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Proteção e Controle Térmico no Mergulho
Durante o mergulho, na maioria das vezes, o mergulhador está exposto a
uma temperatura ambiental menor que a necessária para ele manter sua
temperatura corporal estável numa situação de conforto. Essa exposição faz
com que ele gaste uma considerável quantidade de energia do seu metabolismo
para manter a temperatura corporal em padrões normais. Frio
além da capacidade de se manter a temperatura corporal consome muita energia.
Talvez esse seja o fator principal que faça com que o mergulhador gaste tanta
energia durante o mergulho.
No mergulho, podemos observar algumas situações onde há descuido em
relação aos cuidados que se devem ter para manter o corpo aquecido. A primeira
que lembramos, está relacionada ao mito de que, para mergulhar em regiões
tropicais, por serem águas mais quentes, não há necessidade de proteção
térmica. Outra situação comumente observada se relaciona ao treinamento de
piscina, seja no mergulho em apnéia, seja no autônomo. A menos que a água
seja aquecida constantemente até 35°C, sempre haverá gradiente entre a
temperatura corporal e o ambiente e, portanto, perda de calor e necessidade de
se manter aquecido.
Passar frio durante o mergulho produz cansaço e prejudica o desempenho do
mergulhador. Conforto térmico é fundamental numa operação de mergulho para
otimizar o desempenho físico e cognitivo. Além disso, a hipotermia já foi
implicada como causa direta ou indireta de acidentes de mergulho ou de suas
complicações. A necessidade do mergulhador de manter sua temperatura corporal
na zona de conforto faz com que ele busque soluções de proteção. Proteção
térmica inadequada leva à diminuição da temperatura corporal.
As soluções, para se manter o conforto térmico, poderão ser de vários
tipos. A escolha dependerá do nível de proteção necessária em função do
mergulho planejado e poderá ser limitada em função dos recursos econômicos a
serem investidos. Em termos práticos, o mergulhador poderá usar roupas secas,
úmidas ou úmidas dependentes de fonte de calor externa (roupas perfundidas com
água quente). Uma série de fatores afeta o isolamento térmico das roupas.
Independentemente do tipo de roupa e das condições de mergulho como a
profundidade e o tempo de exposição a temperaturas baixas ou não, o ser
humano normalmente, em qualquer imersão, lança mão de um sistema
termo-regulador. Nosso objetivo é apresentar o sistema termo-regulador e as
adaptações que ocorrem durante o mergulho para manter a temperatura corporal
estável.
Mergulho e a perda de calor corporal
Durante o mergulho, há perda de calor do corpo para o ambiente. Essa perda
decorre da grande condutividade de calor através da água que passa pela pele
do mergulhador. A maior perda de calor ocorre por condução e convecção.
Perda por radiação é praticamente nula. Com o contato com a água, o calor de
dentro do corpo passa pela pele ao microambiente adjacente por condução. Por
convecção, ele acaba sendo perdido para o meio ambiente. A água, ao
contrário do ar, não produz qualquer isolamento entre a pele e a interface do
ambiente.
É sabido que o mergulho predispõe à hipotermia. Isso acontece, pois, na
maior parte das vezes em que o mergulho ocorre em condições de temperatura
ambiente menor que a temperatura considerada neutra para a manutenção da
temperatura do corpo estável dentro de valores normais e sem gasto de energia.
Além disso, há uma alteração das características físicas do meio ambiente.
Alterando-se o meio no qual o ser humano se encontra, a condutividade térmica
no sentido de perda de calor do corpo para o meio ambiente também se altera. A
água conduz muito mais calor que o ar e, por condução, retira calor do
mergulhador.
Numa mesma temperatura ambiente, o ser humano esfria quatro vezes mais
rapidamente na água que no ar. A manutenção da temperatura corporal durante o
mergulho decorre do balanço entre a troca de calor do corpo do mergulhador com
o meio ambiente e a fisiologia da regulação térmica. A resposta fisiológica
para manter a temperatura corporal inicia antes e de maneira mais intensa na
água do que durante as variações de temperatura no ar.
As propriedades físicas da água determinam sua capacidade de esfriar ou
aquecer nosso corpo. A condutividade de calor da água é vinte e três vezes
maior do que a do ar, e o calor específico por unidade de volume de água é
aproximadamente 350 vezes a do ar. O coeficiente de transferência de calor
aumenta com o movimento da água e mais ainda com o movimento do mergulhador.
Ele passa de 230 W/m²/°C em repouso para 460 W/m²/°C em repouso com a água
se movimentando ao redor, indo até 580 W/m²/°C quando se está nadando em
qualquer velocidade. Os fatores térmicos mais importantes e limitadores do
tempo e da segurança do mergulho são o fato de resfriarmos mais rapidamente na
água que no ar numa mesma temperatura ambiental, perdendo mais calor
diretamente para a água.
A quantidade de calor que se perde para a água, é importante para se
estabelecer o cálculo energético da alimentação necessária para a atividade
programada e o grau do isolamento térmico em relação ao ambiente que se fará
necessário. Alguns estudos revelam que mergulhadores profissionais que praticam
o mergulho livre em apnéia, perdem aproximadamente 1.000 kcal/dia, mergulhando
para atividades de pesca e coleta. Experimentos sugerem que se podem tolerar
perdas de 200 a 300 kcal/h de calor corporal enquanto se está mergulhando.
Podemos concluir que a temperatura da pele cai mais rápida e prontamente na
água que no ar, sendo que a mesma é levada para muito perto da temperatura da
água adjacente ao corpo do mergulhador. Na imersão em água mais fria que a
temperatura corporal, dependendo da temperatura ambiente, a temperatura corporal
central profunda esfria duas a cinco vezes mais rapidamente que no ar. Em
média, a água produz uma resposta fisiológica semelhante à do ar, estando
sua temperatura a 11°C acima da dele.
Isso tudo leva à necessidade de se manter a temperatura corporal do
mergulhador em limites aceitáveis. Proteção térmica inadequada durante o
mergulho leva à diminuição da temperatura corporal.
