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Primeiro atendimento com oxigênio normobárico em acidentes de mergulho
recreativo
A assistência ao acidentado de mergulho pode ser dividida em várias partes,
que devem ser percebidas como um atendimento contínuo. Esse atendimento começa
no instante em que se identifica qualquer evidência de que algo não vai bem,
colocando risco a vida do mergulhador. Entretanto, a identificação do problema
e o transporte até um local de atendimento avançado com recursos de maior
complexidade muitas são as condutas e treinamentos que se fazem necessárias
para que o primeiro atendimento ocorra e o evento tenha o melhor desfecho. A
administração de oxigênio à pressão ambiente (normobárico) é uma das
primeiras e mais importantes condutas.
A necessidade do uso de oxigênio parece clara à medida que a maioria dos
acidentes de mergulho, inclusive s formas graves de mal descompressivo,
geralmente ocorre com insuficiência ventilatória. Até pouco tempo atrás,
não havia evidências consistentes sobre os benefícios da administração de
oxigênio como primeira medida de atendimento ao mergulhador recreativo
acidentado. Somente havia evidências experimentais sobre o uso de oxigênio
normobárico no tratamento de doença descompressiva em animais.
Recentemente foram publicadas, no Undersea
& Hyperbaric Medicine (UHM), as conclusões obtidas através da revisão
retrospectiva do banco de dados da Diver’s
Alert Network (DAN) sobre o uso de oxigênio durante o primeiro atendimento
dos males descompressivos. Nesse estudo, foi avaliada a influência do uso de
oxigênio no primeiro atendimento do acidentado, o alívio dos sintomas antes e
após uma ou mais recompressões e outros desfechos.
O ESTUDO RECENTEMENTE PUBLICADO
Longphre e colegas analisaram 2.231 relatos de acidentes armazenados no banco
de dados da DAN de 1998 a 2003. O estudo revelou que oxigênio foi usado no
primeiro atendimento em praticamente metade dos casos (47%). Indivíduos com
sintomas mais graves de mal descompressivo como achados neurológicos,
cardiopulmonares e de pele receberam essa forma de tratamento de maneira
precoce. Apesar de uma análise inicial revelar que nem todos receberam
oxigênio, observou-se que, em situações nas quais não havia dúvidas
diagnósticas, o tratamento foi oferecido. Isso pode significar que, apesar de o
tratamento estar disponível, outros fatores relacionados a uma demora
diagnóstica poderiam postergar o seu uso.
Do grupo de acidentados que recebeu oxigênio logo após o acidente, 67%
apresentaram alívio completo dos sintomas após o primeiro tratamento de
recompressão, enquanto aqueles que não receberam, somente 58% apresentaram
melhora. Em relação à necessidade de mais do que um tratamento recompressivo,
se observou que, no grupo que recebeu oxigênio, 45% necessitaram de mais que um
tratamento de recompressão. No grupo que não recebeu oxigênio, 50% tiveram de
realizar mais que um tratamento. Cabe salientar que, avaliando o subgrupo
formado por aqueles que receberam oxigênio nas primeiras quatro horas após
emergir, foi observado que 33% necessitaram de mais que um tratamento
recompressivo, ou seja, 12% acabaram fazendo somente um tratamento
recompressivo. Dessa forma, pode-se concluir que oxigênio oferecido nas
primeiras quatro horas após emersão como primeiro atendimento no tratamento do
mal descompressivo reduz a necessidade de múltiplos tratamentos recompressivos.
Como o trabalho foi retrospectivo e baseado em registros, somente se obteve o
dado "sim" ou "não" em relação à administração de
oxigênio e não se pode saber o modo de oferecimento de oxigênio ou o tempo de
tratamento. De qualquer maneira, se houve forma inadequada de administração,
esta gerou um viés contra o efeito benéfico e não invalidou a análise. Desse
modo, considerando os fatores administração por pouco tempo e em baixa
concentração inspirada, o achado estatisticamente significativo de um efeito
benéfico poderia sugerir um efeito mais intenso quando a administração é
realizada da maneira mais adequada.
Outro dado importante que o estudo revela, é que, apesar de estar
disponível, somente a metade dos acidentados recebeu oxigênio sem demora.
