|
Misturas
Gasosas
Durante o curso básico de mergulho autônomo muitas
pessoas fazem uma descoberta: que o famoso "cilindro
de oxigênio" é na realidade cheio de ar
atmosférico (aproximadamente 21% de oxigênio e 79% de
nitrogênio) e que hoje 99% dos mergulhos amadores são
feitos utilizando-se ar como mistura respiratória. No
entanto, com os mergulhadores procurando atingir
profundidades e tempos de fundo cada vez maiores e
paralelamente tentando diminuir os tempos de
descompressão, chegou-se a uma conclusão: o ar não é,
na maioria dos casos, a mistura gasosa ideal para o
mergulho. Apesar do baixo custo e da alta
disponibilidade, o ar está longe de ser a alternativa
ideal para a maioria dos mergulhos. Nos mergulhos entre 15 e 40 metros
o uso do ar implica em tempos de descompressão muito
grandes. Abaixo de 40 metros surge o fantasma da narcose
pelo nitrogênio, que pode deixar o mergulhador em um
estado de embriaguez semelhante ao causado por bebidas
alcólicas e que afeta os reflexos e a capacidade de
julgamento. Além dos 66 metros o mergulhador corre o
risco de sofrer convulsões devido à influência tóxica
do oxigênio no sistema nervoso central. Desde a década
de 50, misturas gasosas diferentes do ar são utilizadas
rotineiramente no mergulho comercial e desde 1985 vêm
ganhando popularidade no mergulho amador.
A utilização de misturas
especiais permite que os mergulhadores aumentem seus
tempos de fundo, diminuam o risco da narcose pelo
nitrogênio e de intoxicação pelo oxigênio, o que
facilita aquilo que eles mergulhadores mais querem:
permanecer no fundo com segurança o maior tempo
possível.
Nitrox
Desde 1985 um conjunto
específico de misturas vem se popularizando cada vez
mais no mergulho amador: as misturas nitrox, compostas
por oxigênio e nitrogênio em porcentagens diferentes
daquelas encontradas no aratmosférico. Oferecendo tempos
de fundo maiores e intervalos de superfície menores com
uma boa margem de segurança para mergulhos entre 10 e 40
metros de profundidade, espera-se que o nitrox passe por
uma explosão de popularidade nos próximos anos,
principalmente após o aval de grandes certificadoras
como a PADI.
Além de ser utilizado por
mergulhadores recreativos como um substituto para o ar
(com muitas vantagens), mergulhadores técnicos utilizam
nitrox para reduzir o tempo de descompressão em
mergulhos profundos.
Heliox
& Trimix
A primeira aplicação em
larga escala do HeliOx aconteceu em 1939. Na época a
marinha dos EUA realizava diversos estudos visando
determinar a viabilidade do uso de misturas para
mergulhos profundos. O heliox era o candidato mais
promissor. Quando o submarino U.S.S. Squalus
afundou a 74 m de profundidade e foi rapidamente
localizado com os tripulantes ainda vivos, a marinha
iniciou um esforço frenético para resgata-los. No
entanto, as tentativas falharam porque mergulhadores,
utilizando ar, eram incapazes de prender um cabo que
guiaria a câmara de resgate até o submarino, afetados
pela narcose pelo nitrogênio. A marinha decidiu então
tentar utilizar as novas misturas heliox. Logo um
mergulhador prendeu o cabo que permitiria o resgate dos
33 sobreviventes. Em seguida, após 100 mergulhos com a
nova mistura, o Squalus foi trazido de volta à
superfície, reparado, rebatizado de Sailfish e
recolocado na ativa, onde permaneceu durante a 2a
Guerra Mundial. Estava encerrada a era dos mergulhos
profundos utilizando ar.
Embora o heliox seja
largamente utilizado em mergulho comercial, ele apresenta
três problemas: alto custo, tempos de descompressão
inviavelmente longos para mergulhos curtos e a síndrome
nervosa das altas pressões (SNAP). Em 1965 descobriu-se
que mergulhadores utilizando heliox a mais de 150 m de
profundidade eram acometidos de tremores incontroláveis,
mas que a adição de pequenas quantidades de nitrogênio
à mistura eliminavam este efeito do hélio. Nascia
então o Trimix - um conjunto de misturas de hélio,
oxigênio e nitrogênio que permitia que mergulhadores
atingissem profundidades de mais de 700 m em ambiente de
laboratório.
No mergulho técnico o
heliox teve uma vida curta, já que o trimix foi
utilizado desde o início. Estas misturas eram muito mais
baratas que o heliox (devido ao alto custo de hélio) e
permitiam descompressões muito mais rápidas. Por
exemplo, para um mergulho a 80 metros de profundidade com
20 minutos de tempo de fundo, uma mistura heliox 16 (16%
de oxigênio e 84% de hélio) implica em mais de 30 horas
de descompressão. O mesmo mergulho com trimix 16/24 (16%
de oxigênio, 24% de hélio e 60% de nitrogênio) exige
uma descompressão de menos de 5 horas ! Hoje o trimix é
a mistura preferida dos mergulhadores que se aventuram a
mais de 60 m de profundidade, principalmente em ambientes
que exigem alta concentração como naufrágios e
cavernas.
