Tem mergulho no Mato Grosso

“Eu não sabia que em Mato Grosso tinha mar…”

Foi com essas palavras que me deparei quando abri meu Facebook e vi o comentário deixado por um amigo suíço sobre umas fotos que postei de alguns locais onde se pratica o mergulho autônomo aqui no Mato Grosso. Claro que se trata de uma brincadeira, pois ele sabe muito bem que este Estado encontra-se equidistante de ambos os Oceanos (Atlântico / Pacífico). Todavia, foi após esse comentário que parei para refletir como somos privilegiados quando se trata de bons lugares para a prática do mergulho.

A foto em questão foi tirada em uma lagoa que fica na cidade de Primavera do Leste, distante 240 Km de Cuiabá e que nos proporciona mergulhos inesquecíveis em uma água que pode ser considerada, como de qualidade caribenha, tanto pela visibilidade excelente, quanto pela temperatura agradável, girando sempre na casa dos 26 / 27ºC.

Cuiabá é a capital do Mato Grosso, Estado situado no centro-oeste brasileiro e que faz fronteira com a Bolívia à oeste. Temos divisa com Goiás e Tocantins à leste, Pará e Amazonas ao norte, Rondônia também à oeste e Mato Grosso do Sul, que como o próprio nome indica, ao sul. É importante ressaltar, que Cuiabá se situa no Centro Geodésico da América do Sul (coordenadas 15°35’56”,80 de latitude sul e 56°06’05”,55 de longitude oeste, determinadas pelo Marechal Cândido Rondon em 1.909).

Temos duas estações durante o ano: calor com chuva e calor sem chuva e ar muito seco, sendo certo afirmar que Cuiabá é uma das cidades mais quentes do país, onde os termômetros indicam temperaturas em torno dos 40ºC na época das secas, podendo alcançar os 45ºC em dias de calor caprichado.

Cuiabá em si não tem nenhum ponto de mergulho, mas em razão de sua localização geográfica, nos permite encontrar lugares fantásticos a partir de 140 Km de distância. Em geral, esses pontos de mergulho estão próximos às formações calcárias que permeiam o Estado de Mato Grosso, sendo a mais conhecida, a Formação Araras.

Podem ser mencionados quatro pontos de mergulho onde é possível contar com uma infra-estrutura mínima, propiciando um conforto necessário ao mergulho recreacional, sem, no entanto, tirar o charme do contato com a natureza.

Esses quatro pontos, permitem que o mergulho em grandes bacias hidrográficas localizadas no Estado, a Bacia do Prata, Bacia Amazônica e Bacia Tocantins-Araguaia, pois o Mato Grosso, em razão de seu relevo, é o divisor dessas águas.

Pontos de Mergulho

O primeiro e mais próximo, está localizado na cidade de Nobres, distante 140 Km em direção oeste da capital. Nobres encontra-se rodeada de serras calcárias que dão a beleza peculiar ao lugar. Também possui uma economia baseada na extração do calcário, através de grandes empresas nacionais instaladas dentro de seus limites territoriais.

O acesso a esse Município é feito através da rodovia MT 010, que liga Cuiabá à cidade de Rosário Oeste-MT, já asfaltada em toda sua extensão. Chegando a Rosário, pega-se a BR 163 até o destino final. Pode-se chegar ao Município diretamente pela BR 163, a partir de Cuiabá, o que não recomendo, pois, além ser uma rodovia cheia de buracos e defeitos na pista, possui um tráfego intenso de caminhões.

O mergulho autônomo em Nobres é realizado na Lagoa do Salobão, distante 12 Km da sede do município, localizada dentro de uma propriedade particular. A lagoa alimenta o Rio Cuiabazinho, afluente do Rio Cuiabá e, consequentemente, do Rio Paraguai, como parte da Bacia do Prata, formadora do Pantanal Matogrossense / Sul-Matogrossense.

A temperatura da água gira em torno dos 28ºC aproximadamente, e a profundidade máxima do mergulho fica entre 3 e 5m. Já a visibilidade fora da estação das chuvas (entre novembro e abril), varia de 8 a 10m na proximidade das nascentes existentes na lagoa e 2 a 3m em partes mais afastadas. Durante a estação chuvosa o mergulho fica inviável em razão da falta de visibilidade, já que chove todos os dias e toda a lama das redondezas acaba alcançando a lagoa.

Aos amantes da vida subaquática, o mergulho no Salobão é uma ótima oportunidade de avistar e observar os peixes que habitam o Pantanal e afluentes da bacia do Prata. Dourados, pintados, caxaras, piraputangas, piranhas, piaus, arraias, armaus, traíras, trairões, lambaris e várias outras espécies habitam o local.

