Spool – Ela é muito mais do que uma simples Spool

Pra quem não sabe, uma spool aparentemente detêm características próximas de uma carretilha de mergulho, porém, cada uma delas detém finalidades diferenciadas e normalmente compreendidas durante um curso de mergulho técnico.

No entanto, tenho visto alguns mergulhadores recreacionais adquirindo esses equipamentos sem um conhecimento mínimo passado por um profissional da área, e pior, comprando de alguns poucos lojistas, como sendo um equipamento que traz benefícios, e até seria, se o comprador soubesse usá-lo de forma correta e em situações realmente necessárias.

O mais preocupante disso tudo, é que além disso, encontramos algumas pessoas comercializando “Spool” que não é Spool, pois o material possui qualidade baixa e com características diferentes de uma spool fabricada corretamente. Isso tem como base a fabricação caseira, também conhecida como “fundo de quintal”…

Spool e seu uso

A spool passou a ser usada no mergulho técnico, basicamente para a soltura de deco marker e para a indicação de um mergulhador que esteja realizando uma descompressão à deriva, sinalizando o seu posicionamento à equipe de superfície. No mergulho em caverna, utiliza-se uma spool para sair de um cabo para outro, para buscar um dupla perdido, e por aí vai…

No mergulho recreacional, alguns mergulhadores estão usando a spool como um cabo guia, para irem e voltarem pelo cabo, o que em tese, é um erro. Pode-se fazer isso com uma spool, até pode, mas o uso de uma carretilha seria o ideal, porém, requer um treinamento básico a fim de evitar que o cabo venha se tornar um enrosco para o próprio mergulhador e virar uma situação perigosa.

Digo isso, pois já vi muita gente usando esses equipamentos sem um conhecimento mínimo e retornando ao barco com um emaranhado de cabos embolados entre si.

Spool2Fabricação caseira

Sou até uma pessoa que gosta de desenvolver algumas coisas em casa, como foi o caso do sinalizador sonoro de mergulho e coisas do tipo, mas temos que ter em mente, que o desenvolvimento de um equipamento em si, jamais deverá oferecer riscos ao mergulhador e/ou que não seja um equipamento de segurança, como é o caso desse tema.

Os fabricantes gastam anos e milhares dólares em estudos e projetos, para desenvolver um equipamento perfeito e que não coloque o mergulhador em uma situação de risco. Então, porque tentar reinventar a roda ?

Resolvi fazer esse comentário, pois infelizmente alguns raros mergulhadores usam carretel de pedreiro como spool, o que não faz o menor sentido. Além de extremamente frágil, não tem as especificações de segurança que uma spool normalmente tem.

Spool e sua construção

Assim como todos os equipamentos de mergulho, a spool apesar de simples, possui toda uma tecnologia, formato desenvolvido e aperfeiçoado durante anos pelos profissionais e fabricantes de mergulho, até chegar aos resultados atuais.

Isso vale desde o tipo de material em que ela é fabricada, até simplesmente o diâmetro dos furos presentes no equipamento para a fixação do mosquetão, por exemplo. Existem diversas características nesse equipamento, onde tudo têm um por que de estar ali e de como é feito.

Alguns detalhes

Uma spool é fabricada com um material super resistente às quedas, impactos, e até ao esmagamento acidental por um cilindro de mergulho. Se houver uma rachadura, em tese, essa rachadura fará com que a spool se parta em dois pedaços ainda fora d’água, não permitindo a sua utilização. Já imaginou uma spool se partindo durante o mergulho ?

Como iria ficar todo aquele cabo solto à sua frente ?

Nos piores cenários, imagine uma cena dessa durante um retorno emergencial sem luz em uma caverna ?

Tudo bem, sei que exagerei na situação, mas isso pode ocorrer quando um equipamento de mergulho é desenvolvido e não durante o uso em si. Durante o desenvolvimento, os projetistas testamos equipamentos nos piores cenários a fim de manter o mergulhador em segurança.

Quanto ao cabo, ele não é um simples cabo. Ele possui diâmetro adequado para mergulhos em água doce, salgada, e quando em naufrágios, o correto é utilizar um cabo menos cumprido, porém, mais espesso, para diminuir as chances de um eventual rompimento devido ao atrito direto com o metal do naufrágio.

Já o mosquetão duplo, o ideal é usar um mosquetão fabricado em aço inox e não de latão, que eventualmente acaba tendo oxidação, podendo trazer dificuldades no movimentar do pino de soltura. Ele é mais caro, sim, mas os benefícios compensam e muito !

Já a furação lateral da spool, não está ali somente para prender o mosquetão com todo o cabo após o uso. A furação existe também para a fixação do mosquetão, por intermédio de um “nó” feito pelo mergulhador após a soltura de um deco marker ou para a ligação de cabos e sinalização em uma caverna.

Existem alguns detalhes dentre os quais, não cabe expor aqui, pois já seria o caso do interessado realizar uma especialidade do mergulho e não desejar aprender tudo com esse artigo, mas é preciso que todos os mergulhadores tenham em mente, que há muitos detalhes além da aparência simples que esse tipo de equipamento detém.

Conclusão

Não compre equipamentos de fabricação caseira por causa do baixo custo.

Normalmente esses equipamentos (se é que podemos chamá-los assim) são fabricados por pessoas que desconhecem as características de cada equipamento, e quem poderá se dar mal no final, será você, por que acreditou que o equipamento estaria dentro dos padrões, o que não é verdade.

A diferença de preço entre um equipamento de fábrica e um fabricado em “casa”, têm um porquê, e o mergulho têm o seu custo e não há como modificá-lo, tentando fazer “milagres”. Isso só trará problemas ao mergulhador, e o barato sai caro.

Se você é a favor de economizar nesses equipamentos, sugiro que troque de atividade antes que algo pior aconteça e você se torne uma estatística de mergulho.

Há um lema dos alemães muito interessante e que deve ser lembrado na hora da compra de equipamentos….

“Quem compra barato, compra duas vezes…”

Acho que não é necessário explicar o que isso quer dizer.

Clecio Mayrink
Nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em 1987 pela CMAS e realizou Dive Master em 1990 pela PADI. Hoje é mergulhador Técnico Trimix (Mergulho Profundo) e de cavernas (Technical Cave Diver e Advanced Cave Side Mount / No Mount). É juiz internacional de apneia pela AIDA e foi membro da expedição de mapeamento da Lagoa Misteriosa em Bonito-MS em 2008. Foi o idealizador do site Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769/SP), atuou como consultor para a ONU, UNESCO, além de diversos órgãos públicos no Brasil.