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Cilindros X Teste Hidrostático e Inspeção Visual

Recentemente ocorreu um acidente envolvendo um sistema de recarga e um mergulhador que estava próximo, ocasionando na morte do mesmo.

Apesar do teste hidrostático estar em dia e ter sido feito à menos de dois anos, um dos cilindro do sistema da cascata que estava sendo utilizado na recarga de cilindros de mergulho durante a madrugada no live aboard, teve sua parte inferior descolada, quebrando algumas madeiras do casco da embarcação e ferindo gravemente o mergulhador que dormia na parte inferior da mesma.

Qual seria a explicação disso uma vez que o teste hidrostático estava em dia ?

O laudo do acidente ainda não saiu, mas tudo leva à crer, que o cilindro em questão possuía uma grande corrosão em sua parte interna, que não fora detectada no último teste, muito provavelmente pela falta da inspeção necessária para a medição da parede e detecção de corrosão, processo este feito através de ultrassom ou inspeção visual.

É mais do que comum vermos diversos profissionais de mergulho dizerem "o teste hidrostático está em dia", e muitas vezes, nunca leu ou escutou fala na realização de inspeção visual, Visual Eddy e Ultrassom.

Segundo Miguel Lopes, técnico em compressores formado pela Bauer Miami e atuante no mercado há mais de 20 anos, é importante saber que nenhum destes testes ou inspeções garantem que um cilindro de pressão irá resistir à uma recarga após um teste.

Testes e inspeções são realizados para detectar rachaduras e/ou desgaste (corrosão) no cilindro, seja ele de alumínio ou aço. No alumínio também ocorre a corrosão, principalmente na rosca. Essa corrosão chama-se óxido de alumínio, onde muitas vezes, é possível encontrar furos disformes, segundo Miguel.

É muito importante saber que o teste hidrostático é requerido para detectar dilatações no cilindro, e também, vazamentos em rachaduras maiores, e não é garantido que o cilindro não possa vir a vazar ou romper sua parede, em função de uma micro rachadura. Isso é raro, mas não impossível...

Os fabricantes de cilindros recomendam uma inspeção visual na rosca e "pescoço", além da utilização do Visual Eddy, que conectado a rosca do cilindro, envia informações precisas à um computador PC, exibindo a existência de micro rachaduras na rosca e no casco se for o caso. Essas micro rachaduras se expandem rapidamente até pescoço e podem gerar vazamentos assustadores ou explosões com sérios danos à quem estiver próximo.

É sabido que no Rio de Janeiro, há dois profissionais (OverSea Dive Center e Eduardo Figueiredo, o Dudú) que utilizam o Visual Eddy para realizar Inspeção Visual em cilindros.

Estas inspeções devem ser feitas anualmente em todos os cilindros de aço e alumínio, sendo que, para cilindros de alumínio da marca Luxfer fabricados até 1989, a recomendação é o descarte do mesmo, pois existe uma grande possibilidade de micro rachaduras aparecerem logo após um teste hidrostático. A liga de alumínio usada na construção destes cilindros Luxfer até 1989, demostrou ser mais suscetível às rachaduras.

Outro ponto raramente mencionado ou discutido, chama-se maresia.

Cilindros de pressão recarregados próximo ao mar acabam tendo uma degradação muito mais rápida, em função da maresia atuante na área estrutural externa e interna, uma vez que, nenhum compressor consegue evitar que o gás jogado sob pressão para o interior do cilindro esteja livre da maresia, permitindo uma degradação mais acelerada no interior do mesmo.

 

Funcionamento

O teste hidrostático por expansão volumétrica é realizado colocando o cilindro de alta pressão em um compartimento de testes, e a água por ser um elemento incomprimível, é inserida no cilindro até que pressão interna atinja uma pressão de teste pré-estabelecida. Após a remoção da água do interior do cilindro, é verificado a dilatação ocasionada pela pressão da água.

Se a dilatação voltou ao resultado anterior, o cilindro passa no teste hidrostático. Se a dilatação ocasionou alguma alteração que ultrapasse a medida de segurança, o cilindro é condenado e não poderá ser mais utilizado para o recebimento de altas pressões.

No caso da inspeção visual, como o próprio nome diz, é o ato do técnico realizar uma inspeção no cilindro de forma visual e/ou com equipamentos de análise estrutural, na tentativa de encontrar pontos específicos que demonstrem a possibilidade de uma possível ruptura do cilindro.

