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Recarga de Cilindros - "Seca ou Molhada" ?
Fui convidado a participar com uma matéria acerca da discussão sobre a
forma correta de recarregar um cilindro ou cilindros de mergulho, sejam eles de
Aço ou Alumínio, pois existe muita discussão sobre o que seria mais correto
no seco ou no molhado, coloco minha opinião e, com certeza, a de muitos
responsáveis por estações de recarga.
Dois fatores são determinantes em estações de recarga, utilizem ou
não o recurso da água.
1- A estação deve ser bem dimensionada e bem montada, de preferência fora
das áreas de circulação dos clientes e, no caso da utilização de tanque que
esse seja, no mínimo, de concreto reforçado.
Vale observar que alguns engenheiros do governo pensam em obrigar que esses
tanques de concreto possuam uma tampa a fim de resguardar a integridade do
operador em caso de acidente.
Até poucos anos não tínhamos notícias de acidentes com cilindros, pelo
menos no Brasil, eu mesmo já utilizei tanques de plástico na operação de
recarga.
2- O operador tem que estar preparado e deter um mínimo de conhecimento
sobre o serviço de recarga, marcações de cilindros, prazos de ensaios
hidrostáticos e inspeções visuais bem como conhecer os riscos envolvidos em
uma operação mal feita.
Obs: Para o caso de estações que utilizam o recurso do tanque é imperativo
que seja feita a troca diária dessa água, não só por uma questão de higiene
mas por dois outros fatores que são a evaporação e a óbvia contaminação
dessa água com o salitre que invariavelmente estará retido nas paredes
externas dos cilindros.
Problemas de uma recarga efetuada com a submersão do cilindro em tanque de
água
Condensação: O maior problema que esse tipo de recarga pode ocasionar
é o risco de condensação dentro do cilindro, pois a diferença de temperatura
ocasionada pela submersão durante o enchimento poderá causar condensação em
cilindros recarregados com ar de qualidade duvidosa, digo duvidosa porque o ar
de boa qualidade é completamente seco como bem sabemos.
Terminal de carga úmido: Existe a possibilidade do terminal de carga
estar úmido ou mesmo molhado e, no ato da conexão com o registro pressurizar
essa água contaminando o cilindro.
Falando de condensação, considerando que haja umidade dentro do cilindro,
temos que pensar nas condições de climas muito frios que terão, também, um
efeito de diferença de temperatura.
Os cilindros utilizados em operações profissionais de mergulho (Escolas,
Operadoras e Empresas do ramo) deveriam ser lavados e inspecionados, pelo menos,
3 vezes ao ano dependendo, é claro, do "giro" de trabalho de cada
unidade e da forma como esses cilindros são recarregados, para empresas que
utilizam o sistema de "cascata" essa recomendação torna-se
obrigatória justamente para prevenir possíveis condensações.
ATENÇÃO ! É necessário que as unidades estejam
completamente secas antes de se colocar os registros!
O fenômeno da condensação pode ser minimizado fazendo o enchimento do
cilindro lenta e gradualmente de forma a se reduzir ao máximo o aquecimento do
ar ao ser comprimido, o que nos casos de operadoras de mergulho não é
comercialmente viável.
Para concluir o tópico, por mais lenta que seja a carga sempre haverá um
aumento de temperatura no interior do cilindro e, mesmo "no seco",
dependendo da temperatura ambiente, há o risco da condensação.
Benefícios de uma recarga efetuada com a subsmersão do cilindro em tanque
de água
1- Inibição do aumento excessivo da temperatura do cilindro em recargas
mais rápidas, essa diminuição no aumento de temperatura proporcionará uma
sobrevida do cilindro pois a menor dilatação do material aumentará sua vida
estrutural.
Observe que a literatura técnica existente sobre o assunto é feita por
engenheiros do primeiro mundo onde se adquire um cilindro de mergulho S80 de
alumínio por míseros 80 dólares (com registro) e onde a segurança em
dobro e reposição do parque são as prioridades Alfa, nossa realidade é
outra a própria LUXFER considera que a vida útil de um cilindro de mergulho é
de 10 anos, isso se não ultrapassar a marca de 250 recargas ano!! Para
Brasileiros e Brasileiras seria a morte imediata da atividade.
Quem já teve a curiosidade de ler aquela etiqueta vermelha que a LUXFER
coloca em todos os cilindros sabe que a temperatura máxima de trabalho
recomendada é de 130ºC ! Eu nunca tive essa ousadia, em testes de campo que
executei antes de montar as estações que tive o privilégio de projetar o
máximo que consegui foram absurdos 60ºC.
2 - Visualização imediata de vazamentos e mesmo de micro fissuras.
Problemas de uma recarga efetuada sem a subsmersão do cilindro em tanque de
água (no seco):
1- Condensação no interior do cilindro em climas mais frios.
2- Não detecção de pequenos vazamentos ou micro fissuras nos caso dessas
últimas isso pode ocasionar uma catástrofe.
