| Notas
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Morreram 131 pessoas
Relatório da última viagem do navio motor
"Araraquara"
Por: Milton Fernandes da Silva
Às 14 horas do dia 11 de Agosto de 1942, zarpou do porto do Rio
de Janeiro, com destino ao de Cabedelo e escalas em S. Salvador,
Maceió e Recife, o navio-motor "Araraquara" sob o comando
do capitão de longo curso, Lauro Augusto Teixeira de Freitas,
levando á seu bordo 81 homens de guarnição e 96 passageiros.
No dia 13, quando em viagem Rio-Bahia, à 13 horas, achando-me de
serviço, por ordem do Sr. Comandante, dei alarme para o serviço de
salvatagem, o qual foi feito com a máxima presteza e absoluta
ordem, não só por parte da guarnição como dos passageiros.
Fundeamos às 2 horas e 5 minutos, no ancoradouro do porto do
Salvador no dia 14. Às 7 horas atracamos em frente do armazem nº
5, iniciando-se, então, as operações de carga e descarga, ficando
a sahida marcada para o dia seguinte às 11 horas. Conforme fôra
marcada no dia anterior, às 11 horas do dia 15, deu o Sr.
Comandante inicio a manobra de desatracação, seguindo-se com
destino ao porto de Maceió onde deveriamos chegar ao amanhecer do
dia 16. Apesar de fortes ventos, mar e chuvas constantes, a viagem
corria normalmente,
Às 21 horas, achando-se o navio quasi de trávés com a cidade
de Aracajú, com o clarão da mesma á vista, eu dormia no meu
camarote, quando fui despertado por um estampido ôco, seguido de
estremecimento do navio. Levantei-me incontinenti, ainda com o
barulho da explosão e tentei acender a luz, mas já não havia
energia eletrica. Compreendi, então, que o navio havia sido
torpedeado. Vestia eu a calça do uniforme, por cima do pijama,
quando aproximou-se o Comandante perguntando ao oficial do quarto, 2º
piloto, Benedito Iunes, o que havia acontecido. Foram estas as suas
palavras: -"Que foi isto, Benedito ?"
O referido oficial preso de grande nervosismo nada respondeu,
tendo eu dito então:
- Fomos torpedeados, e o navio está adernando consideravelmente.
A este tempo a guarnição já se aproximava do passadiço
aguardando a ordem do comando, que foi a seguinte:
- Ponham os coletes salva-vidas e corram as baleeiras.
Foi executada imediatamente a ordem do Comandante:
Ao passar pela baleeira n. 1, em caminho da n. 3, da qual me
cabia o comando, vi já iniciando o serviço de arriar a embarcação,
o Comandante, o 1º. maquinista e outros que faziam perto da guarnição
da mesma.
Quando chegava a baleeira n. 3, após ter passado aproximadamente
1 minuto da 1ª. explosão, estando o navio já bastante adernado
para boréste, lado do mar, onde bateu o torpedo, novo estampido foi
ouvido, seguido logo por outra explosão que incendiou o porão n.
3, e derrubou parte do botequim, tendo a tolda do mesmo arriado
sobre a minha baleeira, inutilizando-a completamente. Vendo a
impossibilidade de arriá-la, pensei em salvar parte da guarnição,
e subi ao teto da ultima tolda á procura das balças, as quais, não
encontrei, pois, já haviam cahido ao mar, dado a grande inclinação
do navio. Voltei á baleeira, não encontrando mais a guarnição,
pois, a mesma, vendo a impossibilidade de arriá-la, procurára
outros meios de salvação. Ordenei então, aos passageiros que
estavam desorientados que fossem para o outro bordo, e procurassem
salvar-se da melhor maneira possivel, pois, aquela baleeira não
seria arriada; dizendo mais, que me acompanhassem. Saí de gatinhas
pelo convés, seguido de vários passageiros e desci cuidadosamente
pelas balaustradas das toldas até chegar ao costado que já se
achava na horizontal, estando, assim, o navio completamente deitado.
