Recarga de Cilindros – Onde está a polêmica ?

Recentemente publiquei nesse site o artigo “Recarga de Cilindros, Seca ou Molhada ?” esperando que causasse alguma polêmica ou, pelo menos, algum comentário mas não obtive sucesso.

Recebi uma única correspondência de um proprietário de uma escola de mergulho interessado em adquirir um Visual Eddy, e se mais alguém se interessar, aí vai o site do fabricante www.visualeddy.com. Recomendo o Mark II Scuba System que é completo para análises em cilindros de alumínio rosca 3/4NSPM.

Cilindro1Afirmei o seguinte:

“Condensação: o maior problema que esse tipo de recarga pode ocasionar é o risco de condensação dentro do cilindro, pois a diferença de temperatura ocasionada pela submersão durante o enchimento poderá causar condensação em cilindros recarregados com ar de qualidade duvidosa, digo duvidosa porque o ar de boa qualidade é completamente seco como bem sabemos”.

Essa é uma meia verdade, quando colocamos o registro no cilindro já temos uma atmosfera (1 bar) dentro desse cilindro que, em alguns lugares do Brasil pode chegar a 98% de umidade!   Essa única atmosfera, considerando um cilindro S80 que é o mais usado, chega a aproximadamente 0,5% do total do ar comprimido, então o ar que respiramos, por melhor que seja, sempre terá umidade e, portanto, sujeito à condensação.

Nesses dias recebi um telefonema de outro amigo de Arraial do Cabo, também proprietário de uma escola / operadora, dizendo que havia perdido 12 cilindros, condenados pela Gascontrol, devido à corrosão na base interna. Essa é uma situação típica de cilindros contaminados com água oriunda de condensação ou mesmo, de uma limpeza mal feita. Reafirmo que é preciso secar completamente os cilindros depois de lavados antes de se colocar os registros.

Esse procedimento tanto em cilindro de alumínio quanto de aço é fundamental e tão importante quanto a limpeza periódica. Em situações onde o cilindro deverá retornar logo ao serviço o uso de um secador industrial é recomendado, e em sua falta, recomenda-se um soprador.

A Makita fabrica um modelo (UB1101 Soprador / Aspirador) bem acessível. Em situações normais o cilindro poderá ser colocado “de boca para baixo” para que a água escorra completamente e, ainda sem o registro, colocado em posição normal, ao sol para que a umidade seja evaporada naturalmente, é um processo lento mas necessário.

Além da corrosão por contaminação existe a corrosão galvânica que é a mais comum e perigosa nos cilindros de mergulho.

A corrosão galvânica ocorre quando dois metais de potenciais eletroquímicos diferentes se encontram imersos em um mesmo eletrólito e mantém contato entre si.

Para que a corrosão galvânica ocorra, é necessário que os materiais envolvidos no processo sejam diferentes, ou seja, apresentem potenciais de oxidação diferentes ou, se iguais, deverão estar imersos em eletrólitos de valores diferentes.

Potencial de oxidação é a tensão gerada por cada elemento em relação a um eletrodo neutro de referência.

Para o os cilindros de mergulho só haverá o caso dos metais de composição diferente, rosca do cilindro X rosca do registro e o eletrólito, será a água, seja ela de umidade originada por condensação, pressurização indevida no tanque de recarga ou até mesmo, de água salgada que possa ter ficado na entrada do registro.

Sabemos que quando metais de estrutura diferente entram em contato em ambiente de umidade, forma-se uma célula galvânica e, quanto mais negativo o potencial, mais anódica será a sua condição, ou seja, mais sujeito à corrosão.

Nos interessam as seguintes potências:

  • Material Pot (volts)
  • Liga de alumínio (5% Zn) – 1,05
  • Cobre, latão, bronze – 0,20

Cilindro2É fácil perceber que ocorre a corrosão na rosca do cilindro de alumínio visto que seu valor negativo é bem maior e, portanto, tende a ser mais anódico. Observe que em cilindros onde haja condensação ou mesmo água oriunda de fontes externas, essa corrosão aumenta exponencialmente tornando-se fácil perder um cilindro nessas condições.

Proteções contra a corrosão galvânica

Como regra geral deve-se evitar o contato entre metais que apresentem grande diferença de potencial eletroquímico.

Em ambientes industriais são utilizados graxas específicas, pinturas e revestimentos (galvanização) que contribuem para reduzir a corrosão galvânica, mas sua durabilidade não é eterna e sempre apresentam pequenas falhas mesmo quando novos. Isto traz a necessidade de manutenções periódicas.

Obs: A galvanização é a aplicação de uma película de zinco. O mesmo que dizer que é uma proteção catódica. O zinco, por ter um potencial mais negativo que o aço, atua como anodo e é consumido no lugar deste.

Em nosso universo o mais comum é a utilização da tradicional fita de teflon como isolante, dessas que se usa para vedar roscas de PVC, mas a fita por si só não oferece uma proteção efetiva visto que, durante o processo de colocação do registro, ela será desgastada em boa parte do contato das roscas. O ideal é a utilização, além da fita, de produto específico para o isolamento das partes, mas é preciso cuidado na escolha a fim de se evitar a contaminação do ar respirável e das possíveis misturas utilizadas nesses cilindros.

Recomendamos o Dow Corning 55 desenvolvido especificamente para prevenção da corrosão galvânica além de ser um lubrificante compatível com oxigênio e outros corrosivos é, também, recomendado pelo fabricante, para utilização na lubrificação de o-rings dinâmicos confeccionados em material natural (borracha) ou sintéticos como silicone, policarbonatos, ABS e etc.

Outra medida seria a remoção do eletrólito, sobretudo quando de natureza incidental (água), daí a necessidade das revisões periódicas e da secagem perfeita dos cilindros quando de sua limpeza.

Enio Couteiro

Mergulha há mais de 30 anos e é inspetor especialista em cilindros de mergulho com certificação da PSI dos Estados Unidos, sendo um dos profissionais mais reconhecidos do mercado, em razão do seu vasto conhecimento técnico e tempo de atuação no mercado nacional do mergulho.