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Mergulho
em Altitude
Cada vez mais os mergulhadores buscam novos locais para
mergulhar. Principalmente para quem mora longe do
litoral, lagos e rios podem representar excelentes
oportunidades e muitas vezes estes locais encontram-se
muito acima do nível do mar. Quando a superfície do
local encontra-se a uma elevação acima de 300 m o
mergulho é considerado um mergulho em altitude. Os mergulhos em altitude exigem
cuidados especiais mas podem, em sua maioria, ser
realizados sem problemas desde que os mergulhadores
estejam preparados. Mergulhos em altitude acima de 3.000
m, como no Monte Licancabur (na fronteira entre Chile e
Bolívia, a 5.930 m - o recorde de mergulho em altitude)
ou no Lago Titicaca (Bolívia, 3.810 m) exigem meses de
preparação, mas outros locais como o Lake Tahoe (EUA,
1.890 m) ou diversos lagos no Brasil são visitados
frequentemente por mergulhadores. A cidade de São Paulo,
por exemplo, está a 760 m de altitude e Campos de
Jordão (SP), a 1.628 m.
A principal dúvida que
surge quando se planeja um mergulho em altitude é a
respeito dos efeitos da redução da pressão
atmosférica - a cerca de 5.500 m, a pressão
atmosférica é 50% daquela pressão à que estamos
acostumados ao nívcel do mar. Acima de 300 m, esta
redução de pressão pode afetar de forma significativa
o planejamento dos mergulhos, em especial os cálculos de
descompressão.
Em sua penúltima
edição, o manual de mergulho da marinha americana, uma
espécie de "bíblia" para os mergulhadores,
afirma claramente que "todas as tabelas de
descompressão com ar podem ser utilizadas em água doce
a altitudes de até 700 m" mas que "mergulhos
em altidudes acima de 700 m devem ser liberados por um
oficial já que não existem procedimentos aprovados pela
marinha para mergulho em altitude". No entanto,
existem diversos métodos destinados a corrigir ou criar
tabelas de descompressão para uso em altitude.
O Método de Cross
O método mais utilizado
para correção das tabelas para mergulhos em altitude é
o chamado método de Cross. Publicado nos Estados
Unidos em 1967 e utilizado por vários anos na Europa,
este método empírico sugere a correção das
profundidades reais do mergulho por um fator baseado na
variação da pressão atmosférica entre o nível do mar
e o local de mergulho. A fórmula abaixo mostra o
princípio básico do método de Cross:
,
onde PF é a
profundidade fictícia em metros, a ser utilizada nos
cálculos de descompressão em tabelas, PR é a
profundidade real do mergulho em metros e PBalt é
a pressão barométrica em mmHg na superfície no local
de mergulho. Acima do nível do mar a profundidade
fictícia é sempre maior que aquela realmente atingida
durante o mergulho, o que leva a limites para não
descompressão menores e tempos de parada maiores,
compensando a redução da pressão atmosférica.
Embora a pressão
barométrica não se comporte de forma linear com a
altitude e varie, para um mesmo local em função das
condições climáticas, de modo a simplificar os
cálculos podemos considerar que, pelo menos até 3.000 m
de altitude, a pressão barométrica diminui cerca de 8,3
mmHg a cada 100 m de elevação, o que transforma a
fórmula em:

onde Alt é a
altitude (elevação) em metros da superfície do local
de mergulho.
Como exemplo, vamos
calcular o limite não descompressivo para um mergulho a
23 m de profundidade (PR) em um lago a 3.000 m de
altitude (Alt):

Assim, entraríamos na
tabela com uma profundidade de 34,2 m para encontrarmos o
limite para não descompressão. No caso da tabela da
marinha americana, encontraríamos 15 minutos como o
limite para não descompressão a 36 m (primeira
profundidade maior que 34,2 m). Em contrapartida, o
limite para 24 m (primeira profundidade maior que 23 m)
é de 40 minutos, ou seja, quase três vezes maior !
Recapitulando: para um
mergulho em um lago a 3.000 m de altitude a uma
profundidade real de 24 m, um mergulhador poderia
permanecer até 15 minutos no fundo sem ter que realizar
paradas de descompressão.
O gráfico abaixo mostra
como os limites de não descompressão para diversas
profundidades são reduzidos em função da altitude (no
caso, ao nível do mar e a 1.000, 2.000 e 3.000 m).

