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Mergulhos técnicos na Pedra do Badejo e Galeão
Sacramento com rebreathers de circuito fechado e CCR Innerspace Systems
Megalodon
Ficamos sabendo da existência da Pedra do
Badejo através do Carlinhos, pescador veterano e dono do barco
Marline, que costumamos alugar para fazer mergulhos alternativos em
Salvador. Esse ponto se encontra afastado da costa cerca de 7 milhas,
situando-se portanto em águas azuis. Trata-se de um pesqueiro
profundo, conhecido por pescadores da região que utilizam o narguilé
como ferramenta de pesca.
A idéia de organizarmos um deep air dive por lá
partiu de Peter Tofte e Euripedes, e logo comentei com László
Mocsari, meu parceiro para mergulhos com rebreathers, sobre a
possibilidade de fazermos o nosso primeiro mergulho com Trimix e
equipados de rebreathers, juntos com eles nessa saída.
A profundidade exata do local não era conhecida,
mas estimava-se algo entre 45 a 50 metros, podendo alcançar até um
pouco mais. Esta estimativa teve como fonte o relato de pescadores que
frequentavam o ponto, bem como o fato dele estar próximo a outros
sítios de mergulho conhecidos, como a Pedra da Caranha (46 metros) e
Destroyer (52 metros), cujas profundidades se situavam próximas a
esses patamares.
Havia o relato do encontro de mergulhadores de
compressor com tubarões martelo naquele ponto de mergulho, o que
tornava o mergulho mais interessante, devido a possibilidade de
avistarmos grande peixes entocados no fundo, ou quem sabe até algum
tubarão perdido mariscando pelo pedrado atrás de suas presas.
O planejamento
O planejamento principal do mergulho era eu e
László Mocsari, que estávamos equipados com rebreathers de circuito
fechado eletrônicos Megalodon, iríamos descer no máximo até os 50 metros
e realizarmos 40 minutos de tempo de fundo. Combinamos também, que
apesar de estarmos usando Trimix 15/30 como gás diluente, a
navegação seria feita com o auxilio de carretilhas, pois nunca
tínhamos mergulhado naquele local e assim, evitaríamos qualquer problema
de orientação no fundo. Além disso, pela experiência que eu já
tinha de mergulhos anteriores na Pedra da Caranha, que é próximo à
Pedra do Badejo, já sabia que a possibilidade de executar uma
descompressão à deriva naquele local era perigosa, devido a
existência de um constante fluxo de navios que entram e saem da Baía
de Todos os Santos e passam próximo a esses pontos de mergulho.
A escolha do Trimix 15/30 como gás diluente se deu
porque, em primeiro lugar, essa mistura possui uma PpO2 de 0.9 ATA na
profundidade de 50 metros, abaixo portanto dos limites de 1.0 e 1.2
PpO2, que são os máximos recomendados para uso em mergulhos
profundos com rebreathers de circuito fechado. Essa recomendação se
dá porque, caso haja uma falha de equipamento que provoque a
elevação da PpO2 do loop de respiração para níveis hiperóxidos,
é possível ao mergulhador, através do procedimento de lavagem do
contra-pulmão (flush) com gás diluente, abaixar rapidamente a PpO2
do loop, evitando assim uma possível intoxicação do SNC pelo
oxigênio.
Por evidente que essa limitação de PpO2 máxima
de 1.0/1.2 ATA no fundo não se aplica ao planejamento de mergulhos
técnicos em circuito aberto, pois nesse tipo de mergulho a fração
de O2 do gás de fundo é constante, não havendo possibilidade de
aumento de PpO2 por falha do equipamento. Com o equipamento de
circuito aberto, os limites máximos de PpO2 recomendados são os já
conhecidos 1.4 ATA no fundo e 1.6 ATA na descompressão.
Mas voltando ao nosso planejamento para a Pedra do
Badejo, a escolha do Trimix 15/30 também ocorreu porque essa mistura,
combinada com um Set Point de 1.3 PpO2, nos dá uma Fração de hélio
(FHe) inspirada, na profundidade de 50 metros, de 27.8 %, o que nos
proporciona o conforto de uma profundidade equivalente narcótica
(END) de 33.3 metros. Ou seja, mergulhar com Trimix 15/30 como gás
diluente e setar a eletrônica do rebreather para trabalhar como uma
PpO2 constante de 1.3 ATA no fundo de 50 metros, do ponto de vista da
narcose, é como se o mergulhador estivesse usando ar comprimido a
33.3 metros.
Mais uma vez, apenas para ressaltar as diferenças
dos tipos de planejamento, que são diversos entre o circuito aberto e
o fechado, no caso dos rebreathers CCR, a profundidade equivalente
narcótica (END) é variável e depende, além da profundidade que se
vai mergulhar e da fração de hélio (Fhe) do gás diluente, também
da regulagem do Set Point, que nada mais é do que PpO2 desejada
durante o mergulho. Isso ocorre porque, sob a influência da Lei de
Henry, ao modificarmos o Set Point e consequentemente a PpO2 do loop
de respiração, a própria pressão parcial dos outros gases
presentes no loop também se altera, de modo que sempre haverá uma
diferença, normalmente a menor, entre a fração de Hélio (Fhe) do
gás diluente e a fração de hélio da mescla de gás efetivamente
inspirada pelo mergulhador.
