Pronto para o verão

Foto: Clécio Mayrink

Finalmente o verão está próximo ! A temperatura subiu, as correntes frias se foram e o mar não poderia estar melhor. Depois de quase um ano de abstinência, você se prepara para o primeiro mergulho da temporada. Afinal, mergulho é lazer e você definitivamente não acha que passar horas em um barco para cair naquela água gelada envolto em grossas camadas de neoprene seja lazer. Na véspera do mergulho você ainda se pergunta onde foi que guardou aquela sacola com os equipamentos – ah, sim ! No armário do porão. Não há tempo para abrir a sacola, mas você tem certeza que no final do verão passado deixou tudo lá, pronto para este dia. É só colocar a sacola no porta-malas e partir.

No barco, o dia parece perfeito. O primeiro passo é montar o equipamento, mas um divemaster já fez isto e você só tem que vestir a roupa e cair na água. A única coisa ruim é que parece que aquele sabão especial fez sua roupa encolher: as calças não entram e o zíper está incrivelmente difícil de fechar. Nada que uns pulinhos e um puxão mais forte não resolvam. Em seguida, as nadadeiras – oopppsss – uma das tiras arrebentou ! Por sorte, o divemaster tem várias de reserva e você está pronto para o mergulho. Uma vez na água, o caos começa: falta lastro, você não consegue ajustar sua flutuabilidade e sente um gosto estranho no ar que sai aos trancos de seu regulador – FORMIGAS ?!? Isto é lazer ?!?

Pode parecer piada, mas estas cenas são muito comuns no início da temporada de mergulho no Brasil e no exterior. Claro que nem tudo acontece de uma vez, mas temos que concordar: vários mergulhadores são como os ursos. Simplesmente hibernam durante o inverno e acham que o mergulhar é como andar de bicicleta: uma vez que se aprende nunca mais se esquece. Na verdade, por maior que seja sua experiência, seu corpo, equipamento e técnicas precisam de cuidados constantes para que possam ser usados em sua plenitude durante os mergulhos. Se você é um daqueles que não tomou estes cuidados nos últimos 6 meses ou está tenso e ansioso para o primeiro mergulho, as próximas páginas foram escritas especialmente para que possa voltar a mergulhar sem passar vergonha e sem traumas

Equipamento

Pelo menos quinze dias antes do primeiro mergulho, tire a sacola do armário e avalie criteriosamente o seu equipamento para verificar se ele ainda está em perfeitas condições. Em alguns casos você mesmo pode fazer isto, mas para os equipamentos mais sofisticados como cilindros e reguladores, o ideal é procurar a ajuda de uma oficina especializada para uma revisão anual.

Antes de mais nada, lave todo o equipamento e aproveite a oportunidade para procurar rachaduras nas peças de borracha, plástico ou silicone. Uma tira de borracha ressecada pode por fim a um dia de mergulho. Não hesite em substituir estas peças.

Cilindro: Os cilindros de mergulho comuns devem passar por uma inspeção visual anualmente e por um teste hidrostático a cada cinco anos. Verifique as validades dos testes marcadas em uma etiqueta (visual) ou estampadas no pescoço do cilindro (hidrostático) e, se qualquer um dos dois estiver vencido, envie o cilindro para uma oficina, que fará o teste e aproveitará para fazer uma revisão na válvula. Sem estes testes, as estações de recarga podem se recusar a recarregar seu cilindro. Se o cilindro estiver com os testes em ordem, pense na última vez em que ele foi recarregado. O ar ainda é aquele do verão passado ? É hora de esvaziar o cilindro lentamente e recarregá-lo novamente. Qual o custo de uma recarga comparado ao custo de se respirar ar contaminado ou com baixo teor de oxigênio ?

Regulador: Todos os reguladores deveriam passar por uma revisão anualmente. O-rings e assentos de válvula podem ter sido danificados em longos períodos de armazenamento e só um técnico especializado poderá desmontar, substituir as partes necessárias e ajustar novamente o regulador para uma respiração suave e segura. Nesta desmontagem ele pode descobrir coisas interessantes, como colônias de baratas, formigas ou aranhas. Você achou que era piada, não ? Vários técnicos tem experiência suficiente para lhe explicar que seu regulador não tem um inseticida especial que afasta todas aquelas baratas que infestam sua garagem… Aproveite e mande o conjunto completo, para que seu profundímetro e manômetro possam ser aferidos.

Computador: Pode parecer que sim, mas as baterias de seu computador não são eternas. Como a maioria dos computadores indica quando a bateria está fraca, basta ligá-lo pra saber. Na dúvida, substitua-as. Ficar sem computador no terceiro dia daquela tão esperada viagem ao Caribe é, sem dúvida, uma experiência revoltante.

Colete: Dedique uma atenção especial para a lavagem deste equipamento, lavando-o inclusive por dentro. O ambiente quente e úmido do interior do colete é o local perfeito para cultura de fungos e bactérias, principalmente após alguns meses sem uso. Após a lavagem, teste o inflador automático, o inflador manual e as válvulas de escape (inclusive a de segurança). Deixe o colete cheio por um ou dois dias para ver se ele não está furado.

Roupa: Ah, sim. Esta é a parte realmente emocionante. Após verificar se sua roupa não possui rachaduras no neoprene, costuras abertas ou um zíper emperrado, é hora de vesti-la ! Este é o único jeito de saber se você ainda serve nela. Não, a roupa não encolhe. Ela pode até perder flexibilidade com o tempo mas normalmente é você quem engorda. E é bom ter alguém por perto, na hipótese de ficar “entalado” dentro dela…

Faca: Embora seja um equipamento extremamente importante para a segurança do mergulhador, muitas vezes a faca é um item meramente decorativo, como um símbolo de poder (lembra-se daquele rapaz que você encontrou no barco com uma faca que ocupava mais da metade de sua perna ?). Uma faca sem fio não adianta absolutamente nada em uma emergência !

Técnica

Com o equipamento em ordem, a pergunta seguinte é: você está em ordem ? O mergulhador (corpo e cérebro) é muito mais importante que o equipamento. A maior parte do tempo da sua preparação para temporada você deve usar para recuperar suas técnicas de mergulho. O primeiro passo é a forma física. Se você é do tipo sedentário, será que ainda tem condições físicas para mergulhar ? Apesar de não parecer, o mergulho demanda uma forma física razoável, principalmente quando você tem que enfrentar uma corrente para retornar ao barco ou rebocar um companheiro que não tinha o condicionamento adequado. Neste caso não adianta querer começar as aulas na academia uma semana antes do primeiro mergulho. O condicionamento físico exige um trabalho mais longo (pelo menos 3 meses) e supervisionado. De qualquer forma, você não deveria ter parado aquelas aulas de aeróbica durante o inverno, certo ?

Com o corpo em forma, você deve concentrar seus esforços na verificação e recuperação de habilidades específicas do mergulho. Existem duas formas de fazer isto: por conta própria ou com o auxílio de um instrutor, em aulas individuais ou em grupo. O primeiro método é certamente mais fácil e mais barato, mas tem a desvantagem de não se ter ninguém para avaliar a performance e corrigir as falhas. No segundo caso você precisa de uma boa escola de mergulho. Hoje a maioria delas oferece as chamadas aulas de revisão ou “Refresher Courses”. Em algumas sessões individuais com um instrutor ou em um dia com um grupo você revê todos os principais tópicos do curso básico de mergulho, com ênfase na parte prática (em piscina ou no mar). Algumas certificadoras oferecem até mesmo vídeos com esta finalidade.

Muitos resorts no Caribe não confiam na sua experiência prévia e pedem que você faça um mergulho supervisionado por um instrutor de sua equipe para saber se você realmente está em condições. Alguns poucos chegam ao extremo de exigir uma “prova de piscina” antes do primeiro mergulho ! Mas quais são os pontos que devem ser abordados na recapitulação ? Os mais importantes são relacionados a seguir.

Teoria: Você ainda sabe utilizar as tabelas de mergulho para calcular limites de tempo para evitar paradas de descompressão e planejar uma semana de mergulhos repetitivos ? Qual velocidade de subida deve ser adotada ? Você se lembra o que significam todos aqueles números no display de seu computador ? Talvez uma releitura do manual ou a ajuda de um amigo que possua um computador igual possa ajudar. Com o auxílio de um companheiro, relembre todos os sinais utilizados durante o mergulho, inclusive aqueles para uso na superfície e no mergulho noturno.

Preparação do equipamento: É comum ver mergulhadores inexperientes montando o regulador invertido no cilindro. Alguns meses de inatividade podem ser suficientes para que você faça o mesmo. Na recapitulação leve seu próprio equipamento para testar seu perfeito funcionamento e montá-lo você mesmo, de ponta a ponta. Reveja a sequência de montagem, os procedimentos para verificação do funcionamento e os pontos em que o conjunto pode ser ajustado para conforto e segurança. Lembre-se também que a desmontagem, limpeza e armazenamento do equipamento são tão importantes quanto a montagem. Você ainda se recorda do que deve ser verificado no seu equipamento e no do companheiro antes de entrar na água ? E dos métodos de entrada na água ?

O básico na água: Aproveite o primeiros minutos dentro d’água para costumar com o equipamento e o ambiente. Antes de mais nada você deve se sentir confortável e para isto podem ser necessários alguns ajustes no equipamento. Na superfície, pratique a natação com o snorkel e a substituição dele pelo regulador com a cabeça submersa. Desinfle o colete, desça e estabeleça flutuabilidade neutra. Nade alguns minutos submerso. A equalização da pressão nos ouvidos e na máscara foi fácil ? A quantidade de lastro em seu cinto está em ordem ?

Procedimentos: Assim que você estiver confortável na água, é hora de rever alguns procedimento importantes. Na superfície, retire e coloque novamente seu cinto de lastro. Faça o mesmo com seu colete. Retorne ao fundo (não mais que 5 ou 6 metros) e tente remover e recolocar o regulador e depois a máscara, diversas vezes, eliminando completamente a água. Pratique a recuperação de um regulador que saiu da boca e está junto ao cilindro, em suas costas. Acostume-se novamente a monitorar constantemente sua profundidade, tempo de fundo, suprimento de gás, status de descompressão e localização. Retorne à superfície prestando atenção especial à velocidade de subida.

Emergências: Para poder lidar com as emergências é preciso estar preparado para elas. Você está permanecendo próximo o suficiente de seu companheiro ? Ambos sabem a localização do octopus ou suprimento de ar de emergência do companheiro ? Pratique a respiração no octopus estacionário, nadando e subindo. Se você quiser, pode praticar também a respiração a dois em um único regulador. Por fim, recapitule os procedimentos para uma subida livre de emergência.

Mergulhos especiais: Se você pretende realizar mergulhos profundos, em naufrágios ou cavernas e esteve muito tempo sem mergulhar, a preparação deve ser ainda maior e certamente deve contar com o auxílio de um instrutor especialista nestas atividades, já que elas exigem uma adaptação progressiva.

O primeiro mergulho

Finalmente chegou a hora do primeiro mergulho. Você certamente escolheu um mergulho relativamente simples, em um local de fácil acesso, abrigado e sem correntes. Se a preparação foi correta, você começará a temporada com o pé direito (será com a nadadeira direita ?). Mais uma vez, aproveite a oportunidade para um ajuste fino do equipamento e para recapitular tudo o que falamos anteriormente. Se você só praticou em piscina, o primeiro mergulho é especialmente importante.

Seguindo estas dicas, sua temporada de mergulho correrá muito mais tranquila e o mergulho será mesmo um lazer para você. E no próximo ano tente não ficar fora d’água no inverno – eu pessoalmente acho o mês de julho o melhor para mergulhar em São Paulo, mas gosto não se discute !

Pedro Paulo Cunha

É engenheiro naval e atua na área de informática desde 1981, sendo atualmente responsável pela área de sistemas de um banco.

Começou no mergulho autônomo em 1983, e iniciou sua carreira de instrutor em 1984. É instrutor PDIC, NAUI e SSI e instructor trainer TDI. É credenciado em diversas especialidades, desde Mergulho sob o Gelo (PADI e NAUI) a mergulho com misturas / Trimix (TDI) e é autor de cursos de especialidades NAUI.

Escolheu o mergulho técnico e equipamentos avançados de mergulho como área de especialização, tendo também, um grande interesse em história do mergulho, sendo o único membro brasileiro da Historical Diving Society.

É responsável pelas atividades da Tech Diving em São Paulo.