Perda de calor no mergulho através da ventilação pulmonar com equipamento de
respiração
De outra maneira, dependendo da densidade do gás respirado, também pode
haver uma complementação de perda de calor através da ventilação pulmonar.
Perda por convecção é a que ocorre na ventilação pulmonar. Durante o
mergulho, uma parcela de calor passa à mistura gasosa e dela ao ambiente
aquático. A intensidade da perda dependerá da mistura gasosa utilizada no
mergulho. No mergulho, havendo um aumento da pressão ambiente, há maior perda
de calor por convecção através da ventilação pulmonar.
Normalmente, em condições normais de pressão, a perda de calor através da
ventilação pulmonar corresponde a cinco por cento da perda total de calor em
repouso. Ela decorre da perda por convecção pela passagem de gás pela via
aérea e da evaporação da água da camada líquida de muco que recobre a via
aérea.
A perda de calor pela ventilação durante o mergulho dependerá também de
outros fatores. Durante o exercício, realizando-se hiperventilação, ela pode
chegar ao dobro do que em condições de repouso. Com o aumento da pressão
ambiente, também há um amento da densidade da mistura gasosa e, portanto, há
um aumento da perda por convecção dentro da via aérea.
Existe alguma dúvida em relação às perdas de calor através da
ventilação quando se utiliza uma mistura gasosa com hélio na sua
composição. O conhecimento do calor específico do hélio em relação ao
nitrogênio leva a crer que há maior perda de calor pela ventilação quando se
usa hélio na mistura respiratória. Apesar de o calor específico do hélio ser
maior que o do nitrogênio, a densidade é menor. Sob qualquer pressão, a perda
de calor por convecção em misturas contendo hélio é menor do que quando se
usa nitrogênio em proporções comparáveis. Em termos práticos, a questão de
menor perda de calor, utilizando-se misturas com hélio, é mais um argumento
para valorizar o seu uso em mergulhos profundos e sua relação com segurança.
Sabemos que, em condições ideais, a utilização de misturas pré-aquecidas
pode reduzir, em até 15%, o calor necessário a ser gerado pelo metabolismo.
Entretanto, apesar do interesse em se gerarem misturas pré-aquecidas, existem
muitas dificuldades a serem transpostas. Têm-se realizado muitas pesquisas com
reações catalíticas com hidrogênio como método de aquecimento da mistura.
Resultados práticos ainda não surgiram.
Fisiologia do controle térmico do corpo
Temperatura corporal normal
A temperatura corporal varia durante o dia e a sua medida em estudos
populacionais revela que a média é de 36,8 +/- 0,4 °C. Os níveis mais baixos
de temperatura oral são observados às 6 horas e os mais elevados entre as 16 e
18 horas. O gradiente de variação diária da temperatura é de 0,5°C. A
variação da temperatura corporal durante o dia se estabelece na infância.
A elevação da temperatura corporal ocorre após as refeições. É
possível a ocorrência de uma variação sazonal da temperatura ao longo do ano
que decorra de mudanças de estados metabólicos. Não é uma alteração comum
de ser observada. O idoso apresenta valores mais baixos de temperatura corporal
que adultos jovens.
Manutenção da temperatura corporal normal
A temperatura corporal é regulada pelo centro termo-regulador do sistema
nervoso central encontrado no hipotálamo anterior. A produção de calor pelo
nosso corpo é oriunda da atividade metabólica que ocorre nas células, mas
mais intensamente nos músculos e no fígado. O centro termo-regulador regula o
balanço entre o excesso de produção de calor com a sua dissipação pela pele
e pulmões.
A temperatura corporal pode ser mantida estável sem resfriamento ou
aquecimento dentro de uma faixa de temperatura ambiente, que é definida como
zona vasomotora. Nessa faixa, fisiologicamente, se mantém a temperatura
corporal, somente regulando o fluxo sanguíneo na pele. Nela, o esforço
termo-regulador é mínimo. A temperatura mínima na qual a temperatura corporal
se pode manter estável somente com atividade vasomotora, é de 35°C. A
atividade vasomotora é o recurso termo-regulador mais importante, pois controla
o resfriamento ou aquecimento corporal.
A atividade vasomotora na pele também serve para regular a perda de calor
evaporativa através da produção de suor. A transmissão de calor da pele para
o suor ou dela diretamente para o meio adjacente depende da sua própria
temperatura e serve para baixar a temperatura do corpo quando ela se eleva. A
temperatura da pele é regulada pelo fluxo sanguíneo dos seus vasos capilares.
Esse fluxo é regulado pelo tônus vasomotor, que pode gerar vasoconstrição ou
dilatação. Se a temperatura ambiente aumenta, entra em ação a
vasodilatação e a produção de suor. Juntas produzem aumento da dissipação
da perda de calor através da grande área de superfície corporal.
A vasodilatação aumenta o fluxo sanguíneo na pele e consequentemente a
perda de calor. De forma complementar, ocorrerá também a produção de suor
para aumentar as perdas de calor por evaporação. O suor umedece a superfície
da pele e, em função das condições ambientais de temperatura, umidade,
características físicas e velocidade de deslocamento do meio adjacente,
haverá evaporação de água com perda de calor.
Havendo diminuição da temperatura ambiente, ocorrerá vasoconstrição e
diminuição da perda de calor por condutividade. A vasoconstrição mediada
pelo sistema nervoso autônomo diminui a perda de calor, reduzindo o fluxo
sanguíneo em tecidos periféricos onde o resfriamento acaba sendo maior. No
frio, a sudorese diminui e a perfusão cutânea também. Entre a circulação
profunda e superficial da pele, se interpõe o isolamento térmico superficial
da pele, gordura subcutânea e alguns músculos. Dessa forma, menos calor é
perdido e a temperatura corporal se mantém. O esforço termo-regulador para se
manter a temperatura corporal central é mínimo entre os limites de temperatura
ambiental em que pode haver resposta vasomotora compensatória. Em situação de
baixa temperatura, o tônus vasomotor serve para diminuir a perda de calor não
evaporativa.
