores da psicodinâmica, o luto patológico tem duas
razões de ser: a relação não foi suficientemente vivida (quer por ter sido
muito curta – como acontece aos pais de bebês que morrem precocemente –
quer por ter ficado aquém das expectativas) ou então o indivíduo prefere
viver num falso pressuposto (que conduzirá aos terrenos drásticos da psicose)
do que a encarar a perda real do objeto.
Quando acontece uma perda, a primeira reação passa geralmente pela
colocação da culpa no exterior. É o que a psicologia chamaria de projeção
da culpa.
Em seguida, o sujeito tende a perguntar - se do que poderia ter feito para
evitar a perda, o que geralmente leva a uma inflexão da culpa, o que a
psicologia chamaria de culpabilização.
Para o sujeito conseguir terminar o trabalho de luto é importante haver uma
deflexão da agressividade, na qual o sujeito consegue atribuir alguma culpa ao
sujeito perdido que como ser humano que era, tinha suas características
pessoais (positivas e negativas).
Com este reconhecimento evitará a culpabilização de si próprio e a
idealização do sujeito perdido, passando a conseguir mobilizar esforços para
um reinvestimento em novos objetos que levarão à resolução pacífica do
processo de luto.
Acidente, Morte e Fatalidade
Já definimos acidente como um encadeamento de erros previsíveis, e
portanto, evitáveis.
Porém quando a avaliação das condições que cercam a atividade de
mergulho, da condição física e psicológica e da competência técnica do
mergulhador não se faz adequada, o acidente pode ocorrer.
Sabemos que não existe nada mais sorrateiro e até porque não dizer
traiçoeiro, do que a morte resultante de acidente. Para o senso comum ela surge
do nada e colhe o que quer. De súbito, quem falava e mergulhava há pouco ao
nosso lado está caído, inerte, sem voz e sem gesto. A vida desapareceu de
forma inesperada.
Uma cena incomum na atividade do mergulho recreativo, podemos dizer com
certeza.
No Brasil até hoje foram registrados pouquíssimos acidentes de mergulho
esportivo, onde, dentre os quais, uns números menores ainda foram fatais.
Nos últimos Reports da DAN, o número de acidentes fatais (para os EUA,
Canadá e Caribe) tem girado em torno de 100/ano. Diríamos que a atividade do
mergulho esportivo é suficientemente segura.
Só não podemos esquecer que para manter e quem sabe melhorar os altos
níveis de segurança da modalidade, precisamos de um pouco mais de critério na
formação de profissionais, na seleção dos candidatos, no nível e na
qualidade de treinamento.
Já os dados referentes ao mergulho técnico ainda são insuficientes para
que possamos gerar qualquer estatística, mas com certeza podemos afirmar que
assim como ele vem crescendo dia a dia em todo mundo, o número de acidentes
devem acompanhá-lo proporcionalmente.
No que se refere ao mergulho profissional podemos dizer que o mesmo também
atingiu uma margem de segurança bastante sólida, e que acidentes fatais são
raros.
Assim sendo, para este artigo, iniciaremos focando os acidentes envolvendo
mergulho na pesca da lagosta e no mergulho de garimpo, que ainda fazem inúmeras
vítimas e geram inúmeras sequelas e óbitos, sem nenhuma atenção por parte
do Estado.
Podemos afirmar que faltam atenção e vontade política para esses casos.
Independente da modalidade praticada, as mortes que ocorrem na atividade de
mergulho carregam consigo um marcante significado:
Quem, pela manhã, sai de casa para mergulhar espera fazê-lo unicamente para
viver, ou na pior das hipóteses, sobreviver, levando para casa o arroz e o
feijão para o dia- a dia.
Particularmente, tenho a impressão de que a atividade de mergulho parece ser
constantemente ameaçada pelas condições inseguras dentro de determinadas
empresas, bem como pelo ato inseguro de alguns mergulhadores. Mergulhadores em
sua maioria conhecem a dimensão do risco, do perigo envolvido na atividade e
aprendem como evitá-los. Treinamos mergulhadores para serem conservadores, para
que respeitem as regras de segurança impostas pela modalidade.
Assim sendo, é preciso diferenciar, em uma classificação formal, o
mergulho. Praticar mergulho esportivo sob supervisão envolve um determinado
risco, previsto pelas certificadoras e pelos profissionais responsáveis. Risco
esse que, dificilmente, envolve a morte.
