Trimix: A chave para as profundidades

No meio do mergulho existe uma conscientização crescente de que ar comprimido não é a mistura ideal para aqueles mergulhadores que desejam explorar profundidades superiores aos limites do mergulho recreativo.

O ar em profundidades superiores a 30 metros ele é cada vez mais narcótico, narcose esta resultado do Nitrogênio dissolvido nos tecidos do corpo atuando como um anestésico e como um depressivo do sistema nervoso central. Para evitar os efeitos nefastos da Narcose pelo Nitrogênio, podemos utilizar misturas respiratórias que substituam o Nitrogênio total ou parcialmente por outro gás inerte que apresente um potencial narcótico inferior.

O que é Trimix ?

No meio do mergulho, Trimix é normalmente utilizado para definir uma mistura de oxigênio, Nitrogênio e hélio, embora tecnicamente o termo defina uma mistura de três gases quaisquer para formar uma mistura respiratória de mergulho.

Devido às suas características não-narcóticas, hélio é o gás preferido na produção de misturas Trimix. A utilização de misturas Trimix permite não só reduzir drasticamente ou até mesmo eliminar a narcose por Nitrogênio como também permite manter a pressão parcial do oxigênio dentro de limites aceitáveis. No mergulho técnico, a produção de Trimix normalmente envolve a mistura de ar, oxigênio e hélio ou, mais comumente, a mistura de ar e hélio, também chamada de Heliair, termo cunhado pelo saudoso Sheck Exley. A porcentagem de cada gás na mistura varia dependendo do perfil de mergulho a ser executado. Heliox é outra mistura baseada em hélio que envolve apenas a mistura de oxigênio e hélio. Raramente vemos Heliox ser utilizado no âmbito do mergulho técnico, devido a seu preço elevado e aos tempos de descompressão envolvidos.

Nascimento do Trimix

Os limites práticos das operações de mergulho com ar foram estabelecidos em 1915, quando o USS F-4 da US Navy foi recuperado de uma profundidade de 92 metros. Os mergulhadores da marinha americana simplesmente não conseguiam trabalhar a esta profundidade, além da penalidade descompressiva limitar o tempo de fundo a meros 10 minutos.

Em 1919, um inventor chamado Elihu Thomson especulou que o hélio deveria ser um substituto apropriado para o Nitrogênio em misturas respiratórias para mergulho, estimou um mínimo de 50% de ganho na profundidade máxima operacional. Nesta época o gás hélio custava em torno de US$85 / litro, o que inviabilizava sua utilização. Alguns anos mais tarde foram descobertas minas de gás natural no Texas que produziam hélio, o que reduziu seu preço para menos de US$0,10/litro. Em Dezembro de 1937, Max Nohl estabeleceu um novo recorde mundial de profundidade respirando Heliox, realizando um mergulho a 129 metros no Lago Michigan. Logo a seguir, a marinha americana realiza mergulhos simulados a 154 metros. O primeiro “teste de fogo” do hélio veio com o afundamento do submarino USS Squalus em 1939, a uma profundidade de 74 metros. Durante a operação de resgate, um mergulhador respirando ar não foi capaz de reparar um cabo de conexão utilizado no sino de resgate. Apesar do afogamento de 29 tripulantes, o uso de hélio permitiu o resgate de 33 homens, bem como a execução de mais de 100 mergulhos sem a ocorrência de incidentes. Isto demonstrou que o hélio era uma alternativa viável para as operações de mergulho profundo.

Por que Trimix ?

Os dois principais fatores que limitam os mergulhos profundos são a narcose pelo Nitrogênio e a intoxicação pelo oxigênio. Quando o mergulhador se expõe a pressões parciais de oxigênio acima de 1,6 ATA, ele está entrando em uma zona nebulosa com consequências imprevisíveis. O nitrogênio age como narcótico, comprometendo demasiadamente o desempenho do mergulhador justamente quando ele mais precisa: na hora de um incidente ou emergência.

