Rebreathers, Live Aboards e Expedições

Água quente, boa visibilidade, inúmeros naufrágios, um barco de alto nível, cilindros duplos, stages e muita mordomia. O que falta a um cenário destes ?

Provavelmente nada para maioria dos mergulhadores técnicos em sã consciência. Entretanto, se nos colocarmos em uma perspectiva de viagem de longa duração provavelmente vai faltar espaço.

Mergulhadores técnicos tem o costume de carregar tudo e mais alguma coisa nas suas viagens, e não é à toa. Será que os rebreathers tem uma função na resolução desse e de outros problemas ?   Com certeza !

Os rebreathers são a ferramenta ideal para esse cenário e para outros tantos.

Um grupo de mergulhadores técnicos precisaria ter em um barco do tipo Live Aboard, diversos equipamentos, como cilindros, conjuntos de reguladores, gases, compressor, dentre muitos outros. Expedições de mergulho à lugares remotos também se beneficiam do uso dos rebreathers. Hoje é uma prática comum o uso deste equipamento em mergulhos exploratórios de cavernas em quase todos os continentes.

Outro equipamento que tem acompanhado o rebreather nessas aventuras é o gás booster. Este equipamento têm a função de recomprimir o gás provenientes de outros cilindros, em um cilindro de destino.

Com o booters, basta simplesmente levar o rebreather uns cilindros com oxigênio e diluente, para estar realizando a recarga, reduzindo reduz drasticamente a quantidade de equipamentos necessários para uma expedição, além é claro, aumentando muito a quantidade de horas de mergulho por quilograma transportado.

Calculando…

Vamos contabilizar apenas o volume de gás de fundo necessário para que um mergulhador com consumo de 15 litros por minuto na superfície, ficando por exemplo 20 minutos na Corveta Camaquã a 55 metros, sem contar a descompressão.

São 20 minutos x 15 litros/minuto x 6.5 ATA, temos então 1.950 litros x 1.5 de reserva, o que dá um total de 2.925 litros. Praticamente são 3.000 litros para uma dupla de 15 litros carregada à uma pressão de 200 bar com trimix. Vamos adicionar o Oxigênio e EAN50 para fazer a descompressão, que não são baratos…

Para repetirmos o mesmo mergulho teríamos que fazer nova recarga, já que a sobra de gás no cilindro não é suficiente para se fazer outro mergulho com segurança.

Fazendo a conta para um rebreather de circuito fechado eletrônico, tipicamente estes rebreathers, possuem dois cilindros com 3 ou 4 litros, sendo um de diluente e outro de oxigênio. O que o nosso corpo consome é o oxigênio, e os gases inertes como o nitrogênio e o hélio são em pequena parte absorvidos pelos tecidos do corpo. Os gases exalados retornam ao circuito respiratório, para serem separados, onde o oxigênio retorna ao mergulhador.

Esse processo faz com que o mergulhador, numa situação ideal, consuma apenas oxigênio. Sempre que a concentração de oxigênio estiver abaixo do nível desejado, um solenóide (injetor) vai adicionar oxigênio do cilindro ao ciclo respiratório. Bem, sendo assim, o nosso consumo em um rebreather é na verdade metabólico e a profundidade do nosso mergulho não afeta o nosso consumo. O que pode afetar o consumo metabólico é o nível de estresse do mergulho, carga de tarefas, correnteza, etc.

O consumo de oxigênio por um mergulhador de rebreather em um mergulho típico é de 1 a 2 litros por minuto. Teoricamente existe a possibilidade de não se consumir diluente (ar, trimix, etc) mas para isso não poderíamos descer na coluna de água, nem colocar ar no colete, nem tão pouco desalagar a máscara.

Podemos assumir que temos um consumo de diluente equivalente ao de oxigênio, 1 a 2 litros por minuto.

Vamos calcular a quantidade de oxigênio e diluente necessários para ficarmos não 20 mas 40 minutos a 55 metros. São 40 minutos x 2 l/min, o que dá 80 litros de oxigênio mais 80 litros de diluente. Um cilindro de quatro litros carregado a 180 bar tem uma capacidade de 720 litros. Com apenas uma recarga podemos executar uma série de mergulhos.

Isto significa que a quantidade de gases necessários a bordo da embarcação é muito menor do que se estivéssemos utilizando o circuito aberto. Pensando em uma operação com vários mergulhadores em um Live Aboard, além de não ser necessária a recarga após cada mergulho, os cilindros do rebreather possuem juntos, de 6 a 8 litros, contra os 24 a 36 litros do circuito aberto.

Pontos positivos

Mergulhos na corveta Camaquã com rebreather são incomuns mas a bordo do Voyager, o Live Aboard operado pela Atlantis Divers para mergulhar nos belos naufrágios do Nordeste, tem acontecido alguns mergulhos assim.

Em geral, mergulhadores técnicos de circuito aberto fazem entre 20 e 30 minutos de tempo de fundo na Camaquã. Patrick Muller (Atlantis Divers) e Marcus Werneck (PDIC Brasil) usando um rebreather Halcyon RB80 já ficaram mais de uma hora no fundo e, em recente viagem, utilizei um rebreather Dive Rite O2ptima e Marcus Werneck com o seu RB80, e ficamos perto disso.

