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Forame Oval Patente e Mergulho Autônomo
A segurança do mergulho é diretamente afetada pelas condições de saúde
do mergulhador e seu preparo físico. A análise de acidentes fatais revela que,
em 25% dos casos, havia condição clínica preexistente relacionada com a
fatalidade e, em 9% dos casos, a vítima havia sido informada que não
apresentava condições clínicas para mergulhar. Além disso, a exposição ao
mergulho pode ser o fator desencadeante da manifestação de doenças. O grupo
principalmente relacionado a condições clínicas desfavoráveis é o de
doenças cardiovasculares e seus tratamentos, bem como o de doenças
crônico-degenerativas já instaladas com ou sem manifestações clínicas.
No mergulho, é necessário preparo físico, psicológico e condições
clínicas compatíveis. Muitos mergulhadores que se acidentaram, tinham preparo
físico adequado, apesar de apresentarem condições clínicas que incapacitavam
a prática do mergulho autônomo recreativo. Existem algumas condições que
não estão definitivamente esclarecidas. O forame oval, por estar relacionado
à forma grave de doença descompressiva, é uma delas. Nas avaliações
médicas de mergulhadores que praticam o mergulho de forma habitual e
continuada, como é o caso daqueles mergulhadores recreativos que estão em
nível avançado ou mesmo são mergulhadores técnicos, as questões relativas
ao forame oval patente e mal descompressivo lideram a lista de questionamentos.
Definição
É uma comunicação ou abertura permanente na parede do coração entre o
átrio direito e o átrio esquerdo, que é uma variante anatômica do normal que
se mantém após o nascimento.
Forame oval e a circulação sangüínea
Num indivíduo normal, o sangue chega ao coração, no átrio direito, pela
circulação sistêmica através do sistema venoso. Do átrio direito ele passa
ao ventrículo direito e vai, através da circulação pulmonar, até os
pulmões. Depois de o sangue passar pelos pulmões, retorna ao coração,
chegando ao átrio esquerdo pelas veias pulmonares. Do átrio esquerdo passa
para o ventrículo esquerdo e daí, pela aorta torácica, ganha a circulação
sistêmica.
Durante o desenvolvimento fetal, os pulmões não estão funcionando.
Normalmente, nessa fase da vida e do nosso desenvolvimento, o sangue que vem da
placenta e do cordão umbilical, desvia da circulação pulmonar através do
forame oval. Antes do nascimento, o forame oval é necessário para transferir
sangue oxigenado para toda a circulação sistêmica. Após o nascimento, na
maioria das pessoas, há o fechamento do forame oval e o sangue passa pelos
pulmões para ser oxigenado.
Intra-útero, um forame oval patente é necessário para que sangue oxigenado
passe do átrio direito para o esquerdo e ganhe a circulação sistêmica.
Durante o desenvolvimento embriológico, na formação das cavidades cardíacas,
mais especificamente na formação das cavidades atriais, dois septos se formam
para dividi-las. Cada um dos septos apresenta um orifício e permite a passagem
de sangue de uma cavidade à outra de acordo com o gradiente de pressão. No
feto, sangue oxigenado proveniente do cordão umbilical vindo pela veia cava
inferior cruza o forame oval e ganha a circulação sistêmica, fornecendo
oxigênio para todo o corpo. Em contraste, sangue proveniente da veia cava
superior cruza a válvula tricúspide e ganha o ventrículo direito e a
circulação pulmonar. Os dois septos não se formam ao mesmo tempo. O segundo a
se formar é o que contém o forame oval. O orifício persistente do segundo
septo é o forame oval patente.
No nascimento, o oxigênio chega ao alvéolo pulmonar e faz com que as
arteríolas pulmonares se abram, resultando em diminuição da pressão do
ventrículo direito e da resistência da circulação pulmonar. Por outro lado,
com o nascimento, com a abertura do sistema arterial pulmonar, um volume maior
de sangue na circulação pulmonar faz com que haja um aumento do volume de
sangue no átrio esquerdo. Dessa forma, o gradiente de pressão muda e a
abertura fica fechada. Em 70 a 75% das crianças, pela idade de dois anos, há a
fusão completa do folheto e o fechamento do forame oval. Parece haver fatores
familiais e genéticos envolvidos com o não-fechamento do forame oval. O forame
oval patente está associado a outras anormalidades cardíacas.
