|
Sardenha - Histórias de Guerra e de Naufrágios
Parte II - O naufrágio do BENGASI
É difícil e estranho relatar um mergulho que não fiz, mas minha
curiosidade e fascinação por este naufrágio são tamanhas, que não poderia
deixar de divulgar a sua existência mesmo não tendo conseguido realizar este
sonho. Como havia citado em meu artigo anterior, existe uma dificuldade grande
de se alugar equipamentos para mergulho técnico nessa região da Sardenha. Na
véspera desse mergulho fui traído pela roupa seca que puseram a minha
disposição. Um pequeno furo no pé direito da roupa e uma dificuldade de
ajustar os punhos de látex deixaram água entrar em abundancia, o que
inviabilizou o mergulho que vou relatar nesse artigo.
Extraído da revista italiana de mergulho MONDO SOMMERSO de Abril / 2003
Texto por Roberto Rinaldi (1)
Tradução e adaptação: Fabio Conti.
Fotos: Roberto Rinaldi (AQUATICA TEAM); supesubmania.it; TSA Europe.
Crônica de um mergulho difícil e fascinante a 93 metros de profundidade
Torpedeado e afundado
"6th May: torpedoed and sank Italian MV off Sardinia. 7,000 tons, she
was carrying troops". É o curto comentário escrito no diário de bordo de
Eddie Brown, o radio telegrafista do submarino britânico TRUANT, naquele dia em
1941. Juntamente com essa mensagem, uma informação classificada como secreta
foi enviada pela MARISTAT (2): "Comunicamos que no dia 6 de Maio
de 1941 às 17:15, o cargueiro BENGASI, navegando de Nápoles em rota para
Cagliari, foi torpedeado e afundado a 2 milhas e 125° da Ilha Cavoli. Até
agora contam-se 4 desaparecidos, 6 feridos dos quais 2 gravemente". Na
verdade o BENGASI não transportava tropas. Era um pequeno cargueiro totalmente
inofensivo que em nossos mergulhos descobriríamos estar carregado de garrafas,
vasilhas, copos, e de um bom xarope em uso naquela época. É possível que
daquela vez o moderníssimo sistema de descriptografia das mensagens codificadas
do Eixo houvesse falhado. Ou mais provavelmente, ninguém jamais enviou uma
mensagem para anunciar a viagem do BENGASI, totalmente inócua do ponto de vista
militar. Talvez o navio e o submarino encontraram-se por acaso, por pura
fatalidade. Quem sabe, talvez o TRUANT estivesse à caça de um navio de
transporte de tropas anunciado por uma mensagem do estado maior e o encontro com
o BENGASI gerou confusão.
Já é bem conhecido que, no início da guerra, um partizan polonês capturou
uma máquina alemã de codificação "Enigma". Um sistema
aperfeiçoado e eficaz o qual os alemães confiaram completamente por toda a
duração do conflito. Os ingleses com aquela máquina em mãos conseguiram
compreender o funcionamento da criptografia do Eixo e decifrar todas as
mensagens. "Ultra" – abreviação de Ultrasecret – era o nome da
organização que Churchill havia criado pessoalmente. Milhares de mensagens
alemãs e italianas eram decifradas diariamente. Os ingleses tinham um quadro
exato de tudo que acontecia no lado inimigo e o que era preparado. Por isso a
frota italiana foi sistematicamente destruída por submarinos e aviões aliados.
Isso explica porque no diário do telegrafista do TRUANT se fala de um navio de
transporte de tropas. Isso também explica porque o pequeno BENGASI foi afundado
por engano, confundido com um navio que deveria passar por aquela área.
Indubitavelmente o estado maior alemão não daria importância para um pequeno
navio mercante carregado de vidros, porém o que não se entende é porque
fizeram menção do mesmo em mensagens cifradas.
No momento da organização da nossa expedição, nós sabíamos mais sobre o
navio do que souberam os submarinos ingleses. Hoje o BENGASI jaz em uma
profundidade de cerca de 93 metros, e outras equipes antes de nós já o
visitaram. Uma expedição foi organizada pela equipe AQUATICA TEAM (3).
Mergulhadores italianos, franceses e holandeses se reuiniram para essa
expedição. O centro de Mergulho Pro Dive, do instrutor NAUI Trimix Stefano
Bianchelli, foi a nossa base de operações, e Stefano colaborou efetivamente
com o grupo para a difícil gestão das equipes de mergulho que diariamente
partiam separados para mergulhar no BENGASI. no MARTE e no LOREDAN. E também,
após o fim do dia, para a recarga da incrível quantidade de cilindros
utilizados.
A finalidade principal dos mergulhos no BENGASI era de completar uma
exploração sistemática do navio e, sobretudo, de identificação positiva do
mesmo.
Lugares destruídos
O naufrágio está apoiado em posição de navegação em um fundo arenoso.
As suas dimensões pequenas consentiram uma visão de conjunto bastante completa
na água cristalina da Sardenha meridional. As estruturas são bastante modestas
e não deixa no mergulhador aquela sensação de se estar perdido, coisa que
ocorre em naufrágios grandes.