O nosso procedimento de descompressão foi
planejado com o auxílio do software Vplanner, que tem como modelo o
algoritmo bifásico VPM B/E, usado por diversas agências de mergulho
técnico, entre elas a IANTD. O uso de modelos de descompressão
bifásicos ou neo-haldesinos com ajuste de Gradient Factor (GF), são
ainda mais recomendados em mergulhos com Trimix, pois o Hélio, por
ser um gás de rápida difusão, depende de paradas profundas para a
sua correta eliminação sem a formação de bolhas.
No nosso planejamento não foi previsto o uso
computadores de mergulho para monitorar a exposição aos gases
inertes, pois eles não estavam disponíveis. Usamos apenas Bottom
Timers e por isso foram geradas várias tabelas simulando os
possíveis cenários a serem encontrados, inclusive incluindo os
procedimentos de bail out e o mergulho sucessivo que seria realizado
no Cavo Artemides ou Galeão Sacramento, a depender das condições de
correnteza presentes nesses dois locais de mergulho.
O esquema de descompressão, gerado no Vplanner com
o uso do nível de conservatismo +2, foi o descrito abaixo:
V-Planner 3,83 by Ross Hemingway
VPM code by Erik C. Baker
Decompression model: VPM - B/E
DIVE PLAN #1
Surface interval = 5 day 0 hr 0 min.
Elevation = 0m
Conservatism = + 2
Dec to 50m (3) Diluent 15/30 0,40 SetPoint, 15m/min descent.
Level 50m 36:40 (40) Diluent 15/30 1,30 SetPoint, 28m ead, 33m end
Asc to 30m (42) Diluent 15/30 1,30 SetPoint, -9m/min ascent.
Asc to 27m (42) Diluent 15/30 1,30 SetPoint, -9m/min ascent.
Stop at 27m 0:27 (43) Diluent 15/30 1,30 SetPoint, 10m ead, 19m end
Stop at 24m 1:00 (44) Diluent 15/30 1,30 SetPoint, 7m ead, 17m end
Stop at 21m 2:00 (46) Diluent 15/30 1,30 SetPoint, 5m ead, 15m end
Stop at 18m 2:00 (48) Diluent 15/30 1,30 SetPoint, 2m ead, 13m end
Stop at 15m 4:00 (52) Diluent 15/30 1,30 SetPoint, 0m ead, 11m end
Stop at 12m 4:00 (56) Diluent 15/30 1,30 SetPoint, 0m ead, 9m end
Stop at 9m 7:00 (63) Diluent 15/30 1,20 SetPoint, 0m ead, 7m end
Stop at 6m 8:00 (71) Diluent 15/30 1,20 SetPoint, 0m ead, 5m end
Stop at 3m 13:00 (84) Diluent 15/30 1,20 SetPoint, 0m ead, 3m end
Surface (84) Diluent 15/30 -9m/min ascent.
Off gassing starts at 35,6m
OTU's this dive: 115
CNS Total: 42,8%
Note-se que decidimos realizar a troca dos Set
Points dos rebreathers para 1.2 PpO2 a partir da parada dos 9 metros
de profundidade. Isso ocorre porque quando mais raso se mergulha,
menor pressão absoluta total e consequentemente maior é a
dificuldade em se manter uma PpO2 elevada no loop de respiração dos
rebreathers. Abaixando o Set Point nas paradas rasas nós iriamos
diminuir a janela de oxigênio, aumentando o tempo de descompressão,
mas, por outro lado, iriamos ganhar em nível de conforto no mergulho,
evitando-se a necessidade de realizar lavagens (flush) do
contra-pulmão com oxigênio para elevar a PpO2, o que provoca perda
de gás e aumento da carga de tarefas (task load) na descompressão.
Nos mergulhos técnicos com uso de rebreathes é
regra a utilização de um volume de gás para Bail Out suficiente
para que cada mergulhador seja capaz de retornar ao ponto de início
do mergulho e completar toda a sua descompressão em circuito aberto.
Essa é uma das grandes limitações para uso dos rebreathers para
mergulhos técnicos muito fundos e/ou com tempos de fundo muito
longos, pois nesses mergulhos o volume de gás requerido para bail out
seria impossível de ser carregado pelo mergulhador, a menos que seja
possível estagiar os tanques de bail out durante o mergulho, o que é
uma possibilidade remota em ambientes de águas abertas oceânicas. A
solução para esse problema, cada vez mais adotada para os
praticantes de mergulhos extremos com rebreathers é o uso de BOBs –
Bail Out ReBreathers, que nada mais são que rebreathers independentes
para Bail Out, A própria Innerspace Systems Corp. já colocou à
venda nos EUA, desde da última exposição no DEMA/2007, do
"Mega Megalodon", que são dois rebreathers Megalodon
totalmente independentes e interligados com cintas de aço iguais às
usadas nas duplas de circuito aberto.
