|
Entrevista: Ismael Escote - Fala sobre os problemas do mergulho em Bonito-MS
Ismael Escote, é mergulhador desde 1997 com grande experiência em mergulho
técnico e cavernas, esteve à frente da operadora Sub Mundo Dive em Bonito-MS de 1999 a
2006, e agora coordena mergulho técnico na operadora Atlantis Divers de Fernando de
Noronha.
Instrutor de Mergulho PDIC, NAUI e IANTD, já colaborou e participou de
mergulhos exploratórios, expedições científicas e documentários em Bonito
e no Pantanal, junto à entidades como USP, Museu Nacional – UFRJ, UFMS, UCDB,
UNIDERP, COMTUR-Bonito, Rede Globo, Canal Azul e BBC de Londres.
Por quanto tempo você atuou em Bonito-MS e quais foram as dificuldades
iniciais ?
Atuei em Bonito-MS de 1998 até o final de 2005, sempre enfrentando
adversidades. Logo no início das operações com menos de 6 meses de
funcionamento da Sub Mundo, aconteceu pela primeira vez o fechamento das
cavernas. Foram quase dois anos de muito trabalho e documentação reunida junto
aos órgão competentes, para que a reabertura se desse de forma precária com
apenas 3 das 7 cavernas operando comercialmente mediante um termo de ajuste de
conduta. Nas outras cavernas, os poucos mergulhos que aconteceram, se deram com
a utilização das licenças temporárias emitidas pelo CECAV, em nome dos
mergulhadores que as solicitaram.
Ao longo desses anos, quantos alunos foram formados na especialida mergulho
em caverna?
Não existe uma estatística oficial, porém num levantamento informal,
considerando os anos em que todos os pontos estavam liberados de 1998 a 2000, o
volume de visitação entre alunos e credenciados era algo em torno de 250 a 300
mergulhadores / ano. Depois das restrições o número caiu para menos de 150
mergulhadores / ano, isto considerando um volume razoável de mergulhadores
treinados no nível "Overhead Diver", na Gruta
Mimoso, ao longo de
dois anos.
Em todo esse tempo, houve algum tipo de depredação ou descuido de algum
mergulhador ?
Depredação não houve, pois isto seria intencional e inadmissível, porém
é fato, que com turmas grandes é impossível controlar todos os alunos e/ou
mergulhadores. Certamente uma boa parte dos danos causados principalmente na
Gruta Mimoso, se deve aos quase dez anos de incursões de mergulhadores neste
local. Não existe visitação sem impacto ambiental, o que se faz é minimizar
este impacto com um controle, que nem sempre é bem entendido pelos
mergulhadores.
Sabemos que as cavernas de Bonito estão fechadas. O que aconteceu
de fato, para que elas fechassem?
As 2 únicas cavernas que foram fechadas são, Lagoa Misteriosa e Gruta
Mimoso, pois as demais nunca estiveram abertas para exploração comercial desde
o fechamento de 2000. Este fechamento ocorreu em Junho de 2004, devido a falhas
na execução do Projeto de Plano de Manejo, tais como insuficiência de dados e
descumprimento de prazos. Ambas as cavernas estavam na época sob
responsabilidade técnica de Edmundo Costa Júnior. Os proprietários, diante de
um impasse financeiro, já que a reabertura se daria apenas depois de concluído
o projeto e sem a renda necessária para tal, decidiram suspender os trabalhos.
Recentemente com a compra da Lagoa Misteriosa pelo Sr. Eduardo Coelho e a
retomada dos trabalhos nesta propriedade, deve haver mudanças no cenário ainda
neste ano de 2006, com esta caverna voltando a operar comercialmente.
Que medidas foram tomadas pelas escolas e operadoras, para que houvesse
uma liberação especial aos mergulhadores já formados ?
As escolas e operadoras não podem tomar nenhuma medida, já que o que está
realmente proibido não é a visitação e sim a exploração comercial destes
locais. O envolvimento de escolas e operadoras caracterizaria exploração
comercial. Mergulhadores credenciados e interessados em obter licenças e
permissões devem se dirigir ao CECAV em Brasília e solicitar as
autorizações, o que não é muito simples nem muito rápido e ainda assim,
mesmo que consiga a autorização, o mergulho não é garantido, pois esta,
está vinculada à anuência do proprietário. Ao menos em Bonito, os
proprietários não estão dispostos a permitir a entrada de mergulhadores em
suas terras, ainda que possível é incerto, depende do dia e do humor do
proprietário.
O IBAMA ou algum órgão do governo criou algum tipo de burocracia quanto às
propostas encaminhadas ?
A burocracia existe, isto é uma característica do poder público no País,
não é privilégio do CECAV ou do IBAMA, além disso existe também a vaidade
dos diretores de tais órgãos. Como exemplo, temos o caso do Buraco das
Abelhas, que por estar em um Parque Nacional não pode ser incluído nas
permissões do CECAV, pois o diretor do parque não reconhece a competência
deste órgão, como se fosse de um país diferente.
Os funcionários dos órgãos envolvidos, têm ou tinham, conhecimento e
capacidade necessária para dirimir o assunto?
