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Rebreathers e o Mergulho em Cavernas
O uso de rebreathers em mergulhos exploratórios de cavernas,
apesar de ser uma prática antiga, vem ao longo da última década se
estabelecendo como um procedimento padrão. Por outro lado, a
comunidade de mergulho esportivo cada vez mais utiliza este tipo de
equipamento em mergulhos que, apesar de técnicos, são turísticos e
voltados à recreação.
Quando pensamos em mergulhos em cavernas, o nome de Wookey Hole
aparece como sendo um dos berços desta atividade. Explorada desde a
década de 30 do século passado, esta caverna inglesa viu, em um
primeiro instante, o uso de rebreathers de oxigênio na conquista de
seus sifões. Posteriormente, o uso de rebreathers de circuito
semi-fechado de Nitrox e de rebreathers de circuito fechado se
tornaram necessários à exploração dessa caverna. Outras
explorações de cavernas em toda a Europa também fizeram, e fazem
até hoje, o uso de rebreathers.
Os rebreathers também são comuns em explorações de cavernas
Norte Americanas. Um dos projetos mais ambiciosos envolvendo estas
máquinas foi o Wakulla
2. Criado pelo Dr. Bill Stone, este projeto,
na sua segunda edição, tinha como objetivo explorar e mapear o
sistema Wakulla Springs no Norte da Florida. Com uma idéia que havia
começado dez anos antes, o Dr. Stone desenvolveu um rebreather de
circuito fechado de misturas gasosas para ser utilizado durante o
projeto, e que seria comercializado posteriormente, o Cis-Lunar. Este
projeto é considerado um marco no uso de rebreathers em explorações
de cavernas. O sistema Wakulla também é palco de outro projeto que
tem feito o uso de rebreathers, o WKPP.
Este projeto usa o rebreather de circuito semi-fechado RB80.
Recentemente, e com o uso de rebreathers, mergulhadores conseguiram
conectar o sistema Leon Sinks e Wakulla Springs.
Inúmeros outros projetos fazem uso da tecnologia de reciclagem de
gases na exploração de cavernas em diversos países, em todos os
continentes. O uso de rebreathers em explorações de cavernas traz
alguns benefícios. Em primeiro lugar, assim que o desenvolvimento
linear e a profundidade da caverna começam a aumentar, os desafios
logísticos se tornam complicados. Em circuito aberto isto significa
ter que preparar a penetração na caverna com uma série de cilindros
auxiliares, que vão ser usados durante a entrada e a saída da
caverna e, se a exploração continuar, esses cilindros terão que ser
recarregados com misturas gasosas, de novo. O uso de rebreathers não
nos livra completamente destes cilindros auxiliares, já que
precisamos ter acesso a uma alternativa em circuito aberto para a
eventualidade de uma falha no rebreather. Por outro lado, falhas
catastróficas são muito raras. A probabilidade de termos que usar
esse gás de segurança é muito remota. Podemos dizer que uma vez
preparados, esses cilindros não vão precisar ser recarregados com
misturas durante o resto da exploração. É claro que os cilindros
dos rebreathers devem ser recarregados após cada mergulho, mas estes
têm um volume muito menor do que os cilindros duplos usados para
mergulhos em caverna e, portanto, demoram bem menos a serem
recarregados. Além disso, um cilindro de três litros, comum em
sistemas de circuito fechado eletrônicos, pode durar horas a qualquer
profundidade.
Cavernas também podem nos apresentar situações imprevistas,
principalmente cavernas inexploradas ou com pouca visitação.
Instabilidades geológicas, presença de silte e muita percolação,
por exemplo. Durante uma situação de emergência o nosso maior
aliado é o tempo que temos para encontrar uma solução para o
problema. Em circuito aberto, o tempo disponível está diretamente
ligado ao suprimento de gás disponível ao mergulhador. Nestas
situações, a pressão do tempo aumenta a cada ciclo respiratório. O
rebreather, por outro lado, oferece segurança estendida. Em
situações adversas, o tempo deixa de ser um inimigo e se torna um
aliado. Podemos parar, respirar e pensar mais.
Explorações também podem se tornar muito caras. Imaginem só o
custo operacional em circuito aberto de uma exploração de um conduto
que se desenvolve a uma profundidade de 80 ou 90 metros. O uso do
rebreather vai tornar esse custo operacional muito menor,
especialmente através do baixo consumo de misturas com gás Hélio.
É claro que existem custos operacionais relacionados com o rebreather
que não existem em circuito aberto – a cal sodada, sensores de
oxigênio (para rebreathers de circuito fechado), manutenção
específica – mas estes custos são mínimos quando comparados ao
custo do Hélio.
A possibilidade de tempos de mergulho estendidos também traz uma
vantagem operacional. Vamos pensar que para acessarmos um determinado
conduto de uma caverna temos que nadar duas horas. Cada vez que
precisarmos chegar até esse conduto perdemos duas horas de mergulho.
Depois de uma navegação dessas seria interessante poder realizar o
maior numero de tarefas possíveis e, dessa forma, diminuir o numero
de vezes que precisamos fazer esse trajeto. Em circuito aberto, para
podermos estender o mergulho além dessas duas horas precisamos
carregar uma grande quantidade de gás. Com o rebreather podemos
estender o nosso tempo de mergulho, e assim otimizar cada viajem,
realizando um maior numero de tarefas. É claro que existem outros
fatores no planejamento desse tipo de mergulho que podem impedir uma
exploração muito extensa, como por exemplo, restrições térmicas,
o longo uso de pressões parciais de oxigênio, duração do
depurador, etc.
Mergulhos estendidos geram um maior estresse térmico ao
mergulhador. O gás que respiramos em circuito aberto é frio e seco.
Os rebreathers, ao contrário do circuito aberto, minimizam a perda de
calor. Por um lado, a reação química que transforma o CO2 em
carbonato de cálcio gera calor. Por outro lado, em circuito aberto
cada vez que respiramos o gás frio que vem do cilindro estamos
resfriando os nossos pulmões e, consequentemente, o resto do nosso
corpo. Nos rebreathers o gás respirado vem quente e é reaproveitado,
minimizando a perda de calor. Outro ponto importante para mergulhos de
longa duração é o fato de que o gás respirado nos rebreathers tem
uma umidade alta, minimizando os problemas relacionados com a
desidratação.
Podemos falar de uma série de benefícios que os rebreathers
trazem ao mergulho exploratório e recreativo, mas não podemos nos
esquecer dos desafios que eles oferecem. Em primeiro lugar temos que
considerar que equipamentos específicos requerem treinamento
específico. Isto significa que, antes de podermos mergulhar com um
rebreather, devemos passar por um treinamento formal através de uma
certificadora de mergulho. Além do custo de treinamento temos o custo
do próprio equipamento. Rebreathers não são baratos. Como em tudo o
que fazemos, temos que colocar o custo inicial e o custo de
manutenção em perspectiva, e decidir se vale a pena o investimento.
Mergulhar com rebreathers significa aumentar o risco. Assim como na
análise de um investimento, precisamos entender a relação
risco-benefício e decidir se vale a pena. Rebreathers são compostos
de sistemas de alta pressão iguais àqueles usados em circuito
aberto. O risco aumenta com o uso de outros sistemas. No caso de
rebreathers de circuito semi-fechado temos o sistema de depuração.
Em sistemas de circuito fechado temos a adição de computadores,
sensores e válvulas de adição. É claro que existem procedimentos
específicos para lidar com cada uma das falhas, mas eles também
dependem da atenção do mergulhador. O acúmulo de tarefas pode levar
a uma falha humana.
Apesar do custo inicial elevado e dos riscos adicionais, nos
últimos anos os rebreathers começaram a aparecer como ferramentas
úteis aos mergulhadores técnicos e de caverna. Na Europa e nos
Estados Unidos é comum encontrar mergulhadores que vão fazer
mergulhos "recreativos" em cavernas com rebreathers. Eles
usam estes equipamentos pelas mesmas razões que um explorador os
utiliza e que mencionamos anteriormente.
Recentemente tive a oportunidade de mergulhar com um rebreather de
circuito fechado em duas cavernas em que já havia mergulhado em
circuito aberto diversas vezes. Os mergulhos em circuito fechado foram
"um pouco" diferentes dos que havia feito em circuito
aberto.
No parque estadual de Peacock Springs, ao norte da Flórida, existe
um grande sistema de cavernas com várias entradas acessíveis aos
mergulhadores. Um dos mergulhos considerados clássicos nesse local é
a travessia de Orange Grove para Peacock I, também chamada de Mile
Run. Este mergulho costuma durar cerca de duas horas, nadando a maior
parte com uma leve correnteza a favor, e aproveitando as entradas de
Challenge e Olsen para recalcular o terço do suprimento de gás. Em
circuito fechado fiz o que nunca me havia passado pela cabeça –
sair de Peacock I, visitar a placa em Orange Grove, e voltar até
Peacock I, sem parar em Olsen ou Challenge, nem na ida nem na volta.
Três horas e meia de mergulho, 520 litros de ar e 400 litros de
oxigênio consumidos durante todo o mergulho !
Para um mergulhador friorento como eu, fazer este mergulho em
circuito aberto significaria ter passado um frio de lascar, mesmo com
roupa seca. Também teria urinado o mergulho inteiro, ficado
desidratado e com maior risco de doença descompressiva. Sem falar no
peso e tralha que precisaria carregar.
Outra caverna que tive a oportunidade de revisitar foi Eagle’s
Nest, na região de Tampa. Esta é uma das cavernas mais profundas da
Flórida e tem uma interessante configuração. O mergulho começa em
uma bacia que se desenvolve na forma de um funil. No final desse
"funil" encontramos o salão inicial e a partir deste salão
se desenvolvem dois túneis, o downstream e o upstream. Um terceiro
túnel, o Lockwood, se desenvolve a partir do downstream. Estes
túneis têm profundidades que chegam a quase 100 metros e o mais
longo se estende por quase 700 metros. Mergulhar em circuito aberto
neste sistema significa gastar uma bela grana em misturas gasosas com
Hélio, além dos gases de descompressão. Em dois mergulhos que fiz
usando um rebreather de circuito fechado - com profundidades de 85 e
83 metros, o primeiro com cerca de duas horas e meia de duração
total e o segundo com cerca de duas horas – gastei 300 litros de
heliox 12/88, cerca de 500 litros de oxigênio, e mais um pouco de ar
para encher a asa. Se eu fosse fazer os mesmos mergulhos em circuito
aberto teria respirado cerca de 4000 litros de heliox, em cada
mergulho !
Os rebreathers são cada vez mais populares, especialmente entre
mergulhadores técnicos. A relação custo-benefício é favorável a
partir do momento em que mergulhos profundos se tornam parte do
cotidiano de um mergulhador técnico. A relação risco-benefício é
mais complicada de ser estabelecida. Por um lado, cada mergulhador tem
uma forma de encarar o risco. O que é um risco inaceitável para uns
é um procedimento padrão para outros. Por outro lado, o fator que
mais contribui para o aumento ou diminuição do risco é a atitude do
mergulhador. Mergulhar com rebreathers é potencialmente mais
arriscado do que se mergulhar em circuito aberto, e quanto mais
sofisticado o rebreather maior é o risco potencial. De qualquer
forma, é preferível ver um mergulhador consciente mergulhando em um
rebreather do que um "tigrão" mergulhando em circuito
aberto.
Agradecimento especial: Paul Heinerth
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Fotos: Paul Heinerth

O2ptima e Cis-Lunar se preparando para entrar na água

Vista externa de Eagle’s Nest

Descendo em Eagle’s Nest

A placa em Eagle’s Nest

Mergulhando em Madison Blue
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