|
Expedição Buraco
das Abelhas
Depois de quase dez anos de restrições, o mergulho em cavernas no
Brasil deu um passo importante para uma nova fase. Aconteceu em agosto
último (2006), no Mato Grosso do Sul, a Expedição Buraco
das Abelhas, que teve como objetivo, a coleta dos dados necessários
para a produção de um plano de manejo que será referência para
todas as cavernas submersas do Brasil. A caverna alagada Buraco das
Abelhas, localizada no Parque Nacional da Serra da Bodoquena, será a
primeira caverna no Brasil com Plano de Manejo para espeleomergulho.
Depois da recente publicação da Instrução
Normativa IBAMA nº 100/06 que regulamenta o mergulho em
caverna, esta expedição é o primeiro passo para a aceleração do
processo de liberação de autorizações e manejo de cavernas
submersas.
Este é um projeto do CEMEC, Conselho Especializado de Mergulho em
Cavernas, que presta assessoria ao CECAV (Centro Nacional de Estudo,
Proteção e Manejo de Cavernas) em assuntos pertinentes às cavernas
alagadas desde 2001 e conta com representantes das certificadoras de
mergulho que atuam no país, e foi desenvolvido com amplo apoio do
CECAV que cuidou de conseguir os recursos necessários à sua realização.
O fato da caverna estar localizada dentro de um Parque Nacional, ou
seja, uma área administrada pelo IBAMA, patrocinador da expedição,
foi importante na escolha do Buraco das Abelhas. Além disso, é uma
cavidade adequada tanto para mergulhadores em treinamento quanto para
os mais experientes. Há trechos rasos e profundos, uma grande área
fica abaixo dos 30 metros, chegando aos 50 metros de profundidade,
possuindo condutos largos, restrições, possibilidade de penetração
extrema e é uma caverna freática, não possui espeleotemas, o que
diminui consideravelmente o risco de impactos ambientais.
O Buraco das Abelhas é uma ressurgência de um rio subterrâneo. Há
um pequeno lago com um espaço aéreo na entrada e a água corre para
uma insurgência restrita. Na época de chuvas, entre novembro e março,
o nível da água pode subir cerca de 6 metros, deixando a
visibilidade bastante prejudicada. Além disso, folhas e galhos são
encontrados a 500 metros da boca da cavidade, indicando que há uma
insurgência desconhecida que deve ser pesquisada. Sua fauna conta com
peixes cavernícolas e peixes de rio que entram na época das chuvas
quando um rio temporário é formado, ficando alí aprisionados. A
formação geológica do Buraco das Abelhas é muito interessante com
suas grandes fraturas e condutos quilométricos em vários níveis de
profundidade, o que proporciona mergulhos incríveis.
A Expedição
Éramos dezoito mergulhadores na expedição, uma equipe que juntou
mergulhadores de várias cidades e estados do Brasil: São Paulo,
Campinas, Jundiaí, Belo Horizonte, Bonito e Brasília. Foi também,
um encontro de gerações, pois grande parte da equipe com mais de dez
anos de experiência nestes ambientes, oriunda da primeira leva de
mergulhadores de caverna do país e uma nova geração, que foi
treinada nos EUA e México, que nunca havia mergulhado em uma caverna
em território nacional.
Ficamos hospedados na Fazenda Figueira, local onde funcionou a
pousada que na época áurea do mergulho em caverna no Brasil,
abrigava os mergulhadores. Como a construção estava abandonada há
anos, contamos com a ajuda do exército nas instalações. A
Prefeitura de Jardim nos forneceu a comida e contratou a Dona Teresa
que comandou muito bem a cozinha, improvisada em uma casinha de
madeira, durante o mês todo.
A fazenda ficou bem movimentada, com os trabalhos que se iniciavam
bem cedo pela manhã e terminavam à noite com a recarga dos cilindros
para o dia seguinte e a introdução dos dados coletados em um
programa para a confecção do mapa.
O primeiro trabalho foi a instalação de uma linha contínua até
águas abertas. Apesar da caverna estar cabeada há anos, o alto fluxo
de água e os vários pontos de atrito do cabo com a rocha, acabaram
por seccionar em alguns lugares. O mapeamento demandou uma quantidade
maior de horas mergulhadas, e para otimizar a tarefa, dividimos a
caverna em setores, sendo cada um deles topografado por uma dupla de
mergulhadores. Este sistema criou independência entre os vários
times e permitiu que algumas duplas fizessem até três mergulhos por
dia nas áreas mais rasas da caverna. Após o mergulho de
reconhecimento, as equipes passaram a trabalhar em seus setores. Novos
cabos melhor posicionados para o mapeamento, foram instalados.
Apesar do limite de profundidade para uso de ar em cavernas
estabelecido pelas certificadoras ser quarenta metros, optamos por
fazer todos os mergulhos abaixo de trinta metros utilizando hélio na
mistura de fundo, ganhando muito na segurança do mergulhador e precisão
na coleta de dados. Havia pelo menos quatro duplas trabalhando
simultaneamente no mapeamento da caverna durante todo o período.
Alguns membros acumularam outras funções como o registro de imagens,