Apesar de o oxigênio estar disponível, somente os casos mais graves foram
tratados. A não utilização pode decorrer da insuficiência de diagnóstico. O
mergulhador afetado ou mesmo o time de operação da saída de mergulho podem
ter dificuldades em relatar e avaliar os sintomas. Outra hipótese é a
necessidade de não valorização dos sintomas como forma de negação das
eventuais complicações do mergulho.
Pelo fato de o estudo ser retrospectivo, ele acabou fornecendo respostas
parciais a algumas dúvidas que os mergulhadores recreativos sempre têm. Novos
estudos prospectivos e controlados são necessários para responder às
seguintes questões: Quando oferecer oxigênio ? Melhoras parciais
decorrentes do uso precoce do oxigênio prejudicam o atendimento global, pois
podem levar a cancelar procura médica e tratamentos sabidamente mais eficientes
? Qual a eficácia da administração de oxigênio sem recompressão
? Qual a melhor forma de administração associada ao melhor
desfecho em relação às alterações disbáricas ?
A revisão mostrou que havia várias formas de oferecer oxigênio
normobárico. Sabe-se que elas diferem entre si em relação à concentração
de oxigênio oferecido. Métodos menos eficientes de oferecer uma concentração
maior de oxigênio teoricamente puxaram os resultados para baixo. Mesmo assim,
em termos de prognóstico e necessidade de recompressão, houve uma
significativa diferença entre os grupos que receberam e aqueles que não
receberam oxigênio.
O estudo, apesar das limitações metodológicas, forneceu evidências
epidemiológicas a favor do uso de oxigênio no primeiro atendimento de
acidentes no mergulho recreativo. No entanto, metade dos mergulhadores que
receberam oxigênio, o recebeu de maneira inadequada. A fração de oxigênio
inspirado e o tempo de exposição ao oxigênio normobárico em vias
respiratórias parecem ter sido menores que o necessário. Dessa maneira,
equipamentos mais adequados, assim como programas educativos, parecem
necessários para se otimizar o atendimento nas primeiras horas do acidente.
POR QUE DO USO DO OXIGÊNIO NORMOBÁRICO ?
Oxigênio respirado a elevadas pressões, ou seja, recompressão é o
tratamento definitivo para o mal descompressivo. Entretanto, enquanto se espera
por esse tratamento, o primeiro atendimento é realizado com oxigênio respirado
a pressão ambiente.
O uso do oxigênio como primeiro atendimento ao mal descompressivo sempre se
baseou em princípios racionais nos quais ele melhora a pressão parcial desse
gás no tecido e aumenta a remoção de gás inerte. Mesmo em administração
normobárica, o objetivo da terapia com oxigênio é facilitar a entrada de
oxigênio no sangue para, chegando aos tecidos, suprir a demanda metabólica e
acelerar a saída de gás inerte. Ventilando os pulmões com maiores
concentrações de oxigênio, é gerado um aumento da sua pressão parcial com
diminuição do gás inerte intra-alveolar, o que aumenta o gradiente entre o
gás inerte dissolvido nos tecidos e o que está nos pulmões, tornando mais
eficiente sua remoção. Por sua vez, a diminuição da tensão de gás inerte
no tecido aumenta o gradiente de difusão da bolha de volta ao tecido, do tecido
para a circulação e daí para os pulmões. Essas mudanças de gradiente
provocadas pelo oxigênio aumentam a eliminação de gás inerte de bolhas e
tecidos, melhorando o mal descompressivo. Essas observações são as mesmas que
justificam o uso de maiores concentrações de oxigênio em misturas para uso em
descompressão.
Em última análise, o oxigênio normobárico reduz o tamanho das bolhas,
aumenta a oxigenação do fluxo sanguíneo tecidual e reduz a obstrução
microvascular provocada pelas bolhas de gás inerte. Além disso, o oxigênio
reduz a inflamação tecidual e reduz a sensação de falta de ar.
FORMAS DE ADMINISTRAR OXIGÊNIO NORMOBÁRICO
A seguir, será feita uma revisão das várias formas de se ofertar
oxigênio. Habitualmente oxigênio normobárico é oferecido através de um
circuito aberto com grandes fluxos do gás, o que limita a duração do seu
recebimento. Formas mais avançadas, como as máscaras de pressão positiva e
até mesmo as de dois níveis de pressão positiva de vias aéreas, requerem
tecnologias mais complexas e fogem dos objetivos deste texto.
