Questões Clínicas Relacionadas ao Mergulho – Endocrinologia – Problemas da Tireóide

A tireóide é uma glândula que secreta um hormônio, a tiroxina, necessária ao nossa metabolismo normal. O hipertireoidismo ocorre quando há um excesso de produção deste hormônio pela glândula. O excesso do hormônio da tireóide, produz problemas cardíacos, alterando o ritmo respiratório e produzindo disfunções no sistema nervoso central, diminuindo a massa corporal.

As alterações nestes sistemas são importantes e significativos e são aumentadas durante o mergulho. O nível abaixo do normal do hormônio da tireóide, produz a disfunção chamada hipotireoidismo. A diminuição da tiroxina produz uma sintomatologia específica.

A tireotoxicose ocorre quando os vários sistemas e seus tecidos são expostos a uma quantidade excessiva do hormônio da tireóide havendo alterações metabólicas e disfunções específicas nos vários órgãos afetados. O hipertireoidismo se refere ao aumento da síntese e liberação do hormônio, enquanto a tireotoxicose se relaciona à síndrome clínica resultante.

Esta distinção é importante quando analisamos as causas de tireotoxicose.

Por exemplo, no caso de haver sido administrado uma dose excessiva do hormônio da tireóide para tratar um hipotireoidismo, teremos tireotoxicose, mas no entanto a síntese e liberação do hormônio na glândula de fato está diminuída. Já a doença de Graves caracteriza-se pela formação e secreção excessivas do hormônio da tireóide, bem como aumento difuso da glândula no pescoço.

Esta doença é, provavelmente, mais um distúrbio auto-imune cuja explicação fisiopatológica foge dos nossos objetivos no presente texto. Várias outras causas de tireotoxicose podem ser listadas e são do interesse do profissional médico que atende este tipo de pacientes no sentido de realizar diagnósticos diferenciais.

O débito hormonal da tireóide pode ser controlado por medicação, irradiação, exposição a iodo radioativo ou cirurgia. A opção terapêutica dependerá da avaliação clínica laboratorial. Ela também está vinculada às preferências das equipes de atendimento endocrinológico. O tratamento acarreta redução da função da glândula e diminuição do hormônio liberado podendo, inclusive, transformar um estado de hipertireoidismo em hipotireoidismo.

Hipertireoidismo e Mergulho

A prática do mergulho autônomo amador é considerada insegura para mergulhadores com hipo ou hipertireoidismo ativo não tratado. Durante o mergulho, em pacientes mergulhadores hipertireoideos não tratados, o hormônio pode ser liberado subitamente em grandes quantidades produzindo sintomatologia de risco.

Algumas condições clínicas podem produzir sintomas relacionados a crises de ansiedade no mergulho, inclusive pânico, sendo o hipertireoidismo uma delas.

Após o tratamento, se espera que os níveis hormonais tenham sido reduzidos a níveis adequados. Isto pode ser acessado através da dosagem do hormônio no sangue. Clinicamente espera-se que após o tratamento os sinais e sintomas tenham desaparecidos. Portanto, níveis séricos normais do hormônio e ausência de sintomatologia permitem a liberação ao mergulho.

No entanto algumas ressalvas devem ser feitas. Pacientes tratados para hipertireoidismo podem ficar hipotireoideos e passar a requerer suplementação hormonal. Comercialmente temos disponível a tiroxina. O uso deve ser monitorizado para manter a medicação em nível terapêutico adequado. Esta medicação não tem interação com as condições ambientais relacionadas à doença descompressiva e seu desencadeamento.

Em relação ao tratamento medicamentoso do hipertireoidismo com medicações anti-tireoidanas, acredito que é inseguro o seu uso no mergulho. Não há dados sobre a interação da medicação com o mergulho e, tratando-se de medicações, devemos considerar a variabilidade da concentração no sangue em função do metabolismo da droga.

Além disso a doença não é de fácil controle medicamentoso e a medicação não é isenta de efeitos adversos. Portanto, mesmo estando sem sintomas clínicos e com níveis séricos adequados do hormônio, se esta foi a forma de tratamento escolhida, o candidato a mergulhador ou o mergulhador que passou a apresentar o problema não está autorizado a mergulhar. A menos que mude a opção terapêutica.

A liberação ao mergulho depende também do fato do mergulhador não apresentar outros problemas de saúde e adequada condição física à prática da atividade. Mergulhadores com doença da tireóide devem realizar rigorosa avaliação cardiovascular pelo menos três meses antes do mergulho.

Esta criteriosa avaliação deve excluir alterações do ritmo e a presença de insuficiência cardíaca. O candidato ao mergulho autônomo amador que teve esta doença somente poderá mergulhar se apresentar adequado condicionamento físico antes do mergulho.

Resumindo, hipertiroidismo não tratado com sintomas relacionados à doença desqualifica para a prática do mergulho autônomo amador. Hipertireoidismo, tratado sem sintomatologia específica relacionada à doença, não.

Fontes

1) Divers Alert Network
2) Cecil Textbook of Medicine

Augusto Marques
Augusto Marques Ramos é formado pela UFRGS, Mestre em Medicina pela mesma Universidade e Preceptor do Programa de Residência Médica do Hospital Nossa Senhora da Conceição, atuando também como médico nefrologista do Instituto da Criança com Diabetes. Mergulhador desde 1984 e membro associado do Dive Alert Network (DAN) desde 1997. Ele também é instrutor de mergulho pela Association of Diving School, International (ADS, International). Realiza avaliação médica para a prática do mergulho autônomo amador em várias escolas de mergulho desde 1987. É médico hiperbarista formado pela UFSP e pelo Centro de Instrução e Adestratamento Almirante Átilla Monteiro Aché (CIAMA). Também é membro da Sociedade Gaúcha de Nefrologia, das Sociedades Brasileiras de Nefrologia e de Medicina Hiperbárica, da South Pacific Underwater Medicine Society (SPUMS) e da European Dialysis and Transplant Association (EDTA).