Antes do fechamento completo, da fusão dos dois folhetos originais, o forame
oval pode estar fechado por uma valva de aba. A valva permanece fechada pela
leve diferença das pressões entre as câmaras cardíacas direita e esquerda.
Com o desenvolvimento corporal, na maioria das pessoas, ocorre o fechamento
completo da valva e o forame desaparece. Numa minoria de pessoas, o fechamento
é incompleto, permitindo a passagem de sangue de um lado para o outro das
cavidades atriais. O fechamento incompleto é chamado de forame oval patente. O
forame oval completamente aberto é raro, sendo um defeito septal atrial grave.
Os defeitos do septo atrial constituem o segundo grupo de lesões congênitas
cardíacas mais freqüentes. O forame oval patente é encontrado em 25 a 30% da
população adulta após o nascimento. A prevalência diminui com a idade. Dados
de necropsia revelam que a prevalência é similar entre homens e mulheres,
assim como as dimensões da lesão. Há uma prevalência maior naqueles
indivíduos com acidente encefálico sem identificação causal aparente da
fonte de êmbolos. É o chamado acidente vascular encefálico criptogênico.
A comunicação varia em tamanho. Os grandes defeitos septais não são a
maioria, sendo que preponderam os pequenos defeitos. O tamanho da lesão aumenta
com a idade. Isso leva a crer que lesões grandes persistem e as pequenas tendem
a desaparecer espontaneamente. Em torno de 60% das comunicações estabelecidas
por forame oval patente são pequenas. O restante é grande e pode permitir a
passagem de sangue entre as cavidades. Características como tamanho e presença
de fluxo da direita para a esquerda em repouso podem determinar o risco
associado de embolia paradoxal.
No ciclo cardíaco normal, a pressão sangüínea do lado esquerdo do
coração é maior do que a do lado direito. Na permanência do forame oval
depois do nascimento, há transferência de sangue da cavidade esquerda para a
direita, pela diferença de pressões entre as duas câmaras, sem haver
prejuízo ao portador. Entretanto, nas comunicações intra-atriais, o sangue
pode fluir tanto da cavidade esquerda como da direita nas várias fases do ciclo
cardíaco e de acordo com mudanças de pressão entre as duas cavidades.
O gradiente da direita para a esquerda ocorre em indivíduos normais no
início da sístole ventricular. Ele também é observado durante a manobra de
Valsalva realizando esforços, como o da evacuação intestinal, levantando ou
empurrando objetos pesados e na tosse forte e repetitiva. Fluxo de sangue da
direita para a esquerda foi observado em 18,5% dos indivíduos não
mergulhadores durante a manobra de Valsalva. Se houver uma comunicação
significativa em termos de dimensões, grande o suficiente para haver fluxo da
direita para a esquerda, poderá haver sintomatologia decorrente dessa
situação.
Inicialmente, durante uma manobra de Valsalva ou quando se tosse, ocorre uma
diminuição da pressão intratorácica, seguida de um súbito aumento do
retorno sangüíneo venoso ao coração. O aumento do retorno venoso provoca
enchimento das veias pulmonares e do átrio direito. Isso resulta em
diminuição do fluxo sangüíneo ao átrio esquerdo. Logo após a diminuição
da pressão intratorácica, segue-se um súbito e intenso aumento da pressão
intratorácica. O gradiente de pressão anteriormente estabelecido entre os
lados esquerdo e direito, na presença de forame oval patente, deixa de existir
e um novo se estabelece e acaba permitindo o fluxo momentâneo de sangue da
direita para a esquerda.