Mergulhar em ambiente de teto, com grandes profundidades, com descompressões
longas, em mergulho solo, no entanto, envolve riscos mais difíceis do neófito
prever e lidar. Daí a necessidade de treinamento, muito treinamento. A grande
diferença, como já apontada em outros artigos, está na segurança garantida
pela prática.
Naturalmente, os riscos não deixam de existir, afinal esse é o
"produto" principal de uma prática que promete emoções. Sendo
assim, o que mergulho esportivo cria é uma simulação de risco. Na maior parte
dos esportes de aventura há um simulacro de perigo. O que se busca, nesse caso,
é algo controlado, em que se pode ter certeza que é seguro. A atitude com que
se avalia o risco precisa ser a correta.
O mergulho técnico em contrapartida coloca o indivíduo em um outro patamar
e assim sendo, envolve outros níveis de risco.
Porém independente do tipo de mergulho praticado, alguns mergulhadores com
determinadas características psicológicas específicas, gostam de desafiar o
perigo e construir o que Dejours (1992) chama de "ideologia defensiva"
como mecanismo coletivo de proteção contra o medo.
Esta é uma estratégia segundo a qual, diante de atividades reconhecidamente
arriscadas, os indivíduos tendem a desafiar o perigo expondo-se à ele. Ao
desafiarem o risco, eles teriam a sensação de dominá-lo.
Essa ideologia defensiva desenvolve o que passamos a denominar de Síndrome
de Ícaro.
Conta a mitologia que Ícaro era Filho de Dédalo e de uma escrava.
Aprisionado no labirinto de Creta, com seu pai que ajudara Ariana e Teseu a
matar o Minotauro, ele consegue evadir-se com o auxílio de Pasífae. Graças
às asas que Dédalo lhe fez e que ele fixou com cera sobre os ombros Ícaro
voou por cima do mar. Ícaro morreu vítima das invenções do pai, que ele
utilizou sem fazer caso das advertências paternas.
"Eu te previno, Ícaro, tens de fixar teu curso numa altura
média", e desprezando todos os conselhos de prudência elevou-se cada vez
mais alto, cada vez mais perto do Sol. A cera derreteu e ele precipitou-se no
mar.
Ícaro é o símbolo do intelecto que se tornou insensato... da imaginação
pervertida.
Ícaro é símbolo de mergulhadores imprudentes, imperitos, negligentes...
Entretanto, em que pese a estratégia defensiva por eles construída, não é
raro encontrar também situações em que o mergulhador tenta, a todo custo,
escapar ao que chama "mergulho perigoso", "mergulho de alto
risco", o outro lado da moeda...
Incapacidade de compensar, dor de cabeça ou enjôo são algumas das
justificativas mais comuns...
Enfrentando ou fugindo do perigo e do medo, parece certo que não há como
driblar a morte. Para os esses mergulhadores, e em especial para aqueles que se
submetem a condições extremas, mesmo diante da necessidade inconsciente de
conviver com o perigo, a morte será sempre percebida como surpresa e
obviamente, indesejada.
E diante da impossibilidade de explicá-la e compreendê-la, é preciso ao
menos justificá-la. Então, na busca de algum sentido plausível e aceitável,
os indivíduos tendem a vê-la como fatalidade.
Fatalismo seria a "compreensão da existência segundo a qual o destino
de todos está de antemão predeterminado".
Segundo Martin - Baró, 1987 "Aos seres humanos não resta outra opção
senão acatar seu destino, se submeter à sorte que lhe determina" .
Concordamos com Gramsci (1987) quando diz que "o fatalismo não é
senão a maneira pela qual os fracos se revestem de uma vontade ativa e
real". Trata-se de um determinismo mecânico, é verdade, mas ainda assim
é uma forma de conduzir as ações sobre a realidade em que vivem.
Deste modo, um acidente de mergulho como uma doença descompressiva grave,
relatada por um mergulhador técnico acidentado e considerada por ele próprio
como sendo resultado de ausência de planejamento e de procedimentos adequados,
acaba sendo percebida como desígnio do destino:
"Não tinha perigo não; perigo mesmo foi só desta vez que eu desci e
tinha que acontecer".
