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Mergulho em Cavernas
Em algumas situações, a única maneira de prosseguir a exploração de uma
caverna é através de mergulho, já que o teto do conduto atinge o nível da
água, dando lugar a uma feição denominada sifão. Existem também cavernas,
como algumas nascentes, que são inteiramente submersas, sem qualquer trecho
com ar. O mergulho em grutas submersas e sifões é a mais especializada de
todas as técnicas associadas à
espeleologia, e também a que oferece o maior número de riscos. Embora guarde
pontos em comum com o mergulho em mar ou rio, muitas das técnicas e
equipamentos utilizados são distintos. Antes de decidir se aventurar em um
conduto submerso, é imperativo que se busque o treinamento adequado. Lembramos
que a certificação para mergulho em mar não é suficiente para o mergulho em
cavernas e cursos específicos voltados para esse ambiente são a única
maneira de se adquirir o treinamento que o habilitará a mergulhar em cavernas
com uma margem aceitável de segurança.
Condutos submersos normalmente não possuem superfície de ar e, para o
mergulhador de cavernas, não existe a possibilidade de simplesmente ascender à
superfície em caso de imprevistos ou falhas. Todos os problemas devem ser
imediatamente resolvidos no local. Considerando o ambiente afótico (sem luz) e
a frequente má visibilidade da água em muitas situações de mergulho,
aliados ao escasso tempo dependente das reservas de ar nos cilindros, conclui-se
que qualquer problema durante o mergulho pode ter consequências dramáticas.
Equipamentos e treinamento adequados frequentemente fazem a diferença entre a
sobrevivência ou não em situações adversas. No mergulho em cavernas não há
lugar para improvisos ou atitudes inconsequentes. Acidentes são em geral
fatais, não existindo a possibilidade de resgate.
Parte do equipamento utilizado em mergulho em cavernas é similar ao
utilizado em mar, como nadadeiras, roupa de neoprene (ou roupa seca), máscara,
colete equilibrador, lastro, profundímetro, manômetro, relógio, tabelas de
descompressão, cilindros de ar comprimido e reguladores. Mas como o ambiente de
cavernas é distinto, importantes adaptações são necessárias. Uma discussão
completa sobre técnicas e equipamentos de mergulho em caverna está além do
escopo deste texto. No entanto, existem normas básicas relacionadas ao consumo
de ar, orientação, iluminação e profundidade que devem ser seguidas à risca
por todos os praticantes.
Em cavernas submersas, é comum que a visibilidade da água seja ruim, devido
à existência de argila no piso e teto dos condutos. Esta argila, quando em
suspensão, pode transformar a água, antes límpida, em uma água turva onde a
visibilidade é reduzida a quase zero. Muitas vezes, esta redução de
visibilidade é causada pela própria passagem do mergulhador. Assim sendo, um
conduto submerso, antes de fácil orientação visual na ida, se torna um
pesadelo em termos de se encontrar o caminho correto quando do retorno. Por
isto, a primeira regra vital do mergulho em cavernas manda carregar um carretel
de linha, denominada cabo-guia. Consiste em uma linha de nylon de cerca de 2,5
mm de espessura, enrolada em um carretel. Logo na entrada do conduto submerso,
deve-se efetuar uma amarração principal, e em seguida, deve-se desenrolar a
linha durante o trajeto, amarrando-a em locais propícios, como projeções na
rocha. No retorno, o cabo-guia muitas vezes é o único referencial do espeleólogo.
Assim sendo, em nenhuma circunstância o espeleólogo deve se separar de seu
cabo-guia.
No caso de mergulho em equipe, o primeiro explorador é responsável pela
colocação da linha e o segundo deve sempre manter contato visual com a mesma.
Em caso de má visibilidade, ele deverá segurar a linha entre os dedos. Além
de exercer a função de elemento vital de orientação, o cabo guia, quando
devidamente marcado a intervalos regulares (a cada 10 metros por exemplo) é
essencial para a topografia da caverna, exercendo a mesma função da trena em
cavernas “secas”.
Iluminação adequada é essencial em qualquer ramo da espeleologia. Durante
o mergulho em cavernas, a segunda regra básica manda carregar ao menos três
fontes de luz. A iluminação principal, de maior potência, deve ter duração
de no mínimo o dobro do tempo planejado para o mergulho. As outras duas
lanternas, secundárias, também devem ter cada uma duração mínima igual ao
tempo previsto para o mergulho. Antes de iniciar o mergulho, deve-se assegurar o
adequado funcionamento das lanternas, checando baterias e pilhas. É fácil
prever as circunstâncias pouco favoráveis que podem resultar da falha de
lanternas durante o mergulho, deixando o espeleomergulhador na mais completa
escuridão.
O correto planejamento da utilização das reservas de ar é também
fundamental. A terceira regra capital do mergulho em cavernas manda utilizar no
máximo 1/3 das reservas de ar durante a penetração, reservando-se, ao menos,
2/3 para o retorno. Antes de iniciar o mergulho, cheque suas reservas de ar.
