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Naufrágio do Principessa Mafalda - Uma tragédia ao som de Ramona
(Publicado na Revista 98/2003 do IGHB)

Em Salvador, na noite do dia 25 de outubro de 1927, correu a notícia que acontecera, próximo a costa, o naufrágio de um transatlântico com centenas de mortes.

O nervosismo tomou conta da cidade pois chegavam semanalmente muitos "liners" com passageiros locais. Os telefones da época, acionados por manivela, não paravam. Desconhecendo qual o nome do navio, as famílias que esperavam seus amigos ou parentes, vindos do norte ou do sul, em busca de informações, procuravam as autoridades, os agentes de navegação, a Capitania dos Portos. Qualquer notícia nova era passada rapidamente em vozes tensas, de boca em boca, de casa em casa. O pouco que se sabia proviera da estação radio telegráfica dos Correios, situada no bairro de Amaralina, que captara os pedidos de socorro, em código Morse (SOS ... --- ...) de um grande ‘liner’. Conjuntamente o operador percebera um aumento acentuado do trafego de sinais entre navios, mas ainda não captara detalhes. O que ouvia, logo transmitia, via telefone, para as autoridades da Marinha e jornais, pois ainda não existia radio comercial em Salvador. Restava a população aguardar as gazetas e os boatos.

No dia seguinte a manchete de "A Tarde" não esclarecia o suficiente, mas aliviou muito a tensão na ciddade.

 

UM GRANDE TRANSATLÂNTICO EXPLODIU A 80 MILHAS DE PORTO SEGURO, NA COSTA DA BAHIA!

Embora contraditórias, logo especularam que muitas vidas desapareceram na catástrofe do "PRINCIPESSA MAFALDA"

Era um liner italiano que não escalava em Salvador.

O cônsul da Itália, Atilio Scaldaferi esforçava-se para obter detalhadas informações da Embaixada no Rio, do colega de Recife e também da Cia de Navegação utilizando o sistema telegráfico, via cabo submarino da Western Telegraphic Co., mas as respostas eram desalentadoras e a maioria perguntava se o consul teria outras informações e confirmavam o naufrágio com enorme número de vítimas.

A cidade ansiosa aguardava. O desalento e a esperança se alternavam.

Grande número de pessoas permaneceram até tarde em frente aos prédios dos jornais e dos escritórios das companhia de navegação.

No meio da manhã uma agência de armadores ingleses recebeu uma mensagem do "paquete" Andes da Royal Mail Line, com notícias alarmantes. Informava que a catástrofe do navio italiano fora motivada pela explosão das caldeiras, ressalvando, entretanto, ser uma informação de ‘segunda mão’ e narrando que o pânico fora muito grande com muitos passageiros e tripulantes se jogando ao mar.

As novas notícias percorreram a cidade como um rastilho de pólvora e ia sendo aumentada a medida que se alastrava.

Ainda pela manhã surgiu uma nova informação - o Principessa Mafalda destinava-se ao Rio de Janeiro e Buenos Aires. Não trazia passageiros para a Bahia.

Ao amanhecer muita gente se deslocou para a estação de Amaralina onde as mensagens radio telegráficas que chegavam continuamente eram lidas em voz alta por um funcionário. Algumas em língua estrangeira, como as emitidas entre os navios franceses Mosella e Formosa e o holandês Alhena que estavam próximos ao local da tragédia e agiam com os meios disponíveis para o salvamento dos náufragos. Essas embarcações estimavam o número de vítimas fatais em 300, e completava informando que haviam a bordo 1350 pessoas sendo 300 tripulantes e 950 passageiros.

Se confirmada a notícia, seria o maior desastre naval dos tempos modernos, em águas do Brasil!

Continuavam a serem captadas as comunicações entre os comandantes dos navios, entretanto, sem dado informativo da posição geográfica do acidente. Finalmente, no final do dia 26 soube-se que o naufrágio acontecera perto do arquipélago dos Abrolhos, em frente a Caravelas.

