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"Onde diabos você anda mergulhando ?"
Acho que nunca vou me esquecer da expressão de uma mergulhadora
numa operação ao me fazer esta pergunta quando eu dizia para alguém
no barco, que uma das coisas que eu mais gostava no mergulho era pegar
o meu carro, rodar vários quilômetros - grande parte em trilhas de
terra - entrar em fazendas, me embrenhar no mato e andar por várias
horas, carregar o equipamento por longas distâncias, muitas vezes
tendo que descer em buracos profundos com a ajuda de cordas e, depois
do mergulho, dirigir até alguma pequena cidade próxima, arranjar uma
pensão e cair na cama exausto, mas completamente realizado.
Então eu tive que explicar para ela que eu estava falando dos
mergulhos que eu fazia aqui em Brasília, quase sempre acompanhado do
meu dupla Cristiano Santos. Seu espanto aumentou quando eu continuei
descrevendo a preparação dos mergulhos. Pena que ela não pôde, ali
no barco, imaginar os lugares onde nós mergulhávamos depois de toda
a ralação. Agora ela vai saber.
O esforço
A marcação de GPS desta caverna foi passada ao Criso por um amigo
dele, que fez um trabalho de levantamento para a construção de uma
grande represa ao norte de Goiás. Como já haviam passado muitos anos, ele não se
lembrava bem das possibilidades de mergulho na caverna, mas garantiu
tratar-se de um lugar muito belo e praticamente virgem.
Depois de percorrer cerca de 300 Km partindo de
Brasília, já no município de Barro Alto – o nome já diz tudo -
nos deparamos com duas estradas de terra que pareciam seguir na
direção do ponto marcado no GPS. O nosso destino supostamente
estaria a cerca de 40 Km de distância. Como sempre acontece, meu
instinto indicava um caminho, o dele outro. Quem desempatou foi o
Wantuil, um amigo que foi para nos ajudar na busca.
No início, a estrada era boa e a distância até a marcação
diminuía rápido. Depois, a estrada foi diminuindo e a cada
bifurcação uma nova briga começava para decidir qual caminho
seguir. Após horas de idas e vindas percebemos estar a apenas 5 Km do
ponto indicado no GPS, quando a estrada, que há muito já tinha se
tornado uma trilha, acabou. Ali estávamos, após várias horas, de
volta à estaca zero.
"Que nada, isso aqui é uma Bandeirante", gritei, e nos
embrenhamos no mato, com o Wantuil, a pé, seguindo na frente para nos
guiar. O mato cobria até o teto do carro. Foi nestas circunstâncias
que, a apenas 2 Km da marcação chegamos em um braço da represa.
Agora, só de barco. O jeito foi desistir e tentar a outra estrada de
terra – lembra dela ?
Voltamos até o asfalto, pegamos a outra estrada de terra e depois
de muito vai e volta chegamos ! Estávamos a menos de 200 metros do
ponto e saímos correndo pelo pasto, mas...nada. Andamos, andamos e
nada. Nos separamos, cada um com um GPS e nada. Então fomos até uma
casa, na beira da represa. O proprietário nos falou que realmente
havia uma caverna com um pequeno e belo poço ali perto. Afirmou que a
tal caverna ficava numa parte da fazenda que ele havia vendido e que,
se quiséssemos, poderíamos montar as barracas ali mesmo e esperar o
outro dia, quando ele, depois de nos servir um churrasco, poderia nos
levar até lá.
Não deu para esperar. Voamos para lá, mortos de ansiedade,
seguindo a indicação do fazendeiro e com o sol já prestes a se
pôr. Mais uma vez nos separamos e sumimos no mato, revirando moitas,
descendo pirambeiras, até anoitecer. E...nada !
Desta vez voltamos para casa, exaustos e decepcionados. Silêncio
total no carro, não fosse pelo velho motor 608 da Bandeirante.
Não desistimos. Combinamos que a próxima investida seria no final
de semana seguinte. Saímos mais uma vez de Brasília por volta das
seis horas e lá pelas onze já estávamos na boca da caverna. A
emoção era grande e a vontade de descobrir as condições para
mergulho maior ainda. Descemos o barranco, que leva até o lago (com
altura de mais ou menos 80 metros), correndo. Checamos o local e
voltamos para buscar a tralha. Depois de umas três descidas e
subidas, estávamos equipados e prontos para mergulhar num local onde
não tínhamos qualquer informação de que algum outro mergulhador
já tivesse estado.
A recompensa
Sentamos numa pedra, respiramos, demos um tempo para nos ambientar
e, com muito cuidado, entramos na água, que estava parcialmente
coberta com uma pequena crosta de poeira. O lugar é fantástico. A
água tem um azul impressionante. Após entrar no pequeno lago,
abre-se um salão enorme. Passei o cabo e fomos descendo, até o
fundo, aos 42 metros. O lugar é muito amplo, tanto para os lados
quanto para o alto e, lá do fundo, ainda é possível ver a boca da
caverna, como se fosse um pequeno vitral, lá no alto.
Saímos então em busca de alguma galeria, alguma ramificação que
fosse além daquele salão. Não encontramos e abortamos o mergulho,
para voltar depois e continuar a exploração.
Infelizmente, mais uma vez não conseguimos encontrar o que
procurávamos. A caverna era constituída apenas daquele salão, com
uma das águas mais bonitas que eu já havia visto. Após algumas
visitas ao local, decidimos ir em busca de novos lugares, reiniciando
nossa jornada.
A saudade
Durante alguns anos este relato era comum em meus finais de semana
e mais ainda nos do Cristiano (Santos, instrutor da Divers University
em Brasília), uma pessoa que se dedicava inteiramente ao mergulho, de
forma séria e profissional, procurando se aperfeiçoar, aprendendo
com seus alunos, sempre curioso em ouvir aqueles que tinham opiniões
diferentes das suas, principalmente com relação ao mergulho
técnico. Assim, ele foi um exemplo não só para seus muitos alunos,
mas para todos nós que convivíamos e mergulhávamos com ele.
Com certeza, seu falecimento no ano passado vai deixar uma lacuna
imensa no meio do mergulho não só pela saudade que ele deixou mas,
também, pelo trabalho que ele desenvolvia, como excelente instrutor e
na sua busca incansável pelas cavernas maravilhosas que ele sempre
acreditou estarem aqui por perto, e que agora, vão demorar um pouco
mais para serem descobertas.
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