Quando cai a noite

Foto: Clécio Mayrink

O que leva milhares de mergulhadores a deixarem o conforto de seus quartos no meio da noite e trocarem ótimos jantares por um sanduíche de qualidade duvidosa para, após um dia cheio de mergulhos, prepararem novamente todo seu equipamento para uma aventura debaixo d’água em uma noite escura ?

Para os aficionados do mergulho noturno a resposta é imediata: vida marinha abundante e diferente, cores incríveis, ótimas oportunidades para macro-fotografia, curiosidade e a chance de realizar mais alguns mergulhos naquele curto período de férias !

Durante o mergulho noturno (chamado simplesmente de “noturno”), a lanterna, quase nunca usada nos mergulhos durante o dia, traz de volta as cores perdidas pela absorção da luz do sol pela água e que só são vistas em fotografias iluminadas com flash. Os peixes (muitos deles nunca vistos durante o dia) aproximam-se mais dos mergulhadores, algumas vezes “hipnotizados” pela luz intensa; outros permanecem simplesmente imóveis. O peixe-papagaio, por exemplo, envolve-se em um casulo protetor para poder ter uma noite de sono tranquila e pode até mesmo ser segurado com as mãos. Aquele local em que você havia visto mais que uma lagostas durante o dia, à noite se parece mais com o centro de uma grande cidade submarina na hora do rush, tamanha a quantidade de peixes e crustáceos.

O noturno oferece novas oportunidades aos mergulhadores mais ávidos e é uma das especialidades mais procuradas, principalmente em regiões de águas claras e com fácil acesso ao mar, como o Caribe.

Equipamentos

Ao contrário de outras especialidades, o noturno exige muito pouco equipamento adicional. Sem dúvida nenhuma, o equipamento mais importante é a lanterna – dela vai depender o seu conforto e segurança durante o mergulho. Em geral, vale a regra do “quanto mais forte melhor”, já que quanto mais você puder iluminar, menores serão as surpresas. Como toda regra tem sua exceção, para mergulhos em águas turvas ou em que você deseja se aproximar sorrateiramente de algum peixe, uma lanterna muito forte ou de foco aberto pode estragar tudo, causando back-scatter (reflexo na suspensão que impede a visão) ou anunciando sua presença cedo demais.

Muitos mergulhadores preferem utilizar duas lanternas: uma mais forte (principal) e uma menor, presa ao colete ou guardada em um bolso, para o caso de falha na principal. Afinal, qualquer um pode esquecer de trocar as pilhas ou lubrificar os o-rings…

Além das lanternas, você pode precisar de alguns equipamentos adicionais. Os bastões de luz química (tipo Cyalume) são muito usados no Caribe. Eles são normalmente presos aos cilindros para facilitar a localização dos mergulhadores e oferecem uma luz verde difusa, iluminando suavemente o mergulho. Strobes (pequenos flashes à prova d’água) podem ser colocados no barco ou no cabo da âncora para marcar o local de saída ou sinalizar situações de emergência na superfície.

O equipamento básico merece alguns cuidados adicionais. Em primeiro lugar, a roupa: ela é importante para proteção contra o contato com objetos, pedras e corais (mais prováveis durante a noite) e para proteção contra o frio. Não se esqueça de levar uma muda de roupa seca para troca após o mergulho. Uma bússola pode ajudar no retorno (já que menos referências visuais estão disponíveis) e a faca é indispensável no caso de um enrosco, já que linhas de pesca são totalmente invisíveis durante a noite.

E, falando em enroscos, faça o possível para evitar partes soltas no seu equipamento (consoles, tiras de nadadeiras, etc), pois não são poucos os casos em que um console preso a uma linha de nylon foi confundido com o ataque de um monstro marinho que vagava pela noite.

Antes do Mergulho

Horário: Qual o melhor horário para mergulhar ? A maioria escolhe as noites de lua cheia (a luminosidade natural facilita a preparação e oferece alguma iluminação nas profundidade menores), planejando o início do mergulho para uma ou duas horas após o anoitecer, de modo que ao final ainda sobre tempo para um bom banho quente e um jantar confortável. Outros, mais aventureiros, preferem o mergulho no meio ou no final da madrugada – quem já viu garante que o nascer do sol debaixo d’água é inesquecível !

Alguns instrutores preferem iniciar seus alunos no noturno com um mergulho que começa pouco antes do por-do-sol. Embora a vida marinha não seja tão interessante neste horário, é muitos mais confortável para os principiantes prepararem o equipamento e entrar na água enquanto ainda é dia, acostumando-se aos poucos à escuridão.

O local: Escolha um local abrigado, de fácil acesso e, de preferência, com uma profundidade relativamente pequena. Uma área de preparação ampla e confortável também é importante. Divemasters e mergulhadores locais podem dar a dica de qual o melhor ponto, já que a vida marinha à noite pode ser completamente diferente daquela do dia, transformando um local apenas razoável em uma verdadeira Disneylândia submarina.

Imediatamente após a chegada no local, analise as condições do mar e de acesso à água e sinalize o ponto de entrada e saída com uma luz confiável e de longa duração (um strobe, uma lanterna fluorescente ou um lampião a gás são as melhores opções). Posicione-a em um local que facilite sua localização à distância para quem vem do mar, já que ela será sua guia no caminho de volta. Alguns mergulhadores preferem utilizar duas luzes, uma mais baixa proxima à água e outra mais alta e mais distante, para obter também uma referência de direção.