No caso de mergulhos com
paradas de descompressão obrigatórias, o método de
Cross prevê a correção da profundidade das paradas
através da seguinte fórmula:

onde PPR é a
profundidade na qual será realizada a parada de
descompressão durante o mergulho e PPT é a
profundidade indicada para a parada na tabela. Assim, se
a tabela indicar uma parada a 3 m de profundidade em um
lago a 3.000 m de altitude, o mergulhador deverá parar
pelo tempo indicado na tabela a uma profundidade real de
2 m:

No entanto, o método de
Cross negligencia pelo menos dois pontos: a correção da
velocidade de subida (importante) e correções devido à
diferença entre a densidade da água doce e da água
salgada (relativamente pequenas). O método de Cross não
foi validado cientificamente e diversos estudos mostraram
que embora ele muitas vezes proporcione limites de não
descompressão adequados, é provável que suas
correções aumentem significativamente o risco de
doença descompressiva comparativamente ao risco
associado às tabelas da marinha americana utilizadas ao
nível do mar. Estas observações são ainda mais
importantes no caso de mergulhos em condições mais
difíceis, como as que ocorrem em mergulhos fundos,
descompressivos ou em águas muito frias.
Outros Métodos de
Ajuste
Outro método de ajuste
empírico adota fatores de correção fixos para 4 faixas
de altitude. Basta determinar o fator adequado para a
altitude e multiplica-lo pela profundidade real do
mergulho para obter a profundidade fictícia a ser usada
nas tabelas. Este método é baseado no mesmo princípio
que o método de Cross mas é mais simples para
aplicação em campo e mais conservador. A tabela abaixo
apresenta os fatores de correção para cada faixa de
altitude.
|
Altitude
(m)
|
Fator
de Correção
|
|
0
a 100
|
1.00
|
|
100
a 300
|
1.25
|
|
300
a 2.000
|
1.33
|
|
2.000
a 3.000
|
1.50
|
Muitas das
tabelas mais recentes apresentam seus próprios métodos
de correção. A maior vantagem destas tabelas com
relação ao método de Cross é que as compensações
para altitude foram estudadas desde o início como parte
integrante das tabelas, o que faz com que, mesmo que não
testadas de forma abrangente, estas correções sejam
compatíveis com os modelos matemáticos ou estatísticos
utilizados na elaboração das tabelas. Um exemplo são
as tabelas DCIEM (Defence and Civil Institute of
Environmental Medicine - Canadá), que incorporam em sua
tabela D fatores de correção de profundidade para 8
faixas de altitude.
Vale lembrar também que
ao subir para uma altitude mais elevada, o mergulhador,
mesmo em terra, estará passando por um processo de
descompressão idêntico àquele que acontece no retorno
à superfície após um mergulho. Isto acontece porque o
organismo do mergulhador está saturado de nitrogênio na
altitude menor e, com a redução da pressão
atmosférica, este nitrogênio deve ser eliminado.
Qualquer mergulho realizado antes de 24 horas após a
subida para uma altitude maior deve ser tratado como um
mergulho repetitivo, visto que o nitrogênio ainda não
eliminado deve ser levado em conta no cálculo do
mergulho.
No caso de mergulhos mais
profundos, mais longos ou utilizando misturas
respiratórias, em geral são utilizados programas de
computador especiais para geração de tabelas
específicas para cada mergulho. A maioria destes
programas permite o ajuste da altitude do mergulho,
alterando de forma correspondente seus cálculos. No
Brasil, tabelas deste tipo foram geradas pelo CEBRAPEHS
para mergulhos profundos em lagos no interior de São
Paulo.
Computadores e Altitude
Muitos computadores
possuem maneiras empíricas ou científicas de ajustarem
seus algoritmos de descompressão para mergulhos em
altitude. A título de exemplo, vamos analisar o
comportamento de dois modelos comuns no mercado
brasileiro: o Aladim Pro e o Suunto Solution.
O Aladim Pro pode ser
utilizado para mergulhos a até 4.000 m de altitude,
incorporando quatro "zonas" de altitude: zona 0
(0 a 1.000 m), zona 1 (600 a 1.900 m), zona 2 (1.400 a
2.800 m) e zona 3 (2.300 a 4.000 m). Um sensor de
pressão determina quando o mergulhador passou de uma
zona para outra e o computador passa então a indicar um
período de adaptação. O algoritmo para cálculo da
descompressão é ajustado automaticamente para a nova
pressão ambiente e mergulhos realizados dentro do
período de adaptação são tratados como um mergulhos
repetitivos (já que o organismo ainda está em um
processo de dessaturação após a mudança de altitude).
Já o Suunto Solution
utiliza três "zonas": nível do mar (0 a 600
m), zona A1 (800 a 1.400 m) e zona A2 (1.600 a 2.400 m),
mas a altitude do local de mergulho deve ser ajustada
manualmente pelo mergulhador através dos contatos
externos, em incrementos de 200 m. Após o ajuste, o
Solution não considera nenhum período de adaptação (o
manual recomenda um mínimo de duas horas) e
imediatamente ajusta o algoritmo para a nova altitude.