O próprio fato do acidente não ter resultado em morte é algo difícil de
se conceber considerando a profundidade atingida e os sinais e sintomas
apresentados.
Sendo assim, até mesmo a sobrevivência torna-se parte do que "tinha
que acontecer", ou seja, tanto viver como morrer torna-se, ao final, fruto
do acaso.
Atribuindo ao destino a responsabilidade sobre o trágico, de certo modo os
mergulhadores que se submetem à riscos encontram coragem necessária para
lidarem com o perigo visível e o próprio medo da morte. Desta forma, mesmo que
admitam que o mergulho em determinadas circunstâncias é arriscado, o acidente
só irá acontecer e a morte só poderá abater "se Deus quiser".
Retomando a tese da "ideologia defensiva" de Dejours, o que está
posto é que o desafio ao perigo e a exposição à ele implica,
necessariamente, a expectativa de que a morte não acontecerá ao desafiante.
Assim, se falhar a proteção "conquistada" com a "ideologia
defensiva" e a morte ocorrer, esta será fruto da fatalidade, do acaso, e
não o resultado de atitudes deliberadamente mais perigosas que a própria
situação de mergulho. Nesse sentido o mergulhador não morre porque não
planeja corretamente seu mergulho, porque comete inúmeros atos inseguros ou
porque o mergulho oferece uma condição insegura. Ele morre porque chegou a sua
hora...
Entre os mergulhadores, há inúmeras referências sobre acidentes com morte
geralmente associados a condições inseguras, como aponta o depoimento abaixo:
O mergulhador morreu em um mergulho profundo. Sem treinamento nem a
configuração adequada, sem o gás adequado, sumiu na descompressão...
Mesmo que reconheçam o ato inseguro e a condição perigosa pela ausência
de segurança gerada por eles mesmos ou oferecida pela própria operadora, o
acidente fatal acontece aos companheiros porque "tinha que acontecer".
Em outras palavras, a morte chegou porque já era seu momento.
Para quem sofreu acidente grave e sobreviveu, o que aconteceu foi um grande
susto: "Eu cheguei muito perto de morrer, mas acho que não chegou a minha
hora ainda", disse-me um mergulhador esportivo de nível básico que
ultrapassou em muito os limites de seu treinamento, expondo-se em um mergulho em
ambiente com teto, dentro de um naufrágio, sem treinamento, sem configuração
adequada, sem equipamento específico, seguindo um instrutor...
E se Deus quis que o acidente acontecesse, pelo menos evitou que a tragédia
fosse maior: "Deus não quis que eu morresse".
Assim, saúde e doença, vida e morte são processos que se explicam pela
intervenção de Deus ou do destino, mesmo que, muitas vezes, os próprios
mergulhadores reconheçam que determinadas condições sejam fundamentais para a
proteção da saúde e da vida, e que a ausência de segurança adequada seja a
grande responsável por acidentes e mortes.
Esta dupla forma de racionalizar os eventos que destroem a vida pode até
parecer um paradoxo.
Mas um olhar mais cuidadoso entretanto poderá mostrar que se trata de uma
visão bastante coerente da realidade.
Vamos analisar mergulhadores pescadores de lagosta. Sabemos que a escassez da
lagosta na costa do nordeste tem levado os pescadores a se aventurarem cada vez
mais em águas mais profundas para capturar as três espécies mais comuns do
crustáceo encontradas na região (Palinurus, Panulirus e Jasus).
Sem condições financeiras para arcar com os altos custos de equipamentos
técnicos e misturas respiratórias adequadas para águas profundas, os
pescadores praticam uma modalidade de mergulho dependente (mergulho com
narguilê) conhecida entre eles como "mergulho com compressor".
Um estudo elaborado pela Delegacia Regional do Trabalho do Rio Grande do
Norte (DRT/RN) em parceria com a Fundacentro de São Paulo revelou que desde o
início dessa prática, centenas de pescadores já morreram ou ficaram
sequelados pela doença descompressiva.
De um grupo de 125 pescadores pesquisados pelo menos 105 já haviam sofrido
algum tipo de acidente descompressivo, com sequelas que vão desde dores nas
articulações até a paraplegia. Estatisticamente assustador...
Sem os equipamentos adequados para a pesca da lagosta os pescadores ficam à
mercê da sorte ao mergulharem em profundidades de 60 metros à procura de
lagostas.
