| Notas
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Nome anterior: Maipú
Histórico
O grito de "Independência ou Morte", lançado das margens
plácidas do Ipiranga pelo Príncipe-Regente D. Pedro de Alcântara,
estimulado pelo grande estadista José Bonifácio de Andrada e Silva,
repercussão extraordinária em todo o Brasil.
Fazia-se, no entanto, mister transformar as palavras em fatos. Portugal,
além de contar nas costas brasileiras com vários pontos estratégicos de
real valor, perfeitamente guarnecidos e apetrechados, era senhor absoluto do
mar por onde se faziam então, todas as comunicações entre as Capitanias
da rica colônia. Sem elementos navais capazes de enfrentar, com vantagem, a
esquadra portuguesa concentrada na Bahia, em Montevidéu ou no Maranhão,
não poderíamos nunca impor nossa vontade ao inimigo e compeli-lo a aceitar
o alvo visado, que era a nossa completa emancipação. José Bonifácio, o
Patriarca, então primeiro ministro, seu irmão Martim Francisco, titular da
Fazenda, Luiz da Cunha Moreira, Ministro da Marinha, e o fogoso tribuno
Gonçalves Ledo foram, podemos assim dizer, as quatro colunas-mestras sobre
as quais se ergueu vitoriosa a Esquadra da Independência.
Trabalhavam incessantemente os Arsenais, os estaleiros particulares a
reparar, modernizar, e aparelhar velhos navios que logramos arrebatar das
garras da metrópole voraz. Adquiriram-se também robustos elementos
mercantes, capazes de ser armados em guerra. Ora, por esse tempo
encontrava-se ancorado na Baía de Guanabara o Brigue Maipu, de propriedade
e comando do antigo oficial da Marinha norte-americana David Jewet, que
estivera, por algum tempo (1815-1821), a experimentar sua bravura, atividade
e audácia em arriscadas operações de corso contra o comércio da Espanha,
ao lado dos revolucionários do Rio da Prata.
Desejava também o Imperador concorrer, do seu bolsinho, para o aumento e
reforço dos elementos navais que se aparelhavam para enfrentar o inimigo
reinícola. Assim é que fez comprar a robusta embarcação apontada, em
outubro de 1822, pela quantia de 20:200$000 e doou-a a Nação, ao mesmo
tempo que, por decreto de 6 do dito mês, admitia ao nosso serviço seu
comandante, concedendo-lhe o posto de Capitão-de-Mar-e-Guerra e a patente
de Oficial da Armada do Império. No entanto, diz-nos Teotônio Meireles da
Silva, que o Maipu, artilhado com 18 canhões de médio calibre e tripulado
com 120 homens, tomara o nome de Diligente e que, ao ser incorporado às
nossas forças navais, lhe fora imposto o nome de Caboclo (março de 1823?).
Outras fontes nos informam que o denominado Diligente foi o Brigue Guarani,
pois, ainda a 30 de outubro de 1823, conservava o primitivo nome, conforme
nos testemunha o embarque a seu bordo, nessa data, do Segundo-Tenente
Rodrigo Theodoro de Freitas, que chegou a Oficial-General da nossa Armada.
Uma outra dúvida nos salteia a respeito do Maipu: por esse tempo, encontro
a perlustrar águas sul-americanas pelo menos dois vasos com esse nome. O
primeiro, um brigue chamado antes Vicuña, de 284t, artilhado com 16
canhões de calibre 18 e tripulado com 100 homens que, em junho de 1818, o
norte-americano John D. Daniels, naturalizado argentino, pretendia empregar
no corso contra a Espanha, com o nome de Maipu e que acabou, em
consequência de várias irregularidades do seu comandante, considerado
pirata.
O segundo era o bergantim de guerra espanhol de 18 canhões e 103 praças
de guarnição que, procedente do Porto de Callao a caminho de Cádiz,
procurava arribar ao Porto do Rio de Janeiro para abastecer-se de vitualhas,
quando, depois de frouxa e vergonhosa resistência, foi apresado pelo
Corsário argentino Heróina, comandado pelo Capitão Mason, a 14 de junho
de 1821. Estou quase a acreditar que foi este o navio adquirido por D. Pedro
I, até melhores esclarecimentos. Ainda. Não conseguimos apurar quais os
serviços prestados por esse vaso de guerra durante os anos de 1823 e 1824.
Com o movimento de rebeldia irrompido na Cisplatina, logo seguido da guerra
contra as Províncias Unidas do Rio da Prata, hoje Argentina, o Governo
Imperial começou a concentrar fortes elementos navais em Montevidéu. Por
Aviso de 6 de abril de 1825 foi nomeado comandante do Caboclo o distinto e
bravo Capitão-Tenente (posto equivalente, hoje, ao de Capitão-de-Corveta)
João Paschoe Grenfell por "assim convir ao serviço". Depois dos
indispensáveis preparatórios, fez-se ele ao mar. A 11 de junho dava fundo
em Montevidéu, fazendo parte da escolta de um trem enviado ao Prata com
1.200 homens e grande cópia de munições de guerra e de boca. No dia 30,
velejou para Buenos Aires, fazendo parte da força que acompanhava o
Vice-Almirante Rodrigo Ferreira Lobo, e lá chegou a 4 de julho.
