Seria o Galeão de Serrambi o clipper Stag Hound ?

Uma das coisas que mais chama atenção de um mergulhador que curte naufrágios é saber a real identidade dele, sua história e o que aconteceu para que o navio afundasse. O problema, é que nem sempre isso é possível, pois muitos naufrágios ocorridos em nossa costa, acontecerem há muitos anos, e nem tudo foi registrado ou está fácil de encontrar nos jornais antigos.

Alguns meses atrás estive conhecendo um naufrágio não identificado, mas que passou a ser chamado de Galeão Serrambi, em razão do que restou do naufrágio e por estar próximo à Serrambi-PE.

Na ocasião, pude apreciar suas belas âncoras e parte da madeira ainda visível, apesar de tantos anos embaixo d´água. É um mergulho maravilhoso, pois o tom azulado do mar nordestino e a grande visibilidade, torna o local um dos melhores pontos de mergulho no país.

A grande dúvida sobre esse naufrágio é: que navio seria esse ?

Várias hipóteses surgiram, alguns chegaram até a sugerir que fosse o famoso Galeão Santa Rosa, que tinha como carga grande quantidade em tesouros, contudo, com o passar dos tempos e dos mergulhos efetuados no local, logo foi descartada essa hipótese, pois as características que não batiam com o famoso galeão.

Voltando de viagem e com algumas imagens feitas no local, andei realizando algumas pesquisas atrás de informações que pudessem me ajudar numa possível identificação, relacionando o que temos de informações sobre naufrágios ocorridos no Brasil, com trocas de e-mails com alguns amigos no exterior, e surgiu m possível candidato… O naufrágio Stag Hound.

Foto: Clecio Mayrink

Stag Hound e seu histórico

O navio Stag Hound foi lançado em 07/12/1850 em East Boston, Massachusetts, Estados Unidos, pelo estaleiro Donald McKay.

O proprietário do estaleiro, o próprio Donald McKay, se tornou muito famoso por lá, por desenvolver e construir embarcações do tipo Clipper, um tipo de embarcação com casco de madeira movida à vela.

No caso do Stag Hound, ele e os navios “irmãos” alcançavam grandes velocidades de navegação, atingindo incríveis 17 nós à vela e levando quantidade de carga recorde para a época, se tornando um ícone da marinha mercante durante aquele período, se tornando um marco na história marítima, tanto que hoje, existe um monumento em memória de Donald McKay no Fort Independence, em Pleasure Bay, na cidade de Boston.

Coincidências entre o Galeão e o Stag Hound

Apesar de muitos mergulhos no galeão, a princípio, ninguém até hoje encontrou algum objeto com evidências sobre a identidade real do Galeão Serrambi, e confesso que não posso afirmar que o Galeão é de fato o Stag Hound, mas posso deixar registrado aqui, alguns indícios que esse naufrágio possa ser o Stag Hound.

1 – Âncoras

Os modelos encontrados no galeão possuem estrutura próxima aos modelos usados nas embarcações fabricadas pelo estaleiro Donald McKay. Segundo um americano estudioso no assunto, não havia um padrão 100% idêntico. Haviam pequenas alterações entre um modelo e outro, mas o tipo de âncora era o mesmo… almirantado.

2 – Dimensões

O Stag Hound possuía em torno de 74/75m de comprimento e segundo um mergulhador que efetuou uma medição do Galeão Serrambi, ele teria algo em torno dos 80m. Em ambos os casos é possível que haja uma margem de erro, pois as medidas no passado não eram precisas, além do que, medir um casco de madeira naufragado há mais de 100 anos e aos pedaços, a margem de erro pode aumentar ainda mais.

3 – Carga

Durante o mergulho no Galeão Serrambi encontramos muitos pedaços de carvão em forma de tijolo fabricado, ficando claro que sua carga era carvão. É perceptível que carvão encontrado por lá foi feito com mais precisão, talvez com o uso de máquinas, período posterior ao da Revolução Industrial, e o Stag Hound tinha como carga apenas carvão.

4 – Casco

O casco de madeira dos navios do tipo Clipper tinham menos largura, justamente para cortar as águas e andar com maior velocidade. O Galeão passa uma impressão de possuir um casco relativamente menos largo em comparação aos galeões antigos.

5 – Afundamento

O galeão está naufragado próximo à cidade de Serrambi, Pernambuco, distante 25 milhas náuticas de Recife, a capital. Segundo os registros históricos do Stag Hound, um incêndio fez com que a tripulação trabalhasse para tentar contê-lo por 15h e sem sucesso, e o Stag Hound foi para o fundo no dia 02/08/1861 às 17h, a 45 milhas ao sul Pernambuco. Os registros não mencionam cidade próxima.

Logicamente não existia o GPS na época e não se tinha um mapeamento com precisão. As medidas eram aproximadas e com grandes margens de erro. Logo, as informações eram providas com base em alguma referência ou na base do “achômetro”.

6 – Incêndio

O Stag Hound pegou fogo e naufragou. O Galeão Serrambi possui madeira queimada e com fortes indícios de que houve uma explosão e queima do navio.

9 – Falta de objetos

Em um naufrágio antigo, principalmente galeão, normalmente são encontradas grandes quantidade de objetos, como talheres, garrafas, porcelanas, objetos variados e eventualmente, canhões. Praticamente nada foi encontrado no galeão que desse indícios quanto a sua origem. O único bem que mais chama a atenção, segundo dizem, foi um canhão com dimensões bem reduzidas, indicando em tese, uma baixa preocupação contra possíveis ataques.

Levando em consideração que o Stag Hound era um navio de extrema velocidade para a época, nenhum navio teria condições para alcançá-lo facilmente, e se tratando de um navio cargueiro e não de guerra, levar canhões traria arrasto e grande perda de performance de navegação, o que não era interessante para quem realizava o transporte de cargas.

Conclusão

Basicamente temos muitas coincidências, e como disse anteriormente, não quero afirmar que o Stag Hound é de fato, o Galeão Serrambi, contudo, os indícios mencionados acima mostram que existe uma possibilidade muito grande desses navios serem o mesmo, e que tanto os mergulhadores desejam identificar.

Foto: Clecio Mayrink

A esperança, é que algum dia um mergulhador encontre algum objeto que venha ajudar na identificação do naufrágio ocorrido nas águas pernambucanas e esclareça esse mistério.

Agradecimentos

Marcelo Gesteira e a equipe da operadora Abissal Mergulho pelo apoio no mergulho realizado no naufrágio.

Clecio Mayrink
Nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em 1987 pela CMAS e realizou Dive Master em 1990 pela PADI. Hoje é mergulhador Técnico Trimix (Mergulho Profundo) e de cavernas (Technical Cave Diver e Advanced Cave Side Mount / No Mount). É juiz internacional de apneia pela AIDA e foi membro da expedição de mapeamento da Lagoa Misteriosa em Bonito-MS em 2008. Foi o idealizador do site Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769/SP), atuou como consultor para a ONU, UNESCO, além de diversos órgãos públicos no Brasil.