A persistência do forame oval nas pessoas que não mergulham, na maioria das
vezes, passa despercebida durante a vida, ou seja, sem sintomatologia
significativa que motive o atendimento médico.
Manifestações
As manifestações clínicas dependem da magnitude da lesão e suas
potenciais complicações. Elas podem decorrer de insuficiência ventricular
direita, arritmias atriais, embolização paradoxal cerebral e mesmo hipertensão
pulmonar. Atualmente existe o registro da associação entre embolia cerebral,
cefaléia vascular ou enxaqueca com áurea e forame oval patente.
As manifestações habituais na comunicação significativa com repercussão
clínica hemodinâmica são as decorrentes da hipoxemia, que são as
limitações de capacidade física ao exercício. Esse achado pode ser
potencializado ou mesmo ser mais intenso durante o mergulho. O mergulho
predispõe à retenção de líquidos nos pulmões por redistribuição do
volume circulante das extremidades para o tórax, acarretando sobrecarga
cardíaca e mesmo dispnéia. Isso tudo pode ser desencadeado pela mistura de
exercício, imersão na água e insuficiência cardíaca incipiente.
No mergulho, os forames ovais patentes estão associados à doença
descompressiva predominantemente cerebral, medular e possivelmente na orelha
interna. Eles também estão relacionados a manifestações cutâneas da doença
descompressiva.
Diagnóstico
O diagnóstico pode ser realizado através da ecocardiografia
transesofágica. Deve ser realizado o procedimento com o chamado contraste de
bolha, que é o mais sensível. O teste tem alto valor preditivo tanto para
resultados positivos como negativos, ou seja, o teste mostra correlação com a
probabilidade de o mergulhador ter doença descompressiva grave, se foi
diagnosticado forame oval patente através da ecocardiografia transesofágica
com contraste, ou de não ter essa forma da doença, se o teste foi negativo.
O fluxo de sangue pode ser demonstrado, injetando-se uma pequena quantidade
de bolhas microscópicas suspensas em solução salina no sistema venoso. As
bolhas são levadas ao coração e visualizadas pelo ecocardiograma
bidimensional. A ecocardiografia transtorácica por ecodoppler a cores apresenta
sensibilidade comprometida nesses casos. Os exames ecográficos realizados a
pressão atmosférica podem subestimar a prevalência de fluxo da direita para a
esquerda.
O exame não é indicado para todos os mergulhadores. É proposto para os
casos de doença descompressiva sem identificação de fator causal que se possa
correlacionar.
No mergulho
Deve-se sempre considerar a máxima que diz que todo mergulho é
descompressivo. Em alguns mergulhadores, dependendo da profundidade, do tempo e
principalmente da velocidade de subida, o mergulho produz bolhas na circulação
sangüínea durante e depois da subida de um mergulho. Na imensa maioria das
vezes, a quantidade e o volume das bolhas são pequenos. Elas não levam a
manifestações, pois, freqüentemente, acabam ficando presas à
microcirculação pulmonar e são eliminadas. São literalmente filtradas da
circulação.
Portanto, bolhas ocorrem em todos os mergulhadores na circulação venosa
durante a descompressão. A maioria é sem manifestação clínica. A
comunicação intra-atrial decorrente do forame oval patente possibilitaria que
o sangue contendo bolhas fosse desviado da circulação que levaria ao filtro
pulmonar. O forame oval patente está relacionado com episódios embólicos
paradoxais por gás,isto é, se relaciona com a passagem de gás para a
circulação arterial sistêmica, gerando embolias gasosas e suas
manifestações clínicas específicas.
Como foi dito anteriormente, a manobra de Valsalva pode aumentar a pressão
venosa intra-atrial de modo a fazer com que o sangue contendo bolhas passe para
a cavidade atrial esquerda e daí ganhe a circulação arterial sistêmica.