Anote em uma prancheta a pressão que corresponde ao seu ponto de retorno (1/3
de todo o ar), e sempre checando o manômetro retorne imediatamente quando
atingir a pressão prevista. Conforme já frisado, o retorno muitas vezes
demanda mais tempo do que a penetração, devido a problemas com visibilidade e
imprevistos diversos. Reservando 2/3 do ar, o espeleólogo terá uma margem de
segurança para lidar com estes imprevistos.
A quarta norma vital de segurança em mergulho em cavernas manda evitar
mergulhos profundos. Acima de 40 metros de profundidade, o nitrogênio presente
no ar comprimido gradualmente passa a possuir atuação tóxica, produzindo um
estado conhecido como narcose, onde o mergulhador tem sua capacidade de raciocínio
deteriorada. Igualmente, dependendo do tempo despendido a maiores profundidades,
pode se tornar necessário que se efetue descompressão, de forma a eliminar
gradualmente as bolhas de nitrogênio nos vasos sanguíneos. Todos estes
complicadores fazem com que o mergulho profundo possua riscos adicionais. É
essencial que se busque treinamento complementar antes de se aventurar em
profundidades elevadas. Técnicas de misturas de gases contribuem para aumentar
a margem de segurança do mergulho profundo, mas ainda assim, riscos existem.
Todas estas quatro regras de segurança, na verdade, são dependentes de uma só:
treinamento. A obtenção de treinamento adequado é a mais importante regra de
segurança no mergulho em cavernas.
Algumas das técnicas e equipamentos utilizados em mergulho em cavernas
variam de acordo com a região, adaptando-se às condições locais de mergulho.
Mergulhadores americanos, acostumados às nascentes da Flórida e cavernas
alagadas do México, onde o acesso à água é, em geral, fácil, os condutos são
amplos e toda a caverna é alagada, privilegiam o uso de grandes e pesados
cilindros duplos nas costas, unidos por um primeiro estágio que habilita o
acesso uniforme ao ar de ambos os cilindros, além de colete equilibrador
afixado à armação dorsal. Este sistema possibilita que se carregue grandes
reservas de ar e é extremamente eficiente e prático na água. No entanto, em
caso de cavernas com trechos onde é preciso caminhar, este sistema torna-se
inviável devido ao peso, pois não é possível separar os cilindros. São frequentes
sifões em regiões remotas, onde se tem que caminhar longas distâncias no mato
e, em seguida, atravessar trechos subterrâneos por vezes envolvendo abismos e
tetos baixos até atingir o sifão. Nesse caso, é essencial que se possa
dividir o equipamento, para que ele possa ser transportado por mais de uma
pessoa. Cilindros laterais são uma boa alternativa nesta situação,
habilitando inclusive a exploração de tetos baixos submersos, não acessíveis
com os cilindros dorsais. Ambos os sistemas tem sido utilizados no Brasil,
dependendo da caverna a ser explorada. Mais recentemente, o uso de recicladores
(rebreathers) tem aumentado a autonomia do mergulho sem aumentar o peso do
equipamento a ser transportado.
Existem alguns outros pontos onde não existe consenso entre os mergulhadores
de caverna. O uso de capacete é defendido por espeleólogos europeus,
principalmente devido ao fato de que trechos em grutas secas (onde o uso de
capacete é obrigatório) fazem parte do dia-a-dia do mergulho na Europa. O
capacete, além da óbvia função de proteger a cabeça, possui a vantagem de
servir de suporte às lanternas, deixando as mãos livres. Mergulhadores
americanos, por outro lado, possuem reduzida experiência em cavernas secas e,
por isso, não tem o hábito de usar capacetes. As lanternas são carregadas à
mão ou clipadas ao cinto.
A necessidade de se mergulhar em dupla, uma regra fundamental no mergulho de
mar, muitas vezes não é recomendada em cavernas. Caso o conduto seja estreito
e a visibilidade da água seja limitada, um companheiro de exploração pode ser
de pouco auxílio, pois não haverá possibilidade de comunicação. Nesta situação
pode ser mais arriscado mergulhar em dupla do que em solitário.
As técnicas de progressão na água durante o mergulho em cavernas também
diferem das utilizadas no mar. O objetivo principal é se locomover sem levantar
a fina camada de argila que normalmente se concentra no piso. Assim sendo, a
postura ideal do mergulhador de caverna é manter o corpo um pouco inclinado
para frente. Para que se obtenha tal postura, não se recomenda a colocação do
lastro no cinto, mas mais próximo dos ombros. As nadadeiras devem ser mantidas
à distância do piso, dobrando-se as pernas durante a movimentação, evitando
ao máximo o contato com os sedimentos.
O mergulho em cavernas é uma atividade de alto risco que merece ser tratada
com seriedade. Obtenha treinamento adequado antes de se aventurar em uma caverna
submersa. Fonte: Redespeleo
Brasil Fotos gentilmente cedidas por: Adriano Gambarini
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