SS Eugene V. R. Thayer e o Petroleiro do Acaraú – Mais um naufrágio identificado no Ceará ?

Durante os primeiros anos da II Guerra Mundial, os submarinos de Hitler aterrorizaram os mares. Essas embarcações deixavam os portos na Europa e viajavam pelos mares à caça de navios militares ou mercantes para afundá-los, e assim, minar o esforço de guerra aliado.

Mas não foram apenas submarinos alemães que patrulharam os mares durante o conflito. As três principais potências que integravam o “Eixo do Mal” – Alemanha, Itália e Japão – possuíam essas armas e as utilizaram durante a guerra. Destes apenas os alemães e italianos tiveram participações significativas na batalha do Atlântico Sul.

R. SMG. Pietro Calvi

O submarino italiano R.SMG. Pietro Calvi – Regia Marina Italiana Sommergíbílí Pietro Calvi – é um nobre desconhecido. Em 1942, com dois anos de serviço já era um veterano de guerra. Entre outras missões, no ano anterior este mesmo submarino participou do resgate dos tripulantes do “Atlantis”, um navio corsário alemão que disfarçado de cargueiro, aprisionou e afundou dezenas de navios.

No início de março de 1942 deixou o porto de Le Verdon, na França para sua terceira patrulha. Seu destino era “Cabo Orange”, no Atlântico Sul e, no dia 25 de março, dezoito dias após sua partida, disparou torpedos contra o cargueiro britânico SS Tredinnick, não deixando sobreviventes. Quatro dias depois, a tripulação comunicou o torpedeamento de um cargueiro da classe “Huntington”, entretanto o afundamento não foi confirmado pois todos os navios dessa classe já haviam sido afundados no início da guerra.

Eufórica com as vitórias, a tripulação interceptou e torpedeou mais um cargueiro, o T.C. McCob com 7.452 toneladas. Após cinco torpedos e disparos de canhão 120mm, foi afundado o primeiro navio mercante norte-americano por um submarino italiano.

Após o combate os italianos seguiram rumo sul e alguns dias depois, ao largo da costa cearense, avistaram o navio tanque SS Eugene V.R. Thayer, sob comando do Capitão B. S. Svendson, também de bandeira norte-americana, assim como sua vítima anterior.

SS Eugene V.R. Thayer

O vapor Eugene V.R. Thayer fora encomendado pela “US Shipping Board” em 1920 ao estaleiro Bethlehem Steel Co. localizado em Wilmington, Delaware, EUA. Possuía 7.138 toneladas brutas com 430 pés – cerca de 142m – de comprimento por 59 pés – 19,47m – de boca. Seus motores eram de expansão tripla, permitindo alcançar a velocidade de 11 nós.

Seu porto de origem era Nova Iorque, de onde pertencia sua tripulação. Na ocasião estava em rota de Buenos Aires para Caripito, na Venezuela, quando foi interceptado pelo submarino Pietro Calvi.

O ataque

Aconteceu durante a noite na posição 02° 35’S, 39° 58’W às 20:35hs do dia 9 de abril. A tripulação do Pietro Calvi, sob comando do Capitão de Corveta Emilio Olivieri, lançou um torpedo e efetuou disparos de 120mm contra o petroleiro que navegava desarmado. O navio explodiu, mas não afundou de imediato. Passaria ainda dois dias queimando à deriva antes de tocar o leito do oceano. As coordenadas geográficas do local do naufrágio registradas na época seriam 02°36’S, 39°43’W.

Dos trinta e sete tripulantes do petroleiro, onze morreram no ataque. O restante se dividiu em dois pequenos barcos de emergência, treze foram resgatados no dia 11 de abril por um avião catalina, no mesmo dia em que veio a afundar de fato o navio tanque, e outros treze foram resgatados dois dias depois. Os sobreviventes retornaram aos Estados Unidos no dia 21 de abril, chegando ao aeroporto de Miami às 22:26hs, horário local.

Após essa batalha, o submarino continuou seguindo para o sul onde afundou outros dois navios mercantes, ambos ao largo do Rio Grande do Norte. Retornou triunfante à Le Verdon em 29 de abril.

A saga deste lobo dos mares terminaria poucos meses depois, na sua quarta e ultima missão. Acabou sendo afundado no dia 14 de julho de 1942 nas Antilhas sob o comando do Capitão de Fragata Primo Longobardo.

O Petroleiro do Acaraú

Na região de Itarema, litoral norte do Ceará, existe um navio naufragado à 40km da costa. Segundo pescadores e autores locais trata-se de um navio petroleiro que teria afundado durante a Segunda Guerra Mundial. O naufrágio foi batizado de Petroleiro do Acaraú, por ser este o principal porto da região.

O caçador submarino Luciano Moreira conta em seu livro que mergulhou várias vezes neste naufrágio. Em uma dessas investidas coletou diversos cacos de porcelana com a seguinte inscrição: “Iroquois – USA – China”.

Por se tratar de um petroleiro, é improvável que o navio estivesse carregando uma carga de porcelanas de Nova Iorque, muito menos na rota em que se encontra.