1. Cateteres nasais
Com o uso de cateteres nasais, a exata concentração de oxigênio inspirada
que se está oferecendo, não é possível saber. Via de regra, o fluxo de
oxigênio a 1L/minuto por cateter nasal equivale a uma fração de oxigênio
inspirado de 24%. Cada litro por minuto adicional aumenta em 4% a fração de
oxigênio inspirado. O fluxo de oxigênio oferecido fica limitado a 5L/minuto.
Essa forma de administrar é comumente mais usada devido à simplicidade de
materiais. Além de suprir a necessidade em determinados casos de insuficiência
ventilatória, permite que o acidentado se alimente e se comunique melhor
durante o tratamento.
2. Máscara de Venturi
A fração inspiratória, durante o uso de máscara de Venturi, com fluxos de
10 a 15 litros por minuto, pode ser de 24 a 50% de acordo com o fluxo de
oxigênio oferecido. Ela permite uma administração mais precisa e a dose pode
ser regulada para minimizar a retenção de dióxido de carbono.
3. Máscaras com controle de fluxo ou sem recirculação (non-reabreathing)
São máscaras através das quais se obtém a maior fração de oxigênio
inspirado. Durante o seu uso, pode-se obter concentrações de até 80 a 90% com
fluxos de 15 litros por minuto. Uma válvula unidirecional é colocada no
sistema de modo a não haver retorno de gases exalados oriundos do saco
reservatório
4. Sistema de fornecimento de oxigênio em circuito reciclável
O fato de os acidentes de mergulho recreativo ocorrerem em áreas remotas e
distantes dos centros de atendimento clínico avançado, em que há uma
distância considerável a ser percorrida até o atendimento médico avançado,
motivou a DAN a criar um equipamento e um treinamento específico para esse fim.
O sistema REMO2Ò (Remote Emergency Medical Oxygen) torna ótima a oferta,
aumentando o tempo de utilização de um cilindro de oxigênio. O oxigênio é
inalado através de uma máscara e o ar expirado recircula por um canister onde
o dióxido de carbono é removido. No retorno para a máscara, pequena
quantidade do gás é adicionada ao sistema, repondo o oxigênio utilizado. O
sistema permite que o mergulhador reutilize o oxigênio exalado. Em última
análise, o sistema aumenta a duração do oxigênio disponível para tratamento
de modo que não acabe antes de chegar ao atendimento avançado de maior
complexidade.
Esse sistema já está em sua segunda geração. Estudos controlados
evidenciaram que ele oferece uma fração inspirada de oxigênio de 0,95, com um
fluxo médio de 1 L/min, com uma média de saturação do compartimento de
retenção de dióxido de carbono de 7,8 horas, com menos resistência ao fluxo
que a primeira geração. Os testes realizados confirmam a sua utilidade para o
propósito de atender vítimas distantes de centros avançados de atendimento ao
acidentado, possibilitando a melhor oferta de oxigênio durante o trajeto.
Aspectos éticos legais para o uso de oxigênio
A demora em iniciar o uso do oxigênio merece ser pesquisada com mais
detalhes à medida que o estudo mostrou que, apesar da disponibilidade de
oxigênio no local do acidente, esle nem sempre foi usado. Isso leva a pensar
se, entre vários fatores de demora, não haveria motivações éticas ou legais
associadas.
Parece consenso que o aprendizado da técnica de oferecer oxigênio é mais
complexo do que o atendimento básico de suporte à vida. Essa impressão
decorre da necessidade do conhecimento técnico relacionado ao uso e manejo de
máscaras, cateteres, fluxômetros, torneiras, cilindros, entre outros.
Entretanto, algumas instituições de salva-vidas, internacionalmente
reconhecidas, têm boa experiência com o uso de oxigênio desde que o
salva-vidas tenha recebido treinamento teórico e prático adequado com
supervisão de qualidade.
