Sardenha – Histórias de Guerra e de Naufrágios

Parte I – Os naufrágios Loredan e Isonzo

Extraído da revista italiana de mergulho SUB – número 177 de abril / 2000

“10 de Abril de 1943: Três navios partiram do porto de Cagliari em direção ao arquipélago da Maddallena (*), no norte da Sardegna. Eram o navio de passageiros Loredan, transformado em navio de escolta armado, o petroleiro Isonzo e o cargueiro à vapor Entella.

Sardenha11Às 18:20 já na altura da atual Torre delle Stelle, a 12 milhas de Cagliari, o comboio foi atacado pelo submarino inglês Safari e os três navios foram afundados. Em 1990, dois mergulhadores de Cagliari encontraram os naufrágios e trouxeram à superfície alguns objetos, entre os quais uma placa de bronze com o nome Isonzo, que permitiu a identificação dos navios.

Com esses objetos foi possível uma identificação incontestável dos naufrágios e assim foi possível rever os documentos conservados no arquivo histórico da Marinha Militar e reconstruir a crônica exata do afundamento, onde infelizmente morreram dezenas de homens.

Aproximadamente às 4:00 da tarde o comboio de três navios saiu do Porto de Cagliari em direção ao arquipélago da Maddallena. Como escolta havia o caça minas 29 e o MAS 507 (lancha torpedeira), esse último, depois de ter passado pela formação se posicionou na altura de Cabo Boi onde efetuava uma escuta hidrofônica, com a intenção de descobrir se haviam sinais de presença do inimigo.

Um outro MAS, o 510, em transferência de Maddallena para Cagliari, transitava entre as 17:42 e as 18:00 na altura de Cabo Boi – Torre Finocchio, sem perceber nada de anormal.

Sardenha6
Loredan

O relatório elaborado após o afundamento, sublinha que o apoio aéreo previsto ficou em terra porque o único hidroavião disponível acusou um problema no motor de partida. Naqueles dias a Sardegna era um dos alvos preferidos dos ataques dos aliados; Cagliari mo mês de fevereiro havia já sofrido um primeiro bombardeio bem pesado. Depois do início de abril, não tinha um dia em que os aviões da RAF não sobrevoassem a cidade, enquanto os submarinos aliados permaneciam pacientemente de tocaia ao longo da costa da ilha. Em 3 de abril o submarino Safari havia afundado no Golfo de Orosei o pesqueiro Nasello logo depois o veleiro San Francesco da Pacola.

No dia 5 de Abril, quatro hidroaviões que haviam decolado do aeroporto de Cagliari não retornaram. No dia 9 de abril a 6 milhas de Cabo Carbonara o terrível Safari entrou em ação novamente e afundou o cargueiro Bella Italia em seguida avistou um navio de 4000

Sardenha1
Isonzo

toneladas, e apesar de escoltado por um contratorpedeiro, conseguiu atingi-lo com 2 torpedos, porém o navio por pura sorte conseguiu chegar em Cagliari a salvo.

No dia 5 de Abril, quatro hidroaviões que haviam decolado do aeroporto de Cagliari não retornaram. No dia 9 de abril a 6 milhas de Cabo Carbonara o terrível Safari entrou em ação novamente e afundou o cargueiro Bella Italia em seguida avistou um navio de 4000 toneladas, e apesar de escoltado por um contratorpedeiro, conseguiu atingi-lo com 2 torpedos, porém o navio por pura sorte conseguiu chegar em Cagliari a salvo.

O Entella, que com um movimento rápido conseguiu se safar de um torpedo que o teria rasgado o costado, acabou encalhando em um local raso. Em poucos minutos, com uma salva de torpedos bem mirada o comboio foi eliminado. No local chegaram rapidamente o caça-minas, a lancha patrulha Idria e os MAS 507 e 510.

Foram lançadas algumas cargas de profundidade e se recolheram os sobreviventes. Alguns chegaram á praia a nado, outros foram recolhidos na água e em seguida desembarcados e transportados para Cagliari em caminhões.

Mas a destruição ainda não tinha terminado. Na manhã seguinte, ao alvorecer, foi organizada a operação de salvatagem do Entella, com a intenção de desencalhe, mas às 11:00 aproximadamente, no ponto de escuta na localidade de Su Fenogu anunciava ter escutado uma explosão. De fato, dois torpedos foram lançados pelo Safari no navio que, atingido na popa e no centro, afundou rapidamente em poucos metros de profundidade.

O terrível submarino Inglês havia assim completado a sua obra de destruição, levando a três o numero de navios italianos afundados naquela ação.

No relatório enviado ao QG da Marinha se podia ler a seguinte observação: “Considerando o número de torpedos lançados, as manchas de óleo e fumaça percebidas em dois pontos diferentes e distantes, tudo leva a crer que se trata pelo menos de 2 submarinos operando em dupla naquela área”.