Entretanto, durante o mergulho, não se realiza uma manobra de Valsalva de forma
tão intensa. Geralmente se orienta, na realização da manobra de equalização
da pressão da orelha, uma manobra mais suave. O mergulhador fecha as narinas
com a mão e simplesmente força o ar para dentro da cabeça, não usando ou
usando muito pouco a prensa abdominal. Além disso, na maioria das vezes, a
manobra é utilizada no início do mergulho. Num estudo comparativo, se observou
que a manobra é mais suave do que aquela observada em outras situações em que
se acrescenta a prensa diafragmática, produzindo pressões maiores.
No entanto, cabe ressaltar que, durante o mergulho, pode acabar se realizando
ações que provocam aumento da pressão torácica não via manobra de Valsava
"suave". É o caso das manobras de saída equipada de dentro da água,
tendo de escalar uma escada ou carregar cilindros de misturas gasosas dentro e
fora da embarcação após um mergulho. Aqueles sabedores de serem portadores de
forame oval patente não devem realizar essas ações. O mesmo pode ocorrer
durante uma natação mais intensa dentro da água, variando subitamente a
pressão externa, como quando se sobe ou se desce rápida e subitamente durante
o mergulho. Esse tipo de exercício pode fazer com que bolhas passem de um lado
para o outro do coração mesmo durante o mergulho.
Considerando a relativa alta freqüência de forame oval patente na
população em geral e a potencialidade de ocorrência de doença descompressiva
associada a ele, não está indicado, após o mergulho, se realizarem
exercícios físicos intensos. Exercícios intensos podem propiciar alterações
de pressão entre as câmaras atriais durante o ciclo cardíaco, permitindo a
passagem de bolhas da circulação venosa para a circulação arterial
sistêmica.
Um estresse descompressivo leve não altera o fluxo interatrial nos
portadores de forame oval patente. Entretanto, uma carga mais intensa de gás na
circulação venosa pode exceder a capacidade pulmonar de filtrá-lo. A
presença de êmbolos de gás no sistema venoso da circulação pulmonar produz
obstrução mecânica e vasoconstrição. Esses dois fatores provocam aumento da
resistência vascular e hipertensão pulmonar. A hipertensão pulmonar acarreta
aumento de pressão no átrio direito, que acaba sendo maior que a do esquerdo.
Se houver um forame oval patente, essa diferença de pressão gerará fluxo do
átrio direito para o esquerdo.
No caso do mergulhador, parece que não é necessário somente manobra de
Valsalva, esforço embaixo da água e êmbolos de gás no sistema venoso por
descompressão para alterar o fluxo da direita para a esquerda. A imersão na
água provoca fluxo da direita para a esquerda como resultado do aumento da
pressão atrial e da dilatação das câmaras cardíacas.
Dessa forma, para o mergulhador a persistência de uma comunicação
interatrial com débito não só teoricamente pode ser importante. As
comunicações inter-atriais grandes podem estar relacionadas à forma grave de
doença descompressiva em mergulhadores. A presença de forame oval parece ser
um fator de risco para o desenvolvimento de doença descompressiva grave. Um
fato que torna confusa a busca de evidências definitivas, é que procedimentos
de descompressão não garantem que um indivíduo com um forame oval patente
não tenha doença descompressiva grave, pois muitas tabelas descompressivas
permitem a formação de bolhas venosas.
A incidência de doença descompressiva decorrente de forame oval patente
não está bem definida. Os dados são fortemente sugestivos. O número de casos
estudados ainda é pequeno para uma conclusão definitiva. Sabidamente há o
risco e ele já foi correlacionado diretamente com casos descritos. Entretanto,
dada a freqüência relativamente alta do achado na população e a incidência
baixa de doença descompressiva, não há evidência conclusiva sobre o risco
aumentado da doença descompressiva relacionada ao forame oval patente.
Aparentemente, o risco de doença descompressiva na presença de comunicação
intra-atrial por forame oval patente é pequeno.
Considerando as séries que evidenciam as menores freqüências de forame
oval na população em geral, que é de 10 a 20%, e que menos de 0,1% dos
mergulhadores tem doença descompressiva, para se obter uma conclusão
definitiva, deve-se examinar uma população expressivamente maior. Além disso,
ainda não há estudos com grupos controles, ou seja, os delineamentos de
pesquisa até o momento não são homogêneos, controlados e com um número
significativo de participantes no grupo afetado e no controle sem alteração
anatômica.
