Siqueira Campos – Um mergulho no passado

O ano é 1943, auge da Segunda Guerra Mundial. Os submarinos de Hitler são uma ameaça real, que obrigam os navios aliados a viajar em comboios escoltados e sem nenhuma luz de navegação durante a noite. O navio de seis mil e quinhentas toneladas, chamado Siqueira Campos, navega a noite, próximo à costa cearense. Partira de Recife com destino a Fortaleza e viajava em comboio junto com outra embarcação chamada Cuiabá, sob escolta dos navios caça submarinos (CS) Juruá e CS Jaguarão.

Era noite do dia 24 de agosto, mês de ventos intensos e mar agitado. O comboio estava no último trecho de sua viagem. Em meio à escuridão e mar revolto, algum vigia mareado pode ter se precipitado e transmitiu pelo rádio algo sobre um submarino alemão estar atacando. O pânico foi geral e, em uma manobra desastrada, os navios Siqueira Campos e Cuiabá se chocaram em frente à costa de Aracati. Após o choque, os navios seriamente avariados tentaram chegar a Fortaleza, porém, só o Cuiabá conseguira.

O Siqueira Campos era um navio antigo, com mais de 30 anos no mar e começou a fazer água rapidamente. O capitão, vendo que o seu navio iria naufragar aproou para terra com o intuito de encalhar em águas rasas para salvar a embarcação. Nos momentos finais o capitão deu um bordo aproando para o mar para facilitar as futuras operações de salvatagem. O navio encalhou a cinco quilômetros da Praia do Uruaú, aos nove metros de profundidade. O casario ficara acima da linha d’água, e na maré seca, parte do costado também. Todos conseguiram se salvar. Não houve vítimas fatais no acidente.

Nos anos que seguiram o sinistro, após ser constatada perda total do cargueiro, foi iniciada uma operação de salvatagem de estruturas que poderiam ser reaproveitadas. Parte da estrutura foi dinamitada para não atrapalhar a navegação.

O Siqueira Campos foi um pequeno coadjuvante das duas grandes guerras mundiais e há histórias curiosas à seu respeito. Era um navio misto, carga e passageiros, fabricado na Alemanha no ano de 1907, sendo batizado com o nome Gertrud Woermann pelo armador Woermann Line.

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No início da Primeira Guerra Mundial o cargueiro se encontrava no porto do Rio de Janeiro de onde foi impedido de zarpar, ficando retido até 1917 quando foi confiscado pelo governo brasileiro como ressarcimento pelos danos causados ao Brasil durante a Primeira Guerra Mundial, sendo renomeado posteriormente como Curvello. Em 1925 foi comprado pelo Lloyd Brasileiro e dois anos depois foi rebatizado Cantáuria Guimarães. Somente em 1931 passaria a se chamar Siqueira Campos.

Em 1940, antes do Brasil entrar na Segunda Guerra Mundial contra os países do Eixo, o navio foi apreendido por ingleses no porto de Lisboa por estar transportando (de acordo com contrato assinado em 1938) armamentos provenientes da fabrica alemã Krupp. E ainda, um ano depois, o navio do Lloyd Brasileiro fora atacado por tiros de canhão de um submarino alemão nas imediações de Cabo Verde, sendo detido para ser revistado.

Afundar durante a Segunda Guerra só poderia ser seu destino…

Hoje, sessenta e seis anos após o encalhe, ainda é possível avistar sobre a linha d’água suas estruturas da proa e do leme durante a maré baixa. No entanto, o acesso ao naufrágio é um pouco complicado. Apesar de próximo à costa, em algumas praias do litoral leste, mergulhadores não são muito bem vindos. Isto por que pescadores da região associam qualquer prática de mergulho com ar comprimido à pesca da lagosta, ou mesmo à caça submarina e se negam a “mostrar o ponto”. A proximidade do litoral também cria outro obstáculo: a visibilidade normalmente é ruim.

Segundo os pescadores, julho e agosto são os meses de melhor visibilidade, apesar do mar agitado nessa época do ano. Vencidos os obstáculos, pode-se levar uma hora de jangada, saindo da Praia do Diogo.

Foi o que fizemos em nossa pequena expedição ao Siqueira Campos, eu e três amigos também mergulhadores. Foram duas tentativas. Saímos de jangada da Praia do Diogo e na primeira, a falta de vento e a cor de café da água nos fizeram abortar a operação após duas horas de bordos infrutíferos. No dia seguinte partimos mais cedo e o vento terral nos ajudou. No entanto a água continuava com cor de café. Mas após um rápido mergulho de reconhecimento, a comemoração !

A água “suja” era apenas uma camada de dois metros, revelando oito metros de visibilidade.

O navio naufragado foi completamente sucateado ao longo dos anos, mas mantém ainda sua imponência. O casco está parcialmente inteiro com uma grande rachadura próximo a proa. Seguindo pela quilha, logo chegamos ao porão de proa onde estão pilhas e pilhas do que um dia foram sacas de cimento que petrificaram, dando a impressão de estarem ainda esperando para serem descarregadas. Em direção à popa encontramos as duas grandes caldeiras cilíndricas. Pequenas penetrações são possíveis da meia nau à popa sem colocar em risco a segurança.

A entrada do porão de popa se mantém inteira e ainda conserva sua escada até o fundo arenoso. Próximo a diversos cacos de garrafas que identifiquei como sendo do “Licor Depurativo de Tayuyá de São João da Barra”, onde acabei encontrando um objeto com formato de um garfo. Observando mais de perto vi que ao redor do garfo, preso pela incrustação, estava a entrada de uma fechadura !   Será que alguém tentou invadir a sala de bebidas ?!    Durante ou logo após o afundamento ?   Saqueadores ?   Por que alguém tentou abrir esta porta com um garfo?

Contornando a popa notamos o leme ainda no lugar, mas o hélice virou sucata. Retornando à proa por fora do casco por estibordo, encontramos algumas ferragens e “blocos de sacas de cimento”. O convés de proa está bem conservado com cabeços de amarração, entrada do porão, todos em um plano só, mas devido à rachadura, encontra-se inclinado como se fosse emergir a qualquer momento.

A vida marinha é farta: parús, pampos, moréias e algas urticantes. Um pequeno cardume de xila cobria todo o naufrágio. Próximo à proa também encontramos um tubarão lixa de bom tamanho. Arraias costumam repousar ao redor dos naufrágios, apesar de não termos visto nenhuma na ocasião.

Deixamos o naufrágio com a sensação emergirmos da história através de um túnel do tempo. Olhei ao redor e não pude deixar de pensar que estava olhando para a mesma paisagem que o capitão do Siqueira Campos olhou dezenas de anos atrás.

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Marcus Davis Andrade Braga

Formado em publicidade e propaganda pela FIC. Mergulha há mais de 15 anos, é instrutor de mergulho pela PADI #196258, instrutor de primeiros socorros pela EFR e supervisor de mergulho formado pelo Corpo de Bombeiros do Ceará, instituição para qual presta consultoria. Fotógrafo e pesquisador de naufrágios, já participou de diversas matérias e programas de televisão relacionados a mergulho.

É coordenador do Clube de Mergulho do Mar do Ceará, grupo envolvido no desenvolvimento da prática de mergulho autônomo, na preservação ambiental e na pesquisa e localização de naufrágios no estado.