O valor em oferecer oxigênio imediatamente em vez de esperar pessoal
treinado com medidas de suporte avançado de manutenção da vida, também, vai
depender do intervalo de tempo estimado entre o momento do acidente e o do
recebimento do tipo de atendimento. Outro fator que pode fazer a diferença
entre tratar ou não, é o nível de conhecimento e treinamento do provedor, bem
como qualidade, adequação e manutenção do equipamento necessário para
oferecer oxigênio normobárico. Atualmente já foi removida a barreira
relacionada ao argumento de que oferecer oxigênio em altas concentrações
poderia ser prejudicial. O que se pôde ver, é que outros fatores, como a
hipóxica ou retenção de gás carbônico, são piores para o acidentado do que
o risco de toxicidade pulmonar por oxigênio.
Muitos países têm legislação própria relacionada ao uso do oxigênio
normobárico por quem não é médico. As normas dizem respeito ao desempenho
prático daqueles que podem usar oxigênio no atendimento básico de
manutenção da vida e à guarda e manutenção dos equipamentos necessários. O
Brasil segue as orientações internacionais envolvidas em resgates
pré-hospitalares. As instituições e certificadoras de mergulho que treinam
pessoal para esse tipo de atendimento, devem ter consciência dessas normas. Por
questão de coerência, elas deveriam incluir os gestores da saúde pública na
discussão dos seus programas de treinamento quanto às barreiras legais para
que os resgatadores possam exercer suas atividades com tranquilidade.
A Associação Cardiológica Americana estabeleceu uma categorização em
relação à medicina baseada em evidências para o uso de oxigênio por
profissionais não médicos. A medicina, baseada em evidências, coloca que o
oferecimento de oxigênio, através de máscara sem recirculação, para
vítimas que respiram espontaneamente, é considerado como uma opção
terapêutica na qual o peso das evidências está a favor da utilidade e
eficácia (Classe 2A da American Heart Association). Já a sua utilização
durante a ressuscitação cardiorrespiratória básica do adulto com máscaras
faciais por pessoal não médico é considerada uma opção terapêutica que,
apesar de não ser bem estabelecida através de evidências, pode ser útil e
sem maiores riscos (Classe 2B da American Heart Association).
Os benefícios de prover oxigênio de maneira imediata para vítimas de
afogamento que respiram espontaneamente ou que estão em parada
cardiorerespiratória, são tão claros que se defende que todas as vítimas se
beneficiarão do seu uso. Salva-vidas podem ser liberados para o uso de
oxigênio em acidentados de mergulho desde que tenham recebido um treinamento
mínimo conforme protocolos de treinamento pré-estabelecidos. Um programa de
treinamento mínimo, bem elaborado e que já está consagrado é o da National
Guidelines for first Aid Training in Occupational Settings (NGFATOS),
disponível através da Food and
Drugs Administration dos Estados Unidos.
Talvez o dilema ético mais importante seja se o benefício reconhecido do
uso do oxigênio não contribuiria para a demora em procurar assistência
especializada. Um percentual significativo de acidentados acaba ficando
assintomático antes de receber terapia recompressiva quando recebe oxigênio
normobárico, o que pode implicar demora em soluções seguras e definitivas
para os casos. O alívio dos sintomas pode fazer com que mergulhadores não
procurem avaliação e tratamento médico e isso pode ser um risco de desfechos
piores no caso de certas apresentações de doença descompressiva. Por outro
lado, também cabe salientar que, em torno de 3% dos casos de doença
descompressiva sem qualquer tratamento, há melhora espontânea antes da
recompressão.
CONCLUSÃO
O resultado do estudo da DAN evidencia que o uso de oxigênio aumenta a
eficácia e diminui a necessidade de tratamentos de recompressão necessários
desde que ofertado precocemente e idealmente dentro das quatro horas após a
imersão. A melhor maneira de oferecer oxigênio é através de máscaras com
fluxo unidirecional. O uso de um sistema que recircula a mistura gasosa e que
retira o dióxido de carbono exalado, é a melhor maneira de otimizar a oferta
de oxigênio enquanto se transporta o acidentado que se encontra longe de
possibilidades terapêuticas complexas. Programas de ensino de resgate de
acidentados devem contemplar o uso seguro do oxigênio, bem como as formas de
administrá-lo, o que proporciona maior autonomia. Programas bem estruturados
são fundamentais para remover barreiras ético-legais relacionadas ao uso de
oxigênio normobárico e oferecer tranquilidade aos salva-vidas envolvidos com
acidentes de mergulho recreativo.
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