Aqueles mergulhadores que apresentarem rash cutâneo após emergir ou
apresentarem sintomas de doença descompressiva grave, deverão ser investigados
quanto à presença de forame oval patente. Ocorrência de doença
descompressiva em mergulho com perfil de baixo risco ou mesmo formas graves de
doença descompressiva em mergulhos realizados dentro dos limites das tabelas ou
sem qualquer necessidade de descompressão indicada pelo computador também
requerem investigação.
O conjunto de achados atuais permite dizer que forame oval patente num
mergulhador com doença descompressiva grave não é necessariamente uma
contra-indicação para continuar mergulhando. Além disso, pelo conjunto de
evidências atuais, não está indicado triagem para esse tipo de lesão em
mergulhadores autônomos.
Trabalhos na medicina do mergulho
Em 1986, Wilmurshurst e colegas relataram a ocorrência de doença
descompressiva com manifestações neurológicas num mergulhador que praticou um
mergulho dentro dos padrões indicados pelo uso de tabela descompressiva no qual
foi diagnosticado um defeito septal atrial. No final da década de oitenta, Moon
e colegas relataram o resultado de uma avaliação relacionada à presença de
forame oval patente e doença descompressiva numa população de mergulhadores.
Esses pesquisadores concluíram que portadores de formas graves não previstas
de doença descompressiva apresentavam uma incidência aumentada de forame oval
patente. Por outro lado, também concluíram o inverso, ou seja, que o risco de
doença descompressiva na presença de forame oval patente não poderia ser
deduzido daqueles dados. O número de pacientes era muito pequeno para gerar uma
estimativa de risco. O mesmo pesquisador aumentou a série analisada e seguiu
com a mesma conclusão.
Ainda no início da divulgação dos achados relacionados ao tema, no fim da
década de oitenta, Wilmurshurst e colegas publicaram um estudo controlado no
qual não puderam observar diferença significativa na incidência de forame
oval patente entre os que apresentaram doença descompressiva e aqueles que não
tiveram a doença. A presença de forame oval patente seria somente um fator
contribuinte para a ocorrência de doença descompressiva. Verificando o tempo
de início da manifestação de doença descompressiva e a incidência de forame
oval patente, concluíram que, nos mergulhadores que apresentaram sintomas
neurológicos durante os trinta minutos após emergir, a incidência da
alteração foi maior. Assim, doença descompressiva após um mergulho
aparentemente seguro realizado, seguindo as indicações de tabelas de mergulho,
seria a única situação indicando triagem para a presença de forame oval
patente.
Logo depois, na Alert Diver de março/abril de 1995, o mesmo autor cita um
trabalho original realizado por ele mesmo alguns anos antes, avaliando o
mergulho e a comunicação inter-atrial, cujo objetivo era verificar os efeitos
de exercício físico e imersão na água e a passagem de sangue do lado direito
para o esquerdo do coração através de forame oval patente. A conclusão foi
que imersão provoca o alargamento do coração, entretanto exercício e
imersão não provocariam passagem de sangue de uma cavidade à outra. Ainda
persistia a necessidade de aumentar a base de dados para a conclusão
definitiva.
No mesmo texto, ele menciona outro estudo epidemiológico mais amplo em
termos de participantes do estudo em relação aos anteriores. Nesse estudo, em
torno de 40% dos participantes com doença descompressiva tinham forame oval
patente. 70% do total de portadores de doença descompressiva tiveram a forma
grave de apresentação, sendo que a metade tinha forame oval patente. O estudo
somente permitiu perceber que a freqüência de forame oval naquele grupo foi
maior do que o esperado para a população em geral. Cabe registrar que, nesse
texto, foi referido que a freqüência de forame oval patente considerada na
população em geral era entre 10 e 20%.