Com este conhecimento, as autoridades (Capitania dos Portos e Chefia de Polícia) alertaram a cidade de Caravelas que até aquele momento desconhecia o sinistro e solicitaram a promoção de buscas de náufragos ou de escaleres nas praias e no mar.

Era tudo o que podiam fazer !

O Principessa Mafalda, da Companhia Navigazione Generale Italiana, era um vapor de luxo com 9,200 toneladas de deslocamento, 147 metros de comprimento, 16,80 m de boca e quando novo poderia alcançar 18 milhas / hora de velocidade. Possuía 158 camarotes de primeira classe; 835 de segunda e 715 de terceira com dormitório para imigrantes.

Era portanto um "liner", e como tal viajavam pessoas importantes e assim, correu o boato que o ex-Presidente Epitácio Pessoa com a família estavam na lista dos passageiros.

Até aquele momento persistia a versão de que o acidente fora causado por uma grande explosão nas caldeiras seguida de imediata submersão. Aos pouco, novas informações e novas contradições seguidas de correções delineavam o quadro trágico. A explosão da caldeira teria ocorrido, no princípio da noite, as 19 h 30 min do dia 25 e o Principessa Mafalda afundara incendiando duas horas depois.

Trafegando próximos os navios Athena, Salem, Rossetti e o Empire Star acorreram ao pedido de socorro e recolheram 780 náufragos, sendo que o Alhena embarcou 450 pessoas. Logo em seguida outra mensagem informava que um outro vapor, o Formose salvara 300, e posteriormente um novo radiograma complementava os anteriores dizendo que o Empire Star recolhera 300 náufragos.

O cônsul da Itália, o sr. Atilio Scaldaferi comunica aos jornais que mais um navio, o Formose recolhera 720 passageiros e tripulantes e ainda que um outro, o Mosele, dirigia-se para a Bahia com sobreviventes.

Depois de muitas horas ficou conhecido o local do naufrágio, Latitude – 16º 59’ Sul e Longitude 37º 51’W, a cerca de 100 milhas da ponta do Corumbau e Porto Seguro, e distante 25 milhas do norte de Abrolhos. A notícia definiu a impossibilidade de qualquer socorro a partir de Caravelas(2).

No Rio de Janeiro as redações dos jornais, o Correio e a agência de navegação estavam cheias de gente querendo informações.

Pouco depois, chegou a redação de "A Tarde" o telegrama abaixo, modificando a localização do naufrágio, algumas milhas mais para o norte e para o leste e o nome das embarcações envolvidas no salvamento.

"Rio, 26 (R. A. A.) – Informa a estação radio telegraphica de Amaralina, que ás 19 horas e 15 minutos de hontem, recebeu pedidos desesperados de socorros, vindos do "Principessa Mafalda" que se encontrava na latitude 16º 48’S e longitude 37º 41’W.

Imediatamente correram em seu auxilio os navios "Formose", "Empire Star", "Alhena" e o brasileiro "Piauhy", que se empregaram vivamente no salvamento dos passageiros.

Faltam informações detalhadas, não se sabendo o numero certo de passageiros salvos."

Até o final do dia outros cabogramas provenientes do Rio de Janeiro informavam que a maioria dos passageiros, eram imigrantes destinados a Buenos Aires. Retificavam as causas da tragédia expondo uma nova versão - fora motivada pelo rompimento do eixo propulsor e a consequente abertura do casco permitindo a entrada avassaladora da água.

Entretanto, a agencia dos armadores (Navigazione Generale Italiana), a Cia Brasil – Italia de Navegação, nada sabia da tragédia e ainda aguardava a chegada do Principessa Mafalda !

"Rio, 26 (R. A. A.) – O representante da "Agencia Americana" esteve na sede da Companhia Italia-Americana, que informou nada ter recebido até agora sobre o desastre.

Ontem á tarde, - acrescentou – viera um radio do comandante, informando que o "Principessa Mafalda" chegaria aqui amanhã.

O "Principessa Mafalda" tinha 230 homens de tripulação e trazia um total de 950 passageiros, dos quais 20 para aqui e os restantes para a Argentina, na maior parte imigrantes."