Havendo uma diminuição da temperatura ambiente maior do que aquela
possível de manter a temperatura corporal somente com o controle vasomotor,
outros mecanismos devem ser recrutados. A produção de calor metabólico
começa a ser ativada após a resposta vasomotora não dar conta da perda de
calor somente com a diminuição da perda de calor por condução através da
pele. Nessa condição, para tentar manter a temperatura corporal central dentro
de limites fisiológicos, o organismo passa a gerar calor. Após o limite
vasomotor mínimo de resposta compensatória de a temperatura ambiental crítica
baixa ser ultrapassada, a produção de calor metabólico aumenta
proporcionalmente à queda de temperatura corporal.
Para manter a temperatura corporal estável, não deve haver variação do
resultado da taxa metabólica menos a energia da perda de calor. No frio, a taxa
do calor gerado metabolicamente depende da quantidade perdida. Havendo mais
perda de calor, mais energia metabólica é gasta para gerar calor e manter a
temperatura corporal estável.
O tremor muscular e sua consequente produção de calor aumentam
progressivamente com a diminuição da temperatura corporal central. O
metabolismo tem um limite máximo de capacidade de gerar calor. Ultrapassando o
limite do pico de geração de calor, o acréscimo de diminuição da
temperatura ambiente leva a uma diminuição da temperatura corporal central.
Logo, há limites fisiológicos de capacidade de gerar calor. A falta de
manutenção desse balanço resulta em hipotermia.
No ar, a variação entre a diferença de limites de temperatura crítica é
larga e tem um ponto médio em torno dos 26°C, ou seja, no ar, pelas suas
características de condução de calor, os extremos de temperatura máxima e
mínima da zona de controle vasomotor são grandes. Na água, o ponto médio é,
como já foi referido, em torno de 35°C e a zona de controle vasomotor é
estreita.
Controle da regulação da temperatura corporal
A fisiologia da regulação da temperatura funciona a partir da informação
proveniente de sensores de calor e de frio localizados na pele e no sistema
nervoso central que relatam o aumento ou diminuição da temperatura corporal. A
informação sobre a temperatura real do corpo chega ao cérebro, ao
hipotálamo, assim como à medula, e desencadeia a resposta termo-reguladora.
As evidências fisiológicas indicam que a regulação térmica no sistema
nervoso central ocorre através de mecanismos neuronais de inibição recíproca
sobre o centro termo-regulador. Através do metabolismo normal, nosso corpo
funciona, produzindo calor, e os neurônios efetores estimulam respostas que,
quando inibidas, aumentam a perda de calor ou provocam mais produção de calor.
As respostas efetoras estão relacionadas a ações do sistema nervoso
autonômico e do córtex cerebral.
Núcleos no sistema nervoso central responsáveis por manter a temperatura
corporal dentro de limites estritos integram as informações provenientes de
sensores de frio e de calor, que estão distribuídos na periferia e nas
regiões centrais do nosso corpo. Essas regiões, de acordo com a informação
dos referidos sensores, desencadeariam respostas efetoras, já descritas,
relacionadas ao controle da perda ou da produção de calor.
Os receptores para frio ou calor transformam energia térmica em informação
neuronal, que é levada até as regiões centrais do sistema nervoso. Na área
pré-óptica do hipotálamo no sistema nervoso central, há três grupos de
neurônios que regulam respostas efetoras. Um grupo desencadeia respostas de
produção de calor metabólico através do tremor muscular, outro produz
vasoconstrição e um terceiro desencadeia a sudorese. Em última análise, o
sensor de frio produz inibição da sudorese e desencadeia vasoconstrição,
regulando a perda de calor. Já o de calor inibe o tremor muscular.
Além disso, a informação térmica da temperatura corporal em determinada
parte do corpo é integrada ao córtex cerebral. Nele, a percepção do
estímulo térmico acarretará uma sensação e esta, um comportamento, como,
por exemplo, o de se abrigar do frio.
Após ocorrer uma resposta efetora do sistema nervoso autonômico, que pode
ser vasodilatação com sudorese, vasoconstrição e até mesmo produção de
calor metabólico, haverá uma alteração da temperatura do corpo. O resultado
da ação termo-reguladora proveniente do sistema nervoso vai transmitir-se ao
sangue circulante. A circulação cardiopulmonar vai atuar como um misturador
térmico. Dessa forma, através da circulação do sistema nervoso central,
fornecer-se-á para os núcleos termo-sensíveis e reguladores do hipotálamo
uma atualização da informação sobre a temperatura corporal.
A resposta autonômica será mantida até se alcançar uma temperatura
adequada. Alcançando-se a temperatura-alvo ou metabolicamente adequada,
passará a ocorrer inibição da resposta efetora autonômica. Novas respostas
autonômicas no sentido de aumentar ou diminuir a temperatura corporal
dependerão de novas informações dos sensores de frio ou calor oriundas tanto
da periferia, como de regiões centrais do corpo.
O frio e o aumento da diurese
Normalmente a imersão induz a uma redistribuição do volume de sangue
circulante. Essa redistribuição se dá no sentido de sair das extremidades e
ir para os vasos de capacitância do sistema venoso intratorácico. Com a
vasoconstrição periférica, ocorre uma diminuição do continente
circulatório com uma desproporção do conteúdo circulante em relação ao
continente vascular. Isso produz um aumento relativo do volume circulante no
momento da vasoconstrição periférica, com aumento das pressões arterial e
venosa. Há aumento da perfusão renal e consequente aumento da diurese. O
aumento do volume urinário será uma consequência da resposta compensadora
fisiológica para restabelecer a relação conteúdo/continente e diminuir a
pressão intravascular. No frio, essa resposta está intensificada em função
da resposta vasomotora para manter a temperatura corporal nos limites
fisiológicos.