Três habitantes dessa lagoa merecem destaque. O primeiro é o Mato Grosso, peixe ornamental (endêmico desta região) e que habita em alguns milhares o fundo da lagoa, pintando de vermelho a vegetação esverdeada do fundo. Os segundo e terceiro, que também são chamados de Reis da Lagoa, são o pintado ou a caxara, peixes de couro com o corpo alongado e roliço e que são carne muito apreciada na região, podendo ter um grande comprimento. É muito interessante vê-los ali pelo fundo, sempre parados e camuflados em meio à vegetação, prontos para arrancar em velocidade impressionante quando se sentem ameaçados pela curiosidade de quem se aproxima.

O local do mergulho fica em uma clareira no meio da mata ciliar (que margeia a lagoa), sem estrutura fixa para conforto. Nesse caso, nas saídas de mergulho que fiz com a West Dive & Company. A operadora levou cadeiras de camping e lona (para cobertura do chão) proporcionando um conforto mínimo aos mergulhadores, assim como, lugares para sentar e colocar os equipamentos e pertences, sem se sujar com o barro do local. É recomendável que se leve alimentos para lanches rápidos e muita água ou qualquer outro tipo de líquido, já que não existe bar ou restaurante nas proximidades.

O mergulho é realizado através de botes que levam mergulhadores e equipamentos até o meio da lagoa, fugindo do barro e vegetação das margens.

Além do mergulho autônomo, Nobres oferece uma série de passeios ecológicos e de flutuação em rios de água cristalina, entre cardumes de piraputangas e outros peixes. Entretanto, esses passeios devem fazer parte de outro texto que trate mais especificamente do tema turismo, sob pena desta narrativa tornar-se demasiadamente longa, ao narrar todos os tipos de belezas naturais existentes neste Estado. Vale a pena ficar uns dias para, além do mergulho autônomo, conhecer as demais belezas de Nobres, e principalmente a flutuação.

O pernoite, quando necessário, pode ser feito no município, pois infelizmente não a cidade não dispõe de rede hoteleira à altura de suas belezas, sendo razoáveis as acomodações do melhor hotel da cidade. Também fica a dever na gastronomia, pois não conta com bons restaurantes para saciar a fome ao final do dia. O mergulhador também pode optar por ficar em pousadas da região, geralmente situadas nos sítios ou fazendas localizados nas proximidades do centro ou na cidade de Bom Jardim, as quais estão mais próximas, inclusive, dos pontos turísticos do município.

Lagoa da Lua

A leste de Cuiabá, às margens da BR 070, que faz a ligação de Mato Grosso com Goiás, e onde se localiza a cidade de Primavera do Leste, um dos pólos produtores de grãos e algodão no Estado. Ali está localizada Lagoa da Lua.

O acesso à Primavera do Leste a partir de Cuiabá é feito pela MT 251, passando pelo Município de Chapada dos Guimarães, estrada com beleza considerável, pois ela passa pelos arredores do Parque Nacional com o mesmo nome do município. Da cidade de Chapada dos Guimarães, continua-se pela MT 251 até o município de Campo Verde, de onde se pega a BR 070 para Primavera do Leste.

A Lagoa da Lua está localizada dentro de uma das grandes fazendas do município de Primavera do Leste e distante 34 Km do centro da cidade, com acesso pela MT 130, sendo, aproximadamente, 25 Km de asfalto e 9 de terra. A lagoa alimenta o Córrego Perdido, afluente do Rio das Mortes, o qual, por seu turno, é afluente do Rio Araguaia, formador da Bacia Hidrográfica Tocantins-Araguaia.

Um oásis no meio de uma gigantesca lavoura de algodão pode-se afirmar com certeza sobre a lagoa, onde é possível observar os tucunarés, carás, traíras, trairões, além de outras espécies menores.

Durante o mergulho noturno e sendo época de lua cheia, o mergulhador poderá conhecer a beleza que dá nome ao lugar, pois, em noites assim, o mergulho noturno pode tranquilamente ser feito sem lanternas, uma vez que a luz do luar clareia o fundo da lagoa, face a transparência da água.

