Psicologia do Mergulho: Uma Revisão Bibliográfica

Foto: Bruno Tae

Segundo J. Barbero, (1993); J. Brohm, (1993); N. Elias & E. Dunning, (1992) “o esporte contemporâneo é considerado um dos maiores fenômenos sociais do século XX e agrega em torno de si um número cada vez maior de áreas de pesquisa”, entre elas de acordo com V. Bracht, (1995) “a antropologia, filosofia, psicologia, sociologia, medicina, fisiologia e biomecânica”, constituindo as chamadas Ciências do Esporte, caracterizadas pela interdisciplinaridade.

Segundo Rubio, (2000) ” a Psicologia do Esporte, enquanto uma dessas sub-áreas, iniciou suas pesquisas há aproximadamente um século, estudando inicialmente aspectos próximos à fisiologia, os chamados reflexos condicionados.”

Para Feijó, (2000), “a Psicologia no Esporte é a transposição da teoria e da técnica das várias especialidades e correntes da Psicologia para o contexto esportivo, seja no que se refere a aplicação de avaliações para a construção de perfis, seja no uso de técnicas de intervenção para a maximização do rendimento esportivo”.

Rubio (2000) também afirma que “ao longo dos anos outros temas como motivação, personalidade, agressão e violência, liderança, dinâmica de grupo, bem-estar psicológico, pensamentos e sentimentos de atletas e vários outros aspectos da prática esportiva e da atividade física foram sendo incorporados à lista de preocupações e necessidades de pesquisadores e profissionais”.

Concordamos com a autora quando diz que “na atualidade, diante do equilíbrio técnico alcançado por atletas e equipes de alto rendimento, os aspectos emocionais têm sido considerados como um importante diferencial nos momentos de grandes decisões”.

Podemos inferir uma generalização, onde no mergulho, uma decisão instintiva e inconsequente pode desencadear um sério acidente ou fatalidade e assim sendo, o aspecto emocional na modalidade tem sua fundamental importância.

A partir de tal fundamentação, e com o intuito de incorporar a atividade de mergulho à psicologia do esporte, é que elaboramos tal contributo.

Psicologia do Mergulho no Mundo

Em um interessante artigo de revisão, Capodieci (2002) retoma os estudos práticos de Bombard (1958) e a sua fantástica experiência de atravessar o Oceano Atlântico em um bote inflável sem água nem comida. Um estudo incomparável para a questão psicológica em condições extremas.

Uma outra obra que merece destaque neste sentido é a de Steve Callahan, À Deriva.

Traçando uma linha histórica, Capodieci (2002) nos remete à 1945, ano em que Behnke publica o primeiro artigo a respeito das reações psicológicas e psiquiátricas no mergulho e em submarinos, no American Journal of Psychology.

A seguir, refere-se à Gianfranco Bernardi (1968) que apresenta no First Simposium of Underwater Medicine na Itália, o tema Psychology of Underwater Sports. Nesse artigo, Bernardi introduziria uma série de interessantes insights a respeito do mergulhador apneísta e do mergulhador com equipamento autônomo de circuito aberto.

Ainda nos anos 60 Sessa, Pallota e Fati (1964) apresentam pesquisas sobre a personalidade do mergulhador e as sua motivações para a prática da modalidade.

Tatarelli (1968) apresenta as primeiras contra indicações psicológicas para a prática do mergulho, seguido por outros pesquisadores (Caneva e Zuin, 1970; Ross, 1968).

Capodieci (2004) nos relembra que os anos 70 foram o auge da psicologia experimental. As pesquisas ampliam-se na direção dos efeitos da profundidade sobre o mergulhador e a respeito do stress em situações perigosas.

Pesquisadores como Ross, (1970 e 1971);Biersner, (1971); Gunderson, Rahe e Arthur, (1972); Ryman, (1974); Knapp, Capel e Yougblood, (1976); Rejman, (1976) estudaram neste momento fértil, as relações entre narcose por gases inertes e as habilidades de atenção, a performance psicológica do mergulhador, a percepção espacial, a personalidade e a capacidade de adaptação do mergulhador no ambiente subaquático.

Na Itália, Zanini e Montinari (1971) publicam alguns importantes protocolos de avaliação psicológica.

Em 1975 Antonelli publica The Diver´s Psychology e em 1981 Pelaia publica The Diver`s Subconscious Mind, referências fundamentais da psicologia do mergulho.

A seguir Griffiths, Steel e Vaccaro (1978,1979, 1981) pesquisam as relações entre ansiedade e suas correlações com relaxamento e técnicas de mergulho.

Uma outra obra que merece destaque é Human Performance and Behavior in Hyperbaric Environments de Adolfson (1974), pesquisador do U.S. Naval Medical Research Institute at Bethesda (Maryland, USA).

Adolfson também foi autor de diversos artigos a respeito do processo de adaptação ao meio líquido e em colaboração com Berghage (1974) pública Perception and Performace Underwater.

Já nos anos 80, Odone, Reggianni, Oelker, Rotunno e Vassalo (1983) tratam de elaborar diversas pesquisas a respeito dos fundamentos psicodinâmicos da psicologia do mergulho chegando a importantes conclusões, correlacionando alguns acidentes de mergulho, perfil psicológico e motivações inconscientes.

Spigolon e Dell’oro (1985) promovem um estudo a respeito de treinamento autógeno buscando quebrar o encadeamento de erros e o consequente pânico.

Digno de menção também é o trabalho de Morgan (1987) Psychological Characteristics of the Female Diver.

Diretor do Laboratório de Psicologia do Esporte da University of Wisconsin – Madison, Morgan foi o pesquisador que mais contribuiu para a psicologia do mergulho, em especial no que diz respeito aos estudos de ansiedade e pânico.

Diversos outros autores auxiliaram os estudos de Morgan a respeito do stress do mergulhador e seus aspectos cognitivos e de personalidade. (Lewis e Baddeley,1981; Grifith, Stell e Vaccaro et al 1981; Heyman e Rose, 1980; Mears e Cleary, 1980; Biersner, McHugh e Rahe, 1984; Biersner e La Rocco, 1983; Allen, 1983)

Uma obra deste período que merece referência para todo interessado em Psicologia do Mergulho é Stress and Performance in Diving de Bachrash e Egstrom (1987).

De Marco (1987) faz a primeira revisão de literatura em seu artigo Psychology and Psychodynamics in Diving.

Os anos 90 testemunham o surgimento de uma série de importantes estudos sobre os aspectos psicológicos do mergulho, merecendo destaque os trabalhos de Jennifer Hunt (1993, 1995, 1996) a respeito dos acidentes de mergulho, examinando os conflitos inconscientes relacionados.

Campbell (2000) publica um importante material na Alert Diver, Pshycological Issues in Diving.

Ladd (2002) é outro importante pesquisador que desde 1975 vem estudando e atendendo mergulhadores que perderam seu dupla em acidentes de mergulho.

Em 1999 Nevo e Breitstein publicam uma coletânea de trabalhos de peso na obra Psychological and Behavioral Aspects of Diving.

Em 2001 Capodieci funda a coluna Sports and Psyche na Psycomedia, primeiro portal italiano de Psiquiatria e Psicologia e passa a coletar importantes artigos de diferentes estudiosos.

Gargiulo (2002, 2003) publica na Alert Diver, revista da Divers Alert Network, interessantes artigos sobre psicologia subaquática a respeito dos aspectos emocionais e motivações durante o mergulho.

Em 2002 Capodieci funda o Psycodive. O site mantém informações a respeito da psicologia submarina e é referência internacional.

Psicologia e Mergulho no Brasil

O marco inicial da psicologia do mergulho no Brasil foi dado pela atuação e estudos de diversos médicos hiperbáricos, mas que poucos registros nos deixaram.

Vale a pena mencionar um artigo do Dr. Augusto Marques Ramos, Avaliação Clínica Psicológica para Mergulho, publicada aqui no Brasil Mergulho.

Conclusão

Apesar de muito pouco ter sido registrado, sabemos que os aspectos psicológicos são uma das questões mais sérias e complexas para médicos hiperbáricos e instrutores de mergulho.

O reconhecimento da importância da psicologia voltada ao mergulho tem sido uma constante no mundo inteiro.

Isso porque, embora ainda não saibamos ao certo quais são as variáveis que atuam positiva e negativamente no comportamento de mergulhadores, podemos afirmar que as questões emocionais tornam-se o diferencial nos momentos de stress, e consequentemente, influenciam diretamente a segurança.

Como adeptos do mergulho não podemos mais aceitar o desconhecimento nos aspectos psicológicos.

Mergulhadores não podem comprometer a sua segurança em função desse desconhecimento.

Entendemos que os instrutores precisam comparecer nesse novo cenário, com a disposição e competências necessárias para cooperar como profissional da saúde na valorização do homem e na preservação da vida.

Deverá ele ser o agente capaz de disseminar conhecimentos a respeito dos diversos aspectos da psicologia do esporte e do mergulho, na sua organização e nas empresas a quem presta serviços, já que será ele o detentor de informações ricas e privilegiadas, e capaz de influenciar positivamente a todos.

O mergulho deve estar aberto a evolução científica e tecnológica e às mudanças rápidas do mundo moderno.

Estar presente na luta pela qualidade de vida faz-se necessário.

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Roberto Trindade
Formado em Educação Física, Psicologia e Turismo. Pós-graduado em Psicomotricidade, Psicopedagogia, Esportes de Aventura, Psicologia do Esporte e Fisiologia do Exercício. Mestre em Psicologia. É mergulhador profissional pelo Ministério da Marinha e Delegacia de Portos e Costas - DPC. É instrutor trainer trainer pela IANTD e instrutor pela CBPDS, CMAS, PADI, NAUI, TDI, HSA, SBMA, SSI, NSC, ERDI e DAN. Também é Membro da Sociedade Brasileira de Atendimento Integrado ao Trauma (SBAIT), Undersea and Hiperbaric Medical Society e Centro Regional de Informação de Desastres para América Latina e Caribe.