 

Equipamentos auxiliares

Equipamentos como o Visual Eddy, permite uma análise detalhada das condições em que o cilindro se encontra. Literalmente estes equipamentos realizam um Raio X do cilindro, permitindo o encontro de uma trinca oculta na parede do mesmo, o que é difícil de ser encontrada a olho nú.

Esse tipo de equipamento é caro, e infelizmente a grande maioria dos profissionais não trabalha com ele, seja por desconhecimento, seja pelo alto custo. Em média, seu custo gira em torno dos U$ 1.000 nos Estados Unidos, e se formos parar pra pensar, não é nada absurdo tendo em vista os benefícios que ele trará ao técnico que realiza os testes em cilindros, além da segurança que ele traz, é claro.

 

Falta de informação

Hoje o mercado têm como base, realizar testes em cilindros a cada 5 (cinco) anos, no entanto, a inspeção visual deve ocorrer a cada 2 (dois) anos. A Luxfer, principal fabricante de equipamentos de mergulho recomenda uma inspeção visual anual, contudo, estatísticas monstram que o mais indicado, é realizar uma inspeção visual em cilindros de operação comercial a cada 6 (seis) meses.

Outro ponto desconhecido por muitos, é o fato da normatização dos testes em cilindros de mergulho.

Nos cilindros de aço, a corrosão interna é um dos fatores que geram mais preocupações tendo em vista que a corrosão acontece na base do cilindro, e para detectar essa corrosão, a empresas de inspeção e manutenção utilizam o ultrassom e outros procedimentos para medir a espessura da parede. Segundo um técnico responsável pela realização de testes hidrostáticos de uma reconhecida empresa no ramo, o que normalmente ocorre, é que o proprietário envia um cilindro e pede somente o teste hidrostático, não realizando o teste de espessura da parede do cilindro.

A empresa que faz o teste acredita que só este serviço é o requerido, e poucas empresas perguntam ao cliente se ele não precisa fazer outros procedimentos.

Outra informação importante, proprietários de cilindros cuja fabricação é européia devem saber que o aço utilizado têm espessura de 2,5mm, mas por tempera (que é uma excelência italiana). Esse cilindro está dentro das normas européias. Já os cilindros de aço americanos, geralmente são fabricados com espessura de 4mm

O Brasil utiliza a normatização americana (DOT), e se você leva um cilindro de aço europeu até uma empresa brasileira que use o DOT como norma, seu cilindro será reprovado pela espessura da parede. É importante que os proprietários destes cilindros saibam disso e procurem locais especializados que tenham esse conhecimento sob as diferenças entre normas, para que o cilindro não seja reprovado erroneamente.

É sabido que uma determinada empresa teve seus cilindros reprovados erroneamente, acarretando em um prejuízo desnecessário.

Quando você levar um cilindro até uma operadora de mergulho, é muito importante exigir que a operadora apresente os laudos ou certificados, com os números bem visíveis quanto à série e lote dos cilindros examinados, e também, os adesivos das inspeções visuais nos mesmos. Temos que nos assegurar que o cilindro que levamos nas costas está em perfeito estado de conservação e uso.

 

Pontos importantes de uma recarga

Realizando os procedimentos corretos, não há grandes riscos em realizar uma recarga de cilindros de mergulho. Além do teste hidrostático e da inspeção visual, o técnico deve estar atento alguns pontos importantes. Vejamos abaixo:

Pressostato É um instrumento de medição de pressão utilizado como componente do sistema de proteção de equipamento ou processos industriais. Sua função básica é proteger a integridade de equipamentos contra sobre pressão ou sub pressão aplicada aos mesmos durante o seu funcionamento.

No caso das recargas dos cilindros de mergulho, quando a pressão de recarga ultrapassa um limite de segurança pré-estabelecido, o compressor vai parar de trabalhar, não deixando que o cilindro sofra com uma sobrecarga.

O pressostato é um equipamento auxiliar, e o responsável pela recarga jamais deve deixar o compressor de lado e ir embora, imaginando que ele irá desligar sozinho. A recarga precisa ser monitorada.

Válvulas de Segurança Estas devem passar por uma manutenção com certa periodicidade. Assim como tudo na vida, elas requerem manutenção e uma inspeção de tempos em tempos é mais do que recomendável.
Aferição de Manômetro Quantas vezes você já ouviu falar que o manômetro utilizado no sistema de recarga passou recentemente por aferição ?