Como, do ponto de vista etiológico, o assunto era muito interessante, pois
diagnóstico e tratamento preventivo eram possíveis, muitos outros estudos
foram realizados e, algum tempo depois, metanálises foram possíveis. Uma
metanálise realizada pelo Dr. Fred Bove indica que há correlação de doença
descompressiva grave no mergulho dos portadores de forame oval patente. A taxa
de risco para doença descompressiva está aumentada por um fator equivalente a
2,6 para os que têm forame oval patente. Já a taxa de risco para os que não
têm forame oval patente e mergulham, está reduzida por um fator de dois.
Considerando a incidência de doença descompressiva no mergulho ser de 0,05% e
de doença descompressiva com sintomas neurológicos estar estimada em 2,28 para
10.000 mergullhos, ele concluiu, a partir desses achados, que o risco ainda
assim é baixo nessa situação.
De outra maneira, também se pode chegar à mesma conclusão. Se
aproximadamente um terço da população tem forame oval, então um terço de
todos mergulhadores tem forame oval patente e ainda um terço dos mergulhadores
não tem doença descompressiva. Considerando que a incidência de doença
descompressiva grave foi estimada de 1/20.000 a 1/1.200 mergulhos, a
probabilidade estimada de um incidente de doença descompressiva com
características das relacionadas à presença de forame oval patente é de
1/60.000 a 1/3.600 mergulhos. Dessa forma, o número ainda permaneceria pequeno.
Por outro lado, uma prevalência alta de forame oval patente foi encontrada,
de maneira inexplicável, em mergulhadores que tiveram formas graves de doença
descompressiva, tendo cumprido perfis seguros de descompressão. As
manifestações clínicas em doença descompressiva de mergulhadores com fluxo
atrial direito-esquerdo que cumpriram perfis descompressivos seguros, eram muito
semelhantes às dos que realizaram mergulhos provocativos com paradas omitidas.
Além disso, doença descompressiva cerebral ocorreu em mergulhos provocativos
principalmente quando os mergulhadores subiam rapidamente de mergulhos
relativamente rasos. Nesses casos, caracterizavam-se como acidentes decorrentes
de embolia paradoxal por ar. As hipóteses diagnósticas nos casos em que os
mergulhadores apresentavam o início das manifestações de doença
descompressiva grave nos primeiros cinco minutos após terem emergido de um
mergulho dentro de um perfil seguro, eram comunicação interatrial com fluxo de
direita-esquerda, no caso um grande forame oval patente, ou doença de pequenas
vias aéreas.
O assunto exige relevância na interpretação dos achados e na utilização
da linguagem para esclarecer os achados do ponto de vista da associação de
forame oval patente com necessidade diagnóstica e de intervenção preventiva.
Como foi colocado, a prevalência de forame oval patente na população é de 20
a 34% e alguns estudos revelaram que, entre mergulhadores que nunca tiveram
doença descompressiva, 31% tinham forame oval patente. Isso pode ser explicado
pela dificuldade das bolhas que atravessaram o forame, de produzirem sintomas de
doença descompressiva por serem poucas ou porque o forame era pequeno.
A investigação sobre forame oval patente e dano encefálico foi muito
reveladora no que diz respeito aos encaminhamentos relacionados à pesquisa
médica. Estudos iniciais demonstraram que mergulhadores portadores de forame
oval patente submetidos à ressonância nuclear magnética do encéfalo
apresentaram uma prevalência duas vezes maior de acidente cerebrovascular
cardioembólico do que os não-portadores de forame oval patente. Além disso,
os mergulhadores portadores de forame oval patente teriam 4,5 vezes mais
ocorrências de todos os tipos de sintomas de doença descompressiva. Desse
modo, forame oval patente com fluxos de direita-esquerda grandes pareciam ser um
importante fator de risco para o desenvolvimento de múltiplas lesões cerebrais
em mergulhadores recreativos. No entanto, a falta de grupos controles limitou as
conclusões dos achados.