As mangueiras de ¼ de bitola podem ter até 300 metros de comprimento, o que
possibilita locomoção por grandes áreas, mas em contrapartida dificultam
sensivelmente a respiração adequada e consequentemente favorecem o acúmulo
de CO2.
Mergulhos profundos a ar estão premiados também com a narcose pelo
nitrogênio, que limita o raciocínio e favorece a ocorrência de acidentes.
Não existe tanque de volume nem filtragem adequada na superfície,
possibilitando além da doença descompressiva, intoxicações gasosas fatais
pelo monóxido de carbono e pela presença de hidrocarbonetos.
O mergulho com compressor tem tornado a atividade bastante perigosa pela sua
precariedade, pois aumenta os riscos à saúde e à própria vida do pescador.
De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Renovação e Meio Ambiente
(IBAMA), a frota lagosteira do nordeste brasileiro inclui 815 embarcações e
quase a metade delas pesca com o uso de compressores. Embora proibida desde
1995, a pesca com compressores continua a ser praticada por centenas, talvez
milhares de pescadores na costa nordestina, sem que as autoridades de
fiscalização consigam efetivamente coibir essa prática.
O perigoso trabalho desses pescadores não está associado apenas ao mergulho
e sim a toda uma questão sócio – cultural e econômica bastante complexa.
Estes indivíduos não estão cegos frente ao mundo em que vivem. Possuem um
saber que permite identificar as causas imediatas de tudo o que ocorre.
Suas histórias de vida são marcadas por um conjunto de adversidades e de
sofrimento, normalmente associados à determinada situação de vida na qual a
precariedade e a incerteza são os mais fortes matizes. Iniciam-se no mergulho
muito cedo, ainda na adolescência. Já adultos e normalmente com família
numerosa constituída, o medo do desemprego, a baixa escolaridade e a falta de
qualificação são geralmente os principais motivos para se submeterem a um
mergulho sem planejamento, um trabalho altamente perigoso nas condições que
oferecem as empresas contratantes.
Pescadores de lagosta com ar comprimido reconhecem que é possível ter
segurança no trabalho e que a insegurança é resultado do descaso das
próprias empresas.Sabem muito bem que suas vidas estão em risco porque não
há segurança efetiva das condições de trabalho.
O binômio segurança-coragem se opõe à insegurança-medo, ambos percebidos
como diretamente associados à situação objetiva e concreta do mergulho.
Então, a busca de justificativa dos acontecimentos através de Deus ou do
destino não está relacionada, necessariamente, à causa imediata, mas à
explicação última de porque acontece de um jeito e não de outro.
Os mergulhadores de garimpo também estão, podemos também dizer, na mesma
condição dos pescadores de lagosta. São, em sua grande maioria, preparados
uns pelos outros, desconhecendo e desprezando qualquer fundamento técnico de
mergulho. São essencialmente práticos.
Os equipamentos dependentes também são aqui utilizados, e suas limitações
operacionais também são constantemente desrespeitadas. Esses mergulhadores
são garimpeiros de ouro e diamantes. Existem ricos depósitos de ouro e
diamante nos rios do norte de nosso país. Estão localizados em sua maioria em
lugares fundos, nos chamados "buracões", que na época da cheia
chegam a ter quarenta metros de profundidade.
Na esperança de um bamburro imediato, quando um buracão desses é achado,
para lá convergem dezenas de balsas, a chamada fofoca, e os mergulhadores
aventuram-se às profundidades que podem, pelo tempo que conseguem.
Os três buracões mais conhecidos do Rio Madeira, são o Buraco da Dor, nos
Periquitos, o Buraco da Morte, no Embaúba e o Buraco da Viúva, no Paredão.
Dezenas de mergulhadores, com as suas mangueiras de ar comprimido e
mangueiras de sucção (Air Lift), emaranham-se lá embaixo, numa água barrenta
e sem visibilidade, sabendo apenas pelo tato que estão no "material"
e pelos toques que o pessoal da balsa lhes dão pela mangueira de ar, onde por
intermédio de um código simples, são esclarecidos da qualidade de material
dragado.
Inexperientes em técnicas de mergulho, ante qualquer dificuldade lá
embaixo, a tendência do mergulhador em uma emergência é a de soltar o cinto
de lastro, e , literalmente, boiar.