Muitos mergulhadores utilizam o ajuste de altitude do
Solution para embutir margens adicionais de segurança
para mergulhos ao nível do mar, principalmente em
condições extremas.
Consulte o manual de seu
computador antes de realizar mergulhos em altitude para
saber se ele possue esta função e quais as suas
limitações (altitude máxima, ajuste manual ou
automático, períodos de adaptação, etc).
Outras Considerações
Além dos problemas de
descompressão, o mergulhador que planeja mergulhos em
altitude deve levar em conta alguns outros fatores.
Acima de 1.500 m de
altitude muitas pessoas sentem o efeito da redução da
pressão parcial do oxigênio, que pode causar sintomas
como fraqueza, dor de cabeça ou mesmo desmaios. Torna-se
então importante minimizar o esforço físico e, em
altitudes maiores, é fundamental programar períodos de
adaptação que podem levar dias ou semanas, como os
praticados por alpinistas. O transporte do equipamento ou
travessias na superfície utilizando o snorkel,
comuns ao nível do mar, podem se tornar esforços quase
impossíveis acima dos 3.000 m. Debaixo d'água a
situação se normaliza, já que abaixo dos 5 m de
profundidade a pressão parcial do oxigênio é maior que
aquela à qual o mergulhador está acostumado ao nível
do mar.
Além de serem afetados
pela diferença entre as densidades da água doce e da
água salgada, os profundímetros também sofrem os
efeitos da redução da pressão atmosférica. Aqueles
baseados em tubo de Bourdon medem pressão absoluta e
são calibrados para o nível do mar. Em altitude, com a
redução da pressão suas agulhas se movem para trás e,
quando submersos, indicam profundidades menores que as
reais. A maioria dos modelos mais recentes podem ser
"zerados" antes do mergulho, indicando assim
profundidades muito próximas das reais que podem ser
corrigidas pelos métodos descritos para o cálculo da
descompressão.
Os profundímetros
baseados em tubos capilares indicam profundidades maiores
que as reais, já que o ar no capilar está a uma
pressão menor que aquela para o qual o equipamento foi
calibrado. Estas profundidades não devem ser corrigidas
e podem ser utilizadas diretamente nas tabelas; no
entanto o uso de profundímetros capilares não é
recomendado devido à sua falta de precisão em
profundidades maiores. De modo a evitar erros, muitos
mergulhadores preferem realizar sondagens com cabos e
pesos para determinar com segurança a profundidade
máxima do mergulho e das paradas de descompressão.
Voando após o Mergulho
O vôo em aviões após
mergulhos é um caso semelhante ao do mergulho em
altitude e bastante polêmico. A título de referência,
as atuais recomendações da DAN (Divers Alert Network)
para viagens de avião após mergulho são, de acordo com
o número de Maio/Junho de 1994 da Alert Diver,
publicação oficial da DAN:
1. Mergulhadores que
realizaram um único mergulho por dia devem fazer um
intervalo de superfície de no mínimo 12 horas antes de
voar ou subir para altitude mais elevadas (de carro, por
exemplo).
2. Mergulhadores que
fizeram diversos mergulhos por dia por vários dias ou
mergulhos com paradas de descompressão obrigatórias
devem tomar precauções adicionais, aguardando por mais
de 12 horas na superfície. O intervalo de superfície
mais prolongado permite uma maior redução do nível de
nitrogênio nos tecidos e pode diminuir a probabilidade
do desenvolvimento de sintomas da doença descompressiva.
Aqueles que mergulham mais durante uma viagem de férias
podem não mergulhar por um dia no meio de cada semana ou
reservar o último dia para compras ou turismo na
superfície.
3. Lembre-se: Nunca vai
existir uma regra que garanta a prevenção da doença
descompressiva, não interessando quão grande seja o
intervalo de superfície. Na verdade, as pesquisas
geraram recomendações que representam a melhor
estimativa de um intervalo de superfície conservador
antes de vôos para a maioria dos mergulhadores. Sempre
existirão casos em que a constituição física de um
mergulhador ou condições especiais de mergulho
resultarão em doença descompressiva.
4. Saiba reconhecer o
momento em que você deve dizer quando está pronto para
voar.
Conclusão
Diversos lagos e rios
possuem grandes atrativos para os mergulhadores e o fato
de eles se encontrarem acima do nível do mar não impede
que sejam explorados. É importante buscar ajuda através
de cursos de especialidade, mergulhadores experientes e
até mesmo alpinistas.
Na hora do mergulho,
esteja preparado e mergulhe conservadoramente,
lembrando-se sempre que os métodos de ajuste para
mergulho em altitude são muitas vezes empíricos e foram
pouco validados na prática. Com relação aos
computadores, não se esqueça de verificar quais as
funções disponíveis para mergulho em altitude e como
utilizá-las.
Com treinamento e
planejamento, o mergulho em altitude abre centenas de
novas oportunidades para os mergulhadores.
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