Reduzindo-se o conteúdo de oxigênio e nitrogênio na mistura respiratória através da adição de hélio (um gás inerte não-narcótico), podemos ajustar a mistura de modo a controlar os níveis ótimos de oxigênio e Nitrogênio para o perfil de mergulho planejado. No processo, reduzimos também a densidade da mistura respiratória, diminuindo o esforço respiratório e reduzindo o risco de um acúmulo de CO2.

Exemplo: produzindo-se uma mistura Trimix que tenha 13% de oxigênio, 52% de hélio e o restante de Nitrogênio (Trimix 13/52) para um mergulho a 90 metros de profundidade, teremos o seguinte quadro:

– ppO2 de 1,3 ata na profundidade máxima, abaixo do limite recomendado de 1.4 ata e bem abaixo do limite máximo de 1.6 ata, permitindo a utilização de misturas descompressivas ricas em oxigênio sem a violação do “oxygen clock”.

– ppN2 de 3.5 ata na profundidade máxima, o que nos dá uma narcose equivalente de 34 metros, uma redução dramática.

– Densidade da mistura equivalente a respirar ar a 46 metros

Através do uso de Trimix, além de permitir que o cérebro funcione como se estivéssemos mergulhando com ar comprimido aos 34m, como também, reduzimos nossa pressão parcial de oxigênio a níveis aceitáveis e temos uma mistura mais “leve” para respirar. Isto traz uma melhoria significativa nos parâmetros operacionais e de segurança para este mergulho profundo, mas também traz consigo responsabilidades adicionais.

O que complica ?

Mergulhos com Trimix tipicamente exigem a utilização de cilindros duplos, 2 cilindros de “stage” para descompressão, descompressões prolongadas e suporte competente de superfície. Treinamento é de fundamental importância, e o mergulhador deve estar preparado para dispor de quantia significativa tanto para se qualificar para um curso Trimix como para o próprio curso de Trimix e para os equipamentos necessários. Geralmente o curso de Trimix é conduzido em profundidades que variam de 60 a 90 metros. Profundidades maiores já caracterizam mergulhos exploratórios, com maiores riscos e logística mais sofisticada.

Mergulhos com Trimix apresentam riscos adicionais, e cabe ao mergulhador refletir e aceitar a responsabilidade pessoal caso decida prosseguir nesta empreitada. Ninguém deve considerar mergulhos Trimix sem o treinamento apropriado ministrado por instrutores que, de preferência, pratiquem mergulhos deste tipo e pertençam a uma das agências técnicas certificadoras.

Outro fator complicador é a utilização de várias misturas descompressivas para acelerar a descompressão. Um mergulhador Trimix necessita trocar as misturas descompressivas para facilitar a rápida eliminação dos gases inertes durante a descompressão. Dependendo da profundidade da sua primeira parada descompressiva, quaisquer dois (ou mais) dos seguintes gases são mais comumente utilizados: EAN36, EAN50, e 100% de oxigênio. Quando a mistura Trimix é hipóxica na superfície, utiliza-se uma destas misturas de descompressão como “mistura de viagem” até a profundidade onde a pressão parcial da mistura de fundo atinge níveis aceitáveis. Para paradas mais profundas, recomenda-se a utilização de misturas Trimix mais “leves” como misturas descompressivas.

Mais um fator complicador é a possibilidade de erroneamente se respirar o que se chama de “mistura quente”, ou seja: utilizar uma mistura respiratória numa profundidade que cause uma pressão parcial de oxigênio acima do máximo permitido de 1.6 ata. Sendo assim, os procedimentos de análise de mistura e identificação dos cilindros é de fundamental importância para o mergulhador, podendo ser a diferença entre a vida e a morte. A troca para a mistura errada de descompressão é a principal causa de acidentes nos mergulhos Trimix “recreativos”.