Os riscos de DD e SHP estão presentes em cada uma dessas "subidas
boiadas".
Quando não chegam à superfície já mortos pela embolia ("morte de
bobuia") normalmente acabam perecendo numa agonia inesquecível para quem
já presenciou, sofrendo com os sinais e sintomas sem nenhum atendimento médico
hiperbárico.
Essas subidas em pânico têm outro lado muito cruel. Levado pelo desespero
da subida rápida e encontrando-se no emaranhado de dezenas de mangueiras de ar
que o impedem de subir, é comum o mergulhador sair cortando tantos quantos
forem as mangueiras de ar que lhe estorvem a passagem, deixando para trás um
rastro de mangueiras rompidas e um número igual de mergulhadores sem ar, presos
pelos cintos de lastros às mais diversas profundidades.
Conclusão
Ora, nós não suportamos conviver com aquilo que não conhecemos e não
explicamos.
O que é novo gera angústia, razão porque é preciso compreender, de algum
modo, os eventos que ocorrem a nossa volta, principalmente quando se trata de
algo que causa - nos tanto desconforto e sofrimento como a morte.
"Desde a era mitológica, estamos perseguindo formas de explicações
para o sentido da vida. Assim, se estamos diante da impossibilidade de
explicarmos determinados acontecimentos em torno da vida e da morte pelas causas
naturais e pelas determinações históricas, tendemos a nos satisfazer com
explicações mágicas na tentativa de encontrarmos coerência e sentido tanto
para a felicidade quanto para a tragédia."
E a angústia da morte e o luto fazem parte deste processo, razão pela qual
foi necessário concebermos a imortalidade dos deuses e a da própria alma como
forma de encontrarmos alívio para a angústia.
Nesse sentido o sentido da vida está posto no que poderia vir depois e não,
necessariamente, na vida em si mesma.
A época dos mitos se foi, a filosofia consolidou - se como fundamento do
conhecimento, a ciência explicou os eventos naturais e sociais que nos
envolvem.
Apesar disso, o pensamento mágico se mantém presente na vida dos
indivíduos, tanto para explicar a desigualdade social, o sofrimento e a morte
como também para amortecer a revolta, minimizar os conflitos, fornecer solo
para a resignação e a aceitação quando o sentimento de impotência impera.
No caso dos mergulhadores que abordamos, a aceitação do acidente e também
da morte como fruto do acaso, do desígnio de Deus ou do destino pode,
inclusive, colaborar para eximir as empresas da sua própria responsabilidade.
Obviamente que todo mergulhador sabe que o risco de acidente seria menor em
condições adequadas de mergulho. Entretanto, ele também pensa que, mesmo em
condições seguras, se o acidente tiver que ocorrer, simplesmente ocorrerá e a
morte também, "porque eu estou vendo que vai acontecer".
Diante disto, é até mesmo possível esperar atitudes passivas por parte dos
mergulhadores frente o descaso das empresas em relação à segurança: por que
e para que reivindicar e se indispor com os operadores de mergulho, os
instrutores e os patrões, arriscando, inclusive, perder o próprio emprego, se,
ao final, tudo o que acontece aos homens tem o peso da mão de Deus ou do
destino ?
Quanto às empresas, se o desconhecimento, a intimidação e a visão
fatalista pode contribuir para calar o mergulhador, por que elas, por iniciativa
própria, adotariam políticas de segurança adequadas?
Obviamente, a morte, como evento natural intrínseco ao processo de viver,
não está sob domínio humano, mas a morte prematura, aquela que furta a vida
por condições inseguras ou por ato inseguro na atividade de mergulho, seja ele
esportivo, técnico ou profissional, poderia, sim, estar de alguma forma, sob o
controle dos homens.
Glossário
Compressor - adaptação com uso de um botijão de gás como
reservatório de ar comprimido. Dele sai um tubo que é colocado na boca do
''cafanguista'' (como é chamado o mergulhador), sendo sua fonte de ar. Usam
pesos atados à cintura para descer até o fundo do mar, uma máscara de
mergulho, um segundo estágio (chupeta) e nadadeiras. Uma lança fisga as
lagostas, que são postas numa rede para serem puxadas para a tona. São
retiradas geralmente de manzuás ou pesqueiros.
