Preparação Física para Mergulhadores de Resgate

Neste artigo abordaremos de forma específica a importância da preparação física para mergulhadores de resgate, não querendo contudo, menosprezar a necessidade de uma preparação física para qualquer mergulhador.

Porém, quando abordamos o assunto mergulho de resgate, a questão é diferente.

Zelar pela segurança de mergulhadores não é tarefa fácil e realmente exige preparo físico, trabalho em equipe e conhecimento de técnicas de resgate.

Pré-requisitos

Saber nadar é pré-requisito para qualquer candidato a mergulhador, e muito mais para um mergulhador de resgate.

A Natação é um ato de propulsão e auto-sustentação na água com movimentos combinados de braços e pernas que foi aprendido pelo homem através do instinto ou observando os animais, segundo a sua história. É considerada um dos exercícios mais completos na atualidade, a ponto de exceder o simples divertimento ou a prática desportiva, para ser utilizado com finalidades terapêuticas na recuperação de atrofias musculares e tratamento de problemas respiratórios. Além disso, é importante como atividade física para manutenção da saúde e como meio de defesa contra afogamentos ou em operações de salvamento.

Avaliação Inicial

Teste Para Saber Se Você Precisa Praticar Exercícios

A finalidade do exercício não é somente a proteção do aparelho cardiovascular, mas também a manutenção do bom funcionamento da estrutura corporal. Observe-se e responda:

1. No dia seguinte a um maior esforço físico você acorda todo dolorido ?

2. Você acha difícil curvar-se, virar-se ou fazer uma rotação de tronco ?

3. Você se sente frequentemente cansado mesmo sem ter feito nenhum exercício especial ?

4. Tem dificuldades em conciliar o sono mesmo quando está muito cansado ?

5. Quando você corre pequenas distâncias ou sobe escadas fica sem fôlego

6. Você está com seu peso acima do ideal ?

7. Você se sente as vezes deprimido sem motivos ?

 

Se você respondeu sim para qualquer uma das perguntas acima, procure praticar uma atividade física que lhe proporcione prazer. Movimente-se, pois as pessoas que sofrem de cansaço generalizado, sem causas médicas, se beneficiam com “mais” exercícios que com “mais ” descanso. (Alberto e Jacques, 1998)

 

Testes

Não existe um teste definido que possa revelar prontamente a condição fisiológica de um mergulhador de resgate. Diferenças individuais, biorritmo e estilo de vida servem para quebrar a efetividade do desenvolvimento de qualquer avaliação e programa de treinamento; porém, é importante ter um plano básico a partir do qual as modificações possam mensuradas.

E é claro, este plano de treinamento deve ser adaptável de acordo com alterações no progresso do mergulhador.

Embora o cronômetro ainda seja o melhor método de estimativa de adaptação ao treinamento, ele oferece pouco critério com respeito as alterações na fisiologia da natação, e consequentemente do mergulhador.

Hoje a Medicina dos Esportes faz uso de testes de aferição que objetivam a melhora do indivíduo colaborando no plano do programa de treinamento.

Tais testes incluem medidas do lactato sanguíneo, medida da frequência cardíaca e rating of perceived exertion (nível de esforço do exercício apreendido, RPE), entre outros.

Embora a validade e a sensibilidade destes testes como indicativo de adaptação ao treinamento estejam sujeitos a debates, geralmente estão bem correlacionados com a melhora da performance durante os estágios iniciais do treinamento.

Mas vamos começar de uma maneira mais simples.

 

Como Medir sua Pulsação e Calcular a Zona Alvo de Treinamento

Segundo McARDLE e col, 1997,” a capacidade aeróbica melhorará se o exercício for de intensidade suficiente para fazer aumentar a frequência cardíaca até pelo menos 70% da FCM”. Apesar dos indivíduos pensarem que quanto mais intenso for o exercício melhor será para aprimorar o condicionamento, a idéia é falsa , pois, há um limiar onde o indivíduo não obterá ganhos adicionais.

Por isso estabelece-se uma Zona Alvo de Treinamento com valores mínimos e máximos para melhor aproveitamento tanto cardíaco como no condicionamento físico geral , de acordo com a idade do indivíduo

 

Cálculo da Frequência Cardíaca Máxima (Fonte: Guedes, Guedes, 1995 e Filho, José Fernandes,1999)

A fórmula é bastante simples e ainda é aceita.