As notícias continuam desencontradas, um radiograma do paquete francês Formose, narra que "até agora, estão salvos 720 passageiros, sendo 120 pelo "Formose", 400 pelo "Alhena", 200 pelo "Empire Star" e os restantes pelo "Avelona", e "Mosella", que se achavam perto do local do sinistro." E que "Todos os paquetes continuam no local do naufrágio tendo o paquete "Principessa Mafalda" sossobrado totalmente."

Refeita a contagem concluíram pelo desaparecimento, até o momento, de 350 pessoas.

Os números eram bastante desencontrados. Se somados os salvos pelos diversos navios que os socorreram com o número dos desaparecidos o total alcançaria mais de 1700 viajantes, ou seja mais do que a capacidade de transporte do navio !

Assim, ao longo do dia as informações que chegavam eram conflitantes quanto a causa do desastre e número de sobreviventes.

Ao anoitecer um radiograma de bordo do Alhena informa que o comissário de bordo, sr. Bardi, estava a salvo, no navio, com mais 450 passageiros e em seguida, pelo cabo submarino, uma nova versão da causa

"Rio, 26 (A Tarde) Pelo submarino – Consta que o motivo da explosão do "Principessa Mafalda" foi ter se partido um parafuso que prende as chapas do fundo do navio, ocasionando que as águas entrassem, se comunicando ás caldeiras, que explodiram.

Esse parafuso estava, ao que se diz, bastante, estragado."

Novas esperanças surgiam ao longo do dia. A tragédia ia sendo esclarecida aos poucos a cada nova mensagem. Algumas notícias publicadas nas últimas edições dos jornais traziam um novo e falso alento.

"Rio, 26 (P. A. A.) – Até este momento, continuam desaparecidos 68 náufragos. Estão recolhidos a bordo do "Formose" 450 passageiros; do "Alhena" 500; do "Empire Star", 200 e o restante em varios outros vapores.

Permanecem no local do desastre os vapores "Rosset" e "Mosella".

O naufrágio foi motivado pela explosão das caldeiras."

De Caravelas informavam que haviam partido em vão, provavelmente em direção a Abrolhos, várias "garoupeira", barcos e até canoas para ajudar na busca dos naúfragos que estavam sendo recolhidos por vapores transatlânticos e que o povo estava ao longo das praias e sobre árvores esperando a volta de suas embarcações.

No final da tarde, com tantas informações contraditórias, continuava incerto o número de mortos embora já soubessem que eram 13 passageiros de 1ª classe, 10 de 2ª e 9 de 3ª classe destinados ao Rio de Janeiro.

No dia 27 pela manhã entrava no porto de Salvador o navio francês Mosella da Cie de Chargeurs Reunies, trazendo alguns passageiros e tripulantes sobreviventes.

A sofreguidão em busca de detalhes era grande. Muita gente esperava a atracação vapor francês, entre eles, o Chefe de Policia Madureira de Pinho e o Cônsul da Itália Atílio Scaldaferi.

O comandate Privat, do Mosella designou o Comissário de Bordo para as entrevistas com a Imprensa e a "A TARDE" do dia 27/11/1998 publicou o resumo:

"Seriam 16 horas e meia quando navegando a toda força de máquinas em direção ao norte, ouvimos os sinais de S. O. S., procedentes do Principessa Mafalda. Imediatamente, o comandante Privat deu ordem para o navio virar a prôa e rumar para o lugar do sinistro, que era mais ou menos a 80 milhas da costa sul do Estado, na direção dos rochedos de Itacolomy."

"Ao chegarmos, encontramos o Formose. Fora o primeiro a receber o radio, e estava mais próximo."

"Doloroso espetáculo, que jamais esqueceremos! Na escuridão, mal dissipada pelas luzes dos navios que traziam socorro, as ondas fortes atiravam cadáveres contra o costado do Mosella, numa visão de pesadelo. Dezenas e dezenas de corpos iam e vinham no dorso das ondas!"

"A submersão do "Mafalda" se dava naquele instante !"

Os náufragos completaram a reportagem do jornal citado sobre os últimos momentos do Principessa Mafalda e o salvamento.

