Prevenção da Morte Súbita no Mergulho – O Coração

Foto: Clécio Mayrink

Recentes fatalidades no mergulho, muitas vezes em condições de atividade muito simples, quase sempre tem origem na doença cardiovascular, mais especificamente das artérias coronárias.

O que me deixa triste é que a maioria destas fatalidades poderia ser evitada, com exames preventivos e diagnósticos, e com a correção do problema.

O que é ?

O coração é um músculo cuja função principal é bombear sangue pelo corpo. Ele traz o sangue “pobre em oxigênio” dos tecidos, manda para os pulmões, onde ocorre a oxigenação, e distribui este sangue “rico em oxigênio” para o corpo todo. Esta bomba não funciona de graça, precisa de energia, obtida através deste sangue oxigenado, que assim que sai do coração tem uma parte desviada para as artérias coronárias (em forma da coroa de cristo), que vão suprir toda a demanda deste músculo.

O problema começa com uma inflamação na parede interna destas artérias, que vai levando a estreitamentos, rupturas e calcificações. Quando ocorre uma obstrução, o sangue para de chegar e aquela área do coração sofre, podendo ocorrer o enfarte, com destruição de parte deste tecido. Mesmo uma área minúscula pode levar à morte, pois pode surgir desde uma arritmia cardíaca, até a parada. Na água, tudo é mais grave, pois além de não haver socorro imediato, o indivíduo pode se tornar incapaz de nadar e vir a se afogar.

Quem imagina aquele mergulhinho com água quente e sem correnteza, tem que se lembrar também que as condições podem mudar subitamente, e exigir uma demanda cardiovascular muito maior do mergulhador, por exemplo, apenas tendo que rebocar seu dupla, que esteja apresentando câibras.

Uma questão sobre a doença cardiovascular é que muita vez a mesma evolui silenciosamente, até que um evento, ou a morte súbita, ocorre. É aí que entra a medicina preventiva, com diagnóstico precoce e tratamento das condições de risco.

Fatores de risco

Um dos principais fatores de risco para a doença coronária é a hereditariedade, com a qual não podemos lutar, mas podemos ficar “mais espertos” e tratar de minimizar os outros fatores.

De qualquer maneira, pacientes que possuem parentes diretos com doença coronária, precisam tomar muito cuidado. Outros fatores modificáveis, incluem distúrbios de colesterol, hipertensão, diabetes, tabagismo, e falta de atividade física. Mas para tudo isto, podemos intervir com mudanças de hábitos de vida, exercícios, medicações, etc…

O mergulhador envelhece

O mergulhador vai envelhecendo, e com isto seus tecidos, e aquele exame médico de aprovação para mergulho, feito aos 20 anos de idade não serve para mais nada. O mesmo deveria fazer um check-up anual, que atestasse a aptidão para a prática esportiva, e que o médico soubesse e levasse em conta as particularidades do mergulho.

Particularmente, penso que todo mergulhador adulto deveria, além do seu check-up geral, fazer um teste de esforço (aquele eletrocardiograma correndo numa esteira), um ecocardiograma, e exames adicionais, se algum ou alguns dos fatores de risco acima mencionados se aplicam. Cada caso é um caso, certa vez atendi um surfista, aparentemente com excelente saúde cardiovascular, mas com discreta alteração inespecífica no teste de esforço. Como o mesmo tinha um histórico familiar de enfarte precoce no pai, e colesterol alterado, pedi certos exames adicionais, e bingo, o mesmo tinha uma lesão numa das artérias coronárias (silenciosa, mas grave), e uma intervenção se fez necessária.

É importante lembrar que abaixo dos 30 anos existem também mortes no esporte e no mergulho, por causa cardiovascular, mas de outra origem, as cardiomiopatias, que também podem cursar de forma silenciosa, sendo pegas apenas através de exames.

Uma vez liberado para a prática de exercícios e mergulho, o mergulhador deveria se manter bem condicionado, com um programa de exercícios aeróbios e de força física (não entrarei em detalhes aqui), até porque com exceção dos profissionais da atividade, que trabalham em resorts, o mergulho é uma atividade de finais de semana e de férias, e que não gera condicionamento nenhum.

Obviamente, cada tipo de mergulho requer uma aptidão diferente. Um mergulhador técnico tem necessidades diferentes do mergulhador recreativo.

Sem neurose, com saúde e prevenção !

Gabriel Ganme

Dr. Gabriel Ganme é médico do esporte, e responsável pelo ambulatório de Medicina dos Esportes de Aventura da Escola Paulista de Medicina, no CETE – UNIFESP.

Mergulha desde 1980 e foi Course Director pela PADI de 1990 até 2016.

Foi Cave Intructor Sponsor (NSS/CDS), Technical Instructor pela TDI e IANTD, e membro da Undersea & Hyperbaric Medical Society.

Atualmente é proprietário de uma clínica especializada em medicina esportiva.