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Oxigênio:
Amigo e Inimigo
Em nossos cursos de
mergulho recreativo muito pouco se fala dos efeitos do
oxigênio em condição hiperbarica, o que ouvimos é
"não mergulhe com oxigênio puro",
"somente ar comprimido". Normalmente essas
orientações são mais que suficientes, já que quando
se mergulha com ar comprimido e dentro do limite de
profundidade de 40 metros os problemas relacionados ao
oxigênio não estão presentes. Mas para mergulhadores
que utilizam nitrox ou pretendem mergulhar com outras
misturas gasosas e atingir profundidades maiores, esses
conhecimentos são mais que necessários, são vitais.
Um
pouco de Química
Oxigênio é vital para o
metabolismo do corpo, nossas células utilizam oxigênio
para produzir energia. O problema surge na quebra da
molécula de oxigênio, que envolve a agregação de 1
elétron extra, e a formação de um ânion, o qual é
extremamente reativo e costuma fazer picadinho de
células com as quais entra em contato. Esses ânions
(átomos com excesso de carga negativa) são como carvão
na fornalha: enquanto estiverem presos produzem bastante
energia de forma saudável , mas uma vez livres (radicais
livres) começam a causar problemas. A mitocondria é
responsavel por reter esses anions, evitando problemas.
Outras enzimas controlam a intensidade e a velocidade
dessa reação, canalizando a energia liberada para um
fim adequado, evitando que esses radicais livres causem
problemas. Altas concentrações de oxigênio podem
aumentar o número de radicais livres. Essa química toda
vem sendo estudada e começa a ser entendida. Já que
química jamais foi meu forte vamos ver de que maneira
podemos traduzir esse historia toda para o mergulho.
Um
pouco de Física
Lembram da lei de Dalton ,
a lei das pressões parciais?? Os efeitos fisiológicos
dos gases estão diretamente ligados a pressão parcial.
A pressão parcial de qualquer gás é igual a fração
do gás (%), multiplicado pela pressão absoluta . A
pressão parcial do gás também é um indicativo do
numero de moléculas por determinado volume, ou seja, da
concentração molecular.
No caso do oxigênio puro
na superfície, como só temos um único gás, sua
pressão parcial será igual a pressão absoluta, ou seja
1 atm. No caso de uma mistura EAN50 ser usada a 10 metros
de profundidade, a pressão parcial de oxigênio será de
1 atm, ou seja, respirar EAN 50 a 10 metros equivale a
respirar oxigênio puro na superfície. O conhecimento da
lei de Henry e das pressões parciais é imprenscidivel
para qualquer mergulhador que queira se valer de misturas
gasosas.
Intoxicação
por O2
A intoxicação por O2 é
um fenômeno que depende da pressão parcial e do tempo
de exposição. Esses dois fatores controlam o risco de
intoxicação em um determinado mergulho. É por esta
razão que os limites dados pelas tabelas são
apresentados em termos de pressão parcial e tempos
limites. Quanto maior for a pressão parcial menor será
o tempo limite, o mesmo comportamento observado nas
tabelas de descompressão. É isso aí !! Mergulhadores
técnicos que empregam misturas respiratórias utilizam
nos seus planejamentos de mergulho, além da tabela de
descompressão, tabelas de limites de exposição ao
oxigênio.
Então que tipo de
problemas podem ocorrer quando respiramos oxigênio em
altas pressões parciais? Na verdade, como vimos, todos
os órgãos do corpo podem ser afetados , mas os alvos
principais são o pulmão (efeito Lorraine Smith) e o
sistema nervoso central (efeito Paul Bert ).