"Se o Mosella tem chegado meia hora antes, estariam todos salvos. O comandante Privat dirigiu este serviço. Os botes foram todos desferrados e arriados ao mesmo tempo. Toda a tripulação, com o concurso de passageiros, remava o mais que podia e os escaleres perscrutavam o mar num largo circulo, procurando os vivos. Os mortos eram muitos bailando nas ondas, mas, a estes, infelizmente, nenhum socorro era mais possível."

"De vez em quando, pescavam um naufrago, que se apoiava num salva-vidas ou numa simples tábua, ora pelas roupas, ora pelos braços, ora pelas cabeças. Alguns se agarravam desesperadamente aos botes ameaçando vira-los, e tolhendo as vigorosas remadas dos salvadores."

O Mosella recolheu do mar 62 pessoas entre passageiros e tripulantes.

Um dos tripulantes salvos, Romeu Pillin, forneceu detalhes onde a imprevidência foi o fato marcante:

"Navegávamos, senhor, em mar calmo, entregues, nós da tripulação, aos afazeres habituais. A orquestra tocava animada e os passageiros alegremente enchiam as horas ociosas de bordo, dançando ou jogando nos salões. Às 5 horas e vinte minutos ouviu-se um estalido. Era a avaria. Partira-se o eixo do hélice e o "Principessa" parou. Cedo os passageiros foram tranquilizados pelo comandante e pelos oficiais. Nada havia que temer. A avaria seria reparada. Homens e maquinas trabalhavam em baixo e contavam em breve consertar o que se partira. O "Principessa" sofreria apenas alguma horas de atraso na viagem que seria retomada, o mais tardar, na manhã seguinte. Estas palavras, ditas com absoluta confiança tranquilizaram os mais receosos. Ninguém mais se importou com o acidente. A orquestra recomeçou com mais viração; cada qual procurou distrair-se melhor durante a espera (N2). O tempo foi passando. Ao anoitecer soprou uma brisa forte e o mar encrespou. Ninguém imaginava o drama que se desenrolava sob os pés. A avaria era irreparável. O mar entrava sempre tomando os compartimentos. Lá em cima, entretanto, tudo era alegria e confiança... De repente, o paquete adernou, correndo coisas e pessoas para um só bordo. O comandante e oficiais sobem, determinando o salvamento. Aconselham calma e mandam que desçam nas embarcações os passageiros de 3ª classe, por serem os mais difíceis de conter numa hipótese de pânico. Nos poucos minutos que se seguiram, os acontecimentos se precipitam. A água sobe violentamente e já agora atropeladamente todos procuram fugir.

Tarde de mais, o navio começa a afundar. Não há tempo de distribuir cinturas de salvação, nem arriar embarcações. Algumas destas soçobram com o peso, todos querendo se salvar a um tempo só. Não sei mais nada. Desci por uma corda e fui salvo por uma baleeira do Mosella. As 8 horas da noite, o Principessa Mafalda afundou desaparecendo na amplidão do mar."

Afundou ao som de uma sirene e fogos de socorro soltados pelo seu comandante .

O Mosella aproou então para a Bahia onde chegou pelas sete horas da manhã do dia 28, levando 62 náufragos dos quais quatro morreram pouco depois, uma criança, uma senhora austríaca e dois homens. Estavam sem saber do paradeiro do comandante e do radiotelegrafista do navio acidentado.

O Comandante Privat liberou para imprensa o Diário de Bordo datado de 27/10/1927:

