Artigos: Karol do mergulho livre encontra o Lago Azul - Goiás
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Karol do mergulho livre encontra o Lago Azul - Goiás

Foi uma das melhores experiências de minha vida, deixar minha casa, meu trabalho e juntamente com meu marido e minhas nadadeiras, seguir para uma expedição única até o planalto central do Brasil, através de um convite convite irrecusável de amigos de Brasilia tivemos a informação de que havia um lago "azul" à algumas centenas de quilômetros de Brasilia, em Niquelândia.

Iniciamos então os preparativos solicitando autorização para os órgãos competentes e para o proprietário da fazenda onde se encontrava o lago. Vencida esta etapa, seguimos para a logistica dos treinos, a segurança e estadia o mais próximo do lago possível.

Os dois primeiros dias foram prá lá de cansativos, mais de 6 horas na beira do lago, montando tudo, o calor, os mosquitos, as aranhas, o pó, a altitude, nossa... a primeira coisa foi aceitar as dificuldades e lidar com elas da melhor maneira possível, afinal, eu sequer havia caído na água, onde as outras barreiras precisariam ser vencidas para eu chegar ao recorde.

A meta era -65m de profundidade, novo recorde sul-americano na disciplina, feito que me igualaria a legendária cubana Debora Andollo.

Os treinos se iniciaram muito antes, em Florianópolis, na Racer Academia e no Lira Tenis Clube, seguidos de mais 20 dias no lago. O Lago Azul, que era chamado de lago assombrado pela população local, "porque puxava as pessoas para baixo da água", recebeu um novo apelido: Lago da Karol.

O periodo de treino em profundidade foi curto porém muito bem aproveitado. Tempo exato para que as dificuldades do clima seco fossem suportadas, a compensação vinha com o visual do lugar, comumente se avistava aves belíssimas, tucanos, araras, siriemas até chegar ao Lago Azul, azul mesmo !

A água cristalina e quente, com temperaturas variando entre 26 e 27ºC, eram propícias ao mergulho livre.

Como a segurança no mergulho é um dos fatores que interfere na performance, e sem segurança não se mergulha,
reunimos uma equipe prá lá de competente de mergulhadores autônomos de Brasilia, que durante os treinos e recordes fizeram a diferença. Amigos para sempre !

A tensão que foi se acumulando no dia a dia dos treinos, tinha em minha bagagem dois novos recordes sul-americanos, um de imersão livre, com -60m e outro no Lastro Constante sem Nadeiras -35m. Dois mergulhos excelentes e mais uma descida tranquila aos -62m me deixaram bem segura de que as possibilidades eram grandes de sucesso.

Mas cada dia é um dia, o recorde ainda precisava ser feito, tudo tinha que ser perfeito.

Enfim o esperado dia... Embarquei no carro e segui para o Lago, a concentração já era total. Sentia muito a garganta em decorrência de uma faringite, mas buscava anular as sensações ruins. Vesti a roupa de neoprene e coloquei meu óculos, enquanto escutava o "briefing" de segurança dos Juízes, Mergulhadores Autônomos e Corpo de Bombeiros de Niquelândia que acompanhavam.

O aquecimento, sempre em menores profundidades, apenas para avisar ao corpo o que está por vir. Sete minutos é a contagem regressiva para que eu parta rumo à marca de -65m, onde fica uma placa amarela assinada pelos juízes.

Eles lançam a placa e colocam em mim o profundímetro oficial.

Mergulhadores autônomos descem aos 3 minutos regressivos para se posicionarem no local correto para um eventual socorro. Dois minutos dou ênfase a respiração abdominal ampla, 1 minuto as respirações são completas, poucas, lentas, parto para uma expiração um pouco mais forçada e seguida pela minha última inspiração. A postura na água muda, para facilitar esta última inspiração, sigo fazendo movimentos de carpa (colocando mais ar com pequenas sucções chamadas de "carpa" quando consigo um extra de até 1,30 Litros de ar !!!

Parti, a atenção neste momento é para uma partida correta com batidas de perna firmes para vencer o empuxo, aos -10m o volume de ar já se reduziu pela metade, o desconforto do ar extra se vai.