O estresse da resposta ao frio
A imersão em águas muito frias produz respostas adaptativas intensas com
sobrecarga ao sistema cardiovascular. A vasoconstrição intensa acarreta
aumento da pressão arterial devido ao aumento da resistência vascular
periférica. Ela também acarreta aumento do volume no sistema venoso central. O
sistema venoso central intratorácico consegue receber esse aumento de volume,
pois são vasos de capacitância. O aumento do volume além da capacidade de
armazenamento desses vasos leva a um aumento da pressão venosa. O aumento das
pressões arteriais e venosas acarreta aumento da carga de trabalho para o
coração por aumento da pré e pós-carga cardíaca. Essa alteração é mais
importante no idoso, pois pode desencadear hipertensão súbita mais intensa,
insuficiência coronariana e cardíaca. No idoso, pode haver pequena
insuficiência cardíaca incipiente e doença vascular que limitam a capacidade
de resposta adaptativa.
Em situações extremas de frio, além do estímulo de receptores de frio,
há estímulo de receptores de dor. A dor produz liberação de corticotrofina
pelo sistema nervoso central com secreção secundária de epinefrina pelas
glândulas adrenais. A epinefrina tem efeitos termogênicos indiretos sobre a
célula muscular e hepática através da glicogenólise com liberação de
energia. Assim, em condições de frio intenso, há elevação da glicemia e dos
níveis de ácido lático decorrentes de ações hormonais.
O frio intenso acarreta importante resposta ventilatória. Ocorre aumento da
frequência ventilatória. Mais sangue é oxigenado por unidade de tecido
pulmonar perfundido de sangue. Em termos respiratórios, há um aumento de 20 a
40% do consumo de oxigênio com importante aumento do coeficiente respiratório
e produção de gás carbônico.
No estresse ao frio em temperaturas extremas perto do congelamento, seguindo
uma vasoconstrição inicial, ocorre uma vasodilatação. Isso ocorre para
proteger os tecidos periféricos de dano adicional decorrente da intensa
redução inicial do fluxo sanguíneo. Nessas condições, ocorre também
atividade muscular involuntária e termogênese por aumento do metabolismo de
tecidos adiposos. O tremor muscular será a maior fonte de calor.
Fatores que afetam a resposta termo-reguladora
Existe um conjunto de fatores que afetam a regulação da temperatura
corporal, independentemente da temperatura ambiente. Os fatores que afetam a
resposta do sistema termo-regulador, são a idade, nível de glicose no sangue e
pressão parcial do nitrogênio, entre outros. O enjôo também pode alterar a
resposta termo-reguladora.
Idade
A resposta fisiológica ao esfriamento está diminuída no idoso. Tanto a
resposta autonômica para diminuir a perda de calor quanto a capacidade de gerar
calor são menores. Portanto, a capacidade de adaptação à perda e à
produção de calor está afetada, de maneira significativa, no idoso.
A diminuição da capacidade termo-reguladora com a idade é uma alteração
que se instala gradualmente. A partir dos 40 anos, ela se torna bem
perceptível.
A exposição a temperaturas subtérmicas com risco de hipotermia é
reconhecidamente um problema do mergulhador com mais idade. No idoso, ela é
potencializada não somente pela alteração da resposta fisiológica esperada,
mas também por ele apresentar, em geral, uma diminuição da gordura
subcutânea; usar medicações que afetam a regulação térmica; poder
apresentar alterações circulatórias periféricas e também diminuir a
percepção térmica de frio, que ocorre com o aumento da idade.
A redução da tolerância térmica resulta numa menor tolerância ao
exercício e aumenta o risco cardiovascular de insuficiência cardíaca. Em
função disso tudo, o mergulhador idoso deve ter cuidados especiais em
relação à proteção térmica, principalmente em relação às extremidades,
usando roupas e equipamento adequados. Assim sendo, também se sugere que,
nessas condições, o mergulho seja praticado em águas mais quentes,
evitando-se águas frias.
Por outro lado, hipotermia ocorre mais frequentemente em crianças. Elas
aparentemente parecem suportá-la mais. Isso é evidente à medida que podemos
observá-las com tremores e mesmo cianose de extremidades decorrente da intensa
vasoconstrição periférica quando expostas, por muito tempo, ao meio
aquático. Apesar desses sinais, geralmente, elas não sabem a hora de sair da
água.
Crianças podem apresentar rápida perda de calor devido à maior área de
superfície corpórea relacionada com a taxa metabólica necessária para manter
o calor corporal central. Elas apresentam uma menor sensibilidade para a
percepção da redução da temperatura corporal. A soma desses dois fatores as
torna mais susceptíveis a apresentar hipotermia durante o mergulho.
A proteção térmica é uma necessidade importante para crianças que
realizam atividades aquáticas. Se a estatura é baixa, a superfície corporal
é maior em relação ao volume. Segundo o antropólogo Luca Cavalli-Sforza, é
uma questão matemática. Por exemplo, em termos matemáticos, enquanto um cubo
com um cm de comprimento tem um cm³ de volume, um cm² de área de superfície
de uma face e uma área total de superfície de seis cm² com uma razão
superfície/volume de 6:1, um cubo de dois cm de comprimento tem oito cm³ de
volume, quatro cm² de área de superfície de uma face e uma área total de
superfície de 24 cm² com uma razão superfície/volume de 3:1. Portanto, se um
cubo tiver um centímetro de lado e outro o dobro, a superfície do primeiro
será um quarto da do segundo, mas seu volume será oito vezes menor. O calor é
produzido no interior do corpo e se dispersa pela superfície. No caso da
criança, o corpo é menor e a superfície será relativamente maior, sendo que
o calor irá dissipar-se mais facilmente, causando um resfriamento mais
eficiente.
Gênero e constituição corporal
Em relação ao gênero, podemos dizer que não há diferenças entre homens
e mulheres em relação à resposta fisiológica. Entretanto, parece que a
velocidade de resfriamento é maior em mulheres em função da diferença da
quantidade de massa muscular. Quanto maior quantidade de massa muscular, maior
será a capacidade de contração muscular e produção de calor metabólico.
Podendo produzir mais calor, menor é a taxa de resfriamento.