A visibilidade da água gira sempre entre 40 / 50m, podendo alcançar até mais na época da seca. Não varia durante as diferentes estações (seca / chuva), motivo pelo qual os passeios podem ser feitos em qualquer época do ano. A temperatura é estável, em torno dos 26ºC, com profundidade máxima variando de 6 e 8m, dependendo da estação (seca / chuva). A lagoa em si, com suas visibilidade absurda e com formações peculiares de vegetação e relevo, é o próprio atrativo do mergulho, sem desprezar, é claro, a fauna subaquática existente ali.

A vegetação que compõe a paisagem sub da lagoa dá um show à parte, chegando inclusive, a formar pequenas cavernas (de raízes, algas, caules de plantas e etc.) em alguns trechos, além de contar com formações curiosas no fundo, como a cabeça de um cavalo ou dedo humano, por exemplo. Ou então, o que mais a imaginação do mergulhador conseguir criar. Em contraste com a luz solar, a vegetação dá um visual muito peculiar à paisagem, o que torna o mergulho muito bonito e agradável em seu aspecto visual.

Apesar de situada no meio de uma lavoura de algodão, as margens da Lagoa da Lua contam com vegetação preservada, havendo uma pequena clareira para acomodação de equipamentos e mergulhadores. É recomendável que se leve lanches rápidos para o dia e muito líquido, uma vez que não há bares ou restaurantes nas proximidades.

A cidade de Primavera do Leste conta com boas acomodações hoteleiras para os mergulhadores, além de bons restaurantes, propiciando uma excelente noite de sono e boas conversas ao redor da mesa ao final de um dia de mergulho.

Água Milagrosa

Novamente em direção a oeste de Cuiabá e distante 280 Km, fica a cidade de Cáceres, onde se encontra a jóia do mergulho matogrossense: A Dolina da Água Milagrosa.

Trata-se de um formação calcária onde se forma uma lagoa de beleza impressionante e de profundidade máxima ainda desconhecida.

O acesso a Cáceres é feito pela BR 070. Chegando a Cáceres, é necessário pegar a MT 343 que faz a ligação com a cidade de Barra do Bugres, entrando, depois, em estrada vicinal para alcançar a Fazenda Água Milagrosa, onde se situa a lagoa. São aproximadamente 20 Km de terra, entre a estrada estadual e estradas vicinais, para se alcançar a fazenda, sendo que a MT 343 está sendo asfaltada, devendo ficar reduzido em breve, o trecho de terra a ser percorrido.

A fazenda conta com boa estrutura para os visitantes, tendo dois quartos para acomodação coletiva dos mergulhadores, com três beliches em cada, além de duas suítes para acomodação de casais. Há também uma área comum onde está o restaurante, o qual nos proporciona bons momentos ao redor da mesa no final de um dia de mergulho, com direito a uma excelente comida de fazenda.

O acesso à lagoa se dá por uma trilha de 800 metros a partir da sede, que atravessa parte de um pasto da fazenda e se dirige à serra que a circunda, a qual pode ser feita a pé ou de trator, que é usado para levar todo o material de mergulho até o começo da escadaria. O final da trilha conta com uma subida bem íngreme, recheada de pedras e pedregulhos, mas sem maiores dificuldades para ser vencida.

O final da subida marca o início da escadaria e da descida até a lagoa. Ali são descarregados os equipamentos do trator e onde todos escolhem o que vão levar, afinal, são muitos degraus de descida e, obviamente, de subida. Dois empregados da fazenda fazem o transporte dos equipamentos mais pesados, como cilindros e lastro, ao custo aproximado de R$ 20 reais por pessoa, para cada operação de mergulho.

No caso da Água Milagrosa, a primeira impressão, é a que fica e o azul intenso com sua água quente ao primeiro contato, principalmente se a luz do sol estiver incidindo diretamente sobre ela. A descida da escadaria é impressionante e desnuda aos poucos o visual da lagoa. Ao final da escadaria há uma plataforma de madeira onde ficam os equipamentos que vieram escada abaixo e onde todos se equipam, preparando-se para o estágio final da descida. Após o tablado, há um trecho entre as rochas, cuja descida é feita com auxílio de uma corda. Não se trata de rapel. A corda é apenas para servir de ponto de apoio para a descida, quase como um corrimão de escada. Os cilindros e lastros são descidos por corda e um dos carregadores contratados os leva até a beira da lagoa, onde os equipamentos serão montados para o início do mergulho.

O planejamento, seguindo o plano de manejo do lugar, é a construção de uma plataforma sobre a água, de modo a evitar que o pisar dos mergulhadores sobre as rochas levante sedimentos, sujando a água no local, o que ainda se encontra em fase de estudos para a devida aprovação pelos órgãos ambientais competentes, segundo informações obtidas junto aos proprietários da fazenda.