Corri até a quilha, fazendo-me ao mar, certo de que seria impossível
salvar-me. Nadei um pouco auxiliado pelos vagalhões que me
afastavam rapidamente do navio. Parei e pude presenciar o mesmo,
enterrar, ou melhor, mergulhar a pôpa, ficando completamente em pé
e desaparecendo.
Não houve tempo para ser arriada nenhuma baleeira, tendo sido
empregado todos os meios para isso.
Com o vácuo produzido pelo afundamento do navio, fui um pouco ao
fundo, tendo bebido bastante água com óleo e levado diversas
pancadas com os destroços do mesmo. Quando voltei à superfície, e
consegui respirar, agarrei-me a uma caixa que boiava, carga do porão
n. 3. Nisto avistei um pedaço da tolda do botequim e nadei para ele,
onde subi e pude recolher mais 3 pessoas, sendo: o 3º. maquinista,
Eralkildes Bruno de Barros, o moço do convés, Esmerino Slina
Siqueira e um oficial do exercito, passageiro do navio. Seguíamos a
mercê das ondas, sem encontrar outras pessoas nas proximidades, a
quem pudessemos recorrer. Fui então apanhando e colocando sobre a
tábua tudo que passava a meu alcance, e que julgava ter alguma
utilidade. Assim foi que apanhei uma pequena prancha, um cavalete,
um saco de farinha de trigo e um balão defensa, do qual aproveitei
o chicote do cabo para amarrar sobre as taboas a pequena prancha e o
cavalete, para que o mar não os levasse, pois, os mesmos serviam de
lastro, isto é, faziam peso na tábua, afundando-a, evitando que a
crista das vagas as arrebentassem.
Durante toda a madrugada avistamos constantes clarões de explosões
no local onde afundou o navio, explosões estas, que creio terem
sido nas garrafas de ar comprimido e nos tanques de óleo.
Continuamos sobre as taboas, notando que o mar nos aproximava cada
vez mais para terra, sempre em frente a barra do Aracajú.
Assim passamos o resto da noite de 15, todo o dia 16, quando
aproximadamente, às 2 horas do dia 17, o marinheiro começou a dar
sinais de perturbação mental, pedindo alimento, dizendo ter ouvido
bater a campainha para o café, depois tentou agredir o tenente, o
que evitamos; em seguida, desesperado de fome e sede atirou-se ao
mar, sendo impossível qualquer salvação. Logo após, o segundo
tenente começou a demonstrar o mesmo sintoma, perguntando pelos colégas.
Lembrei-me, então de indagar seu nome e ele respondeu ser Oswaldo
Costa. Tentei acalmá-lo, foi impossível, atirou-se nágua. Com
cuidado para não haver desequilibrio nas poucas tábuas que nos
restavam, agarrei-o pelas botas, conseguindo colocal-o novamente
sobre as mesmas. No entanto, poucos minutos depois, colocando-se
numa atitude agressiva, dizendo que eu e meu companheiro estavamos
embriagados, que ia para casa, fez-se novamente ao mar, sendo desta
vez, impossível salva-lo.
Restavam agora, na taboa, somente eu e o terceiro maquinista.
Assim, continuamos sempre avistando o clarão da cidade de Aracajú,
para onde eramos levados.
Ao clarear o dia, quando já avistavamos as casas da referida
cidade, a vazante do Rio Cotinguiba e o vento terral nos afastou
para fora, fazendo-nos cahir na arrebentação dos bancos. Esta
acabou de destruir as tábuas e nos atirou nágua. Lutamos com a
dita arrebentação nadando sempre em busca da prancha, pois, esta
ainda nos oferecia resistência, mas ao aproximarmos, éramos
atirados novamente à distância, tornando-se, assim, impossível
agarrá-la. Continuamos nesta luta, até aproximadamente às 9
horas, quando avistamos uma corôa, para lá nos dirigimos. Notei
que a maré enchia, e calculando que na préa mar, talvez não desse
pé na dita corôa, e que estando fracos, pois, a 36 horas não
dormiamos, nem nos alimentavamos, convenci ao meu companheiro que não
devíamos descançar e sim nadar para terra, da qual já avistavamos
o coqueiros. Assim ficamos somente uns 10 minutos, afim de refazer
as forças e fizemo-nos ao mar, nadando em direção da praia de
Estância, onde chegamos às 15 horas. Exausto, deitei-me na areia
para dormir, julgando ter meu companheiro feito o mesmo, quando fui
acordado para beber agua de côco verde que ele havia apanhado.
