Ramco Crusader – O mais novo naufrágio da costa cearense

No Ceará há um grupo de mergulhadores “naufrageiros” muito atuante, uma equipe de primeira qualidade que topa mergulhos em condições realmente difíceis, navegações bem longas no mar agitado e em barcos não apropriadas para mergulho, onde inclusive, recentemente publicaram o Atlas de Naufrágios do Ceará.

Por lá nós dizemos que quem mergulha no Ceará mergulha em qualquer lugar, mas apenas só quem já “enfrentou” os verdes mares bravios naquela região, vai entender realmente o que estou relatando.

Assim que ocorreu o naufrágio do Ramco Cruzader em 2013, foi muito noticiado na mídia local e logo, começamos a nos mobilizar para conseguir as coordenadas com pescadores locais, pessoal da Marinha e outros parceiros do mar.

Nas primeiras semanas após o sinistro tentamos uma primeira busca só com base nas coordenadas divulgadas no “Aviso aos Navegantes” publicado pela Marinha, tentativa esta sem sucesso. Não encontramos nada, pois a marcação não era precisa e o mar agitado não permitiu estender as buscas na pequena lancha “Baby”, do mergulhador “Leozão”.

O naufrágio encontra-se a 35 milhas náuticas a partir da cidade de Fortim-CE (aproximadamente 65 Km de navegação).

Em uma segunda tentativa realizada em outubro de 2013, ao chegarmos na área, havia um enorme rebocador offshore tipo Supply, maior que o próprio naufrágio Ramco exatamente em cima da marcação que tínhamos conseguido junto aos pescadores.

Quando estávamos começando a nos equipar, o oficial no comando nos chamou pelo rádio e informou que a área estava restrita a navegação, e que estava sendo executada uma operação para reflutuar o naufrágio, e teríamos que nos retirar daquela área…

Assim fizemos e então seguimos para mergulhar em outro ponto próximo e que chamamos de Ninho dos Beijupirás para não perdera viagem. Sendo assim, mais uma tentativa frustrada de mergulho no Ramco.

Passadas algumas semanas, os pescadores informaram que a operação de resgatar o navio não teve sucesso e o Ramco permaneceu no fundo.

Nossa expedição começou com conversas informais em meados de dezembro de 2015, quando o “Leozão” insistiu num retorno até o naufrágio. Fechamos a equipe com nove mergulhadores: Rodrigo Bricks, Martorano, Nairo, Medeiros, George Almeida, Evandro “Boião”, André, Leozão Nunes e Rodrigo “BB”, além do Ivan e Eliésio como tripulação.

Pré-mergulho

Viajei de São Luis por 13h num carro com os equipamentos até Fortaleza, pois nos mergulhos no Ceará temos que levar praticamente tudo, e pensamos sempre no pior cenário pois, o mar mesmo na época boa, é bruto.

Também não existem barcos adaptados ou preparados para mergulho, são embarcações rústicas de pesca artesanal do tipo traineira, então temos que levar literalmente de tudo, desde material de salvatagem, primeiros socorros, até alimentação, equipamentos de mergulho, cabos, garatéias, bóias, e às vezes, até ecobatímetros e chart plotters portáteis.

Nosso embarque ocorreu na barra do Rio Jaguaribe, no município de Fortim-CE, 160 km de distância de Fortaleza e estava marcado para as 3h da madrugada de sábado (27/02/2016).

Fortim possui um embarque mais tranquilo, um cais abrigado no rio, pois já tivemos péssimas experiências embarcando material em praias. Pequenas embarcações chegam a virar com os equipamentos e já causaram prejuízos.

Da busca à marcação

Após aproximadamente 6:30h de navegação, chegamos ao ponto. Após alguns procedimentos de sondagem, confirmamos a posição do naufrágio, apesar da grande ondulação com vagas de 2m sacolejando a embarcação. Logo em seguida, a lancha “Baby” se aproximava com a segunda equipe de mergulhadores.

O mergulho

Ao cair na água a visibilidade estava entre 30 e 35m, sendo possível avistar o naufrágio da superfície e o fundo branco de areia bem nítido rodeando o Ramco. Um cenário impactante.