Alinhada, buscando pelo maior hidrodinamismo, sigo aos -20m, graças à percepção de todo o mergulho, sei que posso reduzir a força, que já começo a me tornar negativa a esta profundidade, onde entro nos -30 a -35m onde o bloodshift acontece em maior intensidade, o pulmão já está no seu volume residual e temos quase 0,8 litros de sangue na pequena circulação pulmonar.

Aos -40m recebo um sinal, ele serve de informação para que eu novamente corrija minha postura, buscando pelo deslizar sem força real, que chamamos de "sink fase", deixamos o corpo cair, apenas controlando a compensação dos ouvidos. A velocidade aumenta, a escuridão, ou melhor o azul muda de tonalidade, sei que estou chegando... É dificil de encontrar ar para compensar os ouvidos, uma pequena manobra feita de forma correta pode levar bem adiante, assim como um erro pode interromper a descida.

Qualquer surpresa, susto, manobra errada debaixo d'água pode ser muito comprometedor e pode levar a um gasto não planejado de O2.

Aos -60m, compenso e olho para baixo à procura do disco amarelo onde está a placa que devo pegar e levar comigo até a superfície. Nesta hora a ansiedade aumenta, mas estamos sós lá embaixo, e ainda falta o retorno todo. Mais 65m, na subida o controle psicológico é ainda maior, porque subimos já com um oxigênio reduzido, o cansaço muscular aparece por volta dos -30m, onde qualquer pensamento negativo deve ser banido da mente. Manter o controle e a consciência até chegar ao apneísta de segurança, nos -20m, ali sinto uma enorme alegria, bem maior do que tocar o disco e pegar a placa, pois isto não significa que você chegará inteira na superficie...

Nos últimos 10 metros para de bater as nadadeiras, economizo o restante da energia para me apoiar e respirar ao sair da água. Neste momento ainda temos um último desafio, temos apenas 15" para retirar os equipamentos do rosto fazer o sinal de OK e falar OK para os juízes que estão ali cronometrando tudo. Somente 30" após sair da água é que você realmente sabe que o recorde valeu !

Ai tudo é festa, mas ainda dou mais uma descida para avisar aos mergulhadores autônomos de que tudo deu certo.

Durante os treinos e recordes recebia visita dos moradores locais, isto aumentava ainda mais a minha responsabilidade, 
era como se a marca fosse um presente para a cidade, que estava ali, torcendo por mim. Os gestos de carinho eram diários, Irony gerente do Balneário Bucaina, chegou a fazer uma torta com a mensagem: "Estamos torcendo por você Karol"

Até o prefeito de Niquelândia, Ronan Rosa Batista, não resistiu aos encantos do lago e realizou vários mergulhos. Os juizes internacionais AIDA - Antoine Saad Filho e Rodrigo Mendes Ferreira além de julgarem a prova, foram impecáveis e homologaram 3 novos recordes sul-americanos e 3 marcas nacionais durante todo o evento. Espero poder retornar ao Lago Azul para muitos outros mergulhos profundos, cursos e momentos inesquecíveis em nosso "Blue Hole" brasileiro !!!

 

Lago Azul

 


Equipe de Segurança

 


Preparatórios

 


A subida

 


O recorde

 


Mais recordes

 


Karol Meyer, é mergulhadora em apnéia de renome internacional, Instrutora e Palestrante. Já conquistou para o Brasil quatro Recordes Mundiais no Mergulho Livre, 2 continentais e 22 sul-americanos em profundidade.

Recentemente foi ganhadora do Troféu ICARE como Best Coach (melhor treinadora) de apnéia do mundo em 2006, sendo também eleita a 2ª melhor mergulhadora no mundo em 2006 pela mesma instituição. Em 2006 realizou a façanha de ultrapassar a barreira dos 7 minutos sem respirar (7 min18s submersa).

Karol também é madrinha do Projeto Baleia Franca e apoiadora de diversos projetos de defesa ao meio ambiente.

Mergulhe com ela: www.karolmeyer.com