O conhecimento que eles têm sobre cavernas alagadas, estão obtendo
juntamente com os técnicos envolvidos no processo. É algo novo enquanto
processo de licenciamento e todos estão aprendendo a lidar com isso.
Em uma visão macro, você acredita que faltou ou falta, um estudo
mais detalhado por parte dos órgãos federais, para que a haja a liberação das
cavernas ao mergulho ?
Obviamente o processo todo pode ser melhorado, principalmente no que diz
respeito às regras de licenciamento, que não são claras, além disso órgãos
como CECAV e IBAMA, deveriam se ater às questões ambientais e não se envolver
em problemas técnicos e operacionais, pois disso o mercado se encarrega. As
certificadoras têm normas claras e cada uma tem sua visão sobre equipamento e
treinamento. Regras como profundidades e limites estão fora do âmbito e da
competência destes setores.
O maior impasse, entretanto, não é como a maioria
imagina. A dificuldade maior não é o IBAMA / CECAV, afinal, mal ou bem as
regras estão aí e quem quiser licenciar pode dar início ao processo. O
problema é que os proprietários das terras não têm o menor interesse em
gastar dinheiro para licenciar cavernas que gerarão pouco ou nenhum lucro a
médio prazo. É muito melhor e mais lucrativo investir este dinheiro em gado,
que já é uma atividade comum a eles. Convencer um fazendeiro a investir mais
de R$ 50.000,00 em um plano de manejo em uma caverna que tecnicamente não é
dele e sim da União, mais infra-estrutura, funcionários e manutenção anual
para atender no máximo 300 mergulhadores de caverna por ano não é tarefa
fácil para ninguém.
Além disso, no momento em que ele fica a par do risco envolvido, a ameaça
ao patrimônio, pois os termos de isenção de nada valem perante código do
consumidor e responsabilidade civil, aí então é que ele desiste mesmo.
Ninguém pode garantir que num caso de acidente, a família não processe o
proprietário que além de liberar o acesso, ainda cobrou por isso. Se alguém
tiver uma fórmula mágica para isso dar lucro ou parecer um investimento
seguro, por favor, iniciem o diálogo com os proprietários. É diferente de um
lugar onde a caverna seria a única alternativa de renda, não conheço a
realidade da Bahia por exemplo, talvez isso se aplique em alguma propriedade de
lá. Concluindo, e isto não é apologia a IBAMA, é fácil culpar um órgão de
competência duvidosa em um assunto tão complexo. O problema é que não
queremos reconhecer que o mercado de mergulho em caverna no Brasil é muito
pequeno e imaturo, o volume desta economia ainda não seduz a parte mais
importante que é o destino. Tanto é verdade, que o mercado é tão pequeno a
ponto de mudar o destino sem grandes problemas.
Não tem Bonito ! Então vamos pro México, Flórida etc... Infelizmente
algumas dezenas ficam sem poder mergulhar e contentam-se com a Mina da Passagem
enquanto ainda puder.
As cavernas da Flórida e do México são visitadas por
mergulhadores do mundo inteiro. Você acredita que poderíamos desenvolver um
turismo de mergulho semelhante em Bonito?
Apesar de não conhecer pessoalmente nenhum dos dois locais citados, diria
que é difícil fazer aqui algo parecido. Em primeiro lugar existe diferença em
relação à legislação, o que já é sem dúvida fator preponderante nas
relações governo / proprietários / clientes. Outro ponto à ser considerado, é a
quantidade, disposição e características das cavernas. Em Bonito por exemplo
é difícil a utilização da maioria das cavernas por número acima de 6 ou 8
mergulhadores ao mesmo tempo, além disso a quantidade de cavernas é bem menor
bem como o acesso quase sempre difícil. Por estas e outras razões diria que
são realidades totalmente distintas e com mercados distintos também,
principalmente no que diz respeito à sazonalidade. A maior parte dos grupos de
mergulhadores de caverna no Brasil, viaja em feriados prolongados e meses de
férias. Não existe volume regular ao longo do ano.
Qual a sua visão sobre o futuro de Bonito em relação ao
mergulho em caverna ?
Acho, como mencionei anteriormente, que o mercado não está maduro. Um
exemplo disso é o de escolas que levavam seu próprio compressor a Bonito,
mesmo tendo à disposição uma estrutura completa e de alta qualidade para
recargas e misturas, com o intuito de economizar alguns reais em detrimento de
uma estrutura local, que depende de fluxo para se manter. Essa visão de mercado
como um todo, de terceirização de parceria, que é a visão moderna de
eficiência e qualidade, é que ainda falta ao nosso profissional.
Com relação à situação das cavernas, se algo mais radical não
acontecer, pouca coisa vai mudar, pois à vontade do proprietário da terra,
onde se encontra a caverna é que prevalece. Se o órgão público um dia vier a
conceder à exploração do patrimônio que é da União à um terceiro, nem que
mediante licitação, critério técnico ou algo que o valha, aí acredito em
soluções mais breves.
Enquanto isso, estarei trabalhando em Fernando de Noronha que, apesar de seus
problemas, vai bem ! Obrigado !
|
|