Efeito
Lorraine Smith
O efeito Lorraine Smith
trata dos efeitos tóxicos do oxigênio sobre o tecido
pulmonar. Os alvéolos são revestidos por uma substancia
sulfactante, que impede que os mesmos colabem e permite
que eles mantenham sua função de efetuar a troca
gasosa. Exposições muito prolongadas de oxigênio em
pressões parcias intermediarias podem causar remoção
da substancia sufactante e lesões nos alvéolos, fazendo
com que o mesmo possa vir a colabar, prejudicando a troca
gasosa. Os sintomas são dor no peito, dificuldade de
respirar, diminuição da capacidade vital e tosse. Estes
sintomas, muito parecidos com um caso grave de gripe,
muito raramente causam danos permanentes, principalmente
a mergulhadores amadores e técnicos, já que a maioria
das exposições com equipamento autônomo, mesmo as
superiores a 6 horas de duração estão normalmente
dentro dos limites considerados seguros. Esse tipo de
problema está mais presente em mergulhos de saturação,
tratamentos hiperbaricos longos, e em centro de terapia
intensiva em hospitais.
Existem métodos para
controlar as exposições aos efeitos tóxicos do
oxigênio a nível pulmonar, tais como:
- Método Repex, do DR
Bill Haminton que usa uma unidade chamada OTU( oxigênio
tolerance unit)
- Método desenvolvido
pela universidade da pennsylvania que usa unidades
chamadas UPTD (Unit Pulmonary Toxic Dose), que são
derivados de equações que levam em conta a diminuição
da capacidade vital do pulmão para estabelecer esses
limites.
Esses métodos vem sendo
usados com bastante eficácia e precisão. Como vimos o
efeito Lorraine Smith não deve preocupar mergulhadores
nitrox nem mesmo em exposições de mergulhos de longa
duração. A excessão se faz no caso de varios mergulhos
de longa duração em dias consecutivos ou seguidos de
tratamento em câmara hiperbárica.
Efeito Paul Bert
Paul Bert em 1878 foi o
primeiro a observar os efeitos de altas pressões
parciais de oxigênio no sistema nervoso central. Altas
pressões parciais de oxigênio alteram o metabolismo das
células nervosas, trazendo todo tipo alteração
neurológica: as mais comuns costumam ser lembradas com a
ajuda do acrônimo CONVANTIT: Convulsões, Distúrbios Visuais, Disturbios
Auditivos, Nauseas, Tonturas, Irritabilidade e
Tremores. A boa noticia é que
convulsões, algo extremamente inconveniente pois pode
levar ao afogamento, são raras. A noticia ruim é que
ela pode ocorrer sem que nenhum dos outros sintomas
apareça, ou seja, sem avisos. É bom lembrar que a
convulsão por si só não causa danos, exceto se houver
afogamento ou uma pancada na cabeça.
A intoxicação do sistema
nervoso central, ao contrario da pulmonar , demanda maior
atenção dos mergulhadores, inclusive dos que utilizam
nitrox dentro dos padrões do mergulho amador. Estes,
como estão limitados a mergulhos sem descompressão, sem
trocas de gás, e com porcentagens de O2 até 40%, só
precisam estabelecer a profundidade máxima de operação
da mistura a ser utilizada baseado na ppO2 máxima
desejada, e se manter em exposições com durações
máximas seguras. Mergulhadores de nível Technical
Nitrox ou Trimix, que planejam mergulhos com
descompressão e fazem trocas de gás, precisam fazer
cálculos de exposição ao O2 para todos os diferentes
níveis do perfil de mergulho.
Então existem tabelas
para controlar a exposição do oxigênio no sistema
nervoso central? É isso aí! Em 1941, durante a segunda
guerra, no porto de Alexandria, no Egito, dois navios da
marinha real inglesa foram muito avariados por minas
levadas por mergulhadores de combate italianos utilizando
equipamentos de circuito fechado com O2 a 100%, ou seja
sem bolhas!!!! ..camuflagem perfeita
A marinha real
imediatamente iniciou estudos para poder conduzir
missões similares. A primeira pergunta que surgiu foi:
Quais são os limites de profundidade e tempo seguros
para se respirar Oxigênio puro? O professor Kenneth
Donald foi encarregado de conduzir esses estudos, já que
alguns dos limites sugeridos na época ( 120 minutos/ 15
metros - 30 minutos / 27 metros), resultavam em um
índice alto de convulsões. Dr. Donald conduziu estudos
durante 3 anos, utilizando mergulhadores militares
voluntarios, tendo realizado em seus estudos em torno de
2.000 exposições. O estudos do Dr. Donald formaram a
base do que se sabe hoje em dia sobre os efeitos do
oxigênio no sistema nervoso central. A seguir algumas
das conclusões desses estudos:
- Existe uma variação
muito grande na tolerância de cada individo, em
relação aos sintomas, em tempo de exposição.