Como
escolher a melhor mistura
Mas quais são os
critérios para o mergulhador selecionar a melhor mistura
? Nos mergulhos até 40 m de profundidade, a receita é
relativamente simples, já que a mistura escolhida será
provavelmente nitrox. O único fator a ser considerado é
a toxidade do oxigênio: calcula-se a pressão parcial do
oxigênio na profundidade máxima e esta não deve
exceder 1.4 ata. Tomemos como exemplo um mergulho a 28
metros. Nesta profundidade, a pressão ambiente é de 3.8
ata. Dividindo-se a pressão parcial desejada para o
oxigênio (1.4 ata) pela pressão ambiente (3.8 ata),
chegamos a uma fração de oxigênio de 36%, o que
implica em uma mistura com 36% de oxigênio e 64% de
nitrogênio. Em um curso de mergulho com nitrox você
aprende facilmente como efetuar estes cálculos e
determinar as paradas de descompressão necessárias para
este mergulho.
Para profundidades entre
40 m e 60 m, a mistura ideal ainda é o ar, mas o
mergulhador pode optar por misturas com maior teor de
oxigênio (como o Nitrox 36 ou o Nitrox 80) para reduzir
o tempo de descompressão.
Nos mergulhos mais fundos
a mistura é normalmente algum tipo de trimix. Os
cálculos são um pouco mais complexos e devem levar em
conta três fatores: toxidade pelo oxigênio, narcose
pelo nitrogênio e tempo de descompressão (uma
consequência direta dos dois primeiros fatores). O
primeiro passo é calcular a fração de oxigênio da
mesma forma que nos mergulhos com nitrox. Em seguida, é
preciso determinar a fração de nitrogênio, o que é
feito selecionando-se o nível de narcose pelo
nitrogênio que o mergulhador está disposto a tolerar e
aplicando um conceito chamado "profundidade
equivalente narcótica" (PEN ou END), que equipara a
narcose de um mergulho com trimix a de um mergulho com ar
a uma profundidade menor. Assim, para um mergulho a 90 m,
se o mergulhador está disposto a tolerar um nível de
narcose equivalente aquele que teria em um mergulho a 45
m com ar, escolheria uma mistura com 14% de oxigênio,
43% de hélio e 43% de nitrogênio.
Os riscos
das misturas
Como não poderia deixar
de ser, embora o mergulho com misturas traga diversas
vantagens, ele também cria novos riscos. Ao decidir usar
uma mistura em um determinado mergulho, o mergulhador
deve pesar as vantagens e as desvantagens de sua
aplicação naquele mergulho específico.
O primeiro problema é a
quantidade de equipamento. Para cada mistura, o
mergulhador é obrigado a carregar pelo menos um cilindro
com regulador. Assim, em um mergulho trimix com duas
misturas nitrox para descompressão, o mergulhador
carrega no mínimo 3 cilindros, sendo 5 o número mais
comum: uma dupla com o trimix a ser usado no fundo, um de
10 ou 12 litros com nitrox 36, um menor com nitrox 80 ou
oxigênio puro e mais um pequeno com argônio para a
roupa seca - são mais de 100 kg de equipamento ! Além
disto, todos os cilindros devem ser limpos para uso com
oxigênio puro.
O segundo problema é
relacionado à qualidade das misturas e suas trocas
debaixo dágua. É necessário um controle preciso
dos teores dos diversos gases utilizados, já que
qualquer falha pode causar doença descompressiva,
narcose excessiva ou intoxicação pelo oxigênio, erros
que podem ser fatais a 80 m de profundidade ! Debaixo
dágua o mergulhador deve estar atento a qual
mistura utilizar em cada etapa do mergulho. Não são
poucos os casos em que, por alguma razão, o mergulhador
pega o regulador do cilindro de oxigênio puro e passa a
respirar este gás a 80 ou 90 m de profundidade,
resultando em convulsões e afogamento praticamente
imediato. Por isto é importante identificar corretamente
cada regulador, a profundidade máxima em que ele pode
ser utilizado e prover algum meio de impedir que por
descuido o mergulhador respire uma mistura com alto teor
de oxigênio na profundidade errada (como
"ensacar" os reguladores).
Outro problema que muitas
vezes passa desapercebido é o frio. Como o hélio é um
excelente condutor de calor, o mergulhador perde calor
muito mais rapidamente que quando exposto ao ar ou a
água, o que pode levar a uma séria hipotermia. Nos
mergulhos com trimix ou heliox, as roupas secas são
praticamente indispensáveis e são geralmente cheias de
outro gás com maior poder de isolamento, como o
argônio. No mergulho comercial a alternativa mais comum
para evitar o frio é a utilização de roupas de água
quente.
Por fim, as misturas
implicam em mais uma dificuldade: o cálculo da
descompressão. As tabelas e computadores tradicionais
não podem ser usados a não ser nos mergulhos nitrox
mais simples. O mergulhador é então obrigado a recorrer
a programas como o Abyss para determinar as
paradas de descompressão necessárias. Embora os
cálculos sejam efetuados automaticamente pelo programa,
é fundamental um bom conhecimento da teoria da
descompressão para que os parâmetros do programa possam
ser ajustados adequadamente, resultando em uma
descompressão segura.