No relatório as Autoridades Cagliaritanas acrescentavam: “Se julga eficaz a ação contra os dois submarinos inimigos, que devem ser considerados ambos afundados, ou pelo menos danificados”..

Ao invés disso, as fontes dos arquivos ingleses revelaram que toda a operação foi conduzida por um único submarino, o Safari, pertencente à famosa classe Snapper, composta de 12 unidades utilizadas quase exclusivamente no Mediterrâneo; No comando do Safari havia um verdadeiro lobo do mar, o comandante B. Bryan. O submarino alcançou as águas da Sardegna no dia 27 de março de 1943, proveniente de Argel. Entre os dias 27 de Março e 11 de Abril cumpriu a sua missão com o afundamento de 6 navios, atacado com muita tenacidade por unidades italianas, conseguiu reentrar sem danos em Argel.

Esse foi o último comando de Benjamin Bryant, e aquela missão foi definida pelo seu comandante em chefe como “uma das mais brilhantes operações efetuadas pela Royal Navy no Mediterrâneo”. O Safari deixou atrás de si um rastro de destruição e luto. O afundamento do Isonzo deixou 4 mortos e 18 desaparecidos. Os marinheiros do Loredan morreram quase todos. Boa parte da tripulação do Entella conseguiu se salvar.”

Sardenha4(*) Arquipélago no norte da Sardenha, onde existe uma base aeronaval.

Os Mergulhos

Em junho de 2007 tive a oportunidade de mergulhar no Mar Mediterrâneo, em uma viagem que fiz à Itália para rever parentes, reaprender a língua e principalmente, conhecer o mar que me impulsionou ao mergulho Sardenha9através das revistas e livros que li na adolescência. Tive a oportunidade de mergulhar no litoral sul da Toscana e da Sardenha, e de conhecer a vida marinha, os naufrágios e os mergulhadores daquela região do Mediterrâneo.

Devido às suas características naturais, o trecho do Mar Mediterrâneo, conhecido como Mar Tirreno, que separa as Ilhas da Sardenha e da Córsega com a península italiana, pode ser considerado um paraíso para os mergulhadores de naufrágio, sejam eles recreativos ou técnicos. Tendo sido navegado ao longo de milhares de anos e tendo presenciado todos os tipos de guerras, o fundo do mediterrâneo é um verdadeiro playground para quem aprecia história naval e de naufrágios. A plataforma continental da península afunda rapidamente, fazendo com que se tenha profundidades maiores que 50 metros já a aproximadamente 1 milha da costa.

A ausência de fortes correntezas e grandes ondas associadas à excepcional transparência das águas, permite que o mergulho seja praticado quase o ano inteiro. No inverno a temperatura da água cai (12°C) e o vento sopra com mais força e frequência, deixando as condições bem desfavoráveis, mas mesmo assim não sendo impeditivo para os mais aficionados.

Ao se mergulhar pela primeira vez no Mar Mediterrâneo, o primeiro impacto para o mergulhador brasileiro é a cor da água. Não que isso seja alguma novidade para quem já passou por Noronha ou pelo Caribe. A grande diferença é a tonalidade do azul. Diferentemente do Atlântico Sul, onde este se apresenta arroxeado ou esverdeado, dependendo das características da costa, lá o azul é cobalto, intenso. Outra surpresa é a temperatura. Estamos acostumados a associar água azul de oceano com temperatura agradável. Lá não é tão confortável assim. Não dá para ficar dentro da água muito tempo sem alguma proteção térmica.

Utilizando os serviços da operadora Pro Dive, do instrutor NAUI Stefano Bianchelli, entramos no nosso bote inflável de 8m de comprimento com um motor de popa de 225 HP, usado normalmente em operações seja de mergulho recreativo ou técnico. Devido às condições de operação – mar calmo a maior parte do tempo, pouca correnteza e proximidade dos pontos de mergulho – o uso desse tipo de embarcação é bastante conveniente para as operações de mergulho.

Em uma navegação ao longo da costa do Golfo de Cagliari, não mais que 30 minutos, chegamos ao primeiro naufrágio, o Loredan. Como todos os pontos de mergulho, este também possuía uma bóia submersa marcando a locação, tendo que se efetuar a navegação com GPS. A transparência da água não causa nenhum problema na localização da bóia a 3 m de profundidade.

Sardenha10Descendo pelo cabo, chegamos à meia-nau do naufrágio. O Loredan está pousado no fundo sobre seu lado de bombordo em 66 m de profundidade, com a proa em direção ao largo e o convés voltado para a costa, em frente ao Cabo Carbonara. A popa do navio foi completamente devastada pela explosão dos torpedos.

Descemos até a altura da quilha, mantendo o planejamento inicial de 60 m de profundidade e seguimos em direção à proa. Partes da superestrutura foram arrancadas, e algumas delas simplesmente desapareceram durante o afundamento, não mais compondo o naufrágio. Os turcos das baleeiras de salvamento estão ainda em pé e desses pendem ainda moitões completamente incrustados.