A pesca com compressor causa impacto econômico, porque se consegue num espaço
de tempo menor pescar muito mais que na pesca artesanal. O prejuízo para o meio
ambiente vem com a pesca da lagosta miúda. E os danos à saúde do cafanguista,
que muitas vezes sofrem baropatias complexas ou até morte. Isso se dá porque o
material é precário - muitas vezes o óleo do compressor mistura-se ao ar
respirado- e desconhecem regras básicas de mergulho, como compensação da
pressão ou o tempo máximo de permanência submersos.
Manzuá - chamada também de cangalha ou covo, é a forma atualmente
permitida de pesca da lagosta. Uma armação feita de madeira e coberta com uma
malha, com tamanho da perfuração adequada para não capturar lagosta miúda,
onde são colocadas iscas.
Caçoeira - ou rede, a prática está proibida, mas o assunto será
discutido hoje e amanhã, na reunião do Grupo Nacional de Gestão da Lagosta,
que acontecerá em Brasília (DF). A polêmica desta técnica é porque a rede
arrasta também outros materiais do mar, além das lagostas.
Pesqueiro - nicho onde ficam as lagostas. Os pescadores têm uma prática
milenar de criação de pesqueiro artificial, chamada marambaia, com pneus,
troncos e mesmo carcaça de veículos depositados no fundo do mar, onde as
lagostas passam a viver e se reproduzir. Assim, o pescador sabe onde encontrar o
crustáceo.
Fonte: Henrique César Martins - Instituto Terramar e Tese de Doutorado
de Maria do Céu de Lima, em Geografia Humana, na Universidade de São Paulo
(USP).
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(Orgs.). Isto é trabalho de gente? - Vida, doença e trabalho no Brasil. São
Paulo: Vozes, 1993. p. 294-320.
Notícias sobre acidentes:
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Fortaleza, Ceará - Sexta-feira 29 de junho de 2001
Falha mecânica deixa pescador paralítico em
Icapuí
É emblemático o caso de José Nilson da Silva, 33 anos, para retratar o
quanto à pesca de mergulho com compressor pode ser prejudicial. Residente
em Barreiras, localidade de Icapuí, o ex-pescador, mais conhecido como
Inácio, só agora começa a sair da cadeira de rodas, após o acidente
ocorrido em 1993, quando uma falha mecânica no sistema o deixou sem ar a
uma profundidade de 36 metros, no momento em que capturava lagosta no
litoral do Município.
‘‘Senti o ar pesado...tentei fazer a descompressão’’, diz
Inácio. A recordação dos fatos vai deixando seu semblante cada vez mais
triste, a voz começa a embargar. Foi tudo em fração de minutos: o ar
que recebia pela mangueira acoplada ao compressor deixou de passar. Em
busca de oxigênio, ele não teve como emergir lentamente para evitar a
descompressão e acabou flutuando de imediato. Socorrido por outros
membros da tripulação, foi colocado sobre o barco a motor e, ali mesmo,
desmaiou. ‘‘Não vi mais nada, quando eu cheguei lá em cima já
estava quase morto. Foi horrível’’, lembra.
Ainda hoje, quase nove anos depois, o ex-pescador não sabe informar que
falha mecânica teria provocado o acidente. ‘‘Não sei se a mangueira
desconectou do botijão’’, pondera. O certo é que foi levado, às
pressas, em ambulância da prefeitura para um hospital de Natal, no Rio
Grande do Norte, local mais próximo com câmara de descompressão.
Na época, sua morte só foi evitada porque o socorro veio rápido. Ele
foi transportado recebendo ar de um balão de oxigênio e em Natal
permaneceu 10 dias em coma. Após a fase mais crítica, retornou para
Icapuí e durante dois anos permaneceu paralítico, preso a uma cadeira de
rodas. Transcorridos três anos, ele começou a dar os primeiros passos
com muleta, mas com grande dificuldade. Hoje, largou a muleta, mas anda
apoiado nas paredes ou em algum móvel.