A atmosfera política mostrava-se sobremaneira carregada, principalmente
contra o Império. Um dos seus escaleres, mandado a terra em busca de
víveres para a Divisão, teve toda a sua guarnição aprisionada e peitada
para guarnecer no porto contra o Valleja (ex-Guilherme), que se aparelhava
no porto contra o nosso comércio. No dia 9 de julho zarpou para o Rio de
Janeiro, onde chegou com nove dias de viagem, tendo, em caminho, registrado
um brigue argentino saído de Paranaguá, capturando um passageiro não
munido de passaporte. De regresso ao Rio da Prata, várias praças, de sua
guarnição, de nacionalidade inglesa desertaram.
Foi destacado para a defesa da Colônia do Sacramento. Regressou a 29 de
novembro, com nove dias de viagem, ao Rio, onde passou por ligeiros reparos.
Fez-se de vela para cruzar na costa, a 1o de dezembro, e
regressou à Guanabara a 17 do dito mês. Comandou-o, interinamente, de 4 a
9 de janeiro de 1826, o Primeiro-Tenente George Broom. Como o seu
comandante, João P. Grenfell, ainda estivesse a responder a um conselho de
guerra, seguiu o Caboclo para o Prata a 13 de janeiro sob o comando do seu
imediato, o Segundo-Tenente Francisco Pires de Carvalho e Albuquerque.
Seguiu a seu bordo o Chefe-de-Divisão Diogo Jorge de Brito, nomeado segundo
Comandante das Forças Navais em Operações de Guerra contra as Províncias
Unidas do Rio da Prata. Aportou a Montevidéu a 2 de fevereiro e foi logo
incorporado à esquadra do Almirante Lobo. No dia 9 do referido mês,
participou dos dois combates com a esquadra inimiga em frente a Corales,
ambos favoráveis às armas imperiais.
Sobre essas ações navais escreveu historiador argentino, com fundo
pesar: – "... sin duda hubieran (os dois encontros) llenado de
glória al pabellón de la Pátria"... se a maioria dos comandantes dos
navios de Brown "hubiera cumplido com su deber!" O Almirante Lobo,
em parte oficial dos dois referidos encontros, declarou nulos os serviços
do Caboclo. Voltou a comandá-lo o Capitão-Tenente J. P. Grenfell e passou
a fazer parte da Segunda Divisão da Esquadra, de conformidade com a nova
organização dada à mesma pelo Almirante Pinto Guedes, substituto do
Almirante Lobo, em 4 de maio de 1826. No dia 15 do dito mês já se
encontrava na linha do bloqueio. No dia 23 de maio, apresentando-se à vista
a esquadra inimiga, empenharam-se em ação com ela os nossos vasos. O
Caboclo destaca-se dos demais, batalhando com vigor. A 25 de maio, data
nacional da Argentina, houve novo choque entre as duas esquadras.
O Caboclo, mais uma vez se cobre de glória, secundando seus bravos
companheiros. A 11 de junho, fizeram os nossos marujos temerária tentativa
para esmagar o inimigo, dentro do seu próprio fundeadouro. O bravo chefe
Norton, em certo momento, a fim de acercar-se mais do inimigo desfraldou seu
pavilhão no Caboclo, que se bateu com sua proverbial galhardia. A 29 de
julho, depois de 48 dias encurralada pelos nossos, animou-se a esquadra
inimiga, com uma bravura sem par. De repente, suspendeu a caça; seu bravo
comandante é ferido gravemente, pois tem o braço direito destroçado por
uma bala. "La carniceria espanta – narra um escritor argentino.
Apenas hay brazos para retirar los muertos y los heridos de que están
sembrados los puentes que, rebosando de sangre, principian ya a derramar-la
por los embornales". Disse o Almirante na parte oficial do combate: –
"Como o Bergantim Caboclo, por demandar menos água, podia chegar-se
mais à barra, ia acossando a Corveta 25 de Mayo, (capitânea argentina) na
fuga, e passando um dos bergantins do inimigo, que seguia os outros, na
precipitada fugida de seu almirante, disparou alguns tiros e vieram as balas
de uma pirâmide matar um marinheiro do Bergantin Caboclo, e ferir cinco
pessoas mas, entre estas, achava-se o valoroso e empreendedor Grenfell, que
ainda vive, porém mal prognosticado, e, desta forma, nos fica um vácuo que
se não encherá facilmente".
