Resgatada aos 105m de profundidade

Mergulho profundo requer treinamento e equipamentos adequados - Foto: Clécio Mayrink

Éramos um grupo de mergulhadores brasileiros retornando à Cuba pela segunda vez. Na primeira, curtimos muitos os mergulhos, mas ficou aquela vontade de ir mais fundo.

Era por volta de 1997, e lá estávamos novamente para admirar as belezas naturais que Cuba proporciona, com suas águas claras e transparentes, com grande chamativo para os mergulhos fundos, pois vemos imensos paredões indo para grandes profundidades e quantidade de corais multicoloridos.

Era o segundo dia de viagem e uma época onde era comum muitos mergulhadores considerados mais “avançados” descerem além dos 40m usando ar comprimido. O dia estava ensolarado e perfeito para mais um dia de mergulho.

Desci com meu dupla que já o conheço há tempos, e nos programamos para descer além dos 50m naquele dia, seguindo um dos guias que pretendia descer até os incríveis 90m de profundidade, para retirar corais ou algo parecido.

Sabíamos dos riscos e assim fomos logo após os demais do grupo. Descemos mais lentos que o mergulhador cubano, na tentativa de não sentir tão rapidamente os efeitos da narcose, e dentro de pouco tempo, alcançamos os 60m de profundidade.

Sabíamos que havia uma narcose, mas aparentemente, tudo estava sob controle até que os problemas começaram logo em seguida.

Enquanto olhávamos uma formação coralínea avermelhada, levei um grande esbarrão e que me fez virar rapidamente para ver o que era. Me deparei com o mergulhador cubano que havia descido mais ao fundo, com sinais de desespero e com o corpo de uma mulher em mãos. Era uma das integrantes do grupo e estava desmaiada.

Desesperado, o mergulhador cubano nos disse para levá-la para cima e logo em seguida nadamos correndo para a baixa profundidade e a entregamos para outros três mergulhadores que se encontravam na faixa dos 20m, pois tínhamos uma descompressão razoável para ser feita.

Eles a levaram para a embarcação e iniciaram os procedimentos de reanimação cardiorrespiratória, e apesar de tudo apontar para um acidente grave, felizmente não era o dia dela.

Ela acabou acordando e sentindo dores no braço, que obviamente, era uma doença descompressiva.

Paredões de corais em Cuba – Foto: Clécio Mayrink

105 metros de profundidade

Horas após o grande susto, fomos entender o que havia ocorrido.

A mergulhadora viu algumas bolhas subindo do fundo, e acreditando que elas fossem minhas e do meu dupla, resolveu descer sozinha atrás de nós, mas na realidade, eram do mergulhador cubano que havia descido aos 90m de profundidade.

Num determinado momento, durante a descida ela simplesmente apagou e seu corpo passou a ir em direção ao fundo.

Segundo o cubano, que usava uma máscara com três lentes bem antiga, sentiu através do seu olho direito, algo passando e virou a cabeça para ver o que era, acreditando ser algum animal curioso, quando se deparou com o corpo da mergulhadora em queda livre.

Ele abandonou suas ferramentas e bateu perna para resgatá-la, segurando a respiração e correndo o máximo possível para alcancá-la, pois a profundidade local chegava aos 300m.

Por sorte ele conseguiu resgatá-la aos 105m de profundidade e disparou no mesmo instante para a superfície com seu colete inflado ao máximo, nos encontrando na faixa dos 60m.

Aprendendo da pior forma possível

Após o ocorrido, todos pararam para repensar no que estavam fazendo e viram da pior forma possível, os perigos que o mergulho profundo com ar comprimido pode produzir.

A irresponsabilidade de todos nós ao mergulhar sem as misturas e o treinamento adequado, poderia ter feito um dos piores dias de nossas vidas caso nossa amiga viesse a morrer, e espero que com esse relato, aqueles que curtem um mergulho profundo a ar, repensem no que estão fazendo, pois ele realmente pode matar.

Mergulho seguro, com treinamento, equipamentos adequados e dentro das regras de segurança é fundamental para a segurança de todos.

Autor

LA tem 44 anos de idade, é engenheiro civil e mergulhador desde 1993.

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