Não se deve analisar o problema de lesões cerebrais e, em última análise,
as manifestações de doença descompressiva exclusivamente do ponto de vista da
presença de forame oval patente. Os achados anteriormente descritos também
sugerem episódios subclínicos de embolia paradoxal por ar durante ou após
descompressão de outras etiologias e, mesmo relacionados ao perfil do estresse
descompressivo do mergulho, podem ocorrer. Cabe salientar que a presença de
acidente cerebrovascular cardioembólico na ressonância nuclear magnética do
encéfalo não se correlaciona exclusivamente com doença descompressiva
neurológica. Independentemente de o mergulhador apresentar forame oval patente,
o mergulho está associado a achados de acidente cerebrovascular cardioembólico
na ressonância nuclear magnética do encéfalo. Mais recentemente, Koch e
colegas reavaliaram os resultados através de um estudo com um grupo de 50
mergulhadores saudáveis, que não revelou correlação entre a presença de
forame oval patente e hiperintensidades cerebrais anormais na ressonância
nuclear magnética. Isso sugere que, em estudos anteriores, poderia haver
lesões cerebrais não correlacionáveis exclusivamente à presença de forame
oval patente.
O forame oval patente representa um marcador para a suscetibilidade para a
manifestação da doença descompressiva grave, mas não é fator exclusivo
envolvido na fisiopatologia da doença. Alguns estudos focaram a correlação de
forame oval patente com lesões neurológicas, mas essas representam a minoria
dos incidentes descompressivos. A maioria dos casos de doença descompressiva se
manifesta por dor ou alterações sensitivas. Ninguém demonstrou ainda que o
forame oval patente está correlacionado com esses casos. Um terço das doenças
descompressivas é considerado grave e, se 60% têm forame oval patente e 25% do
restante que não teve as formas graves, também o têm, então também se pode
concluir que a maioria dos casos de doença descompressiva ocorre nos que não
têm forame oval patente. É o problema de associar um fator comum a uma doença
incomum.
Fechamento de forame oval patente
O fechamento por método percutâneo com a colocação de dispositivo
intra-atrial pode ser realizado sem cirurgia transtorácica naqueles para os
quais está indicado o procedimento.
Na Europa, esse método está aprovado para o fechamento de defeitos atriais
do septo que são hemodinamicamente significativos ou que apresentem episódios
recorrentes de tromboembolismos. Nos Estados Unidos, está liberado para
pacientes que apresentam acidente vascular encefálico recorrente criptogênico
por episódios embólicos paradoxais ou que falham ao tratamento medicamentoso.
Esses conceitos relacionados a êmbolos sólidos foram estendidos ao mergulho.
Os trabalhos que relatam o uso do procedimento para o tratamento de
mergulhadores que apresentam forame oval patente e que tiveram doença
descompressiva grave, mostram que não houve recorrência de doença
descompressiva neurológica após o procedimento. Entretanto, a maior crítica
aos achados é o fato de não se conhecerem os perfis de mergulho de antes e
depois do procedimento. Não foi excluído o viés comportamental do mergulhador
e suas implicações sobre os resultados dos procedimentos. A dúvida é se o
mergulhador não teria mudado o seu comportamento após o procedimento e se isso
não teria interferido nos resultados do seguimento. Nem para o megulho nem para
o tromboembolismo foi demonstrada a efetividade definitiva do método. Também
não foi estabelecida a relação risco/benefício do método.
A colocação de um dispositivo oclusor transvenoso não é sem risco. Há o
relato de 1,6% de efeitos adversos maiores durante a colocação do oclusor.
Eles incluem arritmia cardíaca necessitando intervenção, embolizaçao do
dispositivo requerendo intervenções cirúrgicas, falhas em colocar o
dispositivo, derrame pericárdio e dissecção de veia ilíaca. Complicações
tardias incluem embolizaçao periférica e morte súbita.