Treinamento
O primeiro passo para quem
quer conhecer melhor as misturas gasosas é um curso de
Nitrox Básico, oferecido regularmente por várias
escolas filiadas à PDIC, PADI ou TDI. Neste curso o
mergulhador começa a conhecer os riscos da toxidade pelo
oxigênio e os cálculos necessários para executar
mergulhos recreativos utilizando misturas nitrox com até
40% de oxigênio.
Daí para a frente o
mergulhador entra no âmbito do mergulho técnico e os
cursos se tornam mais escassos. O curso de Nitrox
Avançado é oferecido apenas pelas escolas filiadas à
TDI e visa mostar ao mergulhador as vantagens e os riscos
da utilização de misturas nitrox com teor de oxigênio
entre 32% e 100% para reduzir o tempo de descompressão.
Este curso aborda a preparação do equipamento, o
controle da pressão parcial do oxigênio, os cálculos
de descompressão para mergulhos em que mais de uma
mistura gasosa é utilizada e as técnicas para uma
descompressão segura, normalmente omitidas dos cursos de
mergulho recreativo. Este curso é pré-requisito para os
cursos de mergulho profundo com ar, o passo seguinte para
aqueles que querem continuar o currículo de mergulho
técnico.
Poucos mergulhadores
seguem até o ponto máximo do mergulho técnico: os
cursos de mergulho com misturas compostas por hélio,
oxigênio e nitrogênio (Trimix ou HeliOx). Muito mais
complexo que os cursos anteriores, requer dedicação
intensa e só é oferecido no Brasil sob demanda, embora
em alguns pontos dos EUA seja oferecido regularmente. O
objetivo é capacitar os mergulhadores para realização
de mergulhos profundos (de 80 a 100 metros) utilizando
equipamento autônomo de circuito aberto.
O Futuro
Como os mergulhadores
estão buscando cada vez mais atingir profundidades e
tempos de fundo maiores, o uso de misturas gasosas
deverá crescer nos próximos anos, principalmente a
utilização de nitrox. Caso a tecnologia dos
equipamentos de circuito fechado ou semi-fechado (rebreathers)
venha a se firmar, as misturas terão importância ainda
maior, já que praticamente todos os modelos atuais
utilizam nitrox, heliox ou trimix como mistura
respiratória.
E a busca por novas
alternativas não para por aí. Há vários anos, os
cientistas buscam misturas melhores que as conhecidas.
Misturas compostas por hidrogênio e oxigênio (hidrox e
hidreliox) são testadas a mais de 50 anos, embora o
risco de explosão desta mistura tenha dificultado sua
aplicação comercial. E alguns mergulhadores técnicos
vem testando misturas a base de neônio como uma forma de
reduzir os tempos de descompressão nos mergulhos mais
fundos.
Conclusão
Apesar de trazer diversas
vantagens, o mergulho com misturas gera novos riscos para
o mergulhador e é fundamental que haja treinamento
profissional adequado. Se você pretende realizar
mergulhos profundos ou que exijam longas paradas de
descompressão, não pense duas vezes e matricule-se nos
cursos correspondentes. Mas nem cogite tentar utilizar
misturas sem a supervisão de um instrutor experiente !
Um mergulho no Cruz del
Sur
O Cruz del Sur é um dos
melhores naufrágios da região de Miami nos EUA. Ele
está localizado a poucos minutos de barco de North Miami
Beach a 73 metros de profundidade. Embora as partes mais
rasas do naufrágio possam ser exploradas utilizando-se
ar, a maioria dos mergulhadores prefere uma mistura
Trimix reduzir a narcose e facilitar penetrações no
casco.
Como exemplo, vamos
planejar um mergulho com 25 minutos de tempo de fundo.
Uma boa mistura para este mergulho escolhemos uma mistura
com 16% de oxigênio, 24% de hélio e 60% de nitrogênio.
O gráfico abaixo, gerado no Abyss Advanced Diving
Planning Software, mostra o perfil do mergulho.
Neste caso, teríamos 10
paradas de descompressão, mostradas na tabela a seguir:
| Prof. (m) |
30
|
27
|
24
|
21
|
18
|
15
|
12
|
9
|
6
|
3
|
| Mistura (EAN) |
36
|
36
|
36
|
36
|
36
|
36
|
36
|
36
|
80
|
80
|
| Tempo de
Parada (min) |
1
|
1
|
2
|
3
|
4
|
6
|
8
|
13
|
16
|
27
|
Isto implica em um
mergulho de quase duas horas de duração, obrigando o
mergulhador a carregar consigo quatro cilindros: duas
duplas de alta capacidade com a mistura de fundo
(aproximadamente 7000 litros de trimix), um cilindro com
cerca de 3000 litros de nitrox 36 para as paradas de
descompressão entre 30 m e 9 m e um cilindro com 2000
litros de nitrox 80 para as paradas a 6 m e 3 m. Quem se
habilita ?
|