"Ás 17hs. E 40 ms. de anteontem, 25 de outubro, o Mosella interceptou um aviso do Principessa Mafalda em perigo sério a 16º. 58 S. Gr. – 37º. 51’. 0, a cerca de 36 milhas da sua posição naquele instante. Foi ordenada maior força nas máquinas de mais em mais, ao ponto de cessar por completo. O Mosella entrou, então, em comunicação com o Formose, com o Alhena, vapor holandês, e com o Empire Star, vapor inglês, que já estavam no local do Mafalda e tinham começado a recolher a bordo os passageiros do mesmo. No momento em que o Mosella parou perto deles ás 8 ½ hs. De noite, o Mafalda submergia-se. Ouviam-se gritos lancinantes de náufragos. Todas as embarcações, do Mosella, já para isso preparadas, foram arriadas ao mar, guarnecidas de um pessoal escolhido, á prova de dedicação e de coragem, o qual se dirigiu com a maior rapidez para o ponto do sinistro, afim de salvar vidas. As manobras deram profícuo resultado. As embarcações do Mosella puderam salvar alguns passageiros. Nesse ínterim, produziu-se rapidamente e pela ação do vento um tal amontoado de destroços de toda a espécie, no meio dos quais se distinguiam corpos mutilados, que as embarcações não puderam mais encostar para pôr a bordo os náufragos vivos. Foi preciso afastar desses destroços o Mosella, por um movimento de hélice a bombordo. Ás 10hs e meia os gritos cessaram. As embarcações, porém, continuaram a rondar o local, afim de levar para bordo do vapor francês Formose conforme ficara combinado, todos os passageiros vivos, que fosse possível apanhar, bem como o material de dormida.

O Mosella passou toda a noite de 25 para 26 nessa águas, bem juntamente com outros navios.

Ontem, de dia, nada mais estando á vista, manobrou o Mosella no sentido de se aproximar do Formose, afim de terminar a entrega de colchões e cobertores de que podia dispor. Depois do que se fez de rumo para a Bahia.

Ontem, ás 17 hs. teve o Mosella que parar em alto mar, para entregar ao oceano os corpos de duas mulheres, um homem e uma criança, recolhidos na véspera, ainda com respiração e calor, e que os médicos de bordo e os enfermeiros, porfiando em cuidados durante muitas horas, não conseguiram fazer volta á vida. Esses náufragos, que estavam com quase nenhuma roupa, não puderam ser identificados. Informações, entretanto, iam ser dadas ao consulado italiano na Bahia."

A realidade

Ás 17 h 10 min da tarde do dia 25, o vapor Empire Star, da Blue Lines companhia inglesa de navegação, de 7200 ton, comandado pelo capitão C. R. Cooper passou próximo Principessa Mafalda navegando em sentido contrário. Dez minutos depois de desaparecer no horizonte, o comandante Cooper recebeu na ponte de comando a mensagem do radio telegrafista informando ter captado um SOS do liner italiano acompanhado do sinal "Danger to engines" (Perigo nas máquinas).

Imediatamente o comandante ordenou o retorno. Ao se aproximar do navio sinistrado, encontrou o paquete italiano parado, um pouco inclinado, com os botes preparados para serem descidos e centenas de pessoas nos ‘decks’ superiores.

Em volta outros vapores lançavam ao mar seus escaleres e se associavam à faina de salvamento.

O Principessa Mafalda estava em péssimas condições de navegação. Nunca deveria ter saído de Gênova, conforme o testemunho de passageiros. Dois dias depois de zarpar daquele porto, o navio navegara adernado por 24 horas e, na saída da ilhas Canárias, as máquinas pararam por quatro horas. Provavelmente estaria singrando com um só hélice e o momento resultante inclinava o navio num angulo longitudinal oposto ao sentido giro.

Chegaram ás costas da Bahia no dia 25 de agosto de 1927. Ás 17h 20m, o eixo da hélice de bombordo (esquerdo) partiu e ao cessar de girar foi puxado para trás pela força da água. Em seguida, o hélice parou e inverteu o sentido da rotação. Provavelmente, naquele momento, atingiu e arrancou o ‘pé de galinha’ (suporte do mancal do eixo ao casco) e chapas do fundo.

Pelo rombo, começou a entrar água em grande quantidade. Era impossível, devido a posição e a forma do estrago, tentar isolar o compartimento ou vedar o casco, resultando no alagamento da casa das máquinas.

O nível da água manteve-se mais ou menos na mesma altura, a medida que se espalhava pelo casco, para logo em seguida começar a subir cada vez mais rápido.