‘‘Agora, sou um atleta’’, admite com os olhos marejando e
confessando o enorme sofrimento que foi obrigado a enfrentar. Doente, não
pôde voltar a trabalhar na pesca e para sustentar a si próprio e a
esposa, também, desempregada, passou maus momentos. O dono da
embarcação para quem praticava a pesca de mergulho na captura da lagosta
a muito custo passou a lhe dar, mensalmente, meio salário mínimo. Quando
conseguiu se aposentar por invalidez, Inácio afirma que dispensou a
‘‘ajuda dada de mau gosto’’ pelo ex-patrão.
Atualmente, ele se dedica a fazer pequenas reproduções de barcos, em
madeira. O artesanato foi uma forma encontrada de preencher a mente e o
coração. Apaixonado pelo mar, não esconde, ainda, que se houvesse um
tratamento adequado para sanar as sequelas, teria coragem de, mesmo de
graça, retornar ao fundo do mar.
‘‘Lá é extraordinário. É lindo. Cada vez que eu mergulhava,
encontrava coisas diferentes. Por isso que muita gente se vicia (sic)’’,
enfatiza. Os olhos, de novo, se entristecem com a certeza de que,
possivelmente, nunca mais verá aquele mundo maravilhoso. (M.A.)
Fonte: Diário do Nordeste -1998
03/05/2002 - Pescador morre em acidente com compressor
O pescador João Artur Nascimento, 31 anos, morreu na madrugada de ontem,
vítima de um acidente com o compressor de ar que usava para pescar
lagosta em Baia Formosa, litoral Sul do Estado.
O acidente aconteceu por volta das 14h da quarta-feira, quando o
mergulhador retornava à superfície. João Artur sofreu uma embolia,
chegou a ser socorrido ao Hospital Naval de Natal, mas não resistiu à
doença chamada de descompressiva grave.
A fatalidade acontece quando o mergulhador está numa alta profundidade e
sobe rapidamente à superfície. O cérebro fica sem oxigenação, o que
pode causar desde problemas motores até a morte.
Segundo o promotor do trabalho, Eder Sivers, o pescador estava no segundo
mergulho do dia, a cerca de 40 metros de profundidade. "Ele havia
mergulhado mais de uma hora pela manhã e voltou a mergulhar depois do
almoço. Quando chegava perto dos 50 minutos sob superfície aconteceu o
acidente", disse o promotor.
O 3º Distrito Naval abriu sindicância para investigar os possíveis
responsáveis pelo acidente. O acidente aconteceu dois dias depois da
liberação da pesca da lagosta no litoral potiguar
Emersão rápida traz risco de embolia
O presidente da Colônia Z-8, Luís Pereira Lima, informa que a subida
rápida de emergência causa a embolia, ou seja a retenção de ar no
sangue. ‘‘Ele somente poderá ser salvo se a embarcação chegar a
tempo em uma cidade que tenha equipamento de descompressão, onde ficará
confinado em câmara para correção da embolia’’.
Já o pesquisador do Instituto Brasileiro de Recursos Naturais Renováveis
(IBAMA) José Augusto Negreiros Aragão, alertou ainda que normalmente o
compressor é acoplado ao motor do barco, fazendo com que o ar comprimido
seja contaminado por partículas de óleo diesel e gases tóxicos. ‘‘A
pesca de mergulho é predatória porque captura indivíduos de todos os
tamanhos’’, disse. Pondera que os riscos para a vida do homem são
enormes até porque no Nordeste apenas no Terceiro Distrito Naval, em
Natal, existe uma Câmara Isobárica, ou seja de descompressão.
DOENÇAS - Uma demora de seis ou oito horas para atendimento médico traz
o risco de uma invalidez, cegueira, desvio mental, trombose. ‘‘O Rio
Grande do Norte é o Estado onde se tem mais notícias de morte e
mutilações, há casos até de pescadores paraplégicos’’, denuncia.
Como a Colônia-Z8 não reconhece a pesca de mergulho como uma atividade
profissional, os pescadores que enfrentarem algum problema ficam
desassistidos e não se beneficiam com o seguro desemprego.
Via de regra, o mergulhador usa o arpão, uma espécie de rifle a mola e
ao acertar o peixe o mata, fazendo-o flutuar. O certo é que enquanto uma
jangada recolhe na pesca artesanal cerca de 500 quilos de peixe, a lancha
usada na pesca de mergulho pode, após três a quatro dias, recolher de
dois a três mil quilos de peixe. (MA)
Fonte: Diário do Nordeste -1998 |
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