O Caboclo, depois do combate e do pampeiro que caiu, velejou para
Montevidéu, a fim de levar os feridos. Grenfell deixou o comando a 4 de
agosto, sendo substituído pelo 1o Tenente Guilherme James
Inglis. De 30 de agosto a 16 de setembro esteve nele embarcado o
Segundo-Tenente Joaquim José de Oliveira. Em Janeiro de 1827, participou da
"Divisão Auxiliadora", do comando de Mariath, na qual pouco se
demorou. Tomou parte saliente no combate de Monte Santiago, em abril de
1827. Nesse mesmo mês, passou a servir a seu bordo o Segundo-Tenente
Bernardo de Sena e Araújo, que desembarcou a 17 de junho. Partiu, sob o
mesmo comando, em 26 de setembro de 1827, na Divisão destinada à Baía de
San Blas. Tendo-se perdido a Corveta Maceió e o Brigue Independência ou
Morte, o Bergantin Caboclo, com grande risco, recolheu os náufragos que
pôde e rumou para Montevidéu com a triste nova. A 14 de janeiro de 1828,
combateu bravamente contra os argentinos na Enseada. Dias depois, novo
encontro em que o inimigo foi repulsado. A 17 de fevereiro, tornou a entrar
em ação. Iniciado o combate, o Chefe Norton desfraldou seu pavilhão a
bordo. Nesse combate, foi posta a pique uma canhoneira argentina e outra
perseguida. No dia 22, empenhou-se em nova ação, portando-se com a bravura
de sempre.
Em 1o de março de 1828, perseguiu e destruiu o Corsário
platino Cazador – ex-Vengadora Argentina e ex-Rayo Argentino. A 23 de
março, perseguiu e aprisionou o Corsário argentino Niger, do mando de John
Coe, que foi feito prisioneiro com mais seis oficiais, seis capitães de
presas, 80 marujos e soldados, tendo perdido, no combate, seis mortos e 12
feridos. A 18 de junho, tomou parte em outro encontro. A 24 de agosto, muito
se destacou na perseguição e aprisionamento da Corveta argentina General
Dorrego. Quando foi recebida pela Esquadra a notícia da paz com a
Argentina, a 29 de setembro, o robusto e glorioso Caboclo ainda se
encontrava na linha do bloqueio, vigilante e ativo, sob o comando do
impertérrito Inglis. .De regresso ao Rio de Janeiro, passou por vários e
indispensáveis reparos. Tinha necessidade, em 1829, de uma tripulação de
120 homens e, para seu completo armamento, carecia de uma despesa mensal de
3:403$200, e anual de 42:838$400.
A 4 de novembro desse ano, nele teve embarque o Primeiro-Tenente Joaquim
José Ignácio, futuro Almirante e Visconde de Inhaúma. De 1 a 5 de abril,
serviu a seu bordo o Primeiro-Tenente Joaquim Alves de Castilhos. Por Aviso
de 16 de agosto, foi mandado nele embarcar o Primeiro-Tenente Guilherme
Lassance Cunha; e, por Aviso de 2 de setembro, o Segundo-Tenente João
Crímaco Nunes, que desembarcou a 15 de dezembro; a 20 de setembro, também
nele teve embarque o Segundo-Tenente Manoel Luiz Pereira da Cunha.
Em janeiro de 1830, a caminho do Norte, aportou em Pernambuco sob o
comando do Primeiro-Tenente Isidoro Antônio Nery. A 14 de janeiro de 1852,
chegava à Bahia com 26 dias de viagem; em fevereiro, fazia-se de vela o
Norte tocando em Natal e São Luís do Maranhão, onde se encontrava, em
abril. Tinha a seu bordo como passageiro o Comandante das Armas dessa
província. Nesse tempo, estava artilhado com 16 peças e contava uma
guarnição de 110 praças, estacionado sob o comando do Capitão-Tenente,
José Mamede Ferreira. Por Aviso de 4 de maio de 1833, mandava-se ordem para
o navio seguir para a Bahia, ordem essa que só foi recebida em São Luís a
25 de agosto.
A 27 deste, receberam ordem do Presidente para fazer um cruzeiro de dez
dias. Zarpou no dia 1o de setembro, e, no dia 3, naufragou no
banco fronteiro à Ilha de Municipitandini. O Patrão-Mor e o
Segundo-Tenente Manuel Inácio Brício foram mandados auxiliar o salvamento
do navio, mas só puderam retirar quatro caronadas e uma peça de bronze.
No dia 25, o Comandante apresentou-se ao Presidente. Salvaram-se todos;
só o Comissário veio a falecer em São Luís em consequência do
sinistro. Em ofício ao Governo central, dizia o Presidente: "Cumpre-me
dizer alguma coisa sobre a conduta que tiveram...; no Rio Grande do Norte
por duas vezes esteve este brigue, durante o tempo que presidi aquela
província e ali não apareceu, nem era possível aparecer, a menor queixa
contra seus oficiais, como são as de que se trata. Finalmente, Exmo
Sr., faço tão boa idéia desta oficialidade, que se estivesse autorizado,
teria lançado mão de um outro brigue para a Nação, e teria feito para
ele passar toda a guarnição entregando o comando ao mesmo
Capitão-Tenente...".
Tendo o Presidente da Província, Dr. Joaquim Vieira da Silva e Souza,
que posteriormente foi Ministro da Marinha, ordenado estacionar o Caboclo
junto da Ilha de São João, na chamada Coroa Seca, em vez de fazê-lo
retirar para a Bahia, naufragou o navio nas cercanias da referida ilha no
dia 3 de setembro de 1833, não havendo, ao que sei, perdas de vidas. E
assim, tragicamente, acabou o glorioso lenho imperial.
Fonte: Marinha do Brasil
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