O baque foi ouvido por todos à bordo. As máquinas pararam. Houve um princípio de pânico interrompido quando o comandante surgiu e com palavras calmas controlou a situação, afirmando de que tudo estava voltando ao normal e que o máximo que poderia acontecer seria um atraso da hora de chegada.

Os navios em volta notaram que a proa estava mais afundada, talvez em consequência da transferencia da água para os porões da frente a fim de elevar a popa danificada.

O comandante ao notar que o nível da água subia lentamente, talvez assessorado pelo Chefe de Máquinas, decidiu navegar rapidamente em direção a costa.

Foi seu grande erro!

Ordenou que a orquestra voltasse a tocar e esta recomeçou com a música da moda – Ramona (N2).

A marcha foi retomada e logo adiante um tremendo choque seguido de uma inclinação súbita e violenta do Principessa Mafalda.

O eixo do hélice partido desembainhara-se mais alguns metros. O hélice girava sob a pressão da água e fora de controle e desalinhadamente. A medida que girava e oscilava o hélice ia rompendo o casco fazendo grandes e irreversíveis nas chapas do fundo, no leme e no outro propulsor.

É verdade que foi por pouco tempo pois as máquinas foram paradas tão logo o comandante percebeu o que estava acontecendo, mas, já era tarde demais.

Alguns dos tripulantes sobreviventes justificaram o ato do comandante mandando retomar a marcha, apesar do navio já ser considerado perdido, como uma atitude final de desespero para alcançar a costa e encalhar em algum banco de areia. A alegação, sem fundamento, baseava-se numa esperança fantasiosa, pois o navio estava ha cerca de 110 milhas da costa. Se conseguisse singrar a 5 milhas/hora demandaria 22 horas.

Pouco depois o Principessa Mafalda começou a afundar pela popa. As águas invadiram rapidamente os porões, romperam os compartimentos estanques e apagaram as fornalhas das caldeiras. A força motriz ficou interrompida assim como o gerador elétrico.

Só então a ordem de "Abandonar o Navio" foi transmitida - o medo contido explodiu em pânico incontrolado!

Os passageiros da terceira classe que já haviam subido saquearam os camarotes. Os da 1ª e 2ª classes, mais fracos que os emigrantes, na sua maioria trabalhadores braçais sírios, nada puderam fazer. Os tripulantes destreinados ou desorganizados, sem comando, correram e ocuparam os escaleres esquecendo de distribuir os coletes salva vidas, entre eles o comissário Bardi.

Os barcos estavam em péssimo estado de conservação, a maioria sem vedação adequada lembrava mais uma peneira. Os turcos (Guindastes que sustêm e permitem baixar os barcos salva-vidas) emperrados bloqueavam a descida dos escaleres. As vezes acontecia que um deles se soltava enquanto o outro, no lado oposto, continuava prendendo o escaler e a inclinação resultava na queda dos passageiros no mar.

Naturalmente houve honrosas exceções entre os tripulantes e outros viajantes, porém, segundo os relatos, muito poucas.

O comandante e o radio telegrafista permaneceram a bordo até o final. Graças a este último a tragédia foi menor, pois tão logo o eixo partiu emitiu o SOS.

Muitos passageiros apesar do navio ainda permanecer flutuando jogaram-se na água e pereceram afogados. Alguns escaleres foram arriados e não afundaram, mas logo afastaram-se do navio, quase vazios, sem socorrer os que estavam nadando próximo. Um deles, comandado por um tripulante irresponsável, foi encontrado pelo vapor Rosseti a cerca de 20 milhas do local do acidente indo em direção a costa transportando 22 pessoas quando a capacidade era bem maior.

A noite chegou e a escuridão incrementava o medo. Os farois dos navios iluminavam a cena dantesca sem que pudessem fazer muita coisa. Os cadáveres misturavam-se aos destroços e às pessoas que nadavam agarradas a objetos flutuantes lançados do ‘liner’ sinistrado.

A sucção do navio afundando, embora ainda pequena, criava uma correnteza que puxava em direção ao casco do Principessa Mafalda e impedia os sobreviventes de se afastarem. Dos navios em volta, ouviam-se como lamentos alongados os agudos gritos de socorro misturados com a cacofonia das ondas e do vento.