Ao fim do primeiro mergulho, notei que as estruturas estão em parte
colapsadas. Os pontos de madeira não existem mais, e observando o interior
através de uma vigia, ou de uma porta, se tem apenas uma sensação de grande
destruição e caos. Como sempre durante os primeiros mergulhos, cada abertura
parece muito pequena para ser negociada, cada passagem muito estreita para
consentir a entrada, cada ambiente muito obstruído por sucata para ser
explorado.
Assim, durante os primeiros mergulhos, nos dedicamos à exploração do
passadiço. Fomos até a popa para fotografar o pequeno canhão, me distanciei
do fundo para ter uma visão de conjunto do navio e filmamos um par de capas
contra vento em ótimo estado.
A sala dos vidros
Obviamente penetramos nos porões. Estes literalmente cheios de garrafas de
vidro, vasilhas, copos, vasos de flores, transportados pelo pequeno navio de
Nápoles para Cagliari. Entre os vidros despontavam iluminados pelas lanternas,
uma série de pequenas tampas vermelhas: Eram de garrafas de xarope.,Era de um
tipo especial que parece ter estado em moda naquela época, preparado
artesanalmente por Onorato Battista, um farmacêutico de Nápoles.
Através de uma passagem apertada, entramos em uma zona onde se encontravam
pilhas de bacias metálicas. Enquanto fotografávamos, as equipes do grupo se
alternavam na exploração. Alguém encontrou a entrada da sala de máquinas e
penetrou nela. Outros desceram no hélice enterrado até a metade na lama,
outros ainda descobriram na proa o buraco do torpedo.
Um dia a notícia que esperávamos: No interior do navio havia uma placa com
o nome BENGASI. Mar mexido, tempo feio, vento forte e instável. Condições que
eram normais nesses dias de outono. Entretanto estavam faltando algumas imagens
dessa nossa ultima expedição ao BENGASI. Algumas vias de penetração
descobertas nos primeiros mergulhos não foram nem tentadas. E talvez fosse o
momento de tentar. Stefano Bianchelli mais uma vez ofereceu seu apoio,
assistência e estrutura. E nós, como sempre, fomos estúpidos o bastante em
partir para uma nova expedição no meio do Inverno.
Fomos recompensados? Acreditamos que sim. As imagens que levamos conosco -
aquelas conquistadas com fadiga, se arrastando na barriga do navio, engolidos
pelo negro que nos envolvia logo que deixávamos a segurança da água
cristalina que rodeia o naufrágio, lutando com uma correnteza que nos fez
sentir hóspedes indesejados - são o premio para o nosso otimismo que não se
abateu nem mesmo diante de um mar branco de espuma, assombrado por um céu negro
como o mais obscuro dos presságios.
Levamos do continente, três cilindros grandes de hélio, dois de oxigênio e
cilindros recarregados já prontos para mergulhar assim que saíssemos do
ferry-boat. E ainda todo o resto do equipamento e dos sobressalentes
necessários.
No primeiro dia da expedição o tempo estava feio de verdade. Negro, triste
e chuvoso. Com um vento que não conseguia decidir de que direção soprar e que
por isso mesmo, não chegava a levantar ondas que obrigasse a desistir do
mergulho. Já era o período da tarde quando partimos. Final de tarde quando
terminamos o fundeio.
Entramos na água e fomos logo descendo para o fundo bem rápido ao longo do
cabo. Mas talvez aquele não fosse o dia:
Depois de poucos metros estávamos quase totalmente no escuro, e a medida que
se descia a situação ficava pior. O nosso primeiro objetivo era fotografar a
placa com o nome BENGASI encontrada no interior durante a expedição de
setembro.
No naufrágio a escuridão era total. Rapidamente liberamos os stages: Aqui o
ambiente não é igual ao do ANDREA DORIA. Seria difícil se deslocar no
interior com toda aquela tralha entre passagens estreitas de uma
super-estrtutura parcialmente colapsada, com nuvens de lama finíssima, entre
cabos elétricos e as linhas de pesca que pendulavam dos tetos de vigas
desabadas. Penetramos rápido no interior de uma passagem um pouco estreita. Mas
parece que não era mesmo o dia: uma das nossas lanternas caiu em um buraco
aberto nas tábuas podres da ponte e para recuperá-la levantamos tanta
suspensão que ficou impossível a permanência dentro daquele lugar.
Saímos já no décimo segundo minuto de mergulho. Ainda com tempo para
penetrar no porão dos vidros. O porão cheio de copos, vasilhas, garrafas,
vasos de flores, frascos de xarope. Ali dentro o ambiente era mágico:
Deveríamos chamar de porão da música, porque ali dentro os vidros tilintam a
cada movimento das nadadeiras. As garrafas e os copos ressoam a cada esbarrão
de uma mão o de um pé parecendo que aquela orquestra inanimada segue um
bastão de maestro. Anoiteceu já no fim do mergulho e fizemos a subida no
escuro.
