A realidade dos Rebreathers

Foto: Clécio Mayrink

A idéia deste artigo é demonstrar que os rebreathers não são uma tecnologia assustadora como muitos pensam, mas quando utilizados dentro das normas e principalmente dentro da experiência no equipamento de cada mergulhador, são muito confiáveis e úteis. Se analisarmos a sua trajetória, veremos que seu início data do século XVII e é rica em experiências, testes, fatos, histórias, histórias, sucessos, fracassos e sua evolução até os dias de hoje representa um marco no mundo do mergulho.

Em contrapartida, há o conhecido circuito-aberto, recentemente criado e utilizado pela imensa maioria dos mergulhadores no mundo.

Muitos perguntam o por que do circuito-aberto ser tão mais utilizado em relação aos Rebreathers…

Há vários fatores, dentre os quais destacamos: o preço pesa muito na escolha, o maior número de tarefas pré e pós imersão, disponibilidade de materiais (spare parts, sensores, cal sodada, etc) são fatores agravantes.

Não acredito em complexidade, já que a necessidade de mais cursos e um maior número de procedimentos a serem seguidos, que devem ser encarados como uma evolução pelo mergulhador… qual é o mergulhador que não gostaria de dominar a maioria dos aspectos fisiológicos, físicos, psicológicos e técnicos do mergulho ?

E esses aspectos sim, são necessários para que um mergulhador Rebreather, domine bem o seu equipamento. O circuito-aberto segue de alguma forma essa evolução, já que existem cursos iguais e necessários a ambos, como por exemplo, o Nitrox, Extend Range / Deep Air, Trimix e até o curso de Gas Blender. Se nesses pontos não dá para sentir uma diferença entre circuito-aberto e rebreathers, no tópico treinamento, mergulho e procedimentos há uma grande distância entre ambos, senão dizer um abismo.

Os modelos de rebreather variam consideravelmente. Há variações entre as unidades, podendo ser controladas mecanicamente ou por computador, por unidades que utilizam uma única mescla e outras que usam mesclas múltiplas. Existem ainda as diferenças do semi-fechado, para o fechado de O2, fechado sem eletrônica, fechado com eletrônica.

Como em todos os setores do mergulho a experiência é o fator diferencial. Ela só é adquirida após várias horas embaixo d’água e acima dela, através de muito estudo e pesquisa. O interessante com os Rebreathers, é que a experiência com o circuito-aberto de nada vale, não adianta ter milhares de horas no Log Book, pois o mergulhador será, queira ou não, um iniciante… isso pode ser difícil para o “ego” de muitos, mas é pura realidade que deve ser encarada com personalidade e humildade.

Ao ignorar esse fato, os mergulhadores iniciantes nos rebreathers tendem a menosprezar os procedimentos e com isso aumentar a fama de “problemático” dos rebreathers. Os limites devem ser observados com atenção e os costumeiros “super-homens” terão problemas !

Se os iniciantes sofrem desse mal, do outro lado da linha temos os mergulhadores rebreathers com extrema experiência e que por motivos de autoconfiança demasiada, acabam se tornando complacentes ao ignorar as regras e procedimentos realizados anteriormente, em inúmeras vezes e com sucesso. Acabam ultrapassando os mesmos limites dos iniciantes e se tornando mais uma fatalidade.

Dentro dessas fatalidades, analisando as centenas de relatórios de acidentes que possuo, constato que cerca de 95% ou mais delas, foram causadas pelo mergulhador. As falhas técnicas existem, mas são poucas e algumas delas, poderiam ter sido evitadas com uma manutenção correta ou checagem eficiente antes da imersão.

Os diversos problemas mecânicos que podem vir a surgir devem ser analisados e conferidos antes, durante, e após cada imersão, como se fosse uma rotina militar onde as normas de segurança devem ser obedecidas… tenha o mergulhador 1 hora de imersão ou tenha ele algumas milhares de horas.

Interessante é ressaltar, ainda que rapidamente, que os acidentes também ocorrem com o circuito-aberto, envolvendo todas as partes que compõe o equipamento e as estatísticas comprovam que houve acidentes fatais por problemas no Colete Equilibrador (BCD), Regulador, Manômetro, Octopus, Máscara, Cilindro, Nadadeiras, Computador, Cinto de Lastro e até com a Lanterna, Snorkel e Faca. Alguns devem estar perguntando o que isso tem a ver com rebreathers e a resposta é simples: É que os acidentes podem ocorrer em qualquer tipo de circuito, seja ele aberto, de O2 puro, semi-fechado, fechado, e além disso, em qualquer item que compõe o equipamento.

Então vem aquela frase que normalmente ouvimos: “Os Rebreathers são muito perigosos ! “. Isso não passa de uma informação errônea e principalmente falta de conhecimento do que se está falando.

Os Rebreathers são utilizados nas mais diversas profundidades, como por exemplo, militares com oxigênio puro acima dos 6m ou abaixo em outras atividades de reconhecimento e operações especiais, por pesquisadores a 140m, por mergulhadores comerciais a 300m, podendo até ser utilizado a 600 ou mais metros em diversos tipos de operações.

Os acidentes tem ocorrido nas mais diversas profundidades, e por incrível que pareça, o raso aparece como um vilão. Um dos fatores é o relaxamento nos procedimentos ao se chegar no raso, vindo de um mergulho profundo, ou ao se mergulhar apenas no raso. Há o equívoco de se pensar que nessas profundidades tudo está bem e que o perigo passou… puro engano !!!

Devemos ter em mente, que com Rebreathers tanto faz estar a 1 metro, como a 100 metros, a atenção e a disciplina aos procedimentos e regras devem ser seguidas… não há diferença.

Que tal um exemplo que anos atrás foi marcante:

A morte em fevereiro de 1999 do Prêmio Nobel, o Físico Henry Kendall durante a exploração em Wakulla 2 (Kendall estava mergulhando sozinho, violando claramente as regras de Wakulla). Após o seu corpo ter sido recuperado, um grupo de especialistas afirmou que a válvula de seu Rebreather Cis-Lunar MK-5 não estava corretamente ajustada, o que levou a um “black out” pela falta de O2. A equipe de Wakulla mudou mais tarde esse testemunho, dizendo que sua morte foi por causas naturais, mas na realidade, sabemos que ele morreu porque simplesmente não acionou seu fornecimento de O2.

Neste caso, podemos ver um Prêmio Nobel de Física, utilizando um Cis-Lunar (o mais completo e desenvolvido rebreather), muita experiência, falhando num procedimento básico e falecendo aos 6 metros de profundidade.

Essa é a complacência tão condenada no meio Rebreather, que deve ser evitada a todo custo por qualquer mergulhador que os venha a utilizar. Procure um profissional sério, que não queira apenas o seu dinheiro e que dê um curso “meia-sola” … Procure sim, um curso que mostre todos os caminhos e atalhos para um mergulho seguro.

De resto é usufruir as maravilhas do mergulho rebreather.

Carlos Nelli Borges

Carlos Nelli Borges é Master Scuba Instructor pela PADI, Instrutor de Rebreather pela TDI (E.1211.I) e Instrutor Trainer Rebreather pela RAB (BR-133-02/98), possindo mais de 1.200 mergulhos com rebreathers.

Foi representante da Dräger no Brasil entre 1997 e 2000. Atualmente atua como instrutor na África do Sul.