Sinceramente, nunca escutei ninguém falar sobre isso, e de fato, instrumentos de precisão necessitam passar por uma aferição de tempos em tempos, afim de verificar se o mesmo está indicando as informações de forma correta.

Pesquisando na web, constatei que estes manômetros após anos de uso, podem marcar erroneamente, e num dos exemplos encontrados, um manômetro indicava 3.000 PSI, quando na verdade deveria marcar 3.500 PSI.

Overpressure É mais do que comum encontrarmos cilindros com pressão acima da recomendada. Isso degrada o cilindro mais rapidamente, assim como, nossos reguladores são configurados para atuar numa determinada pressão de trabalho. Não quero dizer que o regulador vai dar problemas de cara, mas tudo que sai das especificações do fabricante tende a dar mais problemas num futuro próximo.
Mangueira Flexível Essa mangueira irá se romper, caso a pressão entre o compressor e o cilindro ultrapasse um limite seguro, não deixando que o compressor continue a enviar gás comprimido para o cilindro. Uma inspeção regular nessa mangueira do compressor é muito recomendável para saber seu estado.
Válvula de Alívio Recomenda-se uma inspeção regular e verificar se está regulada entre 3.300 e 3.500 PSI.
Filtro de separação de água Esse filtro é mais do que recomendável, pois evita que o cilindro recarregado tenha água em seu interior. Havendo água, o processo de corrosão será acelerado.
Rosca da Torneira do Cilindro Verifique o estado da rosca com um pequeno espelho normalmente utilizado pelos dentistas. Essa verificação permitirá ter a certeza de que a rosca encontra-se em boas condições.
Fixação dos Cilindros de Recarga Cascatas ou reservatórios de ar em alta pressão dever estar firmemente fixados na parede e isolados do chão com estruturas adequadas para esta finalidade. Além de trazer segurança, evita que qualquer líquido no chão ataque a parede do cilindro.

Linhas de alta pressão no geral são conectadas com mangueiras flexíveis ou tubos rígidos, e no caso destes tubos, é necessário saber que vibrações no local da recarga podem comprometer as conexões. No caso de ruptura, um destes cilindros que não estejam bem fixados poderá se desprender e causar danos materiais ou físicos a quem estiver próximo.

 

Documentos adicionais:

 

Atualmente somente a Cyltest Egenharia de Cilindros em Volta Redonda possui o certificado DOT, localizada à Rua José Gonçalves Rebollas, 1126 - Siderlândia - Volta Redonda - RJ  

 

Agradecimentos ao Miguel Lopes (Aqualung) e ao Mário e Humberto (TH Service), pela atenção e colaboração das informações prestadas para a elaboração deste artigo.


 

 

 


 

 

 


 

 

 


 

 

 


 

 

 


 

 

 


 

 

 


 

 

 


 

 

 


 

 

 




Clécio Mayrink, nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em 1987 pela CMAS. Em 1990 se formou como Dive Master pela PADI, sendo atualmente, mergulhador Técnico Trimix (Mergulho Profundo) e de cavernas (Technical Cave Diver e Advanced Cave Side Mount / No Mount).

Idealizador do site Brasil Mergulho criado em 1998, foi consultor técnico sobre mergulho no Atlas dos Esportes no Brasil, um projeto promovido pelo Ministério dos Esportes, relacionando todo o histórico dos esportes no Brasil, e consultor no projeto de proteção mundial de naufrágios promovido pela ONU / UNESCO. É juiz internacional AIDA e integrou a expedição de mapeamento da Lagoa Misteriosa em Bonito-MS em 2008.

Produziu documentários sobre as Bahamas, Bonaire, Galápagos e Laje de Santos, visitando mais de 25 países, atuando em reportagens para revistas e TV's.

Foi o responsável pela integração de sistemas tributários entre a Secretaria Estadual de Fazenda do Rio de Janeiro e a Receita Federal, além de ter sido um dos responsáveis pelo SINTEGRA, para troca de informações fiscais entre Estados.

 



Veja também:

- Cilindros X Teste Hidrostático e Inspeção Visual
- Cilindros de Mergulho e suas Especificações
- Entrevista: Paulo Dias
- O-rings - Aprendendo um pouco mais sobre eles
- Registros de Cilindros de Mergulho
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