Por outro lado, as características da perfusão vascular dos músculos
esqueléticos e sua disponibilidade por recrutamento por vasoconstrição usada
na resposta fisiológica para diminuir a perda de calor, os tornam um fator de
isolamento. Quanto maior o preparo físico e massa muscular do mergulhador,
melhor será a perfusão vascular da sua musculatura e melhor será sua
capacidade de produzir isolamento térmico.
Avaliando a diferença em relação à composição corporal entre homens e
mulheres, convém considerar outras características de composição e forma que
devam ser comentadas. Em relação à gordura corporal, podemos dizer que o
tecido subcutâneo é rico em gordura e serve como isolante térmico. Geralmente
mulheres apresentam maior proporção de adiposidade. Quanto maior a
vasoconstrição, mais importante se torna o isolamento térmico proporcionado
pela quantidade de gordura subcutânea. As características da vascularização
do tecido adiposo subcutâneo o tornam um bom isolante térmico.
Nível de glicose no sangue
O nível de glicose sanguínea também é um fator que influencia a resposta
de manutenção do calor corporal. Os neurônios da região termo-reguladora do
hipotálamo são sensíveis aos níveis de glicemia. A hipoglicemia diminui a
resposta de produção de calor. Ela diminui o limiar de desencadeamento da
resposta fisiológica, reduz a intensidade e a duração da resposta de
contração muscular (tremor) produtora de calor. Portanto, quando há queda dos
níveis de glicose no sangue, ocorre hipotermia secundária.
Acredita-se que isso seja uma resposta de defesa. A diminuição da
produção de calor seria uma maneira de diminuir o consumo de glicose em certas
regiões do corpo e priorizar a glicose disponível para regiões vitais do
cérebro. Essas alterações devem ser conhecidas por aqueles que utilizam
protocolos de mergulho adaptado ao mergulhador portador de diabete melito que
usa insulina, pelo risco de esses mergulhadores apresentarem hipoglicemia.
Mergulhadores diabéticos que usam insulina ou hipoglicemiantes orais, são mais
suscetíveis à hipotermia em situações de risco como em mergulhos profundos,
com esforço físico ou em ambientes muito frios. Nessas condições, os
protocolos de mergulho com mergulhadores diabéticos devem ser adaptados no
sentido de prever e diminuir os riscos de hipoglicemia.
Narcose
Mergulhadores respirando ar comprimido estão dispostos à hipotermia. A
narcose inibe a resposta termogênica. Mesmo baixos níveis de narcose alteram a
capacidade de produção de calor. Provavelmente a narcose diminua a intensidade
da transmissão nervosa ao centro termo-regulador. A informação oriunda dos
sensores de frio ou calor está afetada e consequentemente toda a ação
posterior à percepção de calor ou frio fica comprometida.
Na narcose, a percepção térmica também está alterada. Qualquer fator que
interfira na percepção térmica, influenciará o comportamento no sentido de
resultar numa atitude para se proteger do frio. A narcose aumenta a sensação
de conforto térmico, ou seja, o mergulhador percebe a sua temperatura como
sendo maior do que realmente é. Essa interferência de percepção faz com que
o mergulhador esfrie mais intensamente, pois acaba postergando a resposta
comportamental esperada para se proteger do frio.
Essa alteração acaba sendo menos intensa e mais lenta e gradual. O
mergulhador, incapaz de perceber a alteração de temperatura corporal, acaba na
incapacidade de detectar o seu resfriamento. Como o resfriamento lento é uma
alteração insidiosa, acaba havendo uma tolerância até um determinado ponto e
a partir de um determinado limite pode passar a uma situação emergencial com
alteração do nível de consciência e coma. Devemos também registrar que
narcose por gás inerte suprime a ocorrência de tremores durante o mergulho.
Enjôo
O mareio, mesmo nas formas leves, interfere na resposta fisiológica ao frio.
As alterações neuro-humorais relacionadas com o mareio potencializam o
resfriamento corporal. Isso ocorre mesmo quando o mergulhador está em águas
mornas.
O enjôo não interfere na resposta produtora de calor. Ele interfere na
resposta vasoconstritora. No enjôo, a resposta vasoconstritora está atenuada,
desencadeando um resfriamento mais rápido por não haver uma diminuição de
perda de calor por condução pela pele. Não se sabe se o uso de medicações
contra o enjôo protegeria desse efeito.
Desidratação
Mergulhadores expostos ao frio e que estão desidratados, apresentam mais
hipotermia, ou seja, a desidratação pode predispor a hipotermia nos
indivíduos expostos ao frio. O grau de hidratação é importante para melhorar
a resposta fisiológica e prevenir a ocorrência de hipotermia em situações
limite. A desidratação potencializa as lesões provocadas pelo frio, pois na
desidratação já ocorre um fluxo sanguíneo periférico menor.
Na desidratação, há uma hemoconcentração de todos componentes do sangue
e a osmolaridade sanguínea está aumentada e isso tem efeito sobre os
neurônios do hipotálamo. Essas estruturas neurológicas são sensíveis a
alterações de osmolaridade do sangue. Estados de aumento de osmolaridade
produzem diminuição da sensibilidade desses neurônios no sentido da
produção de calor metabólico. Portanto, a desidratação piora a resposta
fisiológica a baixas temperaturas.
Exposição ao frio, desidratação e mergulho combinados alteram a resposta
fisiológica. A desidratação predispõe a lesões pelo frio em extremidades,
pois há um fluxo sanguíneo periférico menor ainda.
Na situação de desidratação, a sudorese estaria completamente inibida. O
suor aumentaria a osmolaridade sanguínea e diminuiria ainda mais o volume
circulante. Além disso, aumentaria a perda de calor por condução.
Mergulhadores desidratados têm a pele seca e fria.
Complicações da falha do controle térmico no mergulho: hipotermia
Hipotermia ocorre quando os mecanismos compensatórios para a manutenção da
temperatura corporal são insuficientes e o corpo esfria além dos limites para
a manutenção do metabolismo normal e integridade celular.