- Exposições em
ambientes secos (câmara hiperbarica), comparadas com as
molhadas apresentavam tolerância 4 a 5 vezes maior.
- Esforço físico e
exercícios diminuem muito a tolerância ao oxigênio.
- Mergulhos em águas
geladas (menor que 9oC) ou muito quentes (maior que
31oC), parecem diminuir a tolerância ao oxigênio.
O objetivo da pesquisa era
estabelecer um conjunto de tabelas que apresentassem os
limites de tempo para cada profundidade onde seria seguro
respirar oxigênio puro. O maior obstáculo encontrado
foi a enorme variação de tolerância de indivíduo para
individuo, a variação do aparecimento de sintomas e nos
tempos de tolerância e, como não bastasse, a variação
da tolerância do mesmo individuo de um dia para outro.
Um mergulhador fez testes a profundidade de 21 metros
respirando oxigênio 100%, exatamente nas mesmas
condições, 2 vezes por semana durante 12 semanas: os
tempos de aparecimentos de sintomas, variaram de 7 a 148
minutos.
Ao final destes testes a
marinha real considerou extremamente perigoso mergulhos
com oxigênio puro a mais de 7.6 metros (1,76 ppO2) sem
descrever nenhum tempo limite. A marinha americana e
outras instituições realizaram estudos e publicaram
tabelas. As mais utilizadas hoje em dia são as tabelas
da NOAA, que trabalha com pressão parcial máxima de 1,6
ata, o que equivale a se respirar oxigênio puro a 6
metros de profundidade. Ou seja, mergulhadores que
utilizam misturas, alem da tabela de descompressão devem
usar a tabela de exposição da NOAA (tabela).
Mergulhadores de nível técnico, por efetuarem troca de
gases e planejarem mergulhos com descompressão, utilizam
essa tabela para calcular o chamado relógio de O2, um
tipo de planejamento multi-nivel para a exposição em
cada fase do mergulho.
Qual é a
pressão parcial de O2 segura ?
Não existe um
"numero mágico" de ppO2 segura. Ela depende
muito de varios fatores, principalmente do perfil e
duração dos diversos segmentos do mergulho, bem como
das diversas misturas respiratórias utilizados durante o
mergulho. Como regra básica podemos dizer que o sinal
amarelo inicia-se em 1,4 de pressão parcial, e a
pressão de 1,6 deve ser a máxima utilizada em qualquer
circunstancia, pois apesar da probabilidade de convulsão
ser pequena, a margem de erro é menor ainda. Ou seja, o
limite deve ser evitado se o mergulhador e o mergulho
não estiverem em condições ideais, pois situações
como frio, esforço físico podem aumentar a
probabilidade de intoxicação por O2.
Como
mergulhar com segurança ?
Primeiramente, antes de se
aventurar a usar qualquer mistura com mais de 21% de O2,
procure treinamento adequado que começa com o curso
básico de Nitrox, aonde o aluno entra em contato pela
primeira vez com os conceitos do efeito Paul Bert. A
partir deste ponto os interessados em quebrar as
barreiras do mergulho recreativo (vide ultimo artigo),
devem procurar um curso de Technical Nitrox, onde
procedimentos mais apurados de calculo da exposição ao
O2 começam a ser necessários. Não só os conhecimentos
teóricos são importantes para uma exposição segura ao
O2, os equipamentos usados, sua configuração, a
habilidade e conforto do mergulhador na água são de
extrema importância para um mergulho seguro com misturas.
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