Quando você for viajar

Foto: Clécio Mayrink

As férias de verão estão chegando, e com elas você começa a planejar suas merecidas viagens de mergulho. Muitos mergulhadores ficam na sua área, mas muitos viajam grandes distâncias, utilizando-se de aviões. Independente do local para o qual você irá, se afastado de sua residência, é preciso tomar algumas precauções, para que sua viagem seja a mais proveitosa possível, e que se algo vier a acontecer, que a situação possa ser resolvida da melhor maneira possível.

Viagens de avião prolongadas

Um problema inicial de quem viaja é o avião. Quando você fica sentado horas a fio, numa cadeira apertada, respirando um ar mais seco (devido ao ar condicionado do avião), bebendo menos líquidos do que o necessário e comendo mal, seu corpo sofre as consequências. A menos que você viaje de classe executiva ou melhor do que isto, está sujeito a tudo que foi descrito.

Entretanto, podem se tomar algumas medidas, para minimizar estes efeitos. Em primeiro lugar, hidrate-se adequadamente durante o vôo, solicite mais líquidos do que o oferecido e lembre-se que bebidas alcoólicas desidratam. Não tenha medo de sair “toda hora” para ir ao banheiro, é até bom que você ande durante o vôo, para ativar a circulação das pernas, prevenindo aquele inchaço desagradável ao final da viagem.

Ainda, nossas narinas vão secando, e como resultado você pode chegar ao destino com as vias aéreas bastante irritadas. Use rinossoro ou outra solução de soro fisiológico para manter suas narinas “em dia”. Previnas dores musculares, movimentando-se e fazendo alguns alongamentos dentro do espaço fornecido, sem ferir o passageiro ao lado. O simples ato de pressionar os pés contra o chão, de maneira ritmada, já ajuda a circulação. No vôo de volta, lembre-se de respeitar as regras de vôo após mergulho, sempre esperando um mínimo de 24 horas, embora possa-se esperar menos em determinadas circunstâncias.

Para onde você vai

É importante saber a infra-estrutura do local de destino, saber se há problemas com a água para beber, se existem riscos de intoxicação alimentar. Muitos locais remotos e barcos liveaboard obrigam que o mergulhador tenha seguro para acidentes de mergulho. Uma solução para águas problemáticas é levar soluções esterilizadoras, ou ingerir apenas refrigerantes. Muitas vezes a água é estéril, mas seu conteúdo mineral é suficiente para causar problemas.

Certos locais têm prevalência de intoxicações por comida do mar, como as intoxicações por mexilhões, ostras, etc, que podem causar desde uma simples diarréia, até quadros febris, e eventualmente hepatite. Em certas áreas pode haver uma forma mais rara de intoxicação, por carne de peixe contaminado, a famosa Ciguatera. É mais comum em determinadas épocas do ano, e em peixes de maior porte, como garoupas grandes, meros e barracudas. A Ciguatera tem um quadro clínico variável, às vezes com meses de duração.

Mais comum do que a Ciguatera é a comida mal conservada, que acaba se contaminando. É difícil avaliar a limpeza da cozinha, a não ser que a mesma seja exposta ao público. Uma dica de bom senso é evitar comer carnes de animais que não existam no local, enquanto vivos.

O sol tropical

É muito comum vermos pessoas voltarem de férias, literalmente esturricadas, por falta de precaução contra queimaduras solares. Hoje em dia existe uma gama variada de protetores solares biodegradáveis, que protegerão você do sol, evitando aquela dor de “não poder tocar o lençol”. Cuidado com as áreas não protegidas por roupas, como nariz, lábios e orelhas. Um chapéu sempre ajuda. E lembre-se que o mormaço queima, mesmo que o sol não esteja presente.

Sua necessaire

Embora o ideal é não usar medicações que não tenham sido prescritas por médicos, alguns remédios mais simples podem ajudar bastante quando você está longe de casa. Lembro-me de certa viagem para uma ilha caribenha onde meu irmão pegou uma “amebíase intestinal”. Eu cheguei à ilha alguns dias depois, e ele já havia perdido alguns quilos, em função de uma diarréia que não passava, enquanto o médico do posto de saúde insistia em lhe dar soro de hidratação oral. Acabei resolvendo o problema com medicação específica para o caso. Neste caso, seria difícil para uma pessoa sem conhecimento específico resolver a situação, mas ilustra o problema com hospitais de pequenas ilhas.

Leve pelo menos:

– Band-aids, Esparadrapo e Antissépticos;
– Analgésicos e Antitérmicos;
– Antialérgicos, sobre as formas de pomadas e comprimidos;
– Antidiarréicos;
– Medicação para Enjôo em Embarcações;
– Medicações de Uso Pessoal.

Obviamente existe uma série outra de medicações e equipamentos de primeiros socorros que podem ser levados, mas ai a escolha é pessoal, e decidi omitir nomes comerciais das medicações, para evitar problemas com marcas.

É importante lembrar que cada país tem suas leis e restrições com respeito a medicações e substâncias. O melhor é levar o que você precisa, do Brasil. E cuidado pois certas medicações podem ser proibidas em determinados países.

E você adoeceu

O triste é que sempre “sobra para o Gabriel”, escrever sobre as coisas ruins do mergulho, porém a idéia é muito mais o aspecto da prevenção e solução de coisas que acontecem. Embora raríssima, a Doença Descompressiva e outros acidentes de mergulho podem acontecer. É fundamental que você tenha um seguro para acidentes de mergulho com cobertura internacional, já disponível no Brasil através de uma companhia de seguros brasileira, ou através de seguradoras internacionais. Procure se informar a respeito.

Pessimismo a parte, e a cobertura para acidentes de outra natureza, você tem ??? Já dizia o grande autor, Leo Buscaglia no livro “Vivendo, Amando e Aprendendo”, que se guardássemos todo o dinheiro gasto em seguros numa poupança, provavelmente teríamos o suficiente para pagar todos os custos nos acidentes. Mas quando estamos fora, tenho que discordar. Um tratamento de câmara, mais internação hospitalar, etc., podem custar muito mais do que 30 anos de recolhimento de seguro de mergulho.

Boas férias de mergulho, com certas precauções.

Gabriel Ganme
Dr. Gabriel Ganme é médico do esporte, e responsável pelo ambulatório de Medicina dos Esportes de Aventura da Escola Paulista de Medicina, no CETE - UNIFESP. Mergulha desde 1980 e foi Course Director pela PADI de 1990 até 2016. Foi Cave Intructor Sponsor (NSS/CDS), Technical Instructor pela TDI e IANTD, e membro da Undersea & Hyperbaric Medical Society. Atualmente é proprietário de uma clínica especializada em medicina esportiva.