Hipotermia é definida por temperatura corporal central abaixo de 35°C,
podendo ser leve, quando essa temperatura for de 32 a 35 °C; moderada, de 28 a
32 °C, e severa, abaixo de 28°C. Na célula, a hipotermia produz alteração
da função da membrana celular, efluxo de fluido intracelular, disfunção
enzimática e distúrbios eletrolíticos, mais proeminentemente a
hiperpotassemia. Lesão celular decorre, como consequência, da hipotermia
sobre o metabolismo celular.
Na hipotermia, além de todas as alterações compensatórias descritas
envolvendo o sistema nervoso central e autonômico, ocorrem alterações
hormonais. Com a hipotermia, o hipotálamo aumenta a produção de calor não
só com os tremores, mas também com aumento da atividade de certos hormônios
como o hormônio tireoideano, as catecolaminas e outros hormônios adrenais.
Essas seriam respostas fisiológicas extremas no sentido de manter o equilíbrio
térmico.
Hipotermia e mergulho
Hipotermia é a maior consequência da incapacidade de o mergulhador manter
sua temperatura corporal em limites aceitáveis para a realização das suas
atividades subaquáticas. Hipotermia é um dos fatores que prejudicam o
desempenho do mergulhador durante o mergulho. Casos extremos podem provocar
alterações da consciência e mesmo morte.
No mergulho, dependendo do grau de hipotermia, podem ocorrer várias
consequências na operação de mergulho. A hipotermia leve, por prejudicar o
desempenho psicomotor, predispõe a acidentes. Formas moderadas levam à
alteração de consciência e consequentemente ao afogamento. Já formas graves
podem acarretar instabilidade hemodinâmica, arritmias cardíacas,
insuficiência cardíaca e até morte.
Existe uma situação insidiosa e que pode apresentar graves consequências,
que é a hipotermia assintomática. Nela, ocorre leve a moderada hipotermia,
mantida por longos períodos, sem tremores e com percepção alterada da
sensação de frio. É o caso em mergulhos longos e em profundidades maiores em
que se usam gases com potencial narcótico. É uma situação que, muitas vezes,
passa despercebida e, quando se instala, pode ter consequências trágicas.
Proteção térmica das roupas de mergulho
No mergulho, o isolamento térmico produzido pela gordura do subcutâneo não
é suficiente para equilibrar a perda de calor produzida pelas condições de
mergulho. Frente a extremos de variação de temperatura ambiental, o ser humano
deve lançar mão de proteção térmica adequada através do uso de vestimentas
protetoras. O objetivo da proteção térmica com equipamento apropriado é
estabelecer um ambiente neutro em sentido térmico em volta do mergulhador. Em
última análise, o uso da roupa de mergulho serve para diminuir o gradiente de
temperatura do corpo do mergulhador em relação à temperatura ambiental e
tenta modificar o valor da temperatura crítica inferior do ambiente em volta do
mergulhador, criando um microclima em relação ao meio ambiente.
No mergulho, devido ao fato de o ambiente sempre ter uma temperatura mais
baixa que a corporal, é necessário o uso de roupas adequadas em relação ao
tipo de mergulho planejado para se manter a temperatura corporal em níveis
adequados. O ser humano não consegue manter a estreita faixa de conforto de
temperatura corporal em relação à temperatura ambiental sem a ajuda de
proteção térmica isolante.
As roupas de mergulho são divididas em três grupos: roupas secas, úmidas e
úmidas perfundidas com água quente.
Roupas secas
O uso de roupas secas visa a evitar a exposição direta à água e
consequentemente à sua temperatura. Elas diminuem a superfície corporal
exposta e evitam a retirada de calor por condutividade através do contato com a
água. Promovem isolamento do ambiente em relação ao corpo do mergulhador. A
roupa seca mantém uma barreira à prova de água, permitindo uma maior
manipulação de confecção de uma parede de isolamento térmico,
adicionando-se roupas de baixo e ar ou gases de uso específico para esses fins.
Entre a pele e o tecido protetor, podem-se interpor outros tecidos com
diferentes coeficientes de condução térmica, maleabilidade e conforto. Os
gases usados permeando os tecidos aumentam o isolamento térmico, pois, ao se
aquecerem, ajudam a manter a temperatura corporal.
Muitos fatores interferem na proteção térmica dessas roupas. Os principais
são: o material de que são feitas, as características físicas em relação
à condução de calor da vestimenta, se folgada ou apertada nas extremidades e
as propriedades térmicas da vestimenta interna. Permeando o interior da roupa,
pode haver algum gás para otimizar o isolamento térmico. A desvantagem é uma
redução do perfil hidrodinâmico do mergulhador. Ressaltamos, no entanto, que,
em algumas condições de uso em que o mergulhador tem acoplado ao seu corpo
inúmeros equipamentos, isso possa ser irrelevante.
A comunidade de mergulho técnico e comercial tem usado o argônio como gás
para inflar roupas secas e proporcionar aumento do isolamento térmico. O
argônio apresenta propriedades físicas potenciais para ser eleito gás para
inflar roupa seca. Sua condução térmica é 32% menor que a do ar.
Teoricamente o isolamento usando argônio pode chegar a aumentar em 50% a
capacidade efetiva de isolamento da roupa.
Entretanto, um estudo recente evidenciou que a impressão subjetiva de
conforto térmico não foi diferente entre grupos de mergulhadores que
utilizaram roupas secas infladas com argônio ou ar. Além da questão
subjetiva, o estudo não encontrou diferenças objetivas que indicassem
proteção superior do argônio quando se mediu a temperatura retal e da pele.
Entretanto, o estudo não mediu objetivamente se houve alteração relacionada
ao gasto energético para a manutenção da temperatura corporal. A diminuição
do gasto energético poderia definir uma evidência a favor do uso do argônio.
Roupas úmidas
As roupas úmidas são aquelas que estabelecem um isolamento térmico sem
isolar completamente o corpo do mergulhador da água e, portanto, com algum grau
de circulação de água. Nas roupas úmidas, uma fina camada de água aquecida
pelo próprio corpo do mergulhador se mantém entre a pele e uma parte da
espessura da camada da vestimenta que cobre o mergulhador, promovendo a
proteção térmica.