ASardenha5 grande característica desse naufrágio é a presença maciça de gorgônias e esponjas ao longo de todo o costado do navio, nas mais variadas tonalidades, indo do amarelo ao vermelho e chegando ao roxo e violeta. Seguimos um corredor ao longo do convés, efetuando uma penetração simples, porém longa no interior do naufrágio. Existe muita vida nesse naufrágio.

A quantidade de peixes pequenos é imensa, contrastando com a quantidade de espécies maiores. Aqui a grande novidade é poder ver vida que não existe no Atlântico além daquelas que se vê normalmente por lá, só que em outras tonalidades. Em meio às ferragens foi possível ver uma espécie de peixe parecido com um bacalhau, porém vivendo isolado sem formar cardumes. Isso sem mencionar as espécies menores que só mesmo um biólogo para saber se existe ou não no Atlântico.

Ao final do mergulho, passamos sob o rombo na popa causado pela explosão. Fomos acompanhados por grande cardume de sardinhas até iniciarmos a descompressão. Infelizmente a roupa seca que consegui alugar apresentou um vazamento na meia da direita e pelos punhos, causando bastante frio na fase final apesar da roupa alugada ser de neoprene pré-comprimido de 4mm (felizmente na Sardegna a temperatura superficial da água em junho é de 22°C).

Sardenha3Partimos 2 dias depois para o naufrágio do Navio Tanque Isonzo. Este se encontra afundado a cerca de 300 m do Loredan, em uma profundidade de 56 m em um fundo de areia bem branca. Está tombado pelo lado de boreste e seu casco está bastante integro apesar dos torpedos recebidos. Ao contrario do outro naufrágio, este não possui uma única gorgônia sequer.

A explicação fornecida é que este navio está posicionado perpendicularmente à correnteza (ao contrário do Loredan), o que não propicia o surgimento desse tipo de gorgônia.

Não é a quantidade de vida exuberante a fazer desse naufrágio um dos mais bonitos da área e sim o seu aspecto geral, a visão do todo que já se observa nos primeiros metros da descida.

Sardenha8Efetuamos o mergulho mantendo uma profundidade máxima de 50 m e utilizando somente um cilindro de 15 l (pressão nominal 237 bar) com ar e um stage descompressivo de 8 l com EAN 50. A falta de gorgônias no casco é compensada pela imensa quantidade de sardinhas, marimbas e outras espécies menores que povoam o costado do navio.

Devido à seu tombamento pelo lado de boreste, o canhão de popa encontra-se agora apontando para o alto, totalmente recoberto de esponjas e numa espécie de esforço final para permanecer na luta já perdida.

Existem vários pontos de penetração que não foram tentados devido à pouca quantidade de gás levada nesse mergulho. Como se trata de um naufrágio real, a penetração é complicada, passando por áreas bem estreitas. A melhor decisão foi mesmo de apreciar o navio pelo lado externo.

Sardenha7O terceiro naufrágio daquela mesma área é o Entella. Esse naufrágio foi desmantelado logo apos o fim da Segunda Guerra Mundial. O que sobrou hoje se encontra a apenas 15 m de profundidade e a 100 m da praia, em um fundo de areia e algas do tipo posidônia. Tem sido utilizado como ponto de treinamento e certificação ou para batismos. A operadora sugeriu que eu não investisse dinheiro por ali.

Considerando que nessa área do mediterrâneo as operadoras não estão devidamente equipadas para atender as demandas dos mergulhadores técnicos, seguem algumas dicas para quem um dia se aventurar por lá:

  • Leve os dois reguladores da dupla, roupa seca e undergarment, lanterna HID, uma máscara e pelo menos um computador.
  • Antes de colocar qualquer equipamento para carregar, veja as características do carregador, considerando que na Europa a voltagem é 220v com 50Hz.
  • Escolha uma época fora do verão (julho – agosto), pois tudo fica lotado e os preços sobem bastante. Os meses de Junho e Setembro são os ideais, pois é uma época quente, com condições de mar boas e com pouco tumulto.
  • Procure fazer as reservas com antecedência e alugue um carro. Nessa área existem poucos transportes públicos fora da temporada.
Fábio Conti
Fábio Conti é formado em Engenharia Mecânica pela UGF em 1984, com especialização em hidroacústica pela Pennsylvania State University. Trabalha a mais de 17 anos na Petrobrás, onde nos últimos 9, atua na execução de operações marítimas de posicionamento, utilizando recursos de satélite e hidroacústicos, e participa em levantamentos geofísicos do fundo do mar. Com mais de 20 anos de experiência em mergulho, atualmente é Tec Trimix pela DSAT, Deep Air Diver e Advanced EANx Diver pela IANTD, e 3 estrelas pela CMAS.Tem como hobby a leitura sobre história marítima e atualmente se dedica à fotografia submarina e ao mergulho técnico.