Pra nossa surpresa a sonda estava certa e a profundidade máxima encontrada no local foi de 28m.

Realizamos dois mergulhos, explorando praticamente por duas horas o naufrágio Ramco Crusader. A parte mais rasa dele fica na proa entre 15 e 16m.

Detalhes do naufrágio

Naufrágio está emborcado e sua proa aponta para o sul.

De sidemount é possível entrar nele pela popa, entre o navio e a areia, se arrastando, em um enorme salão onde o convés principal transformou-se no teto, com os guinchos e aparelhos de trabalho do Supply, e um enorme cenário de ponta cabeça bem iluminado pelas duas laterais.

O lado de boreste que está do lado esquerdo de quem vai sentido à proa, há uma saída d’água ou portaló que ainda está batendo e fazendo barulho durante o mergulho.

A âncora tipo patente, está dentro do escovém no boreste e no alto da proa fica a parte mais rasa do mergulho, próximo aos 15m onde há correntezas bem fortes.

Uma rachadura no casco q nos intrigou e precisa ser melhor analisada.

Também havia uma chapa já se soltando do casco e que logo será outro ponto de entrada para o interior do naufrágio.

Pelo bombordo, a penetração pela lateral entre a balaustrada e a areia é bem ampla, sendo penetração incrível e com diversos itens interessantes, além das pequenas salas, como a casa de força, oficinas e depósito.

Também pelo bombordo, sem conexão com esse grande salão que se formou do convés, há outra entrada pela parte externa de uma penetração bem técnica e estreita, e que batizei de “Passagem do Grifo”, pois havia um enorme grifo por onde fiz a amarração primária da carretilha.

Lá dentro foi possível identificar um quarto devido ao que restou das camas, banheiros com as privadas no teto ao estilo “Itapagé“. Cilindros de Oxigênio caídos e muitas peças ainda muito instáveis do casario que emborcou e depois foi esmagado quando o naufrágio se chocou contra o leito marinho.

É provável que ainda existam outras passagens e também há muito que ser explorado, como possíveis passagens para outros andares, mas cabe frisar que é um trecho complicado, onde só é possível entrar com configuração de mergulho técnico e de sidemount, pois as passagens são bem estreitas, sem luz natural e ainda há muita coisa solta e desabando.

Resumo

O Naufrágio do Rebocador de plataforma Supply “Ramco Cruzader” com seus 68m de comprimento entra para o rol de naufrágio top do Brasil.

Devido à baixa profundidade (18 aos 28m), seria um naufrágio acessível a quaisquer mergulhadores avançados e perfeito para cursos de naufrágio e nitrox, se não fosse pela distância da costa e tempo gasto para chegar nele, fato que o tornará mais um naufrágio lendário do Ceará.

Essa operação contando com o horário que saímos de Fortaleza até chegar de volta após a operação, foram 23h no total, sendo praticamente 17h embarcados em uma traineira de pesca de lagosta, então, certamente não será um naufrágio de operações comerciais, e o “Ramco” a exemplo dos naufrágios do Pecém e do Eugene Thayer (Petroleiro do Acaraú), também entra para o rol de naufrágios cearenses que são desejados por muitos mergulhadores, mas são mergulhos para poucos privilegiados que topam realizar esses mergulhos, apesar das grandes dificuldades e aventuras para se chegar neles.

Colaboração

Alexandre Martorano, George Almeida e Luciano Andrade.

 

Vídeo da Expedição

Rodrigo Bricks
Rodrigo Bricks é Mergulhador Técnico e instrutor PADI desde 2005 com diversas especialidades.Atualmente faz parte do NEPOM - Núcleo Especial de Polícia Marítima da Polícia Federal em São Luis-MA.Trabalhou em grandes centros de mergulho em São Paulo, Fernando de Noronha como guia da Corveta V-17 e na Republica Dominicana (2006), onde explorou algumas cavernas como Padre Nuestro, Macau Cave e El Chicho. Instrutor especialista em mergulho sidemount em naufrágios, configuração na qual mergulha desde 2009, introduziu o sidemount no estado do Ceará, tendo formado vários mergulhadores nessa especialidade e em mergulho em naufrágios. de naufrágios pouco conhecidos naquele estado.