O controle ecográfico pode ser realizado em quatro semanas para avaliar o
posicionamento do dispositivo. De seis a oito
semanas, o dispositivo poderá ser incorporado à estrutura e terminar por não
mais poder ser visualizado. O retorno ao mergulho dependerá do resultado de
novo estudo ecocardiográfico e da opinião do cirurgião ou cardiologista.
Uma pequena série de pacientes com doença descompressiva submetida a
fechamento percutâneo com cateter foi relatada e seguida. O estudo não foi
conclusivo, pois não foi avaliado a longo prazo. Os achados iniciais falam a
favor de que, nesses mergulhadores, o fechamento pode reduzir a incidência de
doença descompressiva naqueles predispostos a tê-la. Entretanto, os dados
desse mesmo tratamento, quando oferecido a portadores de embolia paradoxal de
outras causas, evidenciaram redução do número de eventos, porém os eventos
continuaram a ocorrer. Isso sugere cautela na indicação do fechamento
percutâneo para mergulhadores que tiveram formas graves de doença
descompressiva.
Conduta conservadora no mergulho
Sendo verdadeiro que forame oval patente em mergulhadores com êmbolos
venosos por gás predispõe à doença descompressiva por fornecer uma rota que
transponha o filtro pulmonar, a estratégia mais segura deve focar a redução
da carga de bolhas venosas naqueles mergulhadores susceptíveis. Para que isso
ocorra, devem desenvolver vários procedimentos descompressivos, limitar o tempo
de fundo e mesmo usar apropriadamente o oxigênio na descompressão.
A conduta conservadora consiste em restringir o perfil do mergulho para
aqueles com risco aumentado de apresentar doença descompressiva. Para que a
doença descompressiva ocorra na presença de forame oval patente, deve haver
outros fatores, como a quantidade de bolhas ou as condições teciduais. Como
não há ainda uma conclusão definitiva nessa questão, o que se recomenda é a
prática do mergulho seguro com planejamentos de mergulhos extremamente
conservadores em relação à doença descompressiva e com perfis de baixo
risco. O princípio é simples: Não haverá risco aumentado de doença
descompressiva por forame oval patente, se não houver bolhas indo para o
coração.
Conclusão
Existem muitas incertezas em relação às hipóteses sobre o forame oval
patente e doença descompressiva. O papel do forame oval patente como fator
causal da doença descompressiva está bem estabelecido. No entanto, a magnitude
do risco associado é matéria de controvérsia. Grandes forames ovais patentes
aumentam o risco de doença descompressiva grave. O risco absoluto para forames
ovais pequenos parece ser menor. Considerando que a incidência de doença
descompressiva com dano neurológico é de 2,28 por 10.000 mergulhos recreativos
e que a taxa de risco calculada para um mergulhador recreativo portador de
forame oval patente, proposta pelo Dr. Alfred Bove, é aumentada por um fator de
2,6, o risco não justifica a realização de ecocardigrafia com contraste de
bolha como método de triagem para todos os mergulhadores.
A investigação de forame oval patente está justificada nos casos de
doença descompressiva após um mergulho aparentemente seguro realizado,
seguindo as indicações das tabelas de mergulho. Um candidato a mergulho
recreativo com forame oval conhecido deverá ser aconselhado a não mergulhar,
se não desejar correr qualquer risco. O mesmo é válido se o forame for
identificado após um episódio prévio de doença descompressiva, salvo se
houver a opção de realizar correção percutânea da lesão.
Na doença descompressiva, o problema fundamental está na formação de
bolhas de gás inerte na circulação. A evidência do forame oval é um
problema secundário. A doença descompressiva é um assunto muito mais extenso
que a questão do forame oval patente.
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Renúncia
Nenhuma representação neste texto é feita no sentido de oferecer um
diagnóstico, tratamento ou cura para qualquer condição ou doença relatada. O
caráter do texto é somente informativo e deve ser usado em conjunto com o
aconselhamento específico do médico de medicina do mergulho. O autor não é
responsável por qualquer conseqüência concebível relacionada à leitura
deste texto.
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Ilustração: Divers
Alert Network




Foto: Vagner Marretti


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