Em circuito aberto, um mergulho de uma hora à essa profundidade se torna extremamente trabalhoso em termos de preparação de gases, configuração de equipamentos e condução do mergulho. O rebreather neste caso permitiu um maior tempo de fundo com uma quantidade de equipamentos menor.

Em um naufrágio com quase 60 metros de comprimento e com tantas atrações é bom poder contar com esse tempo estendido. O mesmo acontece no Vapor dos 48, que apesar de não estar tão intacto quanto a Camaquã, este vapor de identidade desconhecida também tem muito o que ser visto. A uma profundidade de 48 metros o tempo de fundo permitido é controlado pelo suprimento de gás da dupla, a não ser que se vá de rebreather. É claro que não são apenas coisas boas que acontecem nestes cenários.

Como a tecnologia ainda é pouco divulgada, mergulhadores de rebreather normalmente dividem embarcações com mergulhadores técnicos de circuito aberto. Não costuma ser agradável a volta de alguns mergulhos já que o tempo submerso dos mergulhadores de rebreather costuma ser muito maior, fazendo uma boa parte do barco ter que esperar enquanto eles se divertem.

Naufragio-RecifeApós duas horas e meia de mergulho na Camaquã, Marcos Werneck e eu, não fomos propriamente bem recebidos de volta ao Voyager pelos colegas Nico, Akira, Gaba, Sandra, Adriana, Ricardo e Josualdo, sem falar na jura de morte do Mestre Djalma.

Vamos imaginar uma expedição com meia dúzia de mergulhadores tendo que fazer dois mergulhos por dia durante um mês para mapear uma caverna em um lugar remoto. Se contabilizarmos o tempo e o custo operacional, o uso do rebreather faz todo o sentido. Mapeamentos requerem um grande número de horas na água, muitas vezes a grande profundidade. O custo operacional em mergulhos fundos com trimix é muito menor com o rebreather.

Alguns mergulhos que requeiram longa duração para coleta de dados, o uso do rebreather permite um tempo de fundo estendido o que pode tornar uma expedição muito mais eficiente. Como já foi mencionado, a preparação de misturas e recarga de cilindros se torna mais rápida, ganha-se mais tempo para descansar e planejar os mergulhos.

Uma caverna inexplorada ou com pouca visitação, costumam soltar sedimentos do teto (percolação) por causa das bolhas liberadas pelos dos mergulhadores com circuito aberto, quando passam pelo local. Com a grande diminuição da quantidade de bolhas geradas pelo rebreather, faz dele, um equipamento ideal para esta situação.

A reação que transforma o dióxido de carbono exalado pelo mergulhador em carbonato de cálcio, também gera calor, o que contribui para a manter o conforto térmico do mergulhador de rebreather.

No caso do mergulho em cavernas, emergências são raras, mas podem acontecer. O tempo é o que um mergulhador tem de mais precioso nessa situação. Normalmente é o suprimento de gás que determina o tempo que um mergulhador tem. Com o uso de rebreathers os mergulhadores ganham também a capacidade de permanecer submersos por mais tempo.

Pontos negativos

Os rebreathers têm vantagens sobre o circuito aberto mas, infelizmente, também trazem desvantagens, ou melhor, desafios.

Para começar, eles são equipamentos relativamente caros, enquanto um mergulhador técnico pode ir comprando seus equipamentos aos poucos, o mergulhador que utiliza um rebreather, tem que comprar seu equipamento de uma vez só.

Além disso, a operação dessas máquinas, principalmente os modelos de circuito fechado eletrônico, é mais complicada e requer um nível de atenção elevado.

Os rebreathers requerem treinamento específico para cada unidade, o que gera mais um custo.

No Brasil existe ainda o desafio de se encontrar parceiros de mergulho que usem essa tecnologia. já que ainda são poucos os mergulhadores que se aventuraram para o uso de rebreathers. Quem teve a oportunidade de ir mergulhar em pontos de mergulho técnico no exterior, recentemente pôde ver a quantidade de mergulhadores que usam esse equipamento, e que a cada dia aumenta mais.

A disponibilidade de rebreathers em grande escala para o público em geral começou no meio da década passada e ainda não atingiu a maturidade. Nos próximos anos devemos assistir a uma expansão ainda maior nas vendas e uso de rebreathers. Vamos torcer para que essa expansão também se dê no Brasil.

Agradecimentos

  • Patrick Muller e equipe Voyager / Atlantis.
  • Gabriel Ganme e equipe Diving College;
  • Marcos Werneck (PDIC);
  • Gaba e equipe (Operadora Aquáticos).
José Mário Ventura
José Mario Ventura é arquiteto com especialização em Planejamento Urbano. Mergulha desde 1992 e se formou instrutor em 2001. Atualmente é proprietário e ministra diversos cursos na escola Haloclina, em Campinas, onde é IDC Staff Instructor pela PADI, instrutor em diversas especialidades PADI. É instrutor de primeiros socorros EFR, instrutor de mergulho técnico pela DSAT, instrutor de mergulho técnico e de caverna pela IANTD, e instrutor trainer dos programas de segurança do mergulhador da DAN. Mergulhador credenciado em diversas especialidades de mergulho, entre elas: Full Cave, Trimix, Sidemount, O2ptima Rebreather, Drager Dolphin Rebreather, CCR Cave e CCR Trimix.