Após uma breve pesquisa na web, encontrei referências sobre uma empresa que fabricou porcelanas entre 1905 e 1969, denominada Iroquois, sediada em Syracuse, no estado de Nova Iorque, EUA, e a palavra “china” significa louça ou porcelana na língua inglesa.

Fazendo uma triangulação das diferentes coordenadas geográficas disponíveis em bibliografias relacionadas, observamos que a localização conhecida do Petroleiro do Acaraú está exatamente no centro.

Conclusões

De acordo com dados disponíveis podemos supor que o Petroleiro do Acaraú e o SS Eugene V. R. Thayer navegaram na mesma região durante a Grande Guerra. Considerando os métodos rudimentares de estimar a posição geográfica na época, os erros de transcrição que são comuns quando referentes a coordenadas geográficas, além do fato de nenhuma referência geográfica estar a mais de 40km da localização conhecida do naufrágio, é um reforço para situarmos que ambos os navios afundaram no mesmo lugar e no mesmo espaço de tempo.

O artefato retirado do local é um indício de tratar-se de um navio norte-americano. Ou seja, da mesma nacionalidade do SS Eugene V.R. Thayer.

Esses dois argumentos são tentadores o bastante para afirmarmos que o naufrágio de Acaraú é na verdade, o navio tanque norte-americano SS Eugene V.R. Thayer. Entretanto, para termos absoluta certeza é necessária uma expedição para análises aprofundadas no local. Somente após a realização das medições de comprimento e boca, verificação quanto ao tipo de propulsão e analisarmos a estrutura do naufrágio, poderemos comparar com as informações disponíveis do navio tanque norte-americano.

Naufragio-Eugene-Thayer-Mapa

Cronologia

  • 7 de março de 1942 – Submarino Italiano Pietro Calvi saiu do porto de “Le Verdon” com destino ao “Cape Orange”. Era sua 3a missão.
  • 25 de março – Afundou o cargueiro britânico Tredinnick de 4,589 t. Não houve sobreviventes.
  • 29 de março – Pietro Calvi interceptou e afundou um navio a vapor tipo “Huntington” que foi atacado com torpedos e visto afundar. No entanto o afundamento não foi confirmado. Todos os navios desse tipo haviam sido afundados nos anos anteriores.
  • 31 de março – Interceptou e afundou o cargueiro norte-americano T. C. McCob de 7,452t. Foram disparados 5 torpedos e tiros de 120mm. Foi o primeiro cargueiro americano afundado por um submarino Italiano.
  • 9 de abril – As 20:35 o submarino italiano intercepta o navio tanque Eugene Thayer que navegava desarmado. É iniciado o ataque. A tripulação abandona o navio em chamas na posição 02° 35’S, 39° 58’W. O petroleiro foi torpedeado e metralhado com canhões de 120mm.
  • 11 de abril – Após dois dias queimando a deriva o petroleiro afundou na posição 02°36’S, 39°43’W. Foi o primeiro navio norte-americano afundado por um submarino italiano no Atlântico Sul. No mesmo dia um grupo de 13 membros é resgatado por um avião anfíbio.
  • 13 de abril – Um segundo grupo de sobreviventes é resgatado.
  • 21 de abril – Os sobreviventes do Eugene Thayer chegam a Miami as 22:26.
  • 29 de abril – O Pietro Calvi chegou ao porto de Le Verdon após afundar dois outros cargueiros ao largo da costa brasileira.
  • 14 de julho de 1942 – O submarino italiano Peitro Calvi é afundado nas Antilhas.

Alguns marinheiros que pereceram no ataque ao navio

Albert Heis, Alejandro Mendoza Magno, Frank Vern Roberts, John Edward Morrissey e Manuel Carneiro Rey.

Expedição

Eu e minha equipe temos interesse em realizar uma expedição para a confirmação da identidade e origem do naufrágio do Acaraú. Se você têm interesse em financiar essa expedição e mergulhar no naufrágio, entre em contato através do telefone (85) 8899-5778 ou pelo e-mail marcusdab@gmail.com .

Fontes

  • Gastaldone, Ivo; Memórias de Um Piloto de Patrulha.
  • Moreira, Luciano; As Aventuras de um Pescador Sub, Ed. ABC, 2002.
  • WWII US Navy Armed Guard and Merchant Marine
  • Warships of World War II
  • American Merchant Marine at War
  • Arm Chair General
  • U-Boat Archive
  • Regia Marina Italiana
  • Filipinos WWII US Military Service
  • Google Earth
Marcus Davis Andrade Braga
Formado em publicidade e propaganda pela FIC. Mergulha há mais de 15 anos, é instrutor de mergulho pela PADI #196258, instrutor de primeiros socorros pela EFR e supervisor de mergulho formado pelo Corpo de Bombeiros do Ceará, instituição para qual presta consultoria. Fotógrafo e pesquisador de naufrágios, já participou de diversas matérias e programas de televisão relacionados a mergulho. É coordenador do Clube de Mergulho do Mar do Ceará, grupo envolvido no desenvolvimento da prática de mergulho autônomo, na preservação ambiental e na pesquisa e localização de naufrágios no estado.