Habitualmente utiliza-se espuma de neopreme como isolante térmico. Como a
roupa fica sempre úmida durante o uso dentro da água, há um menor desempenho
em relação à proteção térmica. A água se infiltra pelo material e acaba
circulando dentro do neopreme. Apesar de o mergulhador vestir uma roupa, ainda
ocorre condução de calor em relação ao meio ambiente aquático. Por outro
lado, pela possibilidade de se confeccionarem roupas bem ajustadas, essas roupas
oferecem um melhor desempenho hidrodinâmico.
Roupas bem confeccionadas, completamente aderidas à superfície da pele e
com menos costuras que permitam mais água circular, funcionam, criando um
microclima na superfície do corpo do mergulhador, que, apesar de úmido, tem
uma temperatura maior que a do meio ambiente. A água que fica dentro da espuma
de neopreme, é aquecida e mantida em volta do corpo. Quanto maior a espessura
da cobertura, menor será a perda por condução e mesmo convecção
intratecido.
Além da formação de um micro clima em volta do mergulhador com água
aquecida que se mantém em volta do corpo do mergulhador e que depende da
espessura e da permeabilidade do material, há o próprio efeito isolante
específico proporcionado pelas características do revestimento da espuma de
neopreme. As células de gás do interior da espuma de neopreme promovem um
isolamento térmico adicional. Esse isolamento decorre em parte das
características isolantes produzidas pelas bolhas de dentro do tecido e das
respectivas características isolantes térmicas do gás de seu interior. Além
disso, a presença física dessas células gasosas no interior da espuma de
neopreme, também diminui o fluxo de água através da cobertura proporcionada
pela roupa. Com o aumento da profundidade a proteção térmica tende a perder
eficiência. A compressão do tecido diminui a espessura e conteúdo gasoso
diminuindo a proteção térmica.
O desempenho da cobertura térmica produzida pelas roupas úmidas também
depende de algumas características de confecção e devem ser levadas em conta.
Quanto menos água circular pela roupa mais eficiente será a cobertura
térmica. Portanto as roupas devem ser justas, sem folgas, com vedação em
punhos tornozelos e pescoço. Além da região de entrada da roupa, geralmente
fechada com zíper e protegida por camadas sobrepostas de tecido, o maior
orifício é o do pescoço e é o que mais entra água. Por ele pode circular
água mais fria no tórax e abdome. Desta forma o tecido do pescoço deve ser
bem ajustado e integrado harmonicamente com o capuz. Deve ser conectado ao capuz
de modo a não permitir a entrada de água.
A proteção térmica da cabeça também é importante, pois apesar da área
de superfície ser relativamente pequena, tem grande circulação cutânea. O
mesmo vale para as extremidades. As extremidades também são pontos de perda de
calor. Braços e pernas podem ter menos área de superfície que o tórax e
abdome, mas é nelas que também ocorre grande perda de calor por
características circulatórias. Antes de sobrepor cobertura no tórax com duas
camadas proporcionadas por combinações de roupas, é mais importante cobrir as
extremidades. Luvas e botas complementam a cobertura de isolamento térmico por
roupas úmidas e aumentam a eficiência da cobertura.
Um detalhe importante na confecção da roupa úmida é que ela tenha o
mínimo de costuras. Pedaços de neopreme unidos por costura representam pontos
de maior permeabilidade e permite maior circulação de água e, portanto de
resfriamento.
O isolamento térmico oferecido pelo neopreme compressível muda de acordo
com a movimentação do mergulhador e a profundidade. O isolamento efetivo
produzido pela roupa em água fria e em repouso pode ser o dobro daquele em
movimento. Isso se explica pelo fato de em movimento ocorrer maior condução de
calor. A profundidade também diminui o desempenho da roupa por ocorrer uma
deformação da espessura da parede de neopreme à medida que a pressão
aumenta. Além disso, com o aumento da profundidade, espera-se diminuição da
temperatura da água. Cabe salientar que, dependendo da qualidade do material
utilizado na confecção da roupa, com o tempo de uso, há deformação na
espessura da parede de cobertura da roupa e diminuição da performance de
proteção térmica.
Roupas úmidas perfundidas com água quente
Roupas perfundidas com água quente são usadas no mergulho saturado e
apresentam excelente nível de proteção térmica. As roupas úmidas e as secas
são inadequadas para mergulhos de longa permanência apesar de toda tecnologia
moderna usada na sua confecção. Em grandes profundidades e em mergulhos de
longa duração, o balanço térmico do mergulhador somente é possível com
fonte de energia suplementar. Nessas condições, se faz necessária a criação
de um microclima em torno do mergulhador com roupas que são perfundidas com
água quente de uma fonte externa, que é levada até o mergulhador através de
um umbilical. A fonte de água quente deve fornecer água entre 35 e 40°C para
ser misturada com a que está penetrando a roupa, vindo do meio ambiente externo
mais frio. O maior problema deste tipo de roupa é a dependência externa e as
consequências decorrentes da falha de um sistema complexo de aquecimento num
ambiente de temperatura de extremos inferiores.
Recentemente essas roupas foram reavaliadas quanto à sua capacidade de
manter a temperatura corporal central durante mergulhos saturados em condições
normais de operação. Acreditava-se que os mergulhadores que realizavam
mergulho saturado, estariam predispostos à hipotermia assintomática por
alterações na percepção térmica da temperatura ambiental em função da
saturação por gás inerte. O estudo revelou que a utilização de roupas
perfundidas com água quente no mergulho saturado não provocou prejuízo na
percepção térmica e, dessa maneira, não foi observada alteração
comportamental na regulação do aporte de água quente da roupa, produzindo
hiper ou hipo-aquecimento da roupa e colocando em risco a saúde do mergulhador.
Portanto, esse estudo concluiu que o uso dessas roupas é uma solução adequada
para prevenir o risco de hipotermia e manter o conforto térmico no mergulho
saturado profundo.
