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O Nedlloyd Recife teve seus 700 containers descarregados numa complicada operação.
O navio foi retirado em pedaços e aproveitado como sucata. Na
época, o rebocador Hydrus tentou
retirá-lo e acabou encalhando.
Somente dois anos após o encalhe, foi finalizada a operação de
resgate e retirada das partes do navio, que acabou sendo cortado por
uma empresa especializada engenharia naval. O casco avaliado em US$
25 milhões, foi vendido pela seguradora Swedish Club por US$
175.540 , à empresa paranaense SUCAPAR, e o aço reprocessado e
vendido ao Grupo Gerdau.
Texto publicado no jornal A
Notícia Catarinense:
Navio encalhado alimentou a pirataria na região portuária
Estava frio naquela manhã nublada de março. Enquanto o Brasil
chocava-se com a morte dos jovens integrantes dos Mamonas Assassinas
num acidente aéreo, os moradores das praias de São Francisco do
Sul só falavam de um assunto: o acidente com o navio Nedlloyd
Recife, na ilha da Paz. A orla amanheceu repleta de mercadorias. Os
pescadores passaram o dia todo recolhendo o material ainda sujo de
óleo. O que era apenas uma diversão acabou se transformando em
grande negócios para pescadores e moradores. Em março de 1996, a
pesca da tainha não foi a única fonte de lucro.
Um empresário morador de uma praia de São Francisco do Sul
conta o episódio como se fosse uma fábula: o ano em que os
francisquenses se transformaram em piratas. Vale primeiro um
parêntese sobre a história do Nedlloyd Recife. O navio de bandeira
liberiana aguardava para atracar no porto. Era madrugada. Dia 1º de
março. A causa ainda é pouco conhecida. À época, a razão
encontrada foi um problema no leme. O navio teria perdido o controle
e, devido ao mar agitado, foi jogado até as pedras da ilha da Paz,
parte integrante do conjunto de ilhas que fica a 23 quilômetros da
costa.
A partir daí, o que se viu foi uma mudança completa na vida dos
moradores de São Francisco do Sul. Segundo o empresário,
praticamente toda a cidade se beneficiou com os produtos do
Nedlloyd. O navio passou a ser chamado de "shopping
center", devido à diversidade de mercadorias que havia em seus
mais de 700 contêineres. Muito material caiu no mar com o choque da
embarcação com as pedras. "O navio encalhou à 1 hora da
manhã. À tarde a praia estava cheia de gente carregando material
que apareceu na orla. As imagens eram marcantes. Gente suja de óleo
carregando os objetos do navio. No primeiro momento parecia uma
coisa fantasiosa, romântica", relembra o empresário.
Depois desse primeiro momento, a ação ganhou status
profissional. Grupos de pessoas passaram a se reunir em segredo, em
casa, por telefone, sempre usando códigos. "Vamos hoje ao
shopping?", era a senha. O alvo dos "piratas" eram
roupas, pneus e tênis que estavam dentro dos contêineres. Saíam
de embarcações na praia do Capri e iam até a ilha. As
expedições eram compostas por até 20 pessoas em cinco barcos
pequenos. O "profissionalismo" também incluía um pequeno
suborno para os seguranças instalados na ilha da Paz para evitar
saques das mercadorias. O empresário era uma espécie de cabeça do
grupo, mas havia outros. "Tinha noite que havia 50 barcos ao
redor do navio só para pegar a carga", lembra. Os
"piratas" escalavam o navio - cerca de 15 metros de altura
- usando correntes de ferros. Era um trabalho arriscado, realizado
geralmente em situações adversas, como o mar agitado e a mais
completa escuridão. Já dentro da embarcação, o alvo eram os
contêineres. Numa segunda etapa, o principal objetivo era furtar os
pneus e televisores. Nesta fase é que o dinheiro começou a correr
solto. Vinham empresários de outros Estados somente para comprar as
mercadorias.
Os piratas faziam várias viagens durante uma noite. O
empresário lembra de alguns objetos que conseguiu comercializar.
Eram jaquetas, aparelhos de som, motores de carro, capas para CD e
coelhos de pelúcia.
Há casos engraçados. Segundo a fonte, um dia ele recebeu a
ligação de uma pessoa solicitando a compra de camisas. Disse que
não tinha mais em seu estoque. Então, passou a perguntar para os
moradores quem tinha uma boa quantia de camisas retiradas do
Nedlloyd. Chegou até um pastor evangélico. Na frente de sua casa
funcionava um culto. A mulher do religioso se retirou das orações
e foi até uma sala, no fundo da casa, onde estavam estocadas
várias camisas. "Na frente era igreja e no fundo,
pirataria", diverte-se.
Outro caso que virou lenda foi a mobília do "conde".
Dentro de um dos contêineres estavam móveis de um homem que se
mudava de Buenos Aires para Vancouver, no Canadá. Todo o material
caiu nas mãos dos piratas e era disputado a peso de ouro. Todos
queriam algum objeto do tal "conde". Não foi difícil
encontrar cadeiras austríacas em casas de humildes pescadores.
Peças de bronze sendo comercializadas como artesanato. Uma porta de
madeira esculpida a mão ficou com um velho morador de uma ilha,
conhecido como Vica. Todos queriam a sua porta, que não era vendida
por preço nenhum. Anos depois, Vica acabou bebendo além da conta e
tocou fogo na porta.
Muita gente também foi presa pelo saque do navio. A maioria era
pescador. Iludidos com o ganho fácil, resolveram praticar o furto
com mais frequência. Acabaram presos e respondendo a processo
criminal. A reportagem encontrou dois pescadores na praia da Enseada
que na época foram pegos em flagrante. Eles preferem esquecer do
assunto, embora já tenham sido absolvidos na Justiça.
"Alguém tem de pagar o pato, né? Sobrou pra gente que é
pobre. Mas fui absolvido e não devo mais nada à Justiça. Não
quero falar sobre esse assunto", relatou um deles, já virando
as costas.
Estima-se que a carga retirada do navio tenha movimentado cerca
de R$ 3 milhões em São Francisco do Sul. Até hoje ainda há
restos da embarcação próximo à ilha do Farol. O shopping foi
"falindo", e as pessoas gastando o dinheiro. Também não
foi difícil observar a mudança de status entre os moradores. Teve
gente que comprou carro zero e reformou a casa que estava caindo aos
pedaços. "Todas as pessoas da ilha foram beneficiadas,
ganharam dinheiro direta ou diretamente. Eu mesmo ganhei muito
dinheiro com o Nedlloyd", resume o empresário.
Por: Marco Aurélio Braga
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