O acesso à água é permitido somente a mergulhadores, sendo terminantemente proibido o ingresso de banhistas. Estuda-se a possibilidade de permitir a flutuação ali, mas ainda não há autorização dos órgãos legais para isso.

A dolina da Água Milagrosa é uma lagoa com aproximadamente 50m de diâmetro. A temperatura da água gira em torno de 27ºC e a visibilidade é de pelo menos 50m na época de seca. Na estação chuvosa a lagoa fica com muita suspensão até os 30m de profundidade, ficando também, com uma coloração esverdeada (quase uma sopa de ervilhas), motivo pelo qual as operações de mergulho são suspensas.

A profundidade máxima alcançada no local foi de 183m pelo mergulhador Gilberto de Menezes e Rogério Perdigão. Estima-se que ultrapasse facilmente os 200m.

Durante o dia não se vê muita vida. Apenas alguns lambaris e bagres de pequeno porte. A grande atração fica por conta da visibilidade absurda da água e formações rochosas do lugar, além é claro, de um mergulho mais profundo, dentro dos limites recreacionais e não descompressivos, para os que são habilitados. De noite, porém, a beleza da lagoa muda e bagres de tamanho considerável são vistos em todos os lugares: sobre a parca vegetação que cobre o fundo (íngreme até o momento em que este vira um paredão vertical em direção ao azul), bem como, em todas as paredes que cobrem o lugar.

O nome do lugar: Água Milagrosa, segundo os donos da fazenda, vem dos tempos em que a escravatura ainda era permitida no Brasil. Escravos fugidos das mãos de seus donos ou Capitães-do-mato buscavam refúgio nas matas daquela região e se banhavam na lagoa.

Reza a lenda que suas águas tinham poder de cura, acelerando o processo de cicatrização dos ferimentos sofridos pelos escravos, sendo esse o motivo pelo qual ostenta esse nome. Ainda hoje, há relatos de rápida cicatrização de ferimentos daqueles que mergulham em suas águas. A explicação mais plausível que ouvi, é que a lagoa seria rica em magnésio, que acelera esse processo. Não tenho conhecimento de estudos que comprovem esse fato, sendo pura especulação, que faço constar, para saciar a curiosidade do leitor.

Rio Verde

Por fim, deve ser mencionado o mergulho no Rio Verde, que compõe da Bacia Amazônica, em local situado no Município de Campo Novo do Parecis, a oeste de Cuiabá, distante 385 Km, sendo que o acesso, a partir da Capital, é feito pela BR 364. O local conta com boas acomodações, afinal, a entrada para o mergulho fica em um balneário onde, aos finais de semana, a população do município utiliza para lazer aquático.

O mergulho em si, é realizado em um braço do rio, que entra em direção à mata fazendo um circuito circular de quase 360º, retornando, ao final, novamente ao seu leito normal. Trata-se de um drift feito em águas claras, de visibilidade que varia de 10 a 12m e temperatura na casa dos 27ºC. Durante o mergulho podem ser vistos variados tipos de peixes pequenos, lambaris, traíras e trairões, além da vegetação interessante do fundo do leito. Não há muitos peixes grandes. De fato, o normal é se deparar apenas com traíras e trairões, além de muitos peixes pequenos.

A profundidade varia entre 4 e 8m e o tempo do drift gira em torno de 50 minutos. O interessante é que ao final do percurso há uma trilhazinha de 100m no meio da mata para se retornar ao ponto inicial do mergulho no Rio Verde. Os equipamentos de mergulho ficam na margem e são transportados de volta por uma embarcação tipo voadeira.

A cidade conta com boas acomodações hoteleiras e bons restaurantes, que proporcionam merecido descanso ao final do dia. Vale a pena fazer um mergulho noturno embaixo da cachoeira do balneário do Rio Verde, onde a luz da lanterna refletida na espuma que se forma dá ao local um visual interessante, além da possibilidade de se avistar os trairões.

Encerrando, gostaria de dizer que com as informações que constam deste artigo espero ter colaborado para sanar o pouco que se sabe sobre o Estado de Mato Grosso em relação ao mergulho. Temos águas claras e de temperatura agradável, além de hospitalidade e boa comida para recepcionar aqueles que desejarem se aventurar por aqui.

Sendo assim, termino com um convite a todos para que venham, conheçam e experimentem. Quem se interessar pode entrar em contato com a operadora de mergulho local: West Dive & Company e falar com Rogério Perdigão (Tel: 3025-6080 / Cel: 8132-8788).