Considerações sobre a descompressão e a temperatura do mergulhador
A taxa de eliminação de gás inerte é influenciada pela temperatura do
corpo. O fluxo sanguíneo nas várias estruturas do nosso corpo fica reduzido
pela vasoconstrição e isso acarreta uma redução da liberação de gás
inerte do tecido. Mergulho com exposição ao frio tem sido relacionado com
aumento da ocorrência de sintomas descompressivos para um mesmo perfil de
mergulho.
Salienta-se também que a exposição rápida ao calor após um mergulho pode
induzir à doença descompressiva. A rápida alteração de temperatura em
tecido periférico provoca vasodilatação com aumento da perfusão tecidual.
Rápidas alterações circulatórias aumentando subitamente a eliminação de
gás inerte provocam coalescência de núcleos gasosos e formação de fase que
podem corresponder a mais manifestações clínicas da doença descompressiva.
Também devemos salientar que hipotermia leva a alterações cognitivas e
essa alteração, por sua vez, produz déficit de atenção com prejuízo ao
seguimento das condutas de segurança durante o mergulho. Déficit de atenção
provoca falha no seguimento do planejamento de mergulho descompressivo e,
portanto, mais doença descompressiva.
Perda de calor em câmara hiperbárica
Ambientes hiperbáricos afetam as funções do sistema termo-regulador. No
ambiente da câmara hiperbárica ou no habitat do mergulho saturado, a perda
predominante de calor é por convecção. Nesses ambientes, as perdas de calor
por radiação e evaporação são diminuídas enquanto as perdas por
convecção são aumentadas.
Aumentando a pressão em ambiente gasoso, aumenta a perda por convecção.
Para uma mesma diferença de temperatura entre o ambiente e a pele, em ambiente
hiperbárico, há maior perda de calor à medida que aumenta a pressão.
Pequenas variações da diferença de temperatura produzem maiores variações
da perda de calor por convecção no ambiente hiperbárico quando comparado com
o de pressão normal. Fisicamente isso está explicado pelo aumento da
condutividade do gás sob pressão. Mais moléculas estão em contato para
transportar energia térmica por condução.
Por outro lado, nessas mesmas condições, se diminui a perda que normalmente
ocorre por radiação e evaporação. A difusão do vapor da água da pele para
o ambiente diminui com o aumento da pressão. Essa difusão depende da
composição do gás do ambiente. Ela é maior no ambiente que contém hélio.
Entretanto, no ambiente com hélio, a perda de calor por difusão através da
evaporação tende a ser compensada pela diminuição da difusão decorrente do
aumento da pressão.
Cada fator de perda é influenciado pela temperatura, umidade e
movimentação da mistura gasosa no ambiente. Acresce-se a essa condição um
aumento da perda de calor através da ventilação pulmonar. Por isso tudo,
ambientes hiperbáricos com hélio e oxigênio exigem rigoroso controle de
temperatura. O controle da perda de calor do corpo pode ser compensado pelo
aquecimento das misturas e climatização do ambiente.
Acredita-se que o aumento da pressão hidrostática provoque alterações na
parte comportamental do controle da temperatura corporal. Não haveria uma
alteração da capacidade de resposta termo-reguladora em ambientes com hélio.
O que se observa, é que em ambiente em termos neutros, o aumento da perda de
calor provocado por misturas contendo hélio é contrabalançado por um aumento
compensatório do metabolismo. Em ambientes com temperaturas menores do que
30°C, a hipotermia que ocorre, se deve à perda maior de calor e à falta de
resposta comportamental apropriada de se procurar uma cobertura adequada para o
corpo.
Conclusões
Proteção térmica é um item de segurança que deve ser valorizado e
receber a atenção adequada em operações de mergulho. É uma questão
prioritária tanto no mergulho recreativo, como no técnico ou profissional.
Roupas adequadas para a proteção térmica têm o mesmo valor de um bom
regulador ou qualquer outro item do equipamento. A adequada proteção térmica
não somente aumenta o conforto do mergulho, como também a segurança da
operação. A escolha da roupa transcende não somente o aspecto fashion do
mergulho. Também não se pode declinar do seu uso em águas tropicais por se
acreditar que o mergulho seja quente. A adequada proteção térmica ou
"roupa de mergulho" é um item de segurança fundamental.
Muitas são as respostas fisiológicas do corpo humano à imersão. A
manutenção da temperatura é uma delas. Se, por um lado, o mergulhador pode
apresentar alterações agudas ou subagudas do seu estado de saúde decorrentes
dos disbarismos relacionados ao ato de mergulhar, por outro, ele também pode
estar exposto a alterações mais insidiosas relacionadas à manutenção da
temperatura do corpo. Conhecer o controle térmico do corpo do mergulhador, sua
relação com a resposta fisiológica ao mergulho e os fatores que interferem no
controle e na capacidade de manter a temperatura corporal através de
vestimentas adequadas é importante para prevenir a última consequência da
falha de controle térmico, que é a hipotermia do mergulhador. Definitivamente
os aspectos relacionados à necessidade de proteção térmica e mesmo o
conhecimento do controle e regulação da temperatura do corpo do mergulhador
não são um assunto devidamente explorado e tratado nos cursos de mergulho.
Bibliografia Consultada
Cavalli-Sforza, L. e Cavalli-Sforza, F.. O mais antigo estilo de vida.
In: Cavalli-Sforza, L. e Cavalli-Sforza, F.. Quem Somos? História da
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Mekjavic, I.B., Golden, F.S.C., Eglin, M. Tipton, M.J.. Thermal status of
saturation divers during operational dives in the North Sea. Undersea Hyperb
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Risberg, J. and Hope, A.. Thermal insulation properties of argon used as
dry suit inflation gas. Undersea Hyperb Med. 2001; 28(3):137-43.
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Best Publishing Company, 1990; 8:161- 187.
Renúncia
Nenhuma representação neste texto é feita no sentido de oferecer um
diagnóstico, tratamento ou cura para qualquer condição ou doença relatada. O
caráter do texto é somente informativo e deve ser usado em conjunto com o
aconselhamento específico do médico de medicina do mergulho. O autor não é
responsável por qualquer consequência concebível relacionada à leitura
deste texto.
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