A Frequência Cardíaca Máxima (FCM) = 220 – idade da pessoa (Karvonen e col., 1957) – margem de abrangência (desvio padrão)+ ou – 10 até 25 anos e a partir de 25 permite-se uma abrangência maior de + ou – 12.

Exemplo: FCM =200, abrangência de 210 limite superior e 190 limite inferior.

Conclui-se então que a FCM pode oscilar de 190 à 210.

Segundo Sheffield e col,1965, quando falamos de indivíduos destreinados a FCM é calculada da seguinte maneira:

Frequência Cardíaca Máxima = 205 – (0,42 x idade)

Segundo o Prof. João Carlos Bouzas Marins, fisiologista do Laboratório de Performance Humana da Universidade Federal de Viçosa, MG, a Frequência Cardíaca Máxima (FCM) não depende apenas da idade, mas também do sexo e o tipo de exercício.

Para o Dr. Nabil Ghorayeb, responsável pelo setor de Esporte da Sociedade Brasileira de Cardiologia, “essa fórmula é antiga e pode trazer riscos à saúde. As mais novas são mais precisas”.

Mas ele lembra que o exame ergoespirométrico ainda é a melhor forma para determinar o limite cardíaco.

Portanto ele sugere uma outra maneira de calcular a sua Frequência Cardíaca Máxima (FCM):

Natação (homem e mulher): FCM = 204 – (1,7 x idade)

 

Zona Alvo de Treinamento (Karvonen e col., 1957)

Um outro aspecto fundamental é determinar a sua Zona de Treinamento. Ela é estabelecida controlando-se os batimentos cardíacos entre a faixa mínima e máxima durante o exercício.

O princípio também é simples: Meça a sua FC em um minuto em repouso. Depois multiplique pelos fatores abaixo:

FCM x 0,60 = Frequência Cardíaca Mínima

FCM x 0,70 = Frequência Ideal na Atividade Aeróbica

FCM x 0,85 = Frequência Cardíaca Máxima

Existem outras inúmeras fórmulas para avaliar o treinamento que correspondem a diferença de níveis de intensidade de exercício e também correspondem a vários mecanismos de transporte metabólico e respiratório no organismo.

 

Tempo de Recuperação de Acordo com a Intensidade do Exercício

Uma outra questão importante diz respeito ao tempo de recuperação pós exercício. Descansar é tão importante quanto treinar.

50% até 85% = de 6 a 24 hr

85% até 90% = de 12 a 24 hr

90% até 95% = de 12 a 48 hr

95% até 100% = – 12 a 72 hr

Sempre sugiro que o candidato mantenha a sua resistência aeróbica nadando no mínimo 1 hora por 3 vezes por semana.

O treinamento deve ser complementado com um trabalho de resistência muscular localizada e simulações de resgate.

Vale dizer que para saber agir no momento de crise, o profissional tem que estar bem preparado tanto física quanto emocionalmente para poder assistir à vítima.

Conclusão

A preparação de mergulhadores de resgate deve ser suficiente para alcançar a boa forma na alta temporada, quando os turistas invadem as operações de mergulho. Ela não é nem nunca será estabelecida em apenas um curso, já que demanda ciclos de preparação.

Durante o curso de mergulhador de resgate o alvo deve ser os exercícios técnicos e o trabalho de equipe.

A consciência a respeito da preparação física de qualquer mergulhador será consequência de uma mudança de paradigma do próprio candidato, que normalmente ocorre depois do curso e que deverá ser sempre compreendida como um ganho na qualidade de vida, um novo estilo de se viver.

Roberto Trindade

Formado em Educação Física, Psicologia e Turismo. Pós-graduado em Psicomotricidade, Psicopedagogia, Esportes de Aventura, Psicologia do Esporte e Fisiologia do Exercício. Mestre em Psicologia. É mergulhador profissional pelo Ministério da Marinha e Delegacia de Portos e Costas – DPC. É instrutor trainer trainer pela IANTD e instrutor pela CBPDS, CMAS, PADI, NAUI, TDI, HSA, SBMA, SSI, NSC, ERDI e DAN. Também é Membro da Sociedade Brasileira de Atendimento Integrado ao Trauma (SBAIT), Undersea and Hiperbaric Medical Society e Centro Regional de Informação de Desastres para América Latina e Caribe.