Reanimado subi também ao coqueiro, derrubando 4 cocos, dos quais
bebemos a água e comemos a polpa. Em seguida puzemo-nos a caminhar,
e depois de andarmos 2-½ léguas, encontramos a fazenda da Barra de
propriedade de Manoel Sobral, onde o administrador, Snr. Luiz
Gonzaga de Oliveira, preparou jantar e nos ofereceu. Terminada a
refeição, o dito administrador mandou dois de seus empregados numa
canôa nos levar à cidade de S. Cristovão.
Durante a viagem, foi que conseguimos durmir um pouco no fundo da
embarcação.
Às 21 horas chegamos a dita cidade, e fomos recebidos pelo povo,
apresentando-se, em seguida, o Sr. Prefeito, que nos encaminhou à
sua residência, obrigando-nos a fazer uma pequena refeição,
enquanto aguardavamos a condução para proseguirmos a viagem até
Aracajú. Pedi, então, que telegrafassem à minha família,
participando que estava salvo.
Quando terminavamos a refeição, mais um sobrevivente do
"Araraquara" apareceu; era o passageiro Caetano Moreira
Falcão, que havia dado a praia, numa das balças, e foi recolhido
por um pescador. Na referida balça, vinham mais dois passageiros,
que morreram lutando com a arrebentação. O Sr. Prefeito, levou-nos
no seu automóvel para Aracajú, onde chegamos às 24 horas,
encaminhando-nos ao Governador do Estado, com quem conversamos
alguns momentos. Depois de deixarnos em palacio o coletee a bóia
salva-vidas que trazíamos conosco, retiramo-nos para o hotel
Marozzi, onde ficamos hospedados.
No dia seguinte, fomos socorridos e medicados pelo médico do
posto assistência Dr. Moysés.
Fiquei 10 dias impossibilitado de me locomover, por ordem do médico
e durante este periodo, outros náufragos foram chegando a Aracajú;
disto era informado pelo Sr. Agente, Dr. Carlos Cruz, ao qual pedi
que telegrafasse a Companhia, cientificando-a de tudo, assim, como,
as familias que me telegrafavam pedindo notícias dos seus.
Os outros sobreviventes foram os seguintes: José Pedro da Costa,
barbeiro, que salvou-se sozinho em um pedaço de tábua; Francisco
José dos Santos, marinheiro, e Maurício Ferreira Vital, taifeiro,
que salvaram-se numa das balças, trazendo consigo a passageira,
Dona Eunice Balman; José Rufino dos Santos, marinheiro, José
Correia dos Santos, moço, e José Alves de Móla, carvoeiro, que
chegaram à terra montados na quilha da baleeira n. 4, que flutuou
emborcada depois do navio submerso, e traziam consigo a passageira,
Dona Alaide Cavalcante.
Vários cadáveres deram à praia, sendo fotografados pela
polícia e, dentre eles, pude identificar dois: o taifeiro, Celso
Rosas e o cabo Caldeirinha, Pedro Vieira.
As baleeiras no. 1 e 2, tambem deram à praia, mas completamente
vazias.
Dia 29, seguimos por ordem da Companhia, para a Bahia, ficando
alí hospedados à bordo do navio "Itaquera", de onde
saímos no dia 4 de setembro, viajando por terra, com destino ao Rio
de Janeiro, onde chegamos às 23 horas do dia 10.
Consta na cidade de Salvador, que os tripulantes do hiate e da
barcaça que foram abordados, sendo a última bombardeada,
identificaram como de nacionalidade alemã a guarnição do
submarino, ficando assim provado e reconhecido os covardes que
torpedearam no espaço de 48 horas, 5 navios de passageiros,
completamente indefesos.
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