3- Possibilidade de um maior aumento de temperatura do cilindro em recargas
mais rápidas para o caso de operadoras e escolas.
Benefícios de uma recarga efetuada sem a subsmersão do cilindro em tanque
de água (no seco):
1- Nenhuma possibilidade de contaminação pela água visto que o terminal de
carga estará completamente seco.
Aqui abro um parêntesis:
Com isso tudo eu quero falar sobre outro problema, muito mais grave, que
ronda nossa atividade que são os cilindros fabricados com a liga 6351-T6.
Pelos mesmos motivos que citei anteriormente, no Brasil, assim como em outros
centros do terceiro mundo, existem ainda muitos cilindros desta safra, não raro
recusamos recarregar algum, um dia desses, adquiri dois só para ficar com os
registros que estavam novos e guardei os cascos em nossa oficina, onde temos um
exemplar também adquirido por nós, com 3 fissuras a disposição de todos
para exames e análises.
É fato, que os ensaios hidrostáticos destrutivos que são os mais
utilizados no Brasil e no resto do mundo, que são o método de expansão direta
e o método da camisa d'água (esse último o mais utilizado), não detectam as
micro fissuras causadas pela SLC (sustained load cracking) ou ruptura por
esforço sustentado. Há uma corrente técnica que é contrária a utilização
desses métodos de ensaio, veja que mesmo no meio técnico há muita discussão
a respeito disso, pois esses ensaios seriam os vilões da SLC e um exame mais
acurado, poderia condenar esses ensaios por serem os maiores culpados pela
fadiga precoce do material uma vez que o submetem a uma sobrepressão muito
superior que os parâmetros de trabalho em condições normais.
Eu não quero a polêmica pela polêmica, eu gostaria sim, que mais pessoas
se preocupassem com o próximo acidente com recarga de cilindros no Brasil, sim
próximo acidente. Não sou alarmista, esses cilindros existem e estão sendo
utilizados em operadoras, escolas e por particulares, e infelizmente, preferem
"ganhar" 20 reais da recarga do cliente a recusar o
serviço.
Outros possuem os cilindros já condenados pelo fabricante e não se dão ao
trabalho de sequer fazer uma inspeção com ultra-som. Eu repito o convite,
venham ver o cilindro que temos aqui com 3 fissuras não é possível vê-las a
olho nu; somente depois de identificadas pelo ultra-som e mesmo assim é
difícil.
Eu não sou a favor dos ensaios destrutivos, mas tenho que fazê-los por
força de lei, mas acho que a mesma lei deveria obrigar a uma inspeção visual
com ultra-som. Não digo isso por possuir um aparelho, até porque é para uso
de nossa operadora e de nossos parceiros e nós não cobramos pelo
serviço visto, que é para nossa própria segurança; digo porque é um
aparelho relativamente barato pelo benefício que apresenta. Em artigo anterior
sobre esse tema, em uma outra mídia eletrônica, sugeri que as escolas dos
grandes centros adquirissem esse aparelho em parceria o que tornaria o custo
simplesmente irrisório.
Gostaria que mais empresários se preocupassem em bem formar seus técnicos
em manutenção de equipamentos para que a segurança do mergulho seja elevada a
um patamar aceitável. Existem operadoras onde os reguladores de aluguel
"travam" durante o mergulho quando na verdade o que acontece, é que o
manômetro está com defeito e aponta 50, 70 e até 100 bar quando o cilindro,
na verdade, está vazio. Não raro, se abre um regulador onde o lubrificante
utilizado na "manutenção" é algo que não se pode identificar,
crostas negras suspeitas, graxa comum, WD 40 (que é um excelente produto para o
fim a que se destina) são companheiros comuns de técnicos mal formados.
Cilindros com óleo ou fuligem em seu interior e até mesmo sabão em pó e
sabão de coco (eu vi) são produtos de estações mal montadas e sem
fiscalização, e eles estão por ai a vista de todos, hoje há um boom
comercial do mergulho eu não sou contra isso mas acho que nós estamos
esquecendo que só se cresce quando as bases estão consolidadas e as bases do
mergulho no Brasil ainda estão no século XVIII.
Levanto uma questão que para nós do mergulho nunca esteve em discussão mas
é tão pertinente quanto as outras tratadas aqui e em outros fóruns, fazemos
retestes em cilindros de cascata e em cilindros de mergulho mas e as
tubulações ?
Em ambiente de pressurização os retestes ou ensaios, são feitos em todo o
equipamento, inclusive nas tubulações, existem muitas estações por aí cujas
tubulações tem a pressão de trabalho de 3000 libras e estão sujeitas ao
"esforço sustentado" tanto ou mais que os cilindros.
Essas são discussões que valem a pena. Para quem não acredita e acha que
isso é alguma lenda, é só procurar o Miguel Lopes representante da Aqualung.
Hoje, defensor da recarga em tanque de água, e ele vai dizer se é real
ou apenas mais uma historinha.
Um grande abraço a todos e bons mergulhos onde quer que vocês estejam !
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