trabalhos de arquitetura, biologia e geologia, sendo que neste último,
contamos com a participação de um importante geólogo, o Dr. Ivo
Karmann.
Um momento especial da expedição foi a retirada do cabo antigo
quando pudemos viajar através da história do mergulho no Buraco das
Abelhas pois estavam lá inúmeras setas com nomes e marcações
daqueles que a exploraram. O primeiro mergulho no Buraco das Abelhas
foi feito em 1995, graças a uma das principais figuras responsáveis
por trazer ao mundo dos apaixonados por cavernas inundadas, nascentes
e cavernas alagadas "novas" na região de Bonito
/ Jardim, o Juca da Ygarapé. Participaram deste primeiro mergulho com
o Juca, Gilberto Menezes e Rogério Perdigão. Gil, foi o grande
explorador deste sistema que também foi explorado (Exploração =
primeira incursão / cabeamento na caverna ou conduto da cavidade) por
Gabriel Ganme e Eddie Costa Jr., que alternaram durante algum tempo, a
ponta do cabo do conduto principal com o Gil. Outros exploradores
foram Matheus Sanches, que cabeou as chaminés das fraturas, além de
descobrir uma ligação, que leva seu nome, entre dois túneis. Jarrod
Jablonski, que descobriu uma ligação entre as duas fraturas, e
Marcus Werneck e Mauricio Henriques adicionaram cabo ao sistema.
Terminada a coleta de dados, o cabo de mapeamento foi retirado. Um
novo cabo, de nylon poliamida trançado de 3,5 mm foi instalado na
caverna, seguindo o padrão americano utilizado nas cavernas da Flórida;
amarelo e contínuo no conduto principal, branco nos condutos laterais
com o uso de jumps, que são espaços vazios entre o cabo do conduto
principal e o início do cabo dos laterais, desobrigando a tomada de
decisão direcional de quem segue pelo principal e obrigando a instalação
de pequenas carretilhas de jump, conectando o cabo principal aos
laterais pelos mergulhadores do nível cave, para seguirem por túneis
alternativos.
As setas (instaladas nos cabos fixos das cavernas indicando a saída
mais próxima) também foram substituídas por novas, agora sem o nome
do mergulhador, apenas com o nome do túnel e a distância da entrada
da caverna. A idéia é utilizar o cabo original retirado para montar
um quadro histórico na sede do PARNA Bodoquena.
Com a coleta das informações necessárias para definir o
zoneamento das áreas internas da caverna, será elaborado um plano de
uso público e instalada uma infra-estrutura de apoio. A topografia
possibilitará um anteprojeto arquitetônico que prevê colocação de
escada de acesso à água, construção de um deck, mesas para
equipagem, banheiros químicos e outras melhorias que têm como
objetivo proporcionar a atividade de espeleomergulho com o mínimo
impacto ambiental e o máximo de segurança dos mergulhadores.
Ao final de quase 30 dias, muitas horas de mergulho, várias
medidas tiradas, bastante ralação e algumas picadas de abelhas,
finalizamos, com satisfação, o trabalho de campo, que foi apenas o
início do trabalho de gabinete para a finalização dos mapas e relatórios
e edição de imagens. Estamos otimistas de que teremos boas notícias
em breve.
Equipe da Expedição
| Mergulho |
Adrian Martino |
Captação de imagens |
|
Adriana Castro, Drica |
Topografia subaquática |
|
Alexandre Barbosa |
Mergulhador de segurança |
|
Alvanir Oliveira, Jornada |
Mergulhador de segurança e topografia
subaquática. |
|
Bernardo Campos |
Topografia subaquática |
|
Bruno Tae |
Topografia subaquática e croqui |
|
Daniel Vilela |
Topografia subaquática |
|
Edmundo Costa, Eddie |
Biologia e topografia subaquática |
|
Eduardo Macedo, Jamaica |
Topografia subaquática e croqui |
|
Eduardo Valensia |
Geologia e topografia subaquática |
|
Henrique Maurer |
Topografia subaquática |
|
Joana Elito |
Arquitetura |
|
João Paulo Franco, Johnny |
Topografia subaquática |
|
José Barroco, Tuta |
Coordenação, topografia subaquática e
croqui. |
|
José Boaventura |
Croqui |
|
José Mario Ventura |
Topografia subaquática e croqui |
|
Luis Pedro, Luisão |
Topografia subaquática |
|
Romeu Dib |
Topografia subaquática |
| |
|
| Geologia |
Dr. Ivo Karmann |
| |
|
| CECAV |
Cristiano Fernandes Ferreira |
|
Wanderlei Souza |
| |
|
| Apoio |
D. Teresa - Cozinheira |
|
Soldado Cavanha |
|
Soldado Elcio |
|
Soldado Souza |
| |
|
| Agradecimentos |
4º Companhia de Engenharia de
Combate Mecanizada |
|
Associação Nova Esperança de
Jardim / Bonito |
|
Dr. Adílio Miranda - PARNA
Bodoquena |
|
Fazenda Jatobá |
|
Juca Ygarapé |
|
Vera Christiana Pastorino -
CECAV |
| |
|
| Patrocínio |
IBAMA / CECAV |
|
Prefeitura de Jardim |
O diário da expedição pode ser visto no site do IBAMA: www.ibama.gov.br/cecav/index.php?id_menu=251
Colaboração: Tuta Barroco
|
Fotos: Adrian Martino

Realizando a topografia da caverna

Topo parte seca

Recarga dos cilindros

Fenda Abelhas


À noite os dados eram introduzidos no programa e o mapa ia ficando pronto

Topo salão

Mergulhador no Buraco das Abelhas
|
 |
| Clique para ampliar |
|