Treinamento de carregar pedras estando submerso em apneia

Muitas pessoas me questionam sobre a eficiência do treinamento de percorrer distâncias submerso em apneia carregando pedras.

Trata-se de um treino muito difundido entre os surfistas, especialmente entre aqueles de ondas gigantes.

Fisiologicamente falando, esta atividade nos expõe a uma condição de hipóxia. Como benefício de um treino de hipóxia, nosso corpo reage se adaptando a trabalhar com uma menor oferta de oxigênio, “aprendendo” a economizá-lo.

Isso inclui uma produção maior de hemácias e hemoglobinas que irão resultar numa melhor oxigenação dos tecidos. Obviamente, é desejável para um surfista, assim como para um praticante de apneia, adquirir os benefícios de um treino de hipóxia. Entretanto, gostaria de expor algumas questões para reflexão.

A primeira questão diz respeito à segurança.

Qualquer atividade em apneia expõe o praticante ao risco de uma síncope (desmaio) por redução demasiada dos níveis de oxigênio no sangue. Se esta síncope ocorrer embaixo da água, há o sério risco de um subsequente afogamento e morte. Por isso, na apneia, os treinamentos sempre deverão ser realizados sob a supervisão de alguém apto a efetuar um resgate, caso necessário.

Carregar pedras embaixo da água nas águas cristalinas das ilhas oceânicas havaianas facilmente permitem o contato visual do dupla que está fazendo a segurança na superfície. Porém, as águas costeiras de grande parte do litoral brasileiro dificilmente oferecem boas condições de visibilidade, tornando praticamente impossível o contato visual entre o carregador de pedras e seu dupla. Na prática, a maioria das pessoas executa este tipo de treinamento sem a supervisão adequada. Deste modo, há diversos registros de acidentes fatais envolvendo esta atividade, incluindo até de surfistas famosos (não me recordo os nomes, mas quem lembrar, por favor, me avise).

Ainda no contexto da segurança, outro aspecto que cabe mencionar, é a posição adotada por quem está carregando a pedra. Não é preciso ter formação em ortopedia para saber que carregar peso com a coluna curvada irá acabar prejudicando a mesma a longo prazo. Devemos lembrar que levamos milhões de anos sofrendo adaptações evolutivas para andar na posição ereta.

Quando alguém me questiona qual tipo de treino de apneia ele deve fazer, geralmente respondo com outra pergunta:  “Onde você quer chegar ?  Qual é a sua meta ?”.

Se ele me responder que a meta dele é construir um templo religioso ou uma nova pirâmide no Egito, diria que o treinamento de carregar pedras embaixo da água é perfeito (risos). Entretanto, se o objetivo é desenvolver a apneia para o surf, recomendaria treinos num ambiente controlado (piscina) envolvendo séries de natação em apneia e apneia dinâmica sem nadadeiras, com curto intervalo de recuperação entre as séries, visando à adaptação do surfista a controlar o fôlego diante de situações de esforço e suportar caldos consecutivos de séries de ondas grandes.

Ao contrário do carregamento de pedras, onde os membros inferiores são os mais trabalhados, na apneia dinâmica sem nadadeiras, por exemplo, os músculos recrutados (especialmente os membros superiores) são praticamente os mesmos utilizados durante o surf. Diante de um “caldo”, situação onde o surfista se encontra coberto por um grande volume de massa d’água, será mais fácil retornar à superfície utilizando as técnicas já treinadas de apneia dinâmica sem nadadeiras, bem como a musculatura necessária para isso estará mais adaptada a trabalhar com pouco oxigênio.

Existem várias alternativas mais seguras, e provavelmente, mais eficientes que o treino de carregar pedras. Minha namorada, Gleidiane Borlot, está se formando em Educação Física, e estava me explicando sobre o cuidado que os educadores físicos devem ter em evitar a aplicação de exercícios mirabolantes e acrobáticos em detrimento de outros mais simples que cumpram a mesma função e são mais seguros.

Por exemplo, uma abdominal executada de cabeça para baixo pendurado numa barra, pode levar a uma grave lesão caso sofra uma queda. Existem diversas alternativas de abdominais bem mais seguras e tão eficientes quanto esta que devem ser priorizadas. O mesmo considero válido para esse treino de carregar pedras.

Apesar de tudo, existe um aspecto positivo no treino de carregar pedras que merece uma reflexão. Quem executa este tipo de treinamento pode ser beneficiado pela autossugestão de se sentir um pouco “Tarzan” ou se sentir aquele ídolo surfista que viu na TV praticando isso.

Há de convir que a atividade nos faz sentir mais viris, vigorosos e poderosos. Como um bom rendimento em apneia está diretamente associado a fatores psicológicos, este tipo de treino pode aumentar a autoconfiança e fortalecer a mente. No exemplo acima da abdominal pendurado, o princípio é o mesmo. A pessoa irá se sentir o “Rocky Balboa” e, se conseguir concluí-lo sem despencar da barra, provavelmente adquirirá mais autoconfiança. Quem gosta de superação, geralmente é motivado por desafios. Esse tipo de pessoa será mais atraído por tarefas mais desafiadoras do que aquelas comuns. Por isso que esses exercícios mirabolantes fazem tanto sucesso e, de certo modo, devem ajudar as pessoas a se manterem motivadas nos treinos e não caírem no tédio.

O objetivo deste texto é trazer uma pouco mais de consciência em relação aos treinamentos de apneia.

Para a sua segurança, vale lembrar que é muito importante ser avaliado por um médico e procurar um profissional de educação física antes de iniciar qualquer tipo de atividade física.

Ricardo Bahia
Pesquisador PhD em Botânica Marinha e atleta recordista de mergulho livre (apneia). É recordista mundial de apneia estática com O2 puro (Guinness) tendo alcançado 20'21", obtendo de vários outros recordes homologados pela AIDA. Atualmente ministra cursos e treinamentos de apneia pelo Brasil.