Corrente fortíssima
O dia seguinte era para se ficar em casa. Quarta feira estava ainda pior, mas
a vontade de mergulhar era maior. Então saímos assim mesmo; O vento Grecale
soprava decidido, cruzado com o velho vento Libeccio (4). Na água
uma desagradável surpresa: na superfície uma correnteza muito forte. "A
correnteza será só nos primeiros metros e as ondas não se sentirão mais logo
abaixo da superfície". Grande ilusão, o rio de água salgada nos castigou
até o fundo. Fomos descendo puxando o cabo com muita dificuldade. Com a maquina
fotográfica na mão esquerda e só o braço direito para segurar, cheguei no
fundo com uma forte dor no ombro direito: Deveria ficar atento na descompressão
para não confundir uma dor muscular com uma doença descompressiva. Logo após
chegar no passadiço, deixamos os stages e penetramos na abertura do dia
anterior à procura daquela placa com o nome do navio. Avistamos um estranho
objeto em forma de chapéu de padre que até hoje não entendemos o que seria.
Mais adiante, passando uma porta encontramos a munição do canhão, depois a
roda do leme, provavelmente caída do alto junto com a ponte desabada.
Um tanto irresponsavelmente, continuamos a vagar por aquele desastre de vigas
caídas, de cabos emaranhados, de latrinas emergentes da lama avermelhada. Aqui
como em todos os naufrágios pouco visitados, as bolhas exaladas faziam cair uma
grande quantidade de material do teto. A água se turvava atrás de nós,
obrigando a efetuar o mergulho de maneira bem rápida. Em um banheiro vimos os
restos de um livro; pouco mais além, munição menor, talvez de fuzil. Mais uma
vez, os feixes de luz das lanternas mesmo potentes e bonitos, foram inúteis
contra as nuvens vermelhas e espessas que caiam do alto, revolvidas pelas bolhas
que explodiam de baixo enquanto os joelhos se metiam na lama. Procuramos ser
rápidos, fotografando "em vôo" quando se tinha a oportunidade, antes
daquela tempestade de nuvens vermelhas.
Finalmente decidimos sair. Ficamos quinze minutos lá dentro. Havíamos
procurado e encontrado traços de vida daquele antigo vapor. Era hora de voltar.
E aquela água turva e escura ficava azul e feliz assim que saia do navio. No
mesmo lugar, abaixo da amarração da bóia, recolocamos os stages, enganchando
as joinlines para ajudar na subida com correnteza, que talvez a essa hora
estivesse mais forte do que na descida: Desde o naufrágio, ela nos acompanhou
até a superfície, se somando nos últimos metros à força das ondas.
"Fortuna iuvat audaces": Nesse meio tempo, as televisões mostravam
as imagens dos botes infláveis pelas ruas das cidades do Norte. Depois de uma
ressaca que destruiu o calçadão da praia em Cagliari, na manhã do dia 28 o
sol resplendia e o mar estava calmo, sendo apenas levemente tocado pela brisa do
vento Maestrale. Dia ideal para o último mergulho.
Tudo parecia perfeito da superfície. Lembrando do sofrimento do dia anterior
na deco, levamos um pouco mais de lastro. Assim descemos bem rápido. Estava
muito bonito: A água de azul intenso, a corrente muito leve. Ainda assim a
sessenta metros entramos em uma camada de água negra e densa, fria de matar.
Uma cortina impenetrável que revelou o naufrágio apenas no ultimo momento,
quando já estávamos em cima. E abaixo, além dessa camada, a água estava
cristalina e se podia ver todo o navio. E era até mesmo frustrante pensar que
nesse dia o objetivo era a penetração na sala de máquinas. Penetramos
rapidamente no porão aonde pensávamos estar o acesso e iniciamos então uma
procura, porém sem sucesso: não encontramos o buraco. Mas um pouco mais à
frente, atrás de uma abertura no teto, o facho da lanterna enquadra a forma de
uma cama. O buraco parece bastante amplo para entrar, mesmo sabendo que
deveríamos encontrar uma outra abertura de saída uma vez que o retorno não
seria possível. Com um pouco de dificuldade nós passamos. A sala era ampla,
cheia de detritos e infestada de cabos elétricos e pedaços de ferro. As camas
estavam espalhadas pelo aposento. Trabalhamos um pouco ali dentro até quando a
visibilidade permitiu. Do alto do castelo de popa onde estamos agora descemos
ainda nos porões. Bem a tempo para mais algumas fotos do xarope do mestre
Onorato.
1 - Fotógrafo e cinegrafista submarino. Considerado um dos melhores
fotógrafos sub da atualidade, com fotos publicadas na revista National
Geographic. Por vários anos foi cinegrafista membro da equipe Cousteau.
2 - Estado Maior da Marinha Italiana durante a Segunda Guerra Mundial.
3 - Grupo de mergulho que organiza expedições técnicas na Itália. (www.aquaticateam.it)
4 - Na Itália, assim como na França, os ventos recebem nomes de acordo
com a direção da região de onde sopram em relação à Ilha de Zante na
Grécia. Grecale: Vem da Grécia; Libeccio: da Líbia; Scirocco: da Síria e
Maestrale: No caso da Itália, quando sopra da Península, da direção de
Roma (Maestrum). Na França recebe o nome de Mistral.
Sardenha - Histórias de Guerra e de Naufrágios -
Parte I
|