A preparação: Ilumine bem o local onde você vai se equipar, evitando utilizar sua lanterna principal nesta hora, pois isto gastaria as baterias desnecessariamente. Tente manter seu equipamento o mais organizado possível, já que à noite é muito fácil perder alguma coisa, principalmente os ítens pequenos. Não deixe para montar partes do seu equipamento na hora do mergulho, prepare tudo antecipadamente. Por fim, explique seu plano de mergulho a alguém que vá permanecer em terra e combine os procedimentos para emergências ou imprevistos.

No caso do primeiro mergulho, valem algumas recomendações adicionais. Em primeiro lugar, escolha bem o local: quanto mais fácil for o acesso, melhores as condições do mar e mais familiar você estiver com a área, maior será o seu nível de conforto. Escolha bem também seu companheiro, de preferência alguém com quem você já tenha mergulhado diversas vezes durante o dia e que seja experiente em mergulho noturno, aumentando ainda mais sua confiança.

O Mergulho

Com todo o equipamento e os procedimentos checados e rechecados, acenda e verifique sua lanterna antes de entrar na água. Com o grupo reunido, inicie a descida utilizando a lanterna para varrer a área à sua volta e manter o contato visual com seus companheiros. Como à noite você possui menos referências visuais, uma linha de descida (ou cabo da âncora) é útil para facilitar a orientação.

Ao longo do mergulho, tenha sempre o seu dupla a vista e preste atenção ao seu controle de flutuabilidade, evitando esbarrões com ouriços e corais ou enroscos. O ajuste adequado do colete é especialmente importante durante o retorno à superfície, já que sem referências é muito difícil controlar a velocidade de subida.

Para aproveitar o passeio você não precisa nadar sem parar durante uma hora e varrer centanas de metros. O segredo do mergulho noturno é observar as pequenas criaturas que se escondem em cada fresta das pedras.

Utilização da lanterna: A adaptação dos olhos à escuridão leva algum tempo. Assim, nunca ilumine diretamente o rosto do companheiro, pois ele, ofuscado, não verá quase nada por alguns minutos. Para chamar a atenção de outro mergulhador, movimente o facho da lanterna sobre algum objeto em seu campo de visão algumas vezes.

Em águas turvas, não aponte a lanterna diretamente à sua frente, pois os reflexos impedirão você de ver qualquer coisa. Estique o braço para posicionar a lanterna a sua frente e abaixo de você, iluminando em diagonal para obter a melhor visibilidade.

Sinais: No noturno você utilizará os mesmos sinais do mergulho diurno, com a diferença que eles devem ser iluminados pela sua lanterna. Além dos sinais comuns, o noturno exige dois sinais próprios executados com a lanterna: movimentos em círculo significam OK, enquanto que movimentos longos para cima e para baixo significam que algo não vai bem (os mesmos sinais podem ser usados na superfície).

Separação do grupo: o procedimento para o caso de separação do grupo deve ser combinado antecipadamente. O mais comum é subir um ou dois metros logo que você perceber que se separou, tapar a lanterna com uma mão e girar 360º em busca das luzes dos companheiros. Em seguida, girar novamente 360º, desta vez com a lanterna acesa para ver se você os encontra ou é encontrado. Se ainda assim você não conseguir localiza-los, retorne à superfície, sinalize para o barco ou pessoal de terra que está tudo bem e espere que seu companheiro faça o mesmo.

Após o mergulho

Ao final do mergulho, utilize a sinalização que você montou para retornar ao ponto de partida. Ao se desequipar, mantenha todo o seu equipamento junto e tente guardar tudo na sacola assim que possível, evitando perdas que podem custar caro. Que tal esquecer aquele computador Nitrox novinho em folha sobre aquela rocha em que você o colocou para que não fosse atingido por um cilindro ou cinto de lastro ?

Coloque roupas secas assim que possível (mesmo no Caribe as noites são mais frias que o dia), confira seu equipamento e prepare-se para um bom banho e o tão esperado jantar. Nos noites frias, uma garrafa térmica com alguma bebida quente é sempre bem vinda !

Conclusão

Se você até aqui ainda não se entusiasmou e está convencido de que ir a Bonaire e não mergulhar no pier da cidade à noite não é um sacrilégio, uma última observação: a experiência em mergulho noturno é muito útil para aqueles que querem se aventurar em mergulhos em locais com baixa visibilidade ou penetrações em naufrágios e cavernas.

Praticamente todas as agências certificadoras e escolas oferecem cursos de mergulho noturno, geralmente conjugados a alguma outra atividade. No Caribe, a maioria dos resorts tem toda a infra-estrutura necessária para noturnos disponível diariamente. Lanternas acesas e bons mergulhos !

Pedro Paulo Cunha

É engenheiro naval e atua na área de informática desde 1981, sendo atualmente responsável pela área de sistemas de um banco.

Começou no mergulho autônomo em 1983, e iniciou sua carreira de instrutor em 1984. É instrutor PDIC, NAUI e SSI e instructor trainer TDI. É credenciado em diversas especialidades, desde Mergulho sob o Gelo (PADI e NAUI) a mergulho com misturas / Trimix (TDI) e é autor de cursos de especialidades NAUI.

Escolheu o mergulho técnico e equipamentos avançados de mergulho como área de especialização, tendo também, um grande interesse em história do mergulho, sendo o único membro brasileiro da Historical Diving Society.

É responsável pelas atividades da Tech Diving em São Paulo.