Ainda havia muita gente a bordo, os que não sabiam nadar ou não conseguiram lançar-se ao mar, corriam para a popa tentando escapar das águas que invadiam os salões e já alcançavam o deck superior.

O fim estava próximo - chegavam os últimos momentos.

O mar atingiu o último tombadilho e a medida que subia os desesperados se aglomeravam nos pontos ainda não atingidos.

De repente, no meio da balbúrdia, ouviram-se tiros !

Um ou dois. Suicídios ? O Comandante e o Chefe das Máquinas ou só um deles ?

O comandante do seu posto lançava fogos luminosos para facilitar as buscas. Foi visto pela última vez sendo tragado pelo seu navio. O radio telegrafista também desapareceu no mar

Os tiros foram dados pelo Chefe da Casa de Máquinas em sua própria cabeça. Teria assumido a culpa?

A busca continuava frenética. Os comandantes dos navios próximos receavam que ao submergir o Principessa Mafalda arrastasse consigo muitos náufragos, mas, como sempre acontece, alguns poderiam ter escapado da sucção e voltado a tona. Os escaleres dos navios de salvamento iam e vinham a procura de náufragos, até que, pelas duas da madrugada, encerraram as buscas.

Nem todos os recolhidos sobreviveram alguns faleceram nos navios salvadores e foram devolvidos ao mar.

Comentário

O navio, após a perda do eixo flutuou por 4h 20m, o que permitiria o salvamento de todos a bordo. A falta de treinamento para emergências e a péssima manutenção dos escaleres contribuiu para o elevado número de mortos, 314 inclusive o comandante Guli e oito heróicos oficiais.

Notas

N1 – Notas do comandante Hendricus G., Smoolenars do navio holandês Alhena da Cia Roterdans Suid Amerika Lyn.

"Eram 3h 50m da tarde do dia 25, quando passamos pelo Principessa Mafalda a uma distância de 1 milha e meia. Cerca de duas horas depois recebemos o pedido de socorro e retornamos para atende-lo. O Principessa Mafalda estava com a proa meia submersa. Supondo ser defeito nas máquinas providenciou o reboque que não foi aceito pelo comandante Guli que o avisou sobre a avaria no eixo e no casco. Neste momento baixavam os escaleres do navio sinistrados com muitos passageiros. Infelizmente alguns viraram parcialmente presos aos turcos e outros afundaram fazendo muita água. Aproximei meu navio a cerca de 180 metros e apesar da lei holandesa não obrigá-lo a acudir navios sinistrados, movido por um sentimento d e altruísmo dei ordem para baixar 3 escaleres que recolheram 400 náufragos. Aproximei mais o navio até cerca de 30 metros e recolhemos muitos sobreviventes que nadavam. O afundamento acelerava-se e com receio de ser tragado pelo redemoinho ordenei marcha ré por quinze minutos. Naquela ocasião divisei sob a luz dos farois o comandante Guli acender um cigarro e como despedida soara o apito de ar comprimido por quatro vezes. Depois do afundamento ainda recolheram 15 náufragos."

N2 – Anos depois do naufrágio, no final da década de trinta, ainda se comentava que a música "Ramona" dava azar


José Goes de Araujo, tem formação em engenharia civil e química. Professor aposentado dos Cursos de Aperfeiçoamento de Engenheiros da Petrobrás e da Escola Politécnica - UFBA. Foi chefe de Obras da SEGEN / Petrobrás e é membro do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia - IGHB, desde 1983, sendo vice-presidente na gestão 2001 a 2003.

É autor de vários livros como:

- Da Velha Cidade da Bahia - História e Estórias
- Catálogo de Naufrágios e Afundamentos
- Aventureiros e Piratas na Costa Brasileira (no prelo)
- Naufrágios e Afundamentos - (no prelo) Inclui catálogo em ordem alfabética, noções de arqueologia subaquática e colaboração de mergulhadores de renome em fotos e esquema de diversos naufrágios.

  














 
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