Outro pormenor que normalmente é negligenciado é o frio. Sendo o hélio um excelente condutor de calor, o mergulhador perde calor corpóreo mais rapidamente do que quando respirando ar, podendo chegar até a uma hipotermia. Nos mergulhos Trimix as roupas secas são praticamente imprescindíveis, e são infladas com Argônio, por este possuir uma maior capacidade de isolamento térmico.

Como produzir Trimix ?

Apesar da produção de misturas respiratórias dever ser confiada a profissionais ou indivíduos certificados para tal, cumpre ressaltar alguns pontos. Utilizando-se dois gases na mistura, tais como ar (21% oxigênio e 79% Nitrogênio) e hélio para a produção de Heliair, o conteúdo final da mistura pode ser determinado através da utilização de um analisador de oxigênio. Além disso, a adição de hélio até uma pressão pré-determinada para depois se completar a carga com ar é um processo simples e de fácil ajuste. A desvantagem deste método está no fato do mergulhador não conseguir controlar tanto o nível de narcose como a pressão parcial de oxigênio, já que a relação oxigênio/Nitrogênio é ditada pelo ar.

Trimix produzido a partir da adição de oxigênio, hélio e ar envolve um processo mais difícil, já que as pressões de cada componente devem ser exatas e a correção de desvios não é simples. A mistura final não pode ser determinada através da utilização de um analisador de oxigênio, o que significa que desvios no conteúdo de oxigênio não podem ser utilizados para cálculos da mistura resultante.

Quem deve utilizar Trimix ?

Apesar da resposta mais simples a esta questão ser: “apenas os mergulhadores treinados e certificados para tal”, podemos afirmar que todo mergulhador que esteja considerando mergulhar abaixo dos 40 metros deve considerar a utilização de Trimix. A utilização de Trimix melhora significativamente o desempenho do mergulhador, principalmente quando é necessária a execução de tarefas delicadas ou complicadas, ou quando se enfrenta condições de baixa visibilidade, escuridão ou frio. Candidatos fortes para uso de Trimix são os mergulhadores de caverna e os mergulhadores de naufrágio que pela sua própria natureza estão em um ambiente hostil.

Resumo

Trimix, ao mesmo tempo que permite o acesso a áreas novas, inexploradas e excitantes, exige do mergulhador uma disciplina rígida. A história do mergulho com misturas respiratórias não se deu sem riscos ou acidentes, e muitos mergulhadores experientes morreram durante estes mergulhos. Programas de treinamento, padrões de segurança, e o compartilhamento de informações através da mídia especializada e através da Internet tem auxiliado na redução do número de acidentes, mas o mergulho profundo terá sempre um nível inerente de risco.

Os mergulhadores devem estar fisicamente aptos, mentalmente preparados e completamente informados sobre a área do mergulho técnico onde estão enveredando. Não é raro ver um mergulhador Trimix entrar na água com mais de 70 Kg em equipamento. Ele deve ser capaz de lidar com possíveis incidentes ou problemas que possam acontecer durante o mergulho e, dependendo do perfil de mergulho, resistir a horas de descompressão. Mergulho Trimix, apesar de seu “appeal”, não é para qualquer pessoa e exige um comprometimento acima e além daquele que a maioria dos mergulhadores está preparada para aceitar. Deve ser tratado com o devido respeito e utilizado apenas como uma ferramenta em situações de necessidade.

Bons mergulhos !

* O material apresentado neste artigo é apenas para referência, não devendo ser utilizado como um substituto para treinamento apropriado nas técnicas de mergulho. Os autores não endossam nem encorajam a utilização destas técnicas ou misturas por mergulhadores sem treinamento apropriado.

Maurício Henriques

Engenheiro eletrônico e consultor em Redes de Computadores. Mergulhador desde 86, é instructor trainer PDIC e instrutor GUE. É Full Cave pela NSS-CDS.

Sua área de conhecimentos engloba a Teoria da Descompressão e também a utilização de programas especilizados para a produção de tabelas descompressivas específicas.

Coordena as atividades da Tech Diving no Rio de Janeiro.