Como se tratava de um mergulho cuja profundidade
máxima planejada era de 50 metros, decidimos usar como gás de bail
out de fundo o ar comprimido em cilindros de 80 pés cúbicos, pois é
barato e disponível com facilidade. Além dele, usamos também como
bail out raso o oxigênio puro, em cilindros de 40 pés cúbicos. A
configuração de dois cilindros adicionais de bail out nos dava a
segurança de poder cumprir toda a descompressão em circuito aberto
caso houvesse falha total nos rebreathers. Além disso, nos dois
reguladores de bai out foram colocadas mangueira de baixa pressão com
conectores compatíveis com as válvulas de adição manual de
diluente e oxigênio dos contra-pulmões do Megalodon. Assim, se
poderia fazer uso desses gases off board caso necessário, o que
proporcionava mais uma redundância ao sistema.
O esquema de descompressão com o uso dos gases de
Bail Out também foi realizado no Vplanner e seguiu a tabela abaixo:
DIVE PLAN #1 – BAIL OUT – Ar/Oxigênio
Surface interval = 5 day 0 hr 0 min.
Elevation = 0m
Conservatism = + 2
Dec to 50m (3) Diluent 15/30 0,40 SetPoint, 15m/min descent.
Level 50m 36:40 (40) Diluent 15/30 1,30 SetPoint, 28m ead, 33m
end
Asc to 30m (42) Air -9m/min ascent.
Stop at 30m 0:47 (43) Air 0,84 ppO2, 30m ead
Stop at 27m 1:00 (44) Air 0,77 ppO2, 27m ead
Stop at 24m 1:00 (45) Air 0,71 ppO2, 24m ead
Stop at 21m 1:00 (46) Air 0,65 ppO2, 21m ead
Stop at 18m 3:00 (49) Air 0,59 ppO2, 18m ead
Stop at 15m 4:00 (53) Air 0,52 ppO2, 15m ead
Stop at 12m 7:00 (60) Air 0,46 ppO2, 12m ead
Stop at 9m 9:00 (69) Air 0,40 ppO2, 9m ead
Stop at 6m 9:00 (78) Oxygen 1,60 ppO2, 0m ead
Stop at 3m 14:00 (92) Oxygen 1,30 ppO2, 0m ead
Surface (92) Oxygen -9m/min ascent.
Off gassing starts at 32,8m
OTU's this dive: 98
CNS Total: 46,6%
986,6 ltr Air
421,5 ltr Oxygen
1408,1 ltr OC TOTAL
Os mergulhos
O nosso mergulho seguiu o planejamento realizado e tivemos a
felicidade de pegar um mar calmo e com boa visibilidade até os 27
metros. Abaixo desse patamar, a visibilidade foi reduzida a uns 7
metros e não encontramos grandes peixes, nem mesmo os tubarões
martelo, que, pelo relato do pescador Carlinhos, já foram avistados
no local, tendo inclusive atacado uma fieira de peixes carregada por
um mergulhador de compressor.
O perfil do mergulho, retirado do computador Dive Rite Nitek Duo,
que estava funcionando em modo gauge, registra um tempo total de
mergulho de 96 minutos, maior que o planejado, mas que já era o
esperado, tendo em vista a necessidade de se fazer uma subida mais
lenta a ponto de permitir aos rebreathers manter a PpO2 constante
através da injeção de oxigênio no loop pela válvula solenoide.
Gostaria de agradecer a todos que participaram
desses excelentes mergulhos, especialmente ao dupla László, que
gentilmente cedeu as facilidades da Bahia Scuba para preparar nossas
mesclas de fundo; bem como aos colegas Peter Tofte, Euripedes e
Tomás, companheiros de tantas outras aventuras submarinas.
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Os displays primários e secundários da eletrônica APECS 2.5 dos CCRs
Megalodon controlam o Set Point (PpO2 desejada) durante o mergulho, o que
influencia, inclusive, na dosagem narcótica da mescla de gases inspirada pelo
mergulhador.

O mergulhador francês Cedric Verdier, recordista mundial de profundidade,
usando um Megaldon CCR como equipamento principal e um BOB – Bail Out
ReBreather clipado para bail out. Fonte: Considering a Bail-out Rebreather, in
Rebreather World.
Perfil do mergulho retirado do computador Nitek Duo, que trabalhou em modo
gauge durante todo o mergulho, fazendo redundância a um Bottom Timer da Uwatec.



Mergulho com CCR Megalodon no Galeão Sacramento. O cilindro amarelo de Bail Out
pode servir de fonte de gás para o contra-pulmão, através da válvula de
adição manual de diluente, permitindo a troca "on the fly" da mescla
de gases inspirada pelo mergulhador. Foto de Michael Silva Netto.
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