Qual o sabor do meu mergulho ?

Quando vamos observar o mundo submarino, queremos desfrutar destes momentos com grande satisfação, com conforto e segurança. Lá embaixo queremos aproveitar cada instante, cada momento, queremos aproveitar que estamos em um mundo quase mágico, onde a gravidade não interfere, podemos flutuar e experimentar novas sensações.

Agora isto só será possível se estiver tudo funcionando de maneira correta, equipamento correto, proteção térmica adequada, quantidade de lastro suficiente, reguladores fornecendo gás na exata medida, e que este gás seja de excelente qualidade, isto quer dizer, que a mistura gasosa esteja adequada a profundidade do nosso mergulho e que nosso gás esteja totalmente isento de contaminantes e de impurezas. Aproveitar um momento mágico como é o momento do mergulho com sabor de óleo na boca é algo bem desagradável, ou melhor, muito desagradável, a ponto de acabar com a magia deste momento.

Vamos tentar fazer algumas ponderações sobre qualidade de ar para mergulho autônomo. O ar utilizado deve seguir algumas normas internacionais de ar respirável como a EN 12021 ou ATROAN 3188, mas é fácil saber se o ar que você esta utilizando em seu mergulho é de qualidade ou não. O ar em seu cilindro não deve ter gosto ou cheiro, se tiver algum gosto ou odor ele já não esta dentro dos padrões. O filtro do primeiro estágio do seu regulador também pode lhe mostrar a qualidade do ar que você utilizou. Um jato do gás do cilindro sobre um pano branco também pode lhe mostrar a qualidade do ar do cilindro.

Quando sentimos algum gosto ou odor no ar de nosso cilindro, devemos descartar este cilindro e utilizar um outro cilindro que não apresente gosto ou odor no gás respirável, o responsável pela recarga deve ser avisado, afinal algum problema pode estar havendo na filtragem dele e que ele ainda não percebeu, o que não pode acontecer é sempre estarmos percebendo este tipo de problema e o responsável pela recarga não. As operadoras de mergulho hoje já sabem que só mergulhamos com quem nos oferece conforto e segurança, por isso, as boas operadoras de mergulho vêm investindo cada vez mais em sistemas de filtragem mais eficientes, pois sabem que qualidade de ar é fundamental no conforto do mergulhador.

Que gosto é este ?

Se o seu gás esta com gosto de óleo não utilize este cilindro em hipótese alguma, pois este óleo no mínimo vai lhe causar náusea e enjôo, fazendo com que você tenha péssimas recordações deste dia de mergulho. Utilizar cilindros contaminados com óleo principalmente com uma grande frequência como fazem os profissionais do mergulho pode trazer consequências nocivas ao mergulhador como uma pneumonite, que se não for tratada de maneira adequada, pode evoluir para uma pneumonia, e se agravada pelo fato do mergulhador ser fumante podemos esperar consequências mais graves. Por isso não utilize cilindros com gosto de óleo.

O gás pode apresentar também outros odores, quando o gás fica por muito tempo “guardado” no cilindro, o processo de oxidação natural acaba deixando um odor característico de “ar velho”, devemos tomar cuidado, pois dependendo do tempo que ficou ocorrendo esta oxidação a pressão parcial do oxigênio nesta mistura pode estar muito baixa para o mergulho que faremos, existem também os gases que serão formados neste processo de oxidação que podem interferir na qualidade do seu mergulho.

Os cilindros devem ser limpos utilizando processos recomendados pelos seus fabricantes, algumas pessoas utilizam processos químicos para limpar seus cilindros, os produtos utilizados devem ser totalmente retirados do interior cilindro para que não fiquem exalando gases que podem contaminar nossa mistura de gases, assim sendo cuidado com ar que tem gosto de morango, uva, framboesa, pois isto pode ser o odor de um detergente, ou alguma fragrância utilizada para mascarar odores de alguns ácidos utilizados em limpeza automotiva, que algumas pessoas infelizmente utilizam para limpar o interior de seus cilindros.

Quando o cilindro tem em seu interior alguma quantidade de água ou algum contaminante orgânico um odor de algo podre pode ser sentido e pode se dizer que é bem desagradável. Um outro odor que encontramos, infelizmente, em alguns cilindros é o odor de alguns lubrificantes utilizados na conexão do registro com o cilindro, para facilitar a retirada do registro no futuro.

É importante termos em mente, que depois que um cilindro foi contaminado por alguma coisa não adianta simplesmente jogar fora o ar contaminado e recarregar o cilindro com um gás de qualidade, pois o cilindro internamente ainda estará sujo, e o gás continuará contaminado, isto só irá terminar quando o cilindro for limpo de maneira correta seguindo as normas dos fabricantes. Por isso tenha bastante cuidado com o lugar onde você irá recarregar seu cilindro.

As estações de recarga sérias hoje se submetem a testes de qualidade do seu ar respirável, a apresentação dos laudos pode ser um bom parâmetro para identificarmos quem realmente fornece um ar de qualidade. Estações de recarga que fazem misturas EAN também são forçadas a manter um maior controle da qualidade de suas recargas principalmente no que se refere a vapores de óleo, isto também pode nos dar boas referencias.

Como podemos ter um ar respirável de qualidade ?

O segredo é simples, basta que a operadora tenha um sistema de filtragem bem dimensionado para a capacidade do seu compressor, que utilize e troque os elementos filtrantes na hora correta, que mantenha seus cilindros limpos e que faça a manutenção deles em períodos compatíveis com a quantidade de vezes que estes cilindros são utilizados, quanto mais os cilindros são utilizados menores deverão ser os períodos entre as inspeções e limpezas dos cilindros.

A filtragem depende do tipo do elemento filtrante, pela forma como o elemento filtrante está agregado dentro do cartucho ou do filtro e pelo tempo que ar está passando pelo processo de filtragem dentro do filtro ou cartucho.

Hoje temos muitos elementos filtrantes, sílicas, aluminas, carvão ativado, molecular sieve, entre vários outros. O que o responsável pela recarga tem que ter em mente é a diferença entre um secante e um marcador de umidade, por exemplo, a sílica azul gel é muito mais um marcador de umidade, do que um elemento secante, ou seja, ela mostra que esteve em presença de umidade trocando sua cor, mas tem uma pequena capacidade de armazenar umidade, logo se for utilizada como secante terá um péssimo desempenho. O tamanho do elemento filtrante e a maneira como está aglutinado no cartucho, vai ser fundamental no resultado da filtragem.

Por exemplo, grãos muito grandes favorecem o aparecimento de “caminhos” entre eles por onde o ar vai passar diminuindo o tempo de contato do ar com o elemento filtrante e por conseguinte diminuindo a eficiência da filtragem. Da mesma forma que colocar o elemento filtrante com uma compactação não condizente com as especificações dos fabricantes diminui a eficiência da filtragem. Por isso utilizar os cartuchos oferecidos pelos fabricantes dos sistemas de filtragem costumam produzir resultados mais satisfatórios.

Sistemas de filtragem devem ser compatíveis com a vazão de cada compressor, por exemplo, um compressor K-14 da Bauer não pode ter uma filtragem eficiente se utiliza um sistema de filtragem P-0 da Bauer, pois a vazão deste modelo de compressor é muito maior do que a capacidade de filtragem eficiente do P-0 , para um compressor K-14 teríamos de ter pelo menos um sistema de filtragem P-2 da Bauer ou similar. Já para um compressor que tenha uma vazão menor, como um compressor Utilus da Bauer, o sistema de filtragem P-0 funciona muito bem.

Os responsáveis pela recarga têm de fazer a troca dos elementos filtrantes ou dos cartuchos de filtragem na hora certa, seguindo os padrões dos fabricantes. Há algum tempo atrás se utilizava à desculpa de que a troca do cartucho era cara e para ter uma recarga mais barata, devia-se aumentar o tempo entre as trocas dos elementos filtrantes, acho que todos concordam que é melhor pagar um pouquinho a mais para ter um mergulho mais prazeroso.

Para o próprio dono do compressor é mais barato trocar os cartuchos na hora correta, do que utilizar cartuchos saturados de água e óleo que vão contaminar os cilindros, aumentando a despesa com a limpeza dos cilindros, ou o excesso de saturação dentro dos cartuchos deixando o carvão ativado também úmido, fazendo com que ele acabe entupindo o sistema, fazendo com que o compressor leve mais tempo para encher o cilindro, forçando mais o compressor, entupindo as válvulas, mantenedora e de segurança de pressão, ou seja, diminui o gasto com os elementos filtrantes e aumenta muito mais o gasto com a manutenção do compressor e dos cilindros, gasta mais energia, além de ter uma diminuição das pessoas que mergulham com ele, pois não conheço ninguém que goste de gosto de óleo, ou de passar mal em uma embarcação.

Qual o caminho do ar na filtragem ?

Para conseguirmos um ar de qualidade devemos pensar em vários fatores, o primeiro deles é de onde o ar será captado para ser comprimido e filtrado? A captação deve ser feita em uma área em que haja circulação de ar e que este ar esteja o mais limpo possível, por exemplo, em recargas feitas em embarcações a captação do ar deve ser feita em um local do lado de fora da embarcação e nunca dentro da casa de máquinas, onde o ar esta cheio de vapor de óleo e de gases gerados pelo motor .

A primeira filtragem é feita por um filtro de papel para retirada de partículas sólidas do ar captado, o ar então é comprimido e passa por um separador de umidade, onde a maior parte da umidade e do óleo do compressor serão retidos, depois o ar é “encaminhado” aos elementos filtrantes (secantes e carvão ativado) que vão retirar totalmente a umidade deste ar e os vapores de óleo, além de alguns gases não necessários ao nosso mergulho, depois o ar é levado para o cilindro.

A retirada de umidade do ar é vital para termos um ar de qualidade por isso, a necessidade de vários separadores de umidade e de secantes eficientes. O carvão ativado é utilizado na filtragem para eliminar alguns odores que possam existir no ar captado e para reter parte dos vapores de hidrocarbonetos gerados no processo de compressão e nunca deve ser utilizado sozinho em um sistema de filtragem.

Hoje o tipo de óleo que é utilizado nos compressores é importantíssimo para termos um ar de qualidade, óleos minerais produzem muitos hidrocarbonetos o que satura mais rapidamente nossos elementos filtrantes, óleos sintéticos são mais eficientes tanto na lubrificação dos pistões do compressor como produzem menos vapores de hidrocarbonetos, o que deixa a filtragem mais eficiente e o ar mais “limpo”.

Não podemos nos esquecer que de nada adianta filtrarmos de maneira eficiente o ar se vamos guardá-lo em um cilindro contaminado ou em um cascata que está com ar velho há muito sem ser utilizado.

Com ar de qualidade em nossos cilindros os mergulhos ficarão muito mais prazerosos, teremos mais motivos para voltar ao fundo do mar, pois a magia daquele momento, em que nos envolvemos como espectadores do fundo do mar, não será quebrada pelo gosto do óleo. Estaremos mergulhando com mais segurança e prazer e voltaremos à atmosfera mais realizados e felizes.

João Tavares

João Tavares é mergulhador técnico e Cave Diver pela GUE, instrutor Master pela PDIC. Além disso